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'PRÓLOGO' - Do livro "GIULIA - QUANDO A LUZ SE APAGA"

- A primeira noite de lua cheia, no Outono, é tempo de colher. E a primeira, na de Primavera, é pra semear. - Assentira consigo mesma, distraidamente, enquanto assistia o sol que começava a enfraquecer e a se desmanchar no horizonte. A brisa acariciante, um leve cheiro de chuva no ar. E ela amava a chuva. Desde pequena, ela amava a chuva. Dançar na chuva, deitar-se sobre o asfalto morno e deixar-se banhar pelos pingos frios das chuvas torrenciais,  repentinas e violentas das tardes de verão. Ela amava a chuva. Uma chuva que ainda demoraria horas para cair, mas que depois, cairia com gosto.


- Isso é de extrema importância.


- Foi sua mãe quem me ensinou. - Afirmara, curvando os cantos dos lábios, com a cabeça reclinada no ombro dele.


- Agora estou impressionado! - Ironizando, ria enquanto falava. - Saber que tenho que plantar na primeira lua cheia do Outono para colher na primeira lua cheia da Primavera expandiu minha consciência. - Vcs duas são uma piada.


- Vá pro inferno. - Dissera-o simplesmente, enroscando-se nele, sentindo-lhe o aroma da loção pós-barba, deliciando-se. - Um dia, vc vai entender que existem coisas além do que seus olhos podem ver, meu bem.


- Hu-hum...- Ela o vira revirar os olhos e sorriu, debaixo do braço dele. Estavam sentados na areia úmida da praia após um longo e frenético passeio pelas estradas livres, distantes do tráfego pesado da cidade, a mais de cento e cinquenta quilômetros por hora, Fernando guiando o carro emprestado do pai que dormia quando saíram de casa, às escondidas. Sentiam-se tão culpados quanto um adolescente apanhado fumando no  banheiro da escola.  Giulia aproveitara para realizar um antigo sonho: o de viajar em uma highway, cabelos ao vento, sentada na ponta do encosto de cabeça do banco do carona, braços erguidos, destemida, livre, o sol a aquecer o seu rosto exatamente como vira em "Thelma and Louise", quando assistira ao filme pela primeira vez junto aos tios. Fernando, sem pestanejar, inconsequente, acelerava enlouquecido pelo ronronar do motor, de olhos na estrada, lançava-lhe de vez em quando, olhares indulgentes. Giulia abstivera-se de sentar-se no topo do banco, aceitando o assento como sendo mais seguro em sua atual condição, no entanto, mantivera os braços erguidos, as mãos espalmadas e os cabelos esvoaçavam, cobrindo-lhe a visão enquanto ela ria, um riso solto, desvairado, sentindo o rosto ardendo, banhado pelo sol, pois o carro não tinha teto. Cantarolava "Trouble", de Lindsay Buckingham e, desafinadamente, misturava à letra da canção, declarações de amor ao pai de seu filho. Jamais imaginara que estaria ali, tão perto dele, tão feliz. Em sua mente, flashes do dia em que seu tio comprara o carro.


Tratava-se de um velho Jaguar conversível, dois lugares, bancos revestidos em couro branco. Enzo o comprara do amigo de um amigo que barganhara com o mesmo amigo que, enfim, vendera-lhe o carro por um pechincha. Giulia jamais simpatizara com o automóvel por achá-lo egoísta demais. - "Dois bancos apenas quando se tem uma família com quatro componentes! Isso é, no mínimo, ridículo! Falta de bom senso!". Era o que ela dizia, ainda aos quatorze, sempre que via Fernando, aos dezoito, a amaciar a lataria prateada, reluzente, encerada pelas mãos hábeis dele e aquele torso ainda em formação e já completamente exposto a quem quer que o quisesse ver.  - "Um dia vc vai ser meu.", ela afirmara, de si para consigo, com os olhos tristonhos, enlaçada à cintura de Celeste enquanto Fernando exibia-se,  eufórico, sarcástico, no banco do carona a lhe dar adeus. Eu te levo depois, prometera-lhe o tio, àquela época, todo empolgado e cheio de saúde. - Faz tanto tempo...- Giulia murmurou, cerrando os olhos.


- O quê?


