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Q.B. - O HOMEM QUE NUNCA MORREU - PARTE 1

                       V - O HOMEM QUE NUNCA MORREU...

                “A morte de John fica comigo o tempo todo”.
                        “É uma coisa pessoal.” - Elton John
                         
                                      As batidas na porta do estúdio interromperam a conversa e Elton gritou:
- Entra!
   Bernie abriu a porta e entrou com Clive Franks e Gary Osborne.
- Interrompemos?
  Ao ver Paul Gambaccini, parou e brincou, fingindo querer sair de novo:
- Ah, não, de novo não!
- Já terminei, garoto! Estou cansado de entrevistar astros, disse Paul, brincando também.
  Os três apertaram a mão do repórter e acomodaram-se pelo estúdio, estavam na casa de Elton.
- Quando você chegou? - Elton perguntou a Bernie.
- Ontem.
- E por que não ligou?
- Por que eu não liguei? Liguei, mas você nunca estava, caramba!
- Quantas vezes você ligou?
- Duas... Uma de Grimsby e a outra daqui, de Londres mesmo.
- Nunca estava... Deve ter ligado com espaço de quinze minutos de ligação pra ligação.
- Tá maluco? Grimsby não é um bairro de Londres.
- Vá lá... tudo bem.
- Como vai indo o álbum, Bernie? - perguntou Paul.
- Bem. “Venezuela” entrou nas primeiras cinquenta da Cash, perdendo só pra uma tal de... “Little Jeannie”, disse o letrista, gozador. (“Little Jeannie”, feita por Elton e Gary Osborne, estava em 1º lugar na Revista Cash Box). - Estou com vontade de esganar o cara que compôs quando encontrá-lo...
   Os três riram.
- Disputa interessante essa! - falou Paul.
- Ainda prefiro vê-los do mesmo lado, disse Clive. - Mesmo querendo muito que o Bernie consiga fazer carreira como cantor.
- No mundo da música vale tudo, falou Gary. - Quem quer um pedaço do bolo tem que pensar em si mesmo, mais do que em quem possa ficar por baixo.
- Falou tudo! - concordou Bernie, erguendo a mão aberta onde Gary bateu.
- Enquanto os dois estiverem concordando um com o outro, eu, com a ajuda dos dois, vou ficando por cima, disse Elton. - Não posso pedir mais nada a Deus.
   Gary e Bernie olharam um para o outro e Gary falou:
- Algo me diz que estamos sendo descaradamente explorados, Bernie.
- Faz tempo, amigo. Já estou acostumado.
  Elton riu a valer.
- Além de tudo são muito inteligentes. Eu adoro isso! Tomam alguma coisa? - perguntou levantando-se.
- O que tem? - Clive perguntou.
- Leite, água... suco de laranja, brincou Elton, indo até o bar.
  Clive fez uma careta.
- A pior parte da casa de um superstar em dieta é a adega.
- Também concordo, falou Elton. - Eu não sei por que, mas engordei mais do que antes.
- Por isso mesmo! - disse Bernie.
- A turnê te coloca em forma novamente, disse Paul.
- Começa quando? - Bernie perguntou.
- Setembro, dia 04. Estados Unidos, primeiro, depois Austrália, Jerusalém e Pequim.
- Pequim? Uau!
- Não sei se é essa a ordem. Se não me engano acho que estarei em Sidney em Dezembro, talvez. Estive com John Lennon, domingo, Bernie.
- Ele me disse.
¬- Pelo que parece, ele anda muito animado com a volta ao disco. Agradeço ao Geffen por isso.
- Não teve ajuda sua nisso, não?
  Elton serviu a todos com um copo de vinho branco, pegou o seu e sentou-se novamente.
- Não, senhor. Quem me dera poder ter feito isso. Já me dou por feliz por ser o dono do último show dele depois de tanto anos de carreira e por ser padrinho do Sean. Não peço mais nada. É honra demais pra um cara que, em relação a John Lennon, é mais um fã que qualquer outra coisa. Ele me deixa boquiaberto. Queria ter um décimo da energia que ele carrega.
