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Rebelião VII

Quando as sombras do final da tarde começaram a ficar maiores, um homem alcançou o alto da caixa d’água da penitenciária. O reservatório tinha cerca de trinta metros de altura, ficava no centro da unidade, entre os pavilhões e uma pequena escada na parte de trás dava acesso ao topo. Atrás do primeiro detento, havia outro. Mais um acompanhava a dupla.

Um deles envergava uma capa amarela, usada pelos açougueiros na cozinha. À distância, a capa dava trajeitos femininos ao preso, que se movimentava sobre a caixa d’água. Daquela altura observavam os movimentos na cadeia e tinham ampla visão do que acontecia na rodovia lamacenta.

O confinamento prolongado e o ambiente de barbárie tornavam comuns comportamentos bizarros: detentos assemelhando-se a animais selvagens em jaulas, fazendo gestos ou mostrando dentes e garras para a multidão e gritando ou pulando como símios; ou atitudes exibicionistas, como os que ostentavam a capa plástica como um troféu de guerra ou o escalpo de um inimigo vencido.

Familiares dos detentos ignoravam aquelas atitudes. Quando começaram a escalada da caixa d’água, uma velha gorda gritava: “Desçam daí, desçam daí”, fazendo gestos junto à grade externa da prisão. Parecia lidar com crianças travessas que insistiam com o que não era permitido. Entre parentes de condenados a simpatia com todos que estão encarcerados parecia ser comum: reclamavam das condições de acomodação, praguejavam contra as penas que consideravam rigorosas em excesso e amaldiçoavam a imprensa, que julgavam sempre disposta a empregar as expressões mais desagradáveis para classificar seus familiares.

Os grupos que se formavam em frente ao portão da penitenciária não rogavam unicamente pelo fim do motim: queriam garantias das autoridades de que os amotinados em polvorosa estavam em segurança, e assim permaneceriam. Ignoravam os espancamentos que os próprios filhos promoviam contra seus parceiros e o cheiro de morte que, minuto a minuto, ficava mais denso entre as muralhas esverdeadas pelo limo.

Os que estavam sobre a caixa d’água frequentemente se voltavam para o chão, mantendo contato com os companheiros, à exceção do que desfilava com a capa amarela, exibindo-se. Num determinado momento um de pele parda se debruçou e falou de forma perfeitamente audível: “Mata ele, mata ele”. Àquela altura, de fora, já se notava um grande alvoroço.
André Pomponet
Enviado por André Pomponet em 11/07/2018
Código do texto: T6387087
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
André Pomponet
Feira de Santana - Bahia - Brasil
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