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'MORGANA - VOLUME II - E O AMOR ME ENCONTROU'

O AMOR ME ENCONTROU


Acordara em uma cama de casal, com lençóis brancos e limpos. Cheiravam à lavanda. Isso! O inconfundível aroma da Lavanda me perseguiria pelos séculos afora. Vestia um camisolão igualmente branco com mangas bufantes e três graciosos botões perolados entre os seios. Uma coberta de lã protegia-me do frio, da fúria do vento que soprava lá fora, forçando sua entrada pelas janelas em madeira daquele quarto simples e aconchegante. Havia uma lareira cujas chamas estavam prestes a se extinguirem. Ainda confusa e com dores pelo corpo, tivera dificuldade em entender onde estava e como fora parar naquele quarto onde me sentira segura e em paz, pela primeira vez em muitos anos.



Talvez estivesse morta. Lembrava-me das flores vermelhas, de minha mãe e de seus olhos reprovadores. A falta de ar, as convulsões e a Escuridão que viera logo em seguida. Jamais poderia supor que ele havia me salvado da morte...pela primeira vez.



Meu Giovanni voltara por mim. Tomara-me em seu colo, levando-me a um lugar seguro e, baseando-se em seu vasto conhecimento em plantas e ervas, Química, Física, Biologia e, mais recentemente, tendo-se formado em Medicina, trouxera-me de volta à vida, com habilidade e rapidez. Mais tarde, confessara-me que usara mais do que apreendera na Universidade de onde regressara havia pouco. Alquimia!


Um homem livre, sem preconceitos e com um imenso coração, entregava-se aos estudos da Ciência e aos assuntos que, por ela, eram repudiados.



Algo havia acontecido, pois não me lembrava de nada...absolutamente nada do que passara antes dos botões de flores rubras que ingeri desejando a morte. Tentei, tentei e tentei recordar o dia em que saíra da casa de meus pais.



Vira-os em pé, sob o alpendre de madeira, acenando para mim com os olhos risonhos. Vira minha mãe a chorar amparada por meu pai que me acenava, encorajando-me a seguir adiante, levada por uma senhora distinta que me tratara com ternura, ensinando-me a bordar, costurar, cozinhar e curar os enfermos, os pobres coitados, moribundos, contaminados pela peste negra. Que coisa estranha, eu pensei. Sorria reconfortada, afofando o travesseiro com as mãos que resvalaram em meus cabelos, agora, sedosos, cheirosos. Meus cabelos estavam mais macios do que nunca e tinha um cheirinho de pêssego!!!! Diabos! De onde aquilo havia surgido??? Eu não me lembrava desta fragrância em meu lar. Cerrara meus olhos, deixando que as novas memórias tomassem conta de minha alma. Algo, lá no fundo, avisara-me de que seria o certo a ser feito: esquecer-me do passado e viver o presente. Um presente que a vida me oferecia em uma bandeja de ouro. Sem entender bem o motivo, passara  acreditar no Criador e em Seu filho, o Crucificado e a Eles, agradecia todos os dias pela bem-aventurança de estar ali, ao lado de Giovanni, vivendo sob o mesmo teto, comendo da mesma comida, lendo os mesmos livros, embora com maior dificuldade do que ele que, sempre paciente, ensinara-me tudo o que eu poderia e deveria saber para me manter viva nos dias sombrios em que então vivíamos.



Quando me resgatara da floresta, com o corpo marcado, machucado, enfraquecido, Giovanni deixara para trás a sua vida bem como sua família que o amava muito e, por serem profundamente rígidos e orgulhosos de sua casta, jamais me aceitariam entre eles. Eles os abandonou a todos por mim! Por mim! Não é incrível??? Eu sei que parece um tanto egoísta de minha parte me alegrar com sua tristeza, mas...pro inferno! Ele preferiu a mim e disso eu jamais me esqueceria. Deveria ter agido de outra forma...


Não me lembrara de meu passado, porém, uma voz atordoava-me murmurando-me a todo instante que eu não valia tanto esforço. Tanto sacrifício. E ela estava correta.



