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'ACOLHIDO' - Do livro Giulia- Quando a Luz se apaga

 - GIULIA! PRA ONDE???


- Ai, amor. Não grita. Tô tão exausta.


- Vamos! Vamos! - Celesta era pura excitação, mãos recostadas no apoio das cadeiras dianteiras do carro. Nando negava-se a acreditar que há bem pouco tempo a vira como um demônio saído de um dos filmes que assistira quando criança. - Siga o que Giulinha disser.


- É claro, mãe.


- Ah, amor! - Arriscara um olhar ao homem a ponto de explodir ao seu lado. - Pode ser que as coisas piorem, antes de melhorarem.


- O que quer dizer com isso??? - Giulia evitara aquele olhar raivoso que incidia sobre ela, queimando-lhe a pele do rosto esfogueado. - PORRA, EU NÃO VOU A LUGAR NENHUM! - Socava com fúria o teto do carro.


- Fernando Tomazzini, confie em mim. Vai dar tudo certo. - Ela sorria às estrelas, ouvindo-o praguejar.


Em pouquíssimos segundos estavam seguindo em direção ao desconhecido, sob as orientações difusas de Giulia.


- Siga em frente! Com cautela.



- |O que vc acha que eu tô fazendo, merda???


- Palavras chulas diante de nosso filho...


- CALA A BOCA E FAZ O SEU TRABALHO!


- À DIREITA! À DIREITA!


- CARALHO! AVISA ANTES!



- EU NÃO SOU UMA MÁQUINA!


- Um GPS seria muita mais delicado, inteligente e fácil de lidar do que vc.


- Foca no trânsito e cala a boca. Preciso me concentrar. ME CONCENTRAR.


- Deixa ela calma, meu filho. - Fernando estava a ponto de largar o carro e correr pelas ruas, de pijama e mergulhar nas ondas que ouvia ao longe, próximas ao local deserto por onde transitavam em plena madrugada. - Ela sabe o que fala.


- SEGUE EM FRENTE! E VIRA À ESQUERDA! - Ele se cansara de falar e apenas seguia suas ordens, tentando não infringir as leis de trânsito ou assassinar algum bêbado cambaleante ou um viciado que acenava-lhe lá de fora do carro, oferecendo-lhe, entre risos, um  cachimbo de crack. - "Tô no inferno", pensara antes de ouvir os gritos de Giulia que o mandava virar à esquerda, à direita, ultrapassando sinais quando não o implorava para diminuir a velocidade, pois estava em dúvida. - As vozes pararam.


- PRO INFERNO COM AS VOZES! FALA VC! AGORA! - Ela ofegava de medo. Mostrava-se segura, mas, por dentro, sentia-se sozinha, perdida, desolada, atormentada dando abertura ao mundo de trevas de onde custara a sair. - Vire à esquerda, na próxima rua. - Falara baixinho, com as mãos espalmadas no porta-luvas.


- Tem certeza?


- Shhhh...silêncio. - Cerrara os olhos e aguçara os ouvidos. - Tenho. - Soltara um suspiro de alívio. - É aqui. - Num gesto tresloucado, abrira a porta do carro e correra em direção ao um beco escuro, entre prédios antigos, abandonados que, certamente, na concepção de Fernando, eram abrigos para a escória que infestava aquela parte esquecida da cidade próxima ao cais do porto. - TIO! SOU EU! CATHY!


- Giulia! Volta aqui! - Gritara Fernando, largando o carro mal estacionado em frente a um puteiro com luzes de Neon, reluzindo como as portas do inferno. - GIULIA ME ESPERA. - Celeste, conquanto receosa, corria atrás do filho, passando-lhe a frente, francamente excitada. - MÃE, ME ESPERA!


- Venha, meu filho! - Estendera-lhe a mão como se estivessem de volta às areias da praia quando corriam juntos à cata de conchinhas. - Ele tá lá, esperando por mim! - Seu coração saltava do peito, esperançoso. - Venha!


- GIULIAAA! - Um berro rouco, alucinado ecoava por entre as os escombros dos prédios e bueiros, buracos onde sombras se moviam.


- ESTOU CHEGANDO, TIO! SOU CATHY, SUA SOBRINHA. - Diante de seus olhos alucinados, reconhecia aquele ambiente. As luzes da velas bruxuleantes, os latões de lixo que cuspiam fogo, crianças sentadas, caladas, atentas, com os rostinhos sujos e risonhos. Fixavam-se na figura iluminada, sentada em uma tosca cadeira que assemelhava-se a um trono. - Eu vim das charnecas. Atravessei o morro dos ventos uivantes por vc...- Murmurava, de olhos úmidos.


- Eu sempre soube que vc viria. - Ouvia-lhe a voz alegre, doce, rosto corado e braços abertos para ela. - Aproxime-se, Cathy querida. Junte-se a nós. - Ela seguira sua voz, como que hipnotizada, evitando pisar  nas crianças sentadas ao chão. As mãos das crianças tocavam na barra do seu camisolão, soltando suspiros de fascinação.


- "It's me, I'm Cathy. I've come home, I'm so cold. Let me in through your window." - Cantarolava enquanto deslizava os pés descalços num chão úmido, sua canção predileta. Ela chegara tão perto dele que vira o brilho de satisfação em seus olhos risonhos. Sentira o calor  causticante das chamas que os cercavam e o amor que os unia. - Que saudades, meu anjo.


Celeste e Fernando chegaram a tempo de assistir a tudo. Ele pensara estar em um outro sonho ou pesadelo. Temia acordar de repente. Temia continuar a sonhar. Os olhares dos desolados, isolados, párias, marginais, prostitutas, mendigos e até leprosos incidiam sobre ele com severa desconfiança. Quisera retroceder diante de iminente perigo.


- Não pense nisso. - Dissera-lhe a mãe, apertando-lhe a mão nervosa. - São boas pessoas. Cuidaram dele...para mim. - Dizendo isso, ela caminhara, vaporosa, em direção ao homem de sua vida. Um rei com uma coroa de flores de cetim na cor vermelha, entrelaçadas a uma base de arame com aplique de folhas verdes ao seu redor, adornavam sua cabeça. Um manto quadriculado, velho e claramente sujo, cobrindo-lhe o corpo e um cajado em sua mão direita tocara o chão por três vezes seguidas, anunciando a chegada de sua rainha.


Fernando mantivera-se distante, amedrontado, aliviado, atento aos movimentos dos ébrios e entorpecidos, espalhados pelos quatro lados daquele acolhedor depósito de lixo, moradia dos exilados.


As crianças batiam palmas, encantadas. Enfim, a história que ele havia contado sobre as fadas de sua vida tornava-se realidade ali, diante delas. A princesa de longos cabelos negros e olhos vívidos, dona de poderes mágicos. A rainha com seus cabelos reluzentes da cor do sol e um porte esguio e altivo e a bondade que exalava a cada sorriso e, enfim, o príncipe dos olhos azuis da cor do céu que percorrera as sombrias terras distantes, os bosques encantados e infestados de pequenas criaturas que comiam carne humana, havia chegado.


- Ele é lindo, tio! - Exclamara uma menina com lábios leporinos. - É um príncipe de verdade mesmo???


- Sim. - Respondera Enzo com orgulho. - Meu filho. Meu orgulho. - Fernando exalara um profundo suspiro de alívio. Ele fora reconhecido pelo pai e, antes mesmo de começar a chorar, Giulia dava-lhe a mão, beijando-lhe os nós de seus dedos.


- Eu disse que nós o encontraríamos. - Seus olhos estavam serenos e distantes daquele lugar.


- Disse...- Ele afagara seu rosto, abraçando-a com força. Ela ouvira as batidas aceleradas de seu coração doente. Contivera as lágrimas e sorrira quando um menininho com os dentes cariados e podres e olhos profundamente cristalinos, tocara em sua mão, extremamente curioso.


- Foi ele que botou essa criança aí dentro, tia?


- Fui. - Fernando agachara-se, emocionado, com a voz tenra. - Mas ela vai se encarregar em tirá-lo de lá. - A criança ria e batia palmas, saltitando de volta aos braços dos pais.


- Quero ir embora...- Giulia suplicara. - Não suporto mais tudo isso. Me leva pra casa, amor. - Lançara um olhar aos tios, abraçados, unidos, sorridentes, envolvidos pelos súditos abolidos, renegados, generosos que salvaram a vida do pai de seu filho. - Acabou.


- Graças a vc, acabou. Te amo pra sempre.


- Sempre e sempre.


***
Morgana Milletto
Enviado por Morgana Milletto em 02/11/2019
Código do texto: T6785632
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Sobre a autora
Morgana Milletto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 50 anos
41 textos (285 leituras)
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Morgana Milletto