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Cap.4: Mariela, Segunda parte


“ONDE VOU ESTUDAR?”


Na escola, a confusão não era pequena. As reclamações vinham de todos os lados e em todo instante, como se alguém ali pudesse resolver alguma coisa. As reuniões de fim de ano letivo eram sempre assim, era um jogo de empurra e de acusações sem fim. As principais reclamações eram as faltas… falta de professores, de alunos, de qualidade, de comportamento, de funcionários, de segurança, de estrutura, de higiene, enfim, tudo fazia falta. Pais, professores, funcionários e alunos, todos falavam ao mesmo tempo e ninguém chegava à alguma conclusão. Mariela parecia atenta às questões. A verdade é que há anos que se reclamava do mesmo e nada acontecia, a tendência até era cada vez ficar pior, pois assim como o prédio da escola, uma construção antiga que já estava quase a ruir, os ânimos e os resultados no aprendizado estavam caindo, quase sem chances de reparo. As aulas eram frequentemente suspensas por “n” motivos, a matéria nunca era dada na totalidade e os alunos pareciam desmotivados, muitos abandonavam a escola, porque não conseguiam acompanhar. Os professores também ficavam desestimulados, procurando de início trazer conhecimentos que pudessem motivar os alunos, na medida do possível, mas com o cronograma todo bagunçado não havia muito o que fazer e raramente uma aula conseguia ser dada na totalidade. As interrupções e a dispersão dos alunos era uma constante em sala de aula, pareciam revoltados. Portanto, nessa confusão, ninguém se entendia e Mariela que já estava crescida, previa que a culpa estava do lado de fora, não estava presente, nunca estava, por isso nada se resolvia.

Crescera bastante, física e mentalmente, agora com 16 anos tinha acabado de concluir o primeiro ano do ensino médio. Sua estrutura física era muito forte, 1,75m, corpo de musculatura alongada, delineada pelas muitas pedaladas em cima de uma bicicleta desde criança, além de esportes, dança, capoeira e o que mais encontrasse para fazer de graça. Estava sempre inscrita nas mais diversas atividades locais, sejam em associações, ONGS, na própria escola, tudo que estivesse ao seu alcance. Naquele exato momento, estava atenta à discussão inflamada, pois havia uma preocupação maior. Tinha ouvido rumores de que iriam retirar o ensino médio daquela escola, sendo essa, apesar das reclamações e faltas, a única escola estadual na localidade. Isso atrapalhava e muito seus planos futuros de tomar outros rumos, principalmente nos estudos. Tinha sempre pressa, precisava terminá-los. Precisava do diploma o mais rapidamente possível.

Apesar de sofrer as consequências do ensino caótico, sempre muito curiosa, absorvia informações como esponja do mar, procurando se aprofundar de outras formas. Sua madrinha lhe comprara um notebook, não muito caro, que ela usava à vontade. Muitas vezes, quando o estudo ficava mais extenso e anoitecia sua mãe já não se importava que ficasse a dormir por lá, até preferia. Sabia que Mariela tinha motivos que justificavam sua ausência…

