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Cap.6: Marília, a segunda parte

Marília parecia esfuziante andando de um lado para o outro, cumprimentando os amigos da escola, clube, viagens e diversos outros lugares que frequentava, alguns mais íntimos, outros superficiais, como uma verdadeira anfitriã. A entrada estava liberada e muitos vieram do Rio com direito a se hospedar para o fim de semana na casa de praia. Estava comemorando seus dezesseis anos e a festa era regada por um farto buffet com garçons uniformizados que contrastavam com os jovens seminus em suas roupas de banho, naquela manhã ensolarada à volta da piscina. Casa liberada, sem a presença dos pais, que deixaram os caseiros responsáveis por monitorar tudo, dando-lhes toda autoridade para conter o que fosse preciso. Como se isso fosse possível, Conceição, de cara, proibira Lídia de participar. Não precisou se esforçar muito. Com o tempo, a amizade entre a filha e Marília foi esfriando naturalmente. Mundos diferentes, realidades opostas, o assunto entre elas foi minguando, até que passaram a nem mais se procurar. Marília já tinha corrido meio mundo e conquistara aos poucos a liberdade de ir e vir onde bem quisesse. Enquanto Lídia permanecera em seu lugar, estudando, namorando e já até fazendo planos de se casar. À partir daí, as poucas vezes que Marília aparecia na casa de praia era sempre acompanhada, ora de amigos, amigas, amiga ou amigo, era sempre uma surpresa. Sua mente agitada por festas, novidades e o mundo do consumismo sucumbira às facilidades que sua condição financeira permitia. E permitia muito. Desde motorista à disposição à passar finais de semana fora com quem bem lhe convinha.

Seu mundo paralelo, aquele dos bastidores, de quando era criança, apesar da empatia que ainda o mantinha, desaparecera. Passou a conviver mais no mundo dos pais, a se ocupar da vida e prazeres que só o dinheiro pode oferecer. A melhor escola no conceito nacional lhe exigia afinco nos estudos, o que não lhe era difícil de seguir, mas no seu dia a dia, milhões de outras atividades dividia sua atenção e o tempo livre. Atividades que ela experimentava e trocava com a mesma futilidade com que se troca uma peça de roupa. Das artes, aos idiomas, passando por esportes e academias, além de clubes e festas, sua vida seguia sem tempo para pensar, apenas vivia.

Certa vez tomara um susto. Há pouco tempo, em uma das noitadas, empolgada pelas companhias, quis vencer a timidez e se excedeu na bebida. No final, não se sabe como, acabou em um lugar que ela nunca soube como foi parar. A sorte é que as amigas deram por sua falta, foram em busca e a conseguiram encontrar. Sozinha, sentada na calçada, aparentemente estava tudo bem. Como aconteceu, não se sabe. Fato é que após esse dia Marília passou a ter mais cuidado. Por vezes até se tornava um pouco severa com as amigas que lhe incitavam à se soltar, bebendo, é claro. O susto lhe valeu e foi de bom tamanho. Não lhe saía da cabeça o fato de não lembrar de nada. Apenas que acordou em outro lugar.

Com isso, e por mais que tentasse voltar a se distrair como antes, o fato tornou-se um marco que a forçou a pousar, pelo menos um dos pés, no mundo paralelo que havia esquecido. Mundo em que a realidade não permite voar. Uma realidade pesada, porque é sólida, de suor, pão, trabalho e muito, muito cuidado pra não tropeçar, pois o chão ali é duro, feito de ferro, cimento e aço, machuca, basta encostar. Por isso, enquanto andava de um lado para o outro, em sua festa, mesmo em meio ao alvoroço, usufruindo de tudo que lhe era permitido, volta e meia seus olhos pousavam onde o cuidado parecia necessário. Ora num casal de jovens exagerando o amasso no sofá, ora naqueles que punham os copos em qualquer lugar, ou ainda nos que subiam escondidos para o andar de cima, para, em seguida, se desviarem e se encontrarem com os olhos da Conceição, de pé na porta da Copa assistindo tudo à sua volta. Pareciam zangados, fazendo um acento circunflexo no alto da testa que os unia mais, como um telhado de proteção. Ao mesmo tempo, também pareciam impotentes, como quem não tem esperança de conter o que via. Olhos também cansados, de quem devia estar de pé desde muito cedo preparando a casa para receber o buffet, controlar os visitantes estranhos, qualquer tentativa de furto e o fardo de lidar com indomáveis convidados mimados pela luxuria.