- O carro...- Suspirou. - Lembra do dia que seu pai comprou o carro? - Ele a encarou um instante. Depois, erguera as sobrancelhas e dera uma risadinha curta e repentina.




- Ele ama aquele carro. Não sei como o emprestou...


- Ele não te emprestou. Vc pegou escondido. - Esclarecera.


- Não foi escondido. - Defendia-se, indignado, com um leve franzir da testa. - Ele estava dormindo. Não tinha sentido algum acordá-lo pra pegar algo que também é meu.


- Sei...-


- Eu sou o filho, logo...


- Eu sou a filha, logo...- Fernando lançara-lhe um olhar sereno, distante que fizera seu rosto parecer frio. - Eu sou a filha. - Ela repetira vacilante, insegura, carente. Ele a vira com aqueles olhos imensos e as pestanas que se alongavam e se encontravam nervosamente. - Eu sempre quis ser da família. - Confessara a si mesma, encolhendo-se, agarrando-se à cintura dele.


- Vc é! Sem dúvida alguma, vc é. - Beijava-lhe a testa, perscrutando os arredores com os olhos desconfiados. Percebera, então, que estavam sozinhos ali, pequeninos e indefesos, cercados pela imensidão de um mar profundo e soturno e suas marolas que batiam, num alegre ir e vir, nas rochas que se agrupavam abaixo da colina verdejante, agora iluminada pela luz amarelada e hipnótica da lua cheia.  Um arrepio percorrera-lhe a espinha enquanto ela, movendo-se lentamente, aconchegou-se junto ao seu pescoço.


- Ele ama aquele carro. - Dissera-o sorrindo e, depois, como se algo em seu corpo doesse, franzira as sobrancelhas. - Amava... - Hesitara com a boca entreaberta. - Ah! Sei lá! - Fizera um gesto displicente com mão que cobria agora o rosto, os dedos nas têmporas. Massageava as têmporas, num amassar de rosto e, em seguida, passando as mãos pelos cabelos, permitiu que duas lágrimas discretas escorressem pelos cantos de seus olhos quando ele os comprimira.  - Ama...amava. - Giulia pousara a mão sobre sua barba mal feita, suas sobrancelhas em desalinho. Penteou-as com os dedos. - Já não sei de mais nada. Tá tudo tão estranho...- Ele inspirou o revigorante sopro do mar. Expirou-o com pesar. - Já não conheço mais o meu pai.


- Ele é o mesmo, só que em lugares diferentes...- Ele se afastara dela para vê-la melhor. Ela olhava para ele, embora não o visse. Seus olhos estavam difusos, desfocados. Aquela expressão aérea e a voz quase num sussurro. - A essência é a mesma e, às vezes, se perde na escuridão.


- Como sabe? - Ela esticara o tronco, concentrando-se nas nuvens negras que se amontoavam no céu e vira um reflexo de um relâmpago longínquo. - "De onde surgiram tão rápido?", pensara Giulia, intrigada.


- Não sei como sei só sei que sei. - Agora roçava sua face nos pelos do braço dele - Ele vai melhorar. Eu sei...


- Ele vai piorar, Giulia. - A voz dele era fria, desoladora. Os olhos vagos, perdidos. Giulia enfiara os dedos de sua mão entre os dele. Ele apertara-lhe a mão com tanta força que chegara a doer. - Só vai piorar daqui por diante. E vc sabe disso. - Beijara-lhe os nós dos dedos, lançando-lhe um olhar sombrio. - Não sabe?


- Sei de nada não! - Exclamara, atônita. - Eu, hein! Parece que bebe!


- Quando vc tem que ver as coisas não vê!


- Não grita na minha cara! - Afastara-se arrastando-se na areia tal qual uma morsa gigante e enfurecida. - Estúpido! Eu não sou uma bruxa! - Erguera as mãos em súplica. - Me ajuda a levantar! - E como ele a ignorara, baixou os braços, cravando as mãos nos grãos de areia.


- O médico disse que ele vai perder todas as funções do corpo...e depois...- Giulia jogara o corpo para trás, apoiando-o nos braços. Esticara as pernas quando ele, mergulhado em pensamentos, dissera numa bizarra lentidão. - Com tanta gente ruim por aí...por que com ele? - Fernando erguia os olhos angustiados aos Céus, os joelhos entre os braços, repetia, amargurado. - Por que com ele?