Levara dias para que eu pudesse olhar em seus olhos sem ouvir a minha consciência a me culpar pela vida simples que ele, acostumado à riqueza, passara a viver ao meu lado. Agia como se houvesse nascido entre nós, os pobres, os deserdados da sorte. Cuidava da terra com as próprias mãos, semeando e colhendo o que plantava e, com um sorriso que me deixava de pernas bambas, entregava-me o que deveria ser preparado para as refeições em nosso modesto lar. Era nosso! Eu sei que era dele, mas era nosso! Eu morava lá, logo, era nosso...sim. Nosso.


Uma casa com amplas janelas de onde eu avistava, encantada, um extenso e ondulante gramado, o colorido jardim de pedras e, mais adiante, o vertiginoso vertedouro das rochas que mergulhavam até as profundezas do mar. Ele gostava daquele cenário dramático, dos declives perigosos, do mar agitado. Na biblioteca, com o teto abobadado e as paredes repletas de estantes de livros, ele costumava passar horas em seus momentos de descanso. Era precisamente nesses momentos que eu o espiava, recostada ao batente da porta, cativada por seus olhos serenos e quase sempre tão sérios que me impediam de pular sobre ele, abraçá-lo, beijá-lo, passando minhas mãos afoitas em seus cabelos sem corte, embaraçando fio a fio, confessando meu profundo amor por ele.



- Não prefere se sentar antes?



- Pelos deuses! - Levei a mão à testa com tanta força que chegou a estalar. - Lá vem vc com essa mania irritante de ler o que penso!



- Não li nada. - Ele me olhou por sobre os óculos e, por Deus, eu teria me despido ali, diante dele, se continuasse a me fitar daquele jeito. - Mas...- Continuara, rindo às gargalhadas. - Se continuar a pensar com tanta intensidade, não terei como evitar. - Então, enchera-me de coragem e após meses juntos, onde contive minha impulsividade ao máximo a fim de não o incomodar, sentei-me ao seu lado, sobre o espaldar da cadeira e, após um longo suspiro, fitando de cima a baixo, disparei.



- Vc tem nojo de mim???



- Por que teria??- Largara o livro sobre a escrivaninha, cruzara as mãos sobre os joelhos abertos e me lançou aquele olhar onde se lia "Mulher, não brique comigo" ou "Por Deus, me deixe em paz". Eu me odiava por não ter a mesma facilidade que a dele em vasculhar as mentes alheias, pois se a tivesse, não emudeceria feito uma parva, ruborizando quando ele sorriu. - Mulher, não brique comigo.



- Jesus! - Arquejei de surpresa, recuando o tronco, um tanto excitada com o tom sedutor de sua voz. - Acho que nunca vou me acostumar a isso...



- Vc quer saber como...- Furiosa, jogara meus cabelos para o lado e sentara-me em uma cadeira em frente a ele, sem lhe dar chances de fugir. Embora ele parecesse bastante confortável, recostado à sua poltrona de couro com o espaldar alto. - Como veio parar aqui?



- Não me lembro de nada, Gio...- Este seria seu apelido. O nosso apelido, mas, diante do olhar enigmático dele, voltei atrás. - Gio...vanni, não me lembro de absolutamente nada antes de ter comido aquelas frutinhas. Como eu poderia? Pareciam tão deliciosas e eu estava faminta e cansada e tão abalada que simplesmente...não me lembro de nada! - Falei tão rápido que poderia ter partido minha língua ao meio caso meus dentes a encontrassem.



- Não eram frutinhas, amor. - Vc disse "amor"??? Eu ouvi "amor"??? REPITA! - Eram "Taxus Baccata". - Esclarecera, entre risos, e os olhos comprimidos como a esquadrinhar minha cabeça. Aquilo irritava-me absurdamente. Rir de minhas perguntas ou de  minhas expressões faciais não era digno de um cavalheiro. Poderia esbofeteá-lo a qualquer momento. Poderia sim. Depois, trataria de suas bochechas avermelhadas com beijinhos. Despertara de meu transe idiota com um sorriso ainda mais idiota em minhas faces contraídas. - Plantas venenosas mais conhecidas como Teixos. - Lançara-me seu olhar complacente. - Certamente vc a ingeriu sem conhecer suas propriedades, não é mesmo?



