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SOBRE RODAS DE AÇO - parte 7

Já eram quase 6 horas da manhã quando Nianda olha novamente seu
relógio de bolso. Ela aperta o passo, tentando chegar mais rapidamente
a loja, que ficava ao final da Galvão Bueno, condenando-se mais
algumas vezes por ter acordado tão tarde.
O sol já estava levantando seu halo por sobre as lojas do lado oposto da
rua. Precisava chegar rápido, não gostava de perder a oportunidade
matutina. Ela passa da condição de "apressada" para "maratonista".
Quando chega a sua loja de aquários, o sol já estava angulando sua luz
e atingindo a fachada. Ela rapidamente saca seu molho de chaves da
bolsa e abre o cadeado que prendia o toldo da vitrine. Ao mesmo
tempo que a luz do sol descia, o toldo se levantava.
- Olá, amores! — Diz, com os braços erguidos, a seus espectadores por
trás da vitrine. — Acharam que a mamãe não traria o sol para vocês,
hoje?
Na vitrine, cuidadosamente alocados, um verdadeiro universo de
aquários e seus habitantes. Pequenos e grandes peixes, das mais
variadas formas e cores. Cada um tinha o privilégio de ter seu próprio
aquário, finamente decorados e extremamente bem cuidados.
Só depois de saudar seus colegas, Nianda escolhe do molho a chave da
porta. Ao entrar, a sineta toca uma delicada nota.
- Enfim....em casa. — Diz, enquanto inspira profundamente.
Para uma Náiade, é uma condição muito delicada a vida urbana. Seu
povo possui a "limitação" de estar sempre ligado a um lago específico,
portanto, a menos que uma cidade fosse erigida às margens de onde a
natureza havia feito sua morada, ela estaria presa sempre àquele
cenário bucólico onde nasceu.
Mas não para Nianda. O espírito dela era agitado e curioso. Mesmo com
seu amor pelas águas plácidas, algo a impelia a sentir a vida e o
movimento.
Uma idéia surgiu, então. Se ela estaria sempre ligada ao lago, porque
não traze-lo consigo?
Todos os aquários de sua loja estavam plenos da água de seu lago
natal.
Ela tira mais uma vez o relógio do bolso. Lembra-se daqueles lindos
relógios Cartier que havia visto dias anteriores, com engenhosas
pulseiras para prender no pulso. Seria bom para ela, que sempre estava
preocupada com as horas.
- Bem, amores — Conversa novamente com seus amigos aquáticos —
Acho que até as 8 horas está bom para vocês aproveitarem o sol, Ok?
Não quero que vocês fiquem muito tempo porque creio que fará muito
calor, hoje.
Ela se abaixa para tirar os sapatos. Preferia ficar descalça em sua loja.
Repara, então, nas correspondências, jogadas por debaixo da porta.
Aluguel do mês, uma carta de uma conhecida da Irlanda (onde ela
havia encontrado correio próximo daquele lago??) e um panfleto com
os dizeres "Artistas e Cidadania".
Ela abre o panfleto e começa a le-lo, ao mesmo tempo que encosta a
porta e coloca as outras cartas sobre o balcão. O panfleto informava
sobre a Arte, os praticantes dela e sobre o plano de governo de registrar
tais praticantes para que suas habilidades conhecidas pudessem ser
"valorizadas com o trabalho social".
Ela não era registrada e preferia continuar assim. Mesmo sem o "véu", a
habilidade de disfarçar suas características físicas para uma forma mais
humana, uma Náiade já possuia traços tipicamente humanos (embora
sua beleza pudesse ser considerada "sobrenatural"). Nianda fazia
questão de não usar Arte, tentando disfarçar sua beleza etérea com
maquiagem e uma certa dose de desleixo.
O registro, para ela, seria um desencanto. Ela seria diferenciada, e todo
seu objetivo de "imergir" na mundana vida da cidade iria por água
abaixo (com o perdão do trocadilho).
Mas os esforços do Estado de "desentocar" Artistas pareciam se
intensificar. Era melhor ela conservar, ainda mais, sua discrição, neste
caso.
Ela joga o panfleto, depois de amassa-lo, direto na lixeira. A sineta da
porta toca novamente. Era a senhora Kawaru, sua vizinha, que havia
entrado para jogar conversa fora...
David Leite
Enviado por David Leite em 13/06/2018
Código do texto: T6362885
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Sobre o autor
David Leite
Jandira - São Paulo - Brasil, 33 anos
43 textos (426 leituras)
4 e-livros (33 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 25/06/18 02:50)
David Leite