- Fernando...


- Por que com ele? Por que com ele? - Batia, com força, a testa nos duros ossos dos joelhos e, como se houvesse perdido a razão, continuava, insolente, entredentes. - Por que...com...ele???


- Fernando! - De gatinhas, ela seguia em sua direção.


- Por quê!? - Ela o vira cerrar os punhos, trincar os maxilares  enquanto todo seu corpo estremecia. - Por que com ele!?


- Fernando...- Sussurrava, assustada e, quando mal chegara a tocar em seu rosto transfigurado pelo ódio, ele, de súbito, contraíra os olhos, baixando a cabeça, olhando para ela por baixo das sobrancelhas. - Meu...- Ela levava a mão ao peito.


- Ele não está aqui. -  Fernando baixara a voz, dura, seca, ameaçadora. - Seu Deus não está aqui.


Giulia elevara os olhos aturdidos, desorientados e, somente então, pudera ver um movimento turbilhonante de asas que farfalhavam e se mesclavam umas às outras, chocando-se intempestivamente, freneticamente, alucinadas sobre suas cabeças. Asas negras como a noite. Asas longas e negras e olhos pequeninos e amarelados como a luz da lua que, há pouco, os embalava. Giravam e giravam e subiam vaporosos para, logo em seguida, descerem furiosos, planando sobre ela que não fora tocada por suas garras e dentes afiados. Ela apenas os via, cercando-os no sentido horário, velozes, leves, incontroláveis, perturbadores. Ela os afastava com os braços, as mãos que, em vão, tentavam tocá-los. Mas eles não a queriam. Não naquele momento. O vento soprava e um trovão soou longe. Aproximava-se uma tormenta.


Fernando nunca fora religioso. Nunca pensara no que haveria após a morte. Nunca precisara pensar nisso. Perda de tempo, ele dizia. Sempre vivera sem pensar em morrer, aproveitando cada minuto de prazer que a vida poderia lhe dar. Jamais lhe ocorrera que os pais fossem mortais. Não que os achasse sobrenaturais. Apenas evitava gastar seu precioso tempo com questões fúteis como vida após a morte, anjos, santos, demônios, duendes, fadas, fantasmas, missas, orações ou mesmo o Criador que, segundo ele, não deveria existir, pois Sua existência nunca fora comprovada pela Ciência. Em nada acreditava além da Matéria e, por mais que Celeste houvesse se empenhado em despertar-lhe a Fé, acreditava somente em si mesmo e o fato de ver seu pai partindo aos poucos e de uma forma tão cruel só o fizera crer que sempre estivera certo. Nada mais seríamos além de poeira ao vento. Joguetes nas mãos invisíveis de um ser que se aprazia em ver o sofrimento alheio. É isso o que nós somos, ele pensara.


- FERNANDO! - Ela o ouvia claramente e enquanto o ouvia, percebia as sombras que se avizinhavam, que o incitavam, que o alimentavam de sentimentos pequenos, vazios, mesquinhos, rasos, sujos, fétidos. - Olha pra mim! - Ela o via agora absolutamente tomado pela densa névoa negra que o envolvia, o acolhia, o abraçava. - OLHA PRA MIM! - Gritara diante dele, de joelhos enterrados na areia fofa, apoiada em seus ombros.  Os olhos dele distantes por um segundo, por apenas um segundo, mostraram-se nebulosos, escuros, repletos de maldade como ela jamais os tinha visto. - Olha pra mim, amor...- Falara baixinho, mãos em seu rosto, a testa dela encostada a dele e ele que se mantinha inerte, olhos fixos no Nada. - Não ouve...não ouve o que eles falam. - Ela lhe implorava, abraçando-o, intrometendo-se, interferindo, interpondo-se, protegendo-o da Escuridão que ora se distanciava, desfazendo-se em pequenos pontos alados ora agrupava-se, de volta à mente dele. - Não ouve. - Num desespero, tampava-lhe os ouvidos, embora soubesse que ele os ouvia por outros sentidos. Em meio ao caos repentino, tentava entender quando tudo tivera início e porque havia começado. Ela conhecia aquele mundo, ele não. Ela se entregava a pensamentos nefastos, abrindo portas aos do Outro Lado. Não ele! Ele não! Ele não! Giulia os avisava, cerrando os olhos, forçando um contato, telepaticamente. Nada. - Fernando...