- Certamente! - Repliquei arremessando-lhe ao rosto o pano de prato que trazia comigo. Ele o pegou no ar, com destreza e suavidade, olhando-me com aqueles olhos negros, incisivos. POR DEUS! ME POSSUA! - E por que vc acha que eu ia querer me matar? É sério! Eu não me lembro de nada, Gio. - A sobrancelha questionadora dele me fizera gaguejar. - Gio...Giovanni!



- Pode me chamar de Gio. - Tocara em minhas mãos. - Eu gosto. - Ronronou enquanto sorria do rubor em meu rosto. ESTÚPIDA! Vá! Fale algo que o provoque! Que o tire deste estado de...de...de quase morte! Agora ele gargalhava, devolvendo-me o pano dobrado em quatro partes. E como se soubesse do suplício pelo qual eu estava passando naquele momento, diminuíra a intensidade da gargalhada, transformando-a num sorriso melancólico. - Eu te respeito, Morgana.



- Respeite menos! - Seus olhos quase pularam de suas órbitas. Eu ri de bater as mãos nas coxas.



- O que quer dizer? - Engolira o riso imediatamente, inflando as narinas.



- Nada! - Torcia o pano como se o fizesse ao seu pescoço. - Quem me deu o banho?



- Que banho??? - Aham! Agora foi o senhor que ficou vermelho! - O banho, Giovanni! Disso eu me lembro! - Hesitei por segundos, à cata de outras memórias antes desta. - É! Isso mesmo! Houve um banho! E...e é só disso que me lembro. - Suspirei, enfadada.



- Ahh...o banho. - Pigarreou, ajeitando-se no assento, passando a mão pelo cabelo e sua franja voltara aos olhos. Contive, pela segunda vez, um impulso feroz em estapear-lhe as faces. Por que esta ânsia estapafúrdia em ferir aquele rosto tão lindo, a pele bronzeada, a barba por fazer. SENHOR! - Fui eu, ora bolas!



- O quê?


- O BANHO, MORGANA!


- Ora! Não fale assim comigo!


- Perdão...- Notei que minha presença o incomodava de uma maneira peculiar, pois ele estava ofegante quando me respondera, numa tentativa patética em se controlar. SOLTE-SE, HOMEM! - Quem mais poderia ter sido? Vc precisava ser limpa e eu, como médico, creio saber limpar um corpo ferido.



- UM CORPO FERIDO??? - Recuara, ofendida, antes de avançar sobre ele com fúria e o orgulho de mulher, massacrado. - É isso que sou para vc, Sr. Salviatti??? Um corpo??? Um amontoado de carnes, ossos e gordura.



- Pouquíssima gordura. - Atalhou, desviando os olhos aturdidos ao chão. - Pouquíssima...



- Não brinque comigo!



- Não brinco!



- Vc me faz rir mesmo quando estou com raiva!



- Vc não está rindo!



- Mas eu quero!



- Então ria!


Após alguns instantes de um silêncio constrangedor, gargalhamos juntos. Aproveitara-me do momento para me aconchegar, me aproximar dele. Arrastei vigorosamente a cadeira até o meio de suas pernas ainda abertas. ACORDE, HOMEM!


- Vc me faz rir. - Ele riu. - E é por isso...



- Prossiga! - Erguera meu queixo e vira seus olhos brilharem de luxúria quando mergulharam numa rapidez absurda bem no meio do decote de meu vestido. - Vamos! Por que ri de mim??? Acaso tenho cara de palhaça??? Sou feia demais??? Burra demais??? Vamos!



- Fique calma...


- NÃO ESTOU NERVOSA!


- Eu imaginei.



