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Rebelião VIII

No instante em que o preso se debruçou para acompanhar melhor a cena na caixa d’água, “Galalau” correu e, com os dois pés, saltou sobre o adversário que cambaleava. O golpe foi preciso, conforme calculado: o interno estatelou-se e “Galalau” se pôs de pé com um gesto ágil de capoeirista. O homem levantou a custo, o sangue escorrendo pelo rosto. Os outros agressores, que vinham atrás, cercaram a figura titubeante. “Vamos matar, vamos matar”, gritou um sarará, de olhos injetados, que sacou um “chuço”.
“Pelo amor de Deus, não!”, implorou o preso, juntando as mãos. As lágrimas escorriam pelo rosto. “Galalau” se aproximou para aplicar mais uma rasteira. Reteve o corpo por um instante e examinou a cara desfigurada pela dor.
“Morte!”, esbravejou o sarará, apontando o peito vacilante do infeliz, que suava e sangrava. “Galalau” não soube porque impediu o assassinato. Estavam próximos do pavilhão oito. Ele era do sete e o sujeito que apanhava cumpria pena no cinco. Jamais o viu. Entrara no espancamento porque naquele final de tarde não tinha o que fazer e gostava de dar seus “rabos-de-arraia”.
No entanto, resolveu impedir o assassinato e segurou, sem grande esforço, o sarará, tomando o punhal improvisado de sua mão. Os outros – uns dez – que estavam no encalço da vítima pararam. “Vocês estão com medo deste cara? Vamos!”, instigou o sarará.
Como se manipulasse uma marionete, “Galalau” deu uma bofetada no sarará, que caiu como um fardo. Mas o grupo avançava: ele afastou dois com rasteiras precisas e pensava que fizera grande besteira, quando uma ideia cintilou.
“Vocês vão matar o cara agora e a polícia vai ver. Os ‘canas’ estão olhando a gente pelos furos no portão”, gritou.
O sarará se acovardou e rolou pelo chão, como quem não quer ser visto pelos policiais. Dois ou três do grupo estancaram e o sujeito que apanhara hesitava, desequilibrado, sem compreender o que se passava.
“Corra, senão você morre”, disse “Galalau”, apontando o muro por onde o outro detento espancado pulara no início da tarde. E o preso correu. Havia mais trinta metros até o vão no portão onde poderia armar o salto. Tomou alguns safanões pelo caminho, mas manteve-se de pé, reunindo forças de uma fonte interior desconhecida. Muitos riam dos seus esforços, do seu rosto coberto pelas marcas das pancadas, mas alcançou ao portão e o escalou com gestos dramáticos.
Na entrada da penitenciária, repórteres e curiosos correram para o portão principal, quando a figura sanguinolenta completou a escalada. Imediatamente um agente se aproximou dos repórteres e gritou: “Luiz Antônio dos Santos. Latrocida”. Esboçou um sorriso miúdo de contentamento, diante dos gestos ávidos dos jornalistas que rabiscavam sua informação. Sem forças, o detento se atirou no chão e foi carregado para o prédio da administração por dois agentes, que vieram recolhê-lo.
Sabia-se, de imediato, que o presidiário estava muito ferido e que seria encaminhado para um hospital próximo à penitenciária. Fotógrafos se movimentavam, atentos ao alarido em redor e ansiosos por uma boa e exclusiva fotografia. Duas equipes de tevê chegaram de Salvador e buscavam se informar. Uma bela repórter de cabelos curtos anotava com uma letra caprichada informações passadas por parentes de internos.
Uma velha de faces escavadas conversava com ar resignado. Lamentava a falta de informações e as constantes rebeliões que estouravam.
“Quantos filhos a senhora tem presos?”, indagou um repórter.
“Dois. Um está preso acusado de fazer assaltos. Não sei se fez. O outro foi preso há oito meses, por porte de arma”, afirmou a mulher.
Não questionava a inocência dos filhos: apenas cobrava informações. O repórter concluiu que a mulher cumpria o seu papel: reivindicava cuidados com os filhos. Pariu os infelizes e nada tinha a ver com as prováveis vítimas.
Ao final de alguns minutos, o detento espancado pelos comparsas foi levado a um hospital. Saiu por um portão lateral, afastado do portão principal, driblando a imprensa ansiosa e frustrando os fotógrafos.
Uma informação indicava que o preso fora espancado porque era “traíra”: delatava os companheiros do pavilhão aonde cumpria pena. Um agente confirmou, com um sorriso nos lábios: “É um coitado. Entrega os outros sem a gente perguntar nada”.
André Pomponet
Enviado por André Pomponet em 12/07/2018
Código do texto: T6387930
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Sobre o autor
André Pomponet
Feira de Santana - Bahia - Brasil
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