“-Deixe Ção, vá descansar. Os garçons estão aí pra arrumar tudo. Pode deixar.” Conceição ouviu, mas não se convenceu. A responsabilidade recairia sobre ela e João. Ali estava também a casa onde moravam, mesmo que fosse como caseiros, não importa. Estava ali tudo que tinham. Casa, emprego, além do sustento da filha. Os dois já tinham uma certa idade, não seria nada fácil recomeçar do zero em outro lugar. Foram pra lá trabalhar muito jovens, Conceição tinha 15, João, 16 e, nessa época, a casa pertencia aos pais do Roberto, os avós da Marília. “-Ção e João! vou chamá-los assim de agora em diante. Vocês são tão jovens, têm praticamente a mesma idade do meu filho, Roberto. Vocês vão conhecer. Tão jovens e já casados!!” falou D. Amália, batendo o martelo. “estão contratados! Podem trazer suas coisas e começar suas vidas aqui. Espero que gostem da casa.”

Dali para frente, deu tudo certo. A afinidade era grande entre o jovem casal de caseiros e o casal proprietário, tanto que estes iam praticamente todos os fins de semana pra lá. Roberto nem tanto, pois estava fazendo o serviço militar na época. Queria seguir a carreira do pai.

…” iam ficar escandalizados com essa festa” pensou alto Conceição. Marília pareceu ouvir seu pensamento “Ção, você ouviu o que eu disse?” Conceição despertou com a voz de Marília, insistindo para que ela fosse descansar. “ Não Marília, obrigada, minha filha, mas prefiro ficar de olho, teus pais deram ordens para eu e João ficar até o fim. É só um fim de semana…. Mas vê se você fala com seus amigos sobre….” antes mesmo de prosseguir, Marília a interrompeu...”Eu sei o que quer dizer Ção, pode deixar, vou tentar, mas eles são um pouco teimosos, às vezes é melhor fingir que não vê. No final dá tudo certo. Fique descansada. Mas qualquer coisa me fale…” Marília voltou à seus convidados, mas ainda um pouco preocupada com a missão dos caseiros. Tinha por eles um carinho especial. Não fosse a atenção que lhe deram quando era criança, talvez não tivesse suportado tanta solidão. De repente sentiu um vazio. Tanta gente, tanta comida, tanto tudo, mas o que lhe preenchia agora era a sensação de aconchego daquele casal que lhe fez companhia durante todo o tempo de adolescência e menina. Que lhe abraçava quando caía, limpando as lágrimas, passando mertiolate e soprando porque ardia. Que quando “foguinho” sumiu, o vira lata, foram em busca com ela e andaram muito pelas redondezas até virem que desta, tinha sido de vez e que, provavelmente morreu em uma de suas aventuras, entrando em casa alheia, sem pedir licença, sem misura. Talvez assim o fizesse agora Marília. Acabaria com a festa, mandaria todos para casa, sem pedir licença ou misura e ia tomar um belo prato de sopa na cozinha e assistir televisão com a cabeça deitada no colo da Ção pra depois contar das viagens, dos namorados…. mas, talvez fosse assunto demais para Cão, como tinha se tornado também para Lídia. O mundo delas se dividira.., é um fato que Marília não previa…

Kawer
Enviado por Kawer em 25/02/2019
Reeditado em 26/02/2019
Código do texto: T6584057
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Kawer
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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