- Por que não tocou em mim até hoje??? - Por Deus, escapuliu. E o pior fora não saber decifrar aquela expressão em seu rosto pálido, a boca entreaberta, os olhos fixos nos meus. ISSO É MEDO OU DESPREZO??? - Por que, mesmo durante o banho daquela noite em que cheguei aqui, vc não me tocou?



- Meu anjo...- Ele dera um gemido dolorido. Então compreendera a extensão de seu amor e respeito por mim, pois seus olhos se encheram d'água. Havia algo naquela noite que o fizera sofrer. - Vc estava tão machucada e...que tipo de homem vc pensa que sou? - Perguntara francamente ofendido. - Tocar em uma mulher sem o seu consentimento? Tocar em vc quando sofria tanto?



- Perdão. - Murmurei arrependida, cabeça baixa, mãos nervosas ainda enroscadas ao pobre pano amassado, quase triturado. - É que eu...eu não me lembro de nada e é tão confuso não se lembrar de nada. Será que foi o efeito da planta??? - Meus olhos se arregalaram e eu tenho a certeza de que estava medonha aos seus olhos. Aprumara-me na cadeira, alisando a saia de meu vestido florido com corset e cadarços em torno de minha cintura. Eu estava um espetáculo e fora ele quem o havia comprado para mim! Como ele soube que eu sempre sonhei com um daqueles??? - Por que me olha deste jeito? Não gosto que me olhe deste jeito! - Ele inclinou lentamente a cabeça para mim e um sorriso no canto da boca surgira junto à sua covinha irresistível. Diabos. - Não ria de mim! Por que não me quer??? Por que não me toca??? Acaso não gosta de mulheres ou o problema é só comigo??? - Esperei ansiosamente por uma resposta, temendo-a e, antes que eu pedisse para que ele se calasse, com sua voz suave e sempre controlada, declarou.


- Não. Não tenho atração por homens. Prefiro as mulheres.


- Ah! - Revirei os olhos piscantes. As lágrimas amontoavam-se em minhas pestanas, mas eu não o deixaria me ver chorar, pois estava claro que o problema era comigo. Única e exclusivamente comigo! FALE LOGO E ME MATE EM SEGUIDA, DEMÔNIO! - Com licença! - Levantei-me de súbito. Ele me impedira de girar meu corpo e seguir em direção à porta. - Eu preciso ir! Deixe-me!


- Ir aonde? - Aquele olhar novamente. Por que me olhava com carinho se não me tocava? Não me queria?


- Solte a minha MÃO!


- Nunca!



- Vc está rindo???


- Eu pareço estar rindo? - Perguntara-me rindo.


- Eu te odeio! Digo...eu te agradeço pela bondade com que me tratou até agora, mas...eu te odeio!


- Uma pena...- Uma ira perigosa apossara-se de mim repentinamente a ponto de me fazer cravar as mãos naqueles fios desalinhados, sedosos, cheirosos...- Isso dói.


- Preste atenção ao que direi, Sr. Salviatti!


- É melhor não apertar tanto! - Alertara-me, baixinho. Eu estava tão excitada quanto aturdida. Aquele homem à minha frente me fitava com laivos de ternura e paixão, conquanto não movesse um músculo para retirar minhas mãos de seus cabelos. - Existem caminhos que, quando seguidos, não há como retornar ao ponto de partida.


- Ora, bolas! - Sorri sarcasticamente. - Não me venha com aquelas idiotices de Filosofia que fui obrigada a ouvir de vc, seu calhorda! - Afrouxara meus dedos e agora, afagava-lhe o couro cabeludo. Exultei quando o vi mordiscar os lábios, ofegando bem próximo à minha boca. - Eu lavei, passei, cozinhei e até aprendi a ler em Latim! Para quê??? Eu não sei, meu querido, porque a língua é morta! O que fazer com uma língua que não se fala mais???  - Sentira suas mãos fortes envolvendo-me pela cintura, vasculhando minhas costas enquanto eu me apoiava, agora, na gola de sua camisa, pois minhas pernas negavam-se a permanecerem eretas. - Vamos...- Suspirei, ofegante, no mesmo ritmo em que ele respirava. Seu hálito quente, sua boca macia encostava-se à minha bochecha. - Ademais, creio que, como empregada desta casa, mereço um salário!