- Qual a graça nisso tudo? Vc manipula, joga, altera as cartas. Faz as regras. Muda as regras. Vc mata um aqui e faz outro nascer ali. Muitos vivem em abundância enquanto muitos morrem na miséria. Que bonito! Parabéns. Seu senso de Justiça é uma merda! Uma merda!


- Fernando, me ouve. ME OUVE. - O corpo dele sacudia sob a ação desordenada das mãos de Giulia em seus ombros, braços, mãos. - Uns são perfeitos enquanto outros, rastejam pelo chão. Isso é Justiça? É Amor? Bondade? Perfeição? Minha mãe tentou me apresentar a vc...


- Meu Deus...- Giulia suspirou, enlaçando-o pelo pescoço quando ouvira outra voz, grave e gutural falando através dele. Era a mesmíssima voz que saíra da garganta de sua tia na noite em que vira o Mal tornar-se pessoa naquela cozinha.  - Eu não vou te  deixar. Não vou te deixar. - Repetia, grudada ao seu corpo, rosto colado ao dele. Seu peito junto ao dele sentia-lhe as batidas descompassadas e o hálito quente que vinha daquela boca agora retorcida arrepiava-lhe os pelos de sua nuca. - EU NÃO VOU TE DEIXAR. - Berrara, de olhos bem fechados, em meio a uma tempestade de vozes, lufadas de vento e, ao fundo, o doce som das ondas de cristas brancas, ritmadas, cadenciadas, indiferentes. O vento agora uivava e a chuva, num repente, caíra forte, açoitando seus corpos molhados, abraçados, unidos. Fernando tinhas as mãos geladas, o rosto pálido, os olhos acesos. A voz contundente e rouca prosseguia enquanto Giulia resistia, presa a ele.


- Minha mãe tentou. Ahh...ela  tentou. Mas eu não O aceitei naquele época e, certamente, não O aceitarei agora. Não. Não mesmo. Ó, Todo Poderoso! Aquele que tudo vê. Que a todos perdoa. Onipotente, onipresente, onisciente. Majestade, Divindade, A Santíssima Trindade!


- Deixem ele em paz...


- O Pai, o Filho e o Espírito Santo. E o seu pai? E o meu pai? Morto, sepultado, esquecido, aterrorizado, sozinho debaixo da terra úmida, podre, os vermes...


- DEIXEM ELE EM PAZ! - Fernando agora ofegava e soluçava e ria e chorava, aturdido, desarrazoado, os braços que a seguravam contra si. Os olhos que ora recobravam o juízo ora o perdia. - Parem com isso. De onde surgiram???


- Por que meu pai? Por que seu pai? Por que não outro? - Ela ouvia a voz de seu amigo de infância mesclada a uma outra, mais forte, mais dura e terrivelmente debochada. - Porque Ele sabe o que faz. Ele conhece tudo e gosta de brincar. Porque ele quer seu pai somente para si. É somente mais um brinquedinho nas grandes mãos d'Ele, Fernando. Vc sempre soube disso e agora vê que tenho razão.


- O que ele te fez? Ele é bom. Não é como eu. Deixe ele em paz! - Giulia, de olhos bem abertos, enxergava além. Antes eram dois, agora quatro, logo mais, já se formava um grupo de oito a dez. Ligavam-se a ele por um fio cinzento, viscoso, apertado, atado a Fernando, na altura de seu umbigo. Estavam ali, de pé, isolando-os, formando um círculo macabro. E dentro daquele círculo, Giulia pudera vislumbrar o inferno e os que lá habitavam. - Eu te amo...te amo. - Desesperava-se vendo-se sozinha entre tantos e, sem saber lutar contra tantos, ao mesmo tempo, beijava-lhe os olhos, o nariz, a boca, o queixo. - Pensa no nosso filho. - Murmurava-lhe, sofregamente, ao ouvido. - Qual o nome que vc quer dar a ele, amor? - Sua voz trêmula, seus lábios comprimidos. Ele não te ouve. Não vê? Os olhos não se movem. Eh, bien! Finalmente conseguimos alcançar o menino. Ela dava as costas aos visitantes indesejados, ajoelhados, os olhos em chamas. - Fernando, meu amor...seu filho. O nome dele...- Sua voz entrecortada por soluços. Os olhos devastados pelas lágrimas, os cabelos desgrenhados, chicoteados pelas rajadas de ventos cortantes. - Escolhe, amor...um nome. Escolhe! ESCOLHE! Continue. Vamos lá! Continue! Talvez ele saia do transe. - Não ouse tocar no meu filho! - Girava o pescoço instintivamente e, arrependida por manter os olhos abertos, pensara que jamais se esqueceria daquele rosto patibular e do sorriso que exibiam os dentes pontiagudos, olhos pacientemente malignos e perigosos como os de um crocodilo. - Tristan? É esse, amor? DIZ FERNANDO! É ESSE? Castiel ou Tristan? Castiel ou Tristan? Castiel...


