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Rebelião VI

À tarde, depois da chegada do juiz, os presos engendraram um lance ousado. No arrebatamento dos reféns, um telefone celular foi apreendido. Serviria, imaginou o que se apoderara do aparelho, para contato com uma emissora de rádio da cidade. Os presos desconfiavam dos canais oficiais e sempre eram muito turbulentas as negociações com as autoridades judiciárias. A possibilidade de um contato direto com jornalistas foi bem recebida pelos rebelados, que combinaram ligar no meio da tarde. A emissora intermediaria a conversa com o juiz corregedor.

Os presos falaram a partir do pavilhão três. Reclamaram das torturas e das humilhações a que suas famílias eram submetidas nos dias de visita, exigiram o imediato afastamento dos agentes que, diziam, torturavam, e impunham a interrupção da construção do muro.

Um refém falou algumas palavras, o juiz reiterou a impossibilidade de rever processos naquele momento. E o líder da rebelião se irritou: “O senhor é um homem formado, doutor, mas não tem palavra. Eu sou um ladrão e tenho mais palavra que o senhor. As negociações estão interrompidas”, disse, num tom duro e desligou o telefone. Na área externa, repórteres e parentes de encarcerados se amontoaram em volta, para ouvir a conversa entre juiz e preso. Especulava-se, e os amotinados mantinham as ameaças sobre os reféns.

Familiares de presos exigiam bons tratos para os parentes. Novamente se afirmou que não haveria invasão. “Para preservar a integridade física dos reféns”, esclareceu o juiz. O sol começava a declinar, rapidamente, na parte de trás do presídio. Uma calmaria singular se espalhou no ambiente tenso.
André Pomponet
Enviado por André Pomponet em 10/07/2018
Código do texto: T6386099
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
André Pomponet
Feira de Santana - Bahia - Brasil
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