A situação da família andava um pouco tensa, pois o pai de Mariela, o empático e tranquilão Menezes, como era conhecido por todos, logo que completou seus cinquenta anos começou a ter problemas no trabalho e esperava a qualquer momento ser mandado embora, mesmo antes de poder se aposentar. Ele fazia o trajeto exaustivo do 606, o ônibus mais parador da cidade do Rio de Janeiro, e a verdade é que, com a idade, seu corpo começava já há alguns anos dar sinais de estar nos limites da exaustão. Muitas vezes sentia que suas pálpebras pesavam perigosamente enquanto conduzia o ônibus lotado, acelerava e freava, estrilando o freio e a campainha do pedido de parada, sons que já não lhe saiam dos ouvidos, trazendo um zumbido obsessivo que lhe obrigava muitas vezes ter que tomar algo para o silenciar e poder dormir, apesar de todo o cansaço da sua jornada. Todos os dias, ao chegar no ponto final de sua última viagem, ainda tinha que trocar a roupa do uniforme, pegar o ônibus até a central e um trem para Parada de Lucas. Lá ainda percorria uns bons quarteirões para chegar em casa. E já lá se iam quinze anos nessa rotina. Mas, Menezes era um bonachão, de bem com a vida, amante da família, de sua amada esposa Filó, de Filomena, e essa alegria compensava qualquer sacrifício que fazia. À sua espera estava lá sempre ela, Filó, próxima à porta de entrada, com um sorriso de alívio e saudade de quem espera um grande amor. Aos fins de semana, como era um dos mais antigos na empresa, tinha a regalia de poder ficar em casa com a família. A alegria era certa, os dois saíam para as compras no mercado mais próximo, pois não havia mais a mercearia… iam e voltavam de ônibus, porque à pé não dava, e o almoço era caprichado, feito à quatro mãos. Mas o que antes era moleza, pois ainda lhe sobrava gás para fazer uma ou outra melhoria na casa, agora parecia impossível forçar. Há uns anos começara até a fazer um quarto à mais para dividir melhor os quatro filhos que já estavam crescendo e precisavam de mais espaço, mas ficou tudo inacabado, por terra. O último material que comprara ainda estava fechado no chão da obra inacabada e não havia jeito, diante da estafa, de a terminar. Ninguém lhe cobrava nada. Filó via a situação do marido que se agravava, tratou de aumentar o volume no conserto de costuras, colocando até papéis espalhados pelo comércio local e acrescentou ainda, vez por outra, umas encomendas de salgadinhos para as festinhas de aniversário da vizinhança. Isso a fazia conduzir com tranquilidade a educação dos filhos. Agora, mais crescidos, cresciam com eles as necessidades e a diversidade de assuntos que, na sua simplicidade, ela conseguia driblar, mesmo os mais polêmicos, que muitas famílias provavelmente se esquivavam de falar. Mas a mãe de Mariela o fazia com tamanha clareza de pensamento que a conversa fluía sempre muito natural, como de fato, assim ela pensava ser o mundo. Fora isso, era ela também que regia os gastos, as economias e a formação da família. O mais incrível ainda é que ninguém como ela, que só fizera o primário, sabia fazer melhor uma projeção aritmética de cabeça do que se podia ou não podia gastar, assim como a prevenção do que aconteceria se não agisse na hora H. Porém, a saúde de seu marido a preocupava bastante e aos filhos também. Mariela queria correr com o tempo, trabalhar, melhorar de vida para ajudar a família e toda a sua agitação e as horas de estudo na casa da madrinha tinham um motivo e um propósito real.

Mariela teria herdado da mãe a mente agitada, apesar de ter também os traços de personalidade alegre e festiva do pai, além da sua perseverança e força física que eram extraordinárias, pois jamais parecia cansada, nem de mau humor. Suportava fazer milhões de coisas ao mesmo tempo e sempre com boa disposição. Por isso, as horas na casa da madrinha, estudando, foram cada vez se estendendo mais e mais. Fazia cursos online gratuitos, aprendia com tutoriais programas de informática, pesquisava instituições que oferecessem bolsas… era infindável sua curiosidade e perspicácia em “linkar” assuntos, fuçava, esmiuçava tudo! Seus três irmãos já eram mais tranquilos, levavam uma vida normal, seu irmão mais velho entrou para a marinha e lá conheceu um outro mundo, descobriu cedo sua homossexualidade e, graças à sorte de ter nascido nessa família, lidava com tranquilidade com a sua natureza diferente, assim como, manteve sempre uma aproximação harmoniosa com os pais. Visitava-os sempre que podia, pois agora estava morando sozinho, num quarto que alugava com um amigo, quando não estava de serviço. Ajudava também no que podia à família e sempre aos irmãos mais novos. Já com Mariela, tinha uma cumplicidade quase de irmão gêmeo, já que a diferença de idade era pequena, mas ainda mais por conta da admiração recíproca.

No dia seguinte, logo cedo, Mariela não foi à escola, pois já estava de férias. Entrou em casa, beijou a mãe, o pai já havido saído, pegou uma xícara de café que a mãe acabara de coar e, enquanto acrescentava o leite quente da panela no fogão, meio alheia e ainda com a mente agitada..

“- Mãe, acho que vou ter que procurar outra escola. Ontem deu uma confusão tremenda na reunião geral, à parte os problemas de sempre, parece que vão terminar com o ensino médio lá… pra onde vou?”

Filó, de imediato, fez uma sondagem do quadro, pensou na escola que seria mais próxima, não sabia se encontraria vaga nessa altura. Lembrou da situação de risco do marido e, por um momento, se preocupou, pois desta vez não encontrou resposta.

As duas ficaram em silêncio…

Kawer
Enviado por Kawer em 25/01/2019
Reeditado em 25/02/2019
Código do texto: T6559529
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Kawer
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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