- Aposto que ele diz o mesmo de você, falou Paul.
- Não, eu não falo energia física. Falo de energia espiritual. Ele tem uma força interior poderosíssima! Alguma coisa o faz diferente de todos os outros seres humanos. Essa energia o faz derrubar todas as barreiras que tentaram pará-lo em todos esses anos, e olha que foram muitas...
- Essa energia se chama força de caráter, acrescentou Bernie. - Ele não está aqui na terra pra ser só um dos Beatles ou um Beatle. Esse foi um rótulo pra classificar um contestador de todas as regras falsas de uma sociedade decadente que é a nossa. Ele é muito mais forte que muito político engomadinho que anda por aí. Conseguiu fazer a cabeça de milhões e vai continuar fazendo agora que voltou ao disco.
- Ele e a Yoko vão voltar com força total, tenho certeza, disse Elton. - E é bom a gente preparar o espírito pra ouvir o monte de baboseiras que vão dizer contra ele, ou mesmo fazer...
- Ele atropela todos eles, disse Gary.
- Tranquilamente, concordou Elton. - Isso é o que deixa a gente animado.
- Você incluiu ”Imagine” no repertório da turnê, como tinha falado? - Bernie perguntou.
- Claro! Fazer uma homenagem a ele é a minha forma de dizer que todo mundo quer que ele continue firme contando e tocando pra gente pelo resto da vida.
- Ao show do Central Park! - disse Clive, erguendo seu copo.
- À turnê inteira! - ajudou Paul, erguendo também o seu.
- E a mim, que espero aguentar quatro meses de turnê sem começar a cantar “Your Song” com o ritmo de “Philadelphia Freedom”.
- Pra isso existem improvisos, falou Bernie.
   Todos riram e o brinde foi feito. Elton tomou um ar de moleque travesso e olhou para Bernie sério, mas querendo muito rir.
- Que foi? – Bernie perguntou.
- Você se importa se eu cantá-la primeiro?
- Eu? Desde quando eu interfiro nisso?
- Eu vou entrar no palco do Central Park vestido de... Pato Donald...
   Elton trancou os lábios para não rir, sondando a reação do parceiro, mas todos os outros riram a valer, mais da expressão que Bernie fez do que de qualquer outra coisa. Era um misto de dor e ódio contidos ao mesmo tempo. Aquele ar de “você não faria isso” que ele tomava quando Elton fazia algo que ele não concordava, mas não podia evitar. Seus olhos verdes brilharam.
- Tudo bem? – Elton perguntou.
   Ele olhou para todos e respondeu calmamente, como lhe era peculiar, depois de um suspiro:
  - Elton... em 75, você tinha tentado se matar no dia anterior ao segundo show no Dodger, o estádio do meu time do coração, em Los Angeles, minha cidade do coração, e cantou essa maldita música primeiro como se nada tivesse acontecido. Deus sabe o quanto eu me arrependia de tê-la escrito pra você enquanto a ouvia na coxia daquele palco... Eu perdi faz tempo o respeito por “Your Song”. Você pode cantar até pelado, sentado no colo da Yoko que eu sei que vai estar lá. Quero que você se dane vestido do que você quiser ou não quiser. Ela não é mais sua mesmo. Você sempre diz quando canta que essa canção é de todo mundo que a ouve, não é?
   Bernie se levantou e ia se afastar.
- Bernie, espera aí! – Elton chamou, querendo se explicar.
- Fica calminho, parceiro. Está tudo bem. Vou só pegar um cigarro.
 

                    O HOMEM QUE NUNCA MORREU – PARTE 1
                                        CONTINUA...
           DEUS ABENÇOE A TODOS E NUNCA PERCAM SUA FÉ!
                               OBRIGADA E BOM DIA!

Velucy
Enviado por Velucy em 08/09/2019
Código do texto: T6739956
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Velucy
São Paulo - São Paulo - Brasil
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