- Um salário. - Repetira, num gemido.


- Sim! - Gritara quase cuspindo em seu queixo. Estava prestes a explodir de desejo e ele nada fazia. - Um salário pelos trabalhos forçados...


- Forçados.


- PARE DE REPETIR O QUE FALO! INFERNO! - Ele erguera as mãos espalmadas e logo as baixou num gesto de trégua.


- Eu pago.


- NÃO QUERO! ENFIE SEU DINHEIRO...


- Não fale. - Balançara a cabeça, reprovando-me como se eu fosse uma criança. - Isso é feio.


- O que me importa se é feio ou bonito! Acha bonito fazer o que faz comigo??? - De mãos na cintura, eu requebrei, perdendo todo o senso da realidade. - Ou melhor, o que não faz??? O que as outras têm que eu não tenho???


- Outras??? - Levara as mãos à nuca e seus dentes brancos deixaram-me ainda mais perturbada. - Por que...por que não me quer?


- Cala a boca. - Ordenara num murmúrio rouco, as mãos em minhas bochechas.


- Cale vc...- Gemi, estremecendo, quando suas mãos deslizaram até a minha nuca. Alisava, com o polegar a parte posterior de minha orelha e eu poderia incinerá-lo com meus olhos em chamas. - Seu biltre...


Ele roçou os lábios sobre os meus, uma, duas, três vezes até que eu os entreabri, convidando-o a me provar. Era mais do que eu esperava. Ele não só apreciava estar com mulheres como era a mim que ele desejava. Livrei seus cabelos de minhas mãos loucas enquanto a boca dele movia-se para aceitar o que lhe oferecia. Seu gosto era tão doce, tão quente, acolhedor e excitante. Sua pele macia. Seu corpo estava tenso contra o meu quando ele desfez, sem retirar seus lábios dos meus, o laço de meu vestido. Odiei aquele corset maravilhoso naquele instante. Pensara no tempo em que levaria até livrar-me de todas as amarrações e do laço que deveria transpassar as mais de vinte casas e seus ilhoses.


- Um pouco difícil...- Murmurei contra sua boca. - Mas não desista Por favor...não...por favor. Continue... - Ele apenas sorriu enquanto se abaixava para me beijar de verdade. Um beijo profundo, explorador, que era tanto excitante quanto tranquilizador. Não me lembrava de ter sido beijada assim antes dele. Não. Na verdade, não me lembrava de nada antes dele e aquilo era aterrorizante e maravilhoso ao mesmo tempo. Pensar que minha vida começava do zero a partir daquele beijo era-me simplesmente divino. Foi quando o tempo parou de existir. Havia apenas aquele momento em que nossas bocas se encontraram avidamente. Toquei-lhe os cabelos, os dedos mergulhando nos fios totalmente desalinhados, os pelos pontiagudos de sua barba de dois dias arranhavam minha pele do rosto e nunca uma dor fora tão  bem vinda quanto aquela.


Enfim, ele chegara à última casa do corset infernal e livrando-se dele com ferocidade, abrira por inteiro, o vestido largo, de mangas bufantes. Parecia enlouquecer com a visão de minha nudez sob a tênue luz bruxuleante das velas nos castiçais sobre a mesa onde ele havia pouco, estudava.


Abrira meus olhos pesados de contentamento, fixando-os nos dele com firmeza. Sua paixão fora despertada e então ele vira a confiança que eu lhe depositava. Toda a tensão ou medo, temores, respeito ou seja lá o que fosse que o estivesse prendendo, podando sua vontade em me tocar, dissolveram-se quando ele sentiu meu coração bater frenético sob suas mãos. Puxara o camisolão para baixo e banqueteara-se em mim. Jamais sentira um toque tão gentil e empolgante como o dele.


A sensação dos meus mamilos enrijecendo, pressionando-se contra seu torso musculoso e bronzeado pelo sol da lavoura, nossa respiração tornando-se mais rápida à medida em que ele me levava mais alto, