MATOU o CINEMA... e foi À FAMÍLIA (da série: NATAL)

Seu maior pecado sempre foi a língua grande demais. Mas, naquela tarde de feriado ele estragou uma oportunidade de confraternização que aquela família desunida esperou décadas para tornar possível. Do ponto de vista da inteligência e da cultura, aquela era uma família onde todos os membros consanguíneos de primeiro a terceiro grau eram inteligentes e cultos, um “mais” do que o outro – como uma espécie de animais fantásticos que ali se reuniriam finalmente.

A única coisa que unia aquela família dispersa tinha sido uma coisa: o telão do cinema, com o consumo de pipoca durante a exibição e ao fim do filme a conversa solta onde se comentava sempre “como o diretor conseguiu guardar a surpresa para o final”. Cada um tinha sua própria sinopse e alto nível de resenha crítica para compartilhar na rodada de lanches e bebidas que vinha depois. E estavam prestes a promover aquele momento incrível de assistirem a um filme que havia sido escolhido por votação depois de três semanas de pesquisas, através do grupo de Whatsapp.

E foi assim que o programa daquela tarde de feriado foi estragado pela vingança cruel do Julio Nadimas, que numa tola discussão, duas horas antes do encontro no cinema, compartilhou pelo Whatsapp sua opinião de que seu cunhado tinha ligeira semelhança com o mordomo que era personagem do filme escolhido, o qual (personagem) entregava sua própria esposa à polícia como sendo autora da monstruosidade (homicídio) AO FINAL do filme.

O Julio sabia que era o único que havia assistido ao filme, e cometeu ele mesmo aquele crime bárbaro: “spoiler” cruel e escancarado.

Contou o final do filme e, assim, “matou” o cinema. Na ocasião, ele foi à família pedir perdão pelo gesto desumano. Tarde demais! Ninguém mais naquela família parou de brigar, uns defendendo que aquilo era uma bobagem e outros aproveitando para lavar antigas roupas sujas que sem aquele gesto do Julio jamais teriam “vindo à tona”.

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MATOU o CINEMA... e foi À FAMÍLIA