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Cap.5: Mariana, segunda parte

Era uma tarde chuvosa, apesar do mormaço. O silêncio dentro de casa era especialmente melancólico aos domingos. Uma sensação de perda inestimável no ar emudecia os três que sobraram da família e as refeições, que antes pareciam acaloradas pela presença do pai e da irmã que tinham sempre novidades da vida lá fora, ficaram sem gosto, nem nada.

A mãe tinha retornado da missa, preparara o mesmo almoço de sempre e levantando-se da mesa, sem muito ânimo, pediu à Mariana que recolhesse o restante dos pratos e pusesse tudo na pia. Depois que deitasse um pouco, os lavaria.

Mariana olhou para o irmão que estava colocando ainda mais comida no prato e, sabendo que não teria sucesso na resposta, perguntou em silêncio para si mesma… “por que não pede para o Vítor?” O simples fato de ter nascido mulher e o irmão, homem, parecia não precisar de explicação para a pergunta. Vítor se tornara um folgado. Já sabia que não precisava fazer nada, sequer se dava ao trabalho de ficar incomodado com o olhar inquisidor da irmã. Esta se levantou, resolveu não esperá-lo acabar, deixou seu prato na pia e foi para o quarto, muda, estudar.

Fazia aquilo com habilidade inata. Não tinha dificuldade de colocar a matéria em dia, mesmo porque era assídua e estava sempre atenta às aulas. “Politicamente correta”, assim era Mariana, sem extraordinárias explosões de genialidade, mas com ordenação exata. Aliás em tudo o mais que ela fazia era tudo à medida certa, nem tanto ao mar nem tanto à terra, exceto… na libido. Sim, Mariana havia acabado de completar dezesseis. Sua aparência a favoreceu muito depois que as espinhas lhe saíram do rosto sem sequer deixar marcas da puberdade. Junto com elas foram-se o óculos de grau forte de miopia dando lugar às lentes de contato que foram pagas com sacrifício, mas à preço justo por uma nova vida. À partir daí conseguiu enxergar sua real aparência e a amplitude de seus olhos cristalinos. Com isso, a libido foi naturalmente alimentada pelo sentido poder da sedução que era capaz de exercer ao andar pelas calçadas, na praia, na escola ou qualquer outro lugar. A tática de baixar a cabeça e, ao se aproximar da presa, lançar na velocidade certa o queixo pra cima era uma rajada que pegava o sujeito desprevenido sempre e… bastava isso quando o assunto era desconhecido, não ia além, era apenas divertimento. Mas na escola, no grupo de amigos, ela escolhia um, apenas um, para romanticamente sonhar e se apaixonar. Por ele, ela choraria em segredo, ou se desse certo, se fosse retribuída, se lançaria em ardentes carícias até onde podia, pela idade, até o limite para que nunca! jamais! ousasse engravidar! Disso tinha receio, Bastava ver o que a irmã ainda sofria. E assim vivia sua juventude, nem santa, nem destrambelhada, algo em torno do “politicamente correto”.

Poucas pessoas tinham a sua plena confiança para que com elas quisesse conversar. A mãe, sempre fechada, tinha as rédeas do pensamento católico que tentava incutir à filha, mas sua tristeza não a convencia. Sem liberdade, Mariana não conseguia desabafar. O resto da família, distante de seu mundo, era quase inexistente e também na amizade pouco se identificava com os que convivia para uma conversa mais íntima. Ia se resolvendo como podia… lendo. Lia muita coisa. De livros à revistas, de relatos à artigos na internet, sempre que o assunto lhe interessasse ou uma dúvida a inquietasse procurava respostas que lhe pudessem ajudar. Pesquisava principalmente assuntos relacionados à sociedade, das existências e costumes distantes, dos mais exóticos aos mais corriqueiros, com especial atenção às relações afetivas. À parte sua descrença em muitas coisas, no bom senso da sociedade e da justiça, acreditava no amor genuíno. Aquele que não deixa dúvida. Muito pessoal e intransferível. Um misto de romantismo e misticismo. Um presente inestimável da vida. Um estado de espírito.

O barulho dos tiros tiraram abruptamente sua concentração. Vinham do computador do irmão, sentado na cama, agarrado aos jogos que ele consumia vorazmente, dia após dia, horas à fio, Olhos arregalados, coluna curvada para frente, na tentativa inconsciente de entrar pela tela adentro e a barriga fazendo dobra de tanto sedentarismo. Mariana pegou seus livros e cadernos e foi para a sala continuar o que estava fazendo, estudar. Passou pela cozinha pra pegar um copo d’água, a louça já lavada e viu a mãe sentada à mesa, olhando pro nada…

Não se deixou influenciar pelo desânimo que lhe deu uma fisgada no peito e na garganta, agarrou seu livros na sala e devorou deles cada palavra, cada imagem ou número. Entrou na matéria e descobriu que ela estava em movimento. Tinha vida. Muito mais do que tinha naquela casa. Um alívio ao final do dia. Percebeu que era livre e que não precisava de ninguém quando podia ter tudo no que já tinha…

Kawer
Enviado por Kawer em 25/02/2019
Reeditado em 26/02/2019
Código do texto: T6584049
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Kawer
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
15 textos (113 leituras)
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