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Rebelião XXIII

Cavar é o que fazia “Zecão” desde o início da rebelião. Descobrira pás e baldes em uma sala próxima à cozinha industrial e coordenava os esforços para a abertura do túnel. Optara pelo pavilhão três, porque as maiores lideranças do movimento concentravam-se ali e ele também residia por lá.
A escavação era feita junto ao alicerce do muro de contenção. Assim, o trabalho de escavação seria menor. Aprofundaram-se quase dois metros e avançavam numa largura de quase um metro. Daria para dois presos, de cada vez, irem saindo. “Zecão” escavara dois túneis anteriormente.
Um deles fora desgraçado, em uma delegacia. Enchiam os colchões com a terra e iam descartando a espuma, picada, pela latrina. Fora um túnel estreito, contaminado pelo esgoto da cadeia. Só sete conseguiram escapar e “Zecão” estava entre eles. Passara dois anos em liberdade, metera-se em novas estripulias e acabou apanhado pela polícia. Nova prisão, novo túnel e nova fuga. Esta fora em Salvador e uma gangue da pesada escapulira.
Daquele grupo, uns dez morreram. Outros foram presos e ele terminou fisgado também. Era assaltante de carro-forte. “Uma profissão rentável”, costumava dizer. Agora, metia-se em nova empreitada e esperava encerrar o trabalho até o fim do motim. Se não conseguisse, dava como perdido o esforço.
“Pouca gente vai querer escapar. O risco de morrer é grande. Não precisa túnel muito largo”, argumentou. Todos foram contrários à sua opinião. Resolveu ficar quieto, mas se empenhou na escavação, porque o esforço o interessava. Se desse certo, estaria na linha de frente dos que fugiriam.
Se falhasse, perderia o trabalho, mas se ficasse rindo e contando piadas nos grupos, de nada adiantaria. O que poderia se reverter em vantagem para ele? Redobrava os esforços e os músculos rijos de estivador retesavam-se.
Acataram pelo menos o método de se livrar da terra arrancada do túnel. Estavam espalhando por todos os pavilhões, mas o resultado não o agradava muito: ficava uma terra escura por cima da camada clara, pisada todos os dias. Quando os agentes voltassem ao trabalho, raciocinou, iam desconfiar rapidamente de que um túnel estava sendo escavado.
Durante o dia uns 60 homens se revezaram na escavação. Três ficavam sempre metidos dentro do buraco, que ia aos poucos se tornando maior, a picareta feria a terra maciça com persistência. Com o entardecer providenciaram a extensão da energia, porque seria impossível escavar na escuridão, sem eletricidade. Mesmo durante o dia começava a se tornar difícil.
“Túnel é um troço escuro”, pensava, nos raros momentos de reflexão. Escuro, mas avançava. Pela meia-noite “Zecão” estimou que já tivessem avançado uns três metros, havia mais seis até o muro principal da prisão, mais um para saírem no mato. E a liberdade!
Essa teria um sabor especial para ele. Certamente, passaria uns quinze anos cumprindo pena. Era acusado de diversos crimes e acumulava duas fugas. Foi alojado no pavilhão três, justamente por ser um dos detentos mais perigosos. Existia sempre a possibilidade de fugir, de deixar para trás as grades opressivas e o horizonte limitado pela fachada dos pavilhões, pelo muro de contenção, encardido. O céu era o que continuamente mudava e imprimia um ar de novidade ao ambiente.
Nesse dia, porém, não o interessava o azul imaculado do céu. Era desses dias de intensa claridade, que cai sobre a Bahia a partir de novembro. Um tempo bom para viver mais intensamente a liberdade. Usavam cinco baldes e “Zecão” achava que podiam estar empregando outros, mas o restante fora consumido pelo fogo. As pás eram insuficientes e o trabalho – mesmo com tantos operários voluntariosos – rendia pouco, em função da estreiteza do túnel. Com alguma habilidade, apenas dois homens podiam permanecer escavando ao mesmo tempo. O terceiro passava os baldes cheios de terra.
“Ruivo” e “Lucas Zarolho” vinham às vezes consultá-lo sobre o andamento do túnel. Ele estava pessimista, mas os dois confiavam que a toca poderia permanecer ignorada pela direção. Os reféns nada sabiam e um idiota que abrira a boca fora trucidado. Outros linguarudos certamente pensariam duas vezes antes de falar sobre o que andavam fazendo.
“Precisamos contar com a sorte!”, observou “Zecão”.
“A gente precisa contar com a sorte. Sempre”, retrucou “Ruivo”.
André Pomponet
Enviado por André Pomponet em 06/08/2018
Código do texto: T6411465
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Sobre o autor
André Pomponet
Feira de Santana - Bahia - Brasil
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