"LIVRE ARBÍTRIO 03"


O FIM

 
     O senhor Firmino fez uma matula bem sortida e levou uma manta de carne seca. Foi ao varal sobre o fogão de lenha, e retirou duas cordas de linguiça defumadas, levou uma panela grande e outra um pouco menor, levou arroz feijão e farinha de mandioca, levou dois queijos minas meia cura fumo de rolo e palha de milho, levou também um isqueiro marca vozkip tendo o cuidado de molhar com gasolina.


     Esperou quando começaram a cantar uma vênia e era quando todos participavam, saiu pelos fundos da casa e embrenhou-se por dentro da mata escura, quando se viu em plena mata fechada acendeu o farol. Farol era um gomo de bambu verde e cortado uma das pontas onde era adaptada uma bucha de trapo velho. O grande gomo de bambu era cheio com querosene quando era aceso proporcionava uma boa iluminação.


     Bom conhecedor dos meandros da mata rapidamente venceu a distância que o separava do José. Ao chagar encontrou o rapaz em estado deplorável, os olhos estavam vermelhos de tanto chorar e não se via nele o semblante alegre e galhofeiro de moço despreocupado e feliz. Parecia que os pecados do mundo desceram todos sobre sua cabeça, envelhecera naquelas poucas horas e era apenas um trapo humano em desespero.


     Seu pai tentou conversar, mas viu ser impossível, deixou os alimentos e algumas palavras de conforto eram tudo que podia fazer, se foi. No outro dia após o enterro conseguiu se safar e subiu novamente. Encontrou o filho um pouco mais calmo, ao chegar José lhe perguntou se já tinham feito o enterro e com a confirmação e ele se afastou. Firmino adivinhou que ele fora chorar escondido, de certa forma era um sinal de reação, se não queria que o vissem chorar é por que estava resolvido a enfrentar os seus dissabores.


     Ocupou-se a cozinhar arroz e feijão, e nas brasas que se formaram com o fogo aceso, ele assou boa quantidade de lingüiça, verificou que José comera um pedaço de queijo, ficou satisfeito. Dentro em pouco José retornou estava com os cabelos molhados, sinal de que tentara disfarçar os sinais do choro, Serviu-se de comida e embora empurrando a comida goela abaixo, conseguiu comer bem, Os três dias passaram rápidos e num dia pela manhã seu pai apareceu com o DR. Edmundo, advogado público e que iria ser seu defensor no tribunal.


     Apresentou-se e após os depoimentos lavrados pelo Meirinho e assinado pelo, promotor, defesa e Juiz, ele foi liberado para retornar ao convívio da família devendo se apresentar em data já marcada para o julgamento. Voltou a trabalhar na roça, saia antes do dia clarear e retornava depois do anoitecer, não conversava com ninguém e a noite ia até a venda do senhor Joaquim Fubéca, cumprimentava os presentes que lhe respondiam, mas sem puxarem conversa, pois ele não responderia. Comprava uma garrafa de cachaça e ia para a casa do pai.


     Sua mãe deixava as comidas sobre o fogão de lenha e quando ele acabava de tomar a garrafa de pinga ia às panelas e fazia um prato com arroz carne e feijão, comia um pouco e geralmente sobrava a maior parte, deitava-se na maioria das vezes sem tomar banho e seu sofrimento era visível e causava o desespero do pai e da mãe que não tinham como ajudar e viam o filho definhando a cada dia. Afundando-se no lamaçal da sujeira e descaso de si próprio querendo certamente acabar com a vida.


     Num sábado pela manhã, logo que a venda se abriu ele foi o primeiro freguês a entrar, comprou dois garrafões de cachaça e seu Joaquim perguntou se ele ia fazer estoque? Não recebeu resposta, recebeu o dinheiro, comprou anzóis e linha e algumas varas de pescar vendidas barato pelo vendeiro, ele saiu e dirigiu-se para as corredeiras atravessou dentro da água e foi para a grande pedra no meio do rio. Amarrou as linhas nas varas colocou os chumbos de peso e os anzóis, tinha levado minhocas e se dispôs a pescar.

     Pegou meia dúzia de mandis e achou que estava de bom tamanho. Juntando lenha que a correnteza nas cheias deixava sobre a pedra, e após limpar os peixes, encontrou uma chapa de pedra ardósia, escorando-a com quatro pedras improvisou uma ótima mesa para assar os peixes, Pegou o primeiro garrafão e destampou e tomou no gargalo um longo trago. O fogo já estava formando brasas molhou o dedo com saliva e experimentou o calor da pedra de ardósia, o chiado da saliva indicou estar no ponto.


     Passou sal nos peixes e os distribuiu sobre a chapa de ardósia, mais uma vez tomou cachaça desta vez tomou uma quantidade Maior do que a primeira, com a ponta da sua faca virou os peixes sobra à pedra sentindo que seus movimentos já não estavam tão seguros. Comeu o primeiro peixe e desta vez virou o garrafão até sentir que não conseguia respirar e teve que parar. Comeu mais peixe e ensaiou cantar uma toada que ele gostava, as palavras saíram trôpegas e ele ria, como um idiota.


     Bebeu mais e tentou cantar novamente: O meu canarinho---------canta que é uma beleza----------- mas o meu passarinho-----------------canta por que vê --------por que vê--------junto dele a sua amada-------na gaiola também está presa----e por isto ele------- por isto ele canta de---------- canta de tristeza. como eu também vou cantar na cadeia -----------por que matei uma flor ------------que era venenosa -----------mas era meu amor. Alua cheia clareou o céu e Ele conversou com a Lua.


     Agora não sou mais José ô Lua agora eu não sou mais José. Sou, apenas o Zé da pinga, pois eu vou beber estes dois garrafões de pinga e pegou o garrafão e levou a boca, exclamou com raiva, já acabou este pegou o outro e abriu e tomou desta vez sem parar foi tomando a barriga já estava estufada e ele continuava. Bebeu toda a cachaça e quando acabou bateu com raiva o garrafão na pedra e cortou–se nos cacos e ainda olhou mais uma vez para o céu e tentou balbuciar o nome Lua, mas não deu, desmaiou. Entrou em coma e morreu dormindo. O delegado disse, escapou do julgamento, apesar de que nem seria condenado. O pai disse, descansou, a mãe chorou a morte do filho, os amigos diziam, morreu o Zé da pinga. 


     O Zé acordou num lugar diferente, desconhecido e se viu esquisito, seu corpo era feito de luz e ao tentar andar, ele não sentia tocar o chão, ele flutuava. Havia uma melodia no ar que parecia vir de todos os lugares e era linda, e ele não entendia, não precisava entender ele a sentia. Olhou em todas as direções, não via ninguém, não via um horizonte, via longe e era uma vista sem fim, e tudo eram cores. Ele pensou que não via plantas, florestas e ao pensar as florestas apareceram. Pensou no rio e surgiu um rio, e pensou em pessoas e surgiram pessoas, mas em forma de luzes.


Continua na próxima sexta feira.



 
 
Trovador das Alterosas
Enviado por Trovador das Alterosas em 20/05/2019
Reeditado em 20/05/2019
Código do texto: T6651720
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