- Nem um nem outro. - Ele dissera baixinho, olhos que a fitavam com um misto de ternura e preocupação. Afagava-lhe a barriga, abrigando sua cabeça entre as pernas. - Vc mesmo dormindo fala pra cacete! - Exclamara entre risos e porque ela não conseguia erguer-se de pronto, ele a ajudara a sentar-se ao seu lado. Ela, de súbito, ajoelhara-se, apoiando-se nos calcanhares. Os olhos incrédulos. - Por que tá me olhando com essa cara??? - Ele enxugava seu rosto úmido de suor.


- Vc...vc não viu??? - Ele recuara o tronco nitidamente desconfiado daquela expressão de pavor no rosto dela. - Não viu??? - Repetira voltando os olhos à paisagem bucólica. Erguera a cabeça ao céu límpido, estrelado, a lua que nadava no mar. - Vc...vc realmente...


- Que porra de nomes ridículos vc escolheu! Tristan??? - Sua gargalhada fora levada pela brisa leve e inocente. - E de onde tirou Castiel?


- Não tô achando graça. - Céus! Ela estava arquejante. Curvava-se sobre o filho, envolvendo-o com os braços, baixando a cabeça. - Eu tenho certeza...


- Amor, vc tá tensa. - Ele a tocava nos ombros desfazendo os nós de suas costas enquanto ela soltava pequenos gemidos de alívio ainda tentando entender o que havia visto. - Trata de pesquisar outros nomes, tá bom? E joga fora esses dois.


- Nem pensar! - Desvencilhava-se de suas mãos, embora ainda as quisesse em seu corpo. Estava tão relaxante e, depois do que vira e do medo que experimentara, uma mão forte e habilidosa desfazendo-lhe as tensões eram sempre bem vindas. - Castiel  ou Tristan?


- Lúcifer!


- FERNANDO! - Repreendera-o, voltando-se para ele, deitada, de pernas para o ar. Ocorrera-lhe que havia um algum tempo que não as via. Nada mal pra quem não dança há séculos. - HEREGE! - Seus olhos flamejantes o consumiam. - Vc é louco!


- E vc sabe que quando grita vc me excita, né? - Ele se aproximara, de mansinho.


- Fernando! Tenha dó!


- O quê!? - Rolara o corpo sobre o dela, apoiando-se nos braços. O corpo quase colado ao dela. Retesava os músculos dos antebraços porque sabia que aquilo a excitava. Pornográfico. Pornográfico, convencido e canalha, ela pensava enquanto ofegava tentando sair dali, debaixo dele. - Vc já deveria saber que se casou com um garanhão. - Abrira um lento sorriso.


- Eu ainda não me casei! - Algo nele ainda a incomodava.


- Mas vai! Semana que vem! E é bom se acostumar...- Apertava-lhe o nariz. Ela o xingara de todos os nomes exceto o dele. - Vc fica linda nervosa, irritada, excitada...


- Não estou excitada, Fernando! Eu tô uma baleia! Uma baleia encalhada, Fernando! - Exclamara num tom dramático, o braço que escondia o rosto. - Me deixa sair. Eu tô sem ar.


- Vc ouviu a doutora falando! - Sua boca roçava no pescoço de Giulia enquanto falava. Ela se inquietava, chutava o ar com as pontas dos pés de bailarina e ele, por estar se excitando ainda mais com tudo aquilo e porque estava francamente feliz ao lado dela e da perspectiva de uma vida que começariam juntos, continuava. - Sexo na gravidez é super recomendado.


