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Sanctae Crucis – Parte IV

          As portas duplas da arquidiocese estavam abertas como se me esperassem, atravessei o aro delas com pressa, eu nunca havia pisado em uma igreja anteriormente, fiquei estático na intenção de admirar à arquitetura. Haviam quatro pilares de mármore em cada canto do local e a única fonte de luz eram os castiçais fixados nos mesmos, entre os pilares haviam imagens de santos das quais eu só reconhecia Cristo e a Santa Virgem, o altar era bem mais iluminado e havia uma pintura de Cristo na parede atrás dele.

– Certamente você é o neto do Leopoldo… – Interrompeu-me uma voz serena, era um senhor que vestia uma batina preta com detalhes púrpura, um solidéu e uma faixa da mesma cor. Era um idoso sorridente de rosto avermelhado com numerosas rugas pelo mesmo, cabelos totalmente brancos e calvo da testa ao meio da cabeça. Em seu queixo havia um furinho no meio não muito saliente, seus lábios eram um pouco grossos e avermelhados igualmente ao rosto. – Estou certo?
– Exatamente, sou eu mesmo. – Respondi estendendo minha mão ao senhor. – E o senhor seria o arcebispo Rudolf?
– Exato, rapaz. – O velho me cumprimentou apertando minha mão e tocando em meu ombro. – Venha, me siga para conversarmos melhor.
          Segui o arcebispo até um gabinete por um corredor ao lado da entrada. Era um gabinete pequeno com cheiro de incenso, diferente do salão anterior, era iluminado por lâmpadas; havia uma imensa estante no canto do gabinete e em sua frente uma larga escrivaninha com uma pequena pilha de livros nela e uma imagem de Maria ao lado. O senhor sentou-se e pediu-me para sentar na poltrona à frente da escrivaninha, sentei.
– Vejo que sua viagem até aqui não foi muito boa. – Fitou minha face. – Seu ferimento atesta isso.
– Sofri um acidente a uns 500 metros daqui, mas estou bem.
– Não necessita de um curativo?
– Provavelmente, mas vamos logo ao assunto. – Passei a mão em minha testa e logo em seguida puxei a carta do bolso por dentro do caso. – Os pormenores que o meu avô menciona aqui. – Depositei a carta na escrivaninha e empurrei-a até o centro da mesa.
– Não é preciso me entregar isso. – Disse oscilando a cabeça de um lado para o outro. – Bom… então iremos direto ao que interessa. O que você sabe sobre o seu avô?
– Apenas que ele é um homem religioso, nada além disso.
– Compreendo… Leopoldo realmente é um homem de muita fé. Além disso, ele era um membro de uma ordem católica que protege fragmentos de uma chave.
– O que o senhor quer dizer com “era”? – Perguntei receoso pela resposta. – E que ordem seria essa? Que fragmentos de chave seriam esses?
          Antes que o arcebispo me respondesse, ele abriu uma gaveta da escrivaninha e retirou uma pequena arca cor de ébano com detalhes revestidos e possuía uma fechadura na parte dianteira.
– Pois é provável, a essa altura, que seu avô tenha sido assassinado… que Deus o tenha, se for o caso. – O senhor fez o sinal da cruz. – Sanctae Crucis é o nome da ordem e, sobre os fragmentos… abra a arca com a chave que seu avô enviou-lhe.
          Sem delonga, busquei a chave em meu casaco, soergui da poltrona e antes que eu introduzisse a chave na fechadura o arcebispo fez sinais da cruz com o polegar em sua testa, boca e no peito. Coloquei a chave na fechadura e girei vagarosamente abrindo a arca em seguida; a arca era acolchoada e forrada com um veludo vermelho e havia uma chave de madeira maciça que aparentava ser antiquíssima. – O que abre essa chave? – Perguntei curioso.
– Os portões do inferno. – Respondeu com tranquilidade.
– Não seja brincalhão. – Gargalhei. – E se, de fato fosse isso, por que seria de madeira?
– Isso não é brincadeira, rapaz. – Disse com um quê indignação. – Pois é a madeira da cruz do Verbo Encarnado. Por que tu achas que seu avô escreveu “queria evitar de te fazer carregar este fardo”?
– Eu imaginei que fosse algo mais… mundano. – Retruquei atônito – Nunca que eu pensaria que meu avô fizesse parte de algo assim.
– Rapaz incrédulo, esperava mais credo do neto dele. – Franziu o cenho.
– Eu nunca fui um bom cristão. – Sorri acanhado e sentei-me outra vez. – E meu avô sempre reclamou disso.
– E com razão. – Remexeu as gavetas e retirou um cordão dourado. – Tome, garoto, você precisará disso.
– Pra que serve isso? – Peguei o cordão da mão dele. Era um cordão com uma medalha glifada, havia uma cruz gravada na parte da frente e nela estava esculpido na vertical CSSML, na horizontal NDSMD e acima PAX. Ao redor do medalhão estava gravado SMQLIVB e VRSNSMV. No lado posterior a gravura era de um santo segurando uma cruz e a bíblia. – E o que significa essas siglas?
– É uma medalha de São Bento. – Pausou fitando-me. – As siglas são em latim e significam: “Crux Sacra Sit Mihi Lux” (A cruz sagrada seja minha luz), “Non Draco Sit Mihi Dux” (Não seja o dragão meu guia), “Sunt Mala Quae Libas Ipse Venena Bibas” (É mau o que me ofereces, bebe tu mesmo os teus venenos!) e “Vade Retro Sátana Nunquam Suade Mihi Vana” (Retira-te, satanás, nunca me aconselhes coisas vãs!)
– Há mais alguma coisa que eu precise saber?
– Somente que tu deves levar a chave consigo.
– Mas se é algo tão importante, por qual razão devo carregar isso?
– Pois isso não pode ficar nem mais um dia aqui. – Respondeu franzindo a testa com preocupação. – Esses objetos não podem ficar num mesmo lugar por mais de cinco meses e já faz seis meses que permanece aqui.
– Entendo, mas eu realmente posso carregar uma coisa dessas?
– Contando que não permaneça no mesmo lugar por muito tempo… – Antes que ele terminasse suas palavras, as luzes se apagaram, uma forte rajada de vento percorreu a igreja seguida de uivos de uma alcateia. – Começou mais cedo do que eu previa. – Revirou a gaveta e puxou uma chave de carro. – Vamos, precisamos sair rapidamente daqui.
          Logo que saímos do escritório tinha um lobo com dentes amostra rosnando e nos esperando no corredor, o animal correu para nos atacar, o arcebispo recitou algo que eu não compreendi que o fez desaparecer antes que chegasse a nós. Acompanhei-o a passos largos até uma garagem próxima nonde havia um carro de modelo antigo, porém bem conservado, adentramos o carro e partimos em direção à minha casa.
Josef Ledwig
Enviado por Josef Ledwig em 11/07/2018
Reeditado em 12/07/2018
Código do texto: T6387504
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Josef Ledwig
Mogi Guaçu - São Paulo - Brasil, 22 anos
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