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Cap. 7: Mariela, a terceira parte

“Uma bolsa de estudo!” Celeste no mesmo instante em que disse isso se apressou a procurar em seu caderninho de telefones os contatos antigos, do tempo que morava na zona sul. A maioria daquelas pessoas, não via desde que se mudara. Pessoas com um padrão de vida que as faziam manter distância do subúrbio. Celeste no entanto, não se prendeu à esse empecilho. Nesse momento, a necessidade era maior que o constrangimento. E Celeste era especial, uma pessoa querida por todos. Sua educação, amabilidade para falar com as pessoas, ultrapassavam essas barreiras, inclusive as que o falecido marido construíra, devendo dinheiro à quase todos os amigos. Fazia empréstimos, se agarrava à qualquer coisa para não falir, como se não fosse exatamente isto o que aconteceu no final. Celeste conhecia bem esse lado obscuro do seu companheiro, mas também conhecia o que a conquistou desde jovem. Além de um grande amor, imensurável, entre os dois, havia uma devoção diária. Trazia-lhe flores, saíam para jantar, viajavam, se amavam em todos os momentos do dia a dia. Celeste era sua rainha. Quando ele entrava e fechava a porta da rua, os problemas ficavam lá fora. Não entravam, Não havia espaço para eles. Era apenas ele e ela… e seus sonhos. Sim, Celeste, ouvia-os todos. No fundo, admirava esse seu vibrante lado sonhador que no fim, só trouxe prejuízo. Mas a forma como falava de seus projetos, a vida, a energia que lhes dava. “- Verás meu amor, descobri um talento que será um sucesso ímpar na música brasileira! Farei um grande show para ele se apresentar. Estou pensando em fechar o Canecão e fazer uma divulgação estrondosa!! As pessoas irão com certeza! Ficarão curiosas e irão se encantar! Dali virão shows, discos, contratos, televisão!!! Ficaremos ricos!!” Uma inesgotável crença nos outros e no seu tino para os negócios não lhe deixava enxergar os riscos. Mesmo com os insucessos de suas empreitadas, ele acreditava que foi apenas um detalhe, um lapso na estratégia, mas que “- Na próxima, você vai ver, meu amor, sei exatamente onde falhei, não voltará acontecer. Já tenho uma nova alternativa em mente…”  Como empresário, produtor artístico, procurava talento nas pessoas mais diferenciadas, o que nem sempre era uma regra. Encontrava decerto, nelas, uma certa semelhança , talvez porque assim como ele, acreditavam no impossível.

” – Celeste, é você?! Como você está?! há quanto tempo!!” …Celeste se pergunta o que poderia relatar depois de tantos anos?… melhor é ir direto ao assunto. “-Está tudo bem. E vocês, estão bem? Só estou mais velha um pouquinho” uma breve risada e logo emenda no assunto, ” – Me diz uma coisa, você ainda é diretora daquele curso com ensino médio? É que preciso arranjar uma bolsa de estudos para minha afilhada. Ela é uma aluna exemplar! Mas a sua escola acabou com o ensino médio. O ideal era que pudesse ser aqui pelo subúrbio, mas se não der, ela pode ir à zona sul…” ” Também envelheci amiga, já até me aposentei, mas… tenho uma amiga que é diretora de um curso na Tijuca. Vou falar com ela hoje mesmo e te dou um retorno. Que bom saber que você está bem…”. Celeste agradeceu, mandou lembranças à todos. “- Ficarei imensamente grata à você! Independentemente de conseguir, mas espero que consiga, é muito importante para mim” “- Farei tudo que for possível. Se não conseguir com ela, verei com outras pessoas… Você é uma pessoa muito querida. Te ligo mais tarde. Beijos!” Foi mais fácil do que esperava. depois de tantos anos, já seria um lucro se apenas se recordasse dela. O telefonema a deixou feliz e acarinhada, mas preferiu não dizer nada ainda à Mariela, para não lhe dar esperanças falsas. Apesar de amar seu marido, nisso, eram completamente opostos. Celeste tinha a mente nas estrelas, mas os dois pés bem fincados no chão.

Toda a papelada tinha acabado de ser entregue na escola da Tijuca, que era também preparatória para o ENEM e Mariela saiu do estabelecimento aliviada por ter conseguido a bolsa, com indicação é claro, caso contrário seria quase impossível. ainda mais sendo integral, 100%, custo zero. Só restava para Mariela calcular agora o tempo de trajeto, quanto precisaria para comer qualquer coisa, mais o material e…

“-Mãe, não se preocupe, que foi arranjar um emprego à noite. Tem um grupo de músicos e bailarinos que me convidaram para fazer parte. Eu tenho experiência e parece que pagam bem. É mais aos fins de semana. Não vai atrapalhar os estudos” “-Sei não, Mariela… com as loucuras que andam por aí, trabalhar de noite, sei não, não acho boa ideia” “-Tem perigo não mãe. Só entra em encrenca quem quer. Eu não bebo, não fumo, detesto drogas e também nem penso em namorar”. A mãe sorriu. Sabia que Mariela dizia a verdade. Sua determinação em estudar e ter um diploma universitário, quiçá um doutorado, estava à frente de todo o resto. Sabia também que ela não iria se meter em algo que pudesse lhe ameaçar o destino. “-Você é que sabe filha, confio em você”.

Em seguida entra Menezes na cozinha. “Filó, acho que não vou comer nada hoje não. To muito cansado. Prefiro ir pra cama dormir” no que Filó de imediato replica “Como assim? Onde já se viu?… você tem que se alimentar. Vou fazer nem que seja um mingau de aveia então” e foi direto pegar o leite na geladeira enquanto o marido se dirigia para o quarto para trocar de roupa. “Mãe… papai não está bem… ele precisa ir ao médico” “Eu sei Mariela, mas ele é teimoso que nem um bode. Diz que não tem tempo. Que precisa só descansar. Ele acha que se faltar pra ir no médico, eles mandam ele embora… e ele quer se aposentar. Agora com essas mudanças aí, ele tá com medo de não dar tempo.” “É, as coisas estão difíceis com esse governo que entrou. Já não eram fáceis, agora tá ficando impossível”

Filomena respirou fundo, procurou não ter pensamentos pessimistas. De nada iria adiantar. No momento o que ela precisava era fazer o mingau pro seu velho. A alimentação é tudo nesse momento. Amanhã de manhã conversaria com ele sobre isso…
Kawer
Enviado por Kawer em 26/02/2019
Código do texto: T6584742
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Sobre a autora
Kawer
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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