- Sai de cima!


- Aproxima o casal, melhora o humor por conta da liberação das endorfinas...- Ela, por querer respirar, gritava em seus ouvidos. - Diminui a irritabilidade bastante comum nesta fase...- Ele, num salto, pusera-se de pé, erguendo-a, pelos dois braços, com rapidez e prudência. Ela se firmara sobre as pernas ainda grossas e bem delineadas. - Ela simplesmente desaparece.


- SEI! - Ela o empurrava para o lado e caminhava ao encontro das águas. Sobre a areia escura e porosa, seus pés desapareciam como que por encanto.


- E... - Fernando fizera uma pausa dramática andando lentamente em sua direção. Uau! Ele não perdia aquele jeito cafajeste de andar e falar e sorrir e mover aquele Pomo-de-Adão, tudo ao mesmo tempo. Ele a confundia. Após anos, ele ainda a confundia. - Eleva a autoestima. - Lambera seu rosto. - Humm...salgadinho!


- Nojento!


- Vc sabia que algumas grávidas não aprovam os novos contornos corporais???


- Não me diga!


- Digo sim! - Ele a abraçara, jogando-a para trás. Ela dera um gritinho de susto e euforia. - Seus contornos continuam perfeitos...



- Para uma vaca, sim!


- Pra mim, Giulia...pra mim.



- Fernando! POR SAN JUAN DIEGO! VISTA ESTA CAMISA!


- Se vc me der o que eu quero, talvez eu aceite Tristan. - Ela riu, ruborizando. - Mas, Castiel nunca!


- Me solta...


- Na água, vc é tão leve.


- Na água, vc não é tão viril. - Ela levara os olhos para baixo, fixando-os no jeans molhado, com o botão aberto. - Água fria...- Fizera um muxoxo de desprezo. - Duvido...


- Tem certeza?


- FERNANDO! NÃO SE ATREVA A COLOCAR ISSO DENTRO...


- Tarde demais...- Ele gemera de prazer. Ela arqueara o corpo para trás e vira as estrelas, segurando-o pelo pescoço. Fora breve, calmo, reconfortante. Seus cabelos mergulharam nas águas plácidas e escuras e ela sentira um alívio profundo enquanto ele a preenchia com um líquido quente, inebriante, relaxante. - Me promete uma coisa? - Ele ainda a segurava no colo, os corpos unidos e imersos na água salgada.


- Sim. Qualquer coisa. - Ela falara contra sua boca. - O que pedir, eu dou. Estavam tão conectados.


- Depois que o nosso filho nascer, vc vai se tratar? - Giulia baixara a cabeça, exalando um longo suspiro. - Vc não pode ficar tendo esses surtos, amor. É perigoso pra vc. E me faz sofrer...


- Eu sei. Prometo. E vc...


- O quê?


- Me promete uma coisa?


- Fala.


- Cuida do teu coração. Nosso filho precisa de um pai saudável pra brincar com ele. - Ele a vira num desespero mudo e beijando-lhe a ponta do nariz, assentira com a cabeça. - Meu coração é seu.


- Não oferece de novo senão eu aceito.


- Aceite.


- Se eu aceitar, amor, vc morre.


- De que vale a vida sem vc? - Ele fora pego de surpresa por aquela confissão de amor tão sincera, profunda e verdadeira. - Meu coração é seu. - Repetira, entre lágrimas. - Nunca se esqueça disso. Nunca. Vc me entendeu? - Ela o encarava com os olhos cheios de amor e uma necessidade de que ele entendesse o que estava nas entrelinhas. As mãos dela apertavam-lhe o rosto,  sua boca tocava a dele com suavidade. - Um dia, vc vai entender.


Caminharam de volta ao carro, de mãos dadas, olhos risonhos, passos largos, preguiçosos, os pés que chutavam a areia, os risos estridentes, os abraços e rodopios, os gritos eufóricos, a Felicidade que acenava para eles, de longe.


Próximo ao carro, uma lufada de ar quente, um sussurro cavernoso, um arrepio na nuca.


- Ainda não terminou...





Morgana Milletto
Enviado por Morgana Milletto em 09/11/2019
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Sobre a autora
Morgana Milletto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 50 anos
40 textos (274 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/11/19 13:45)
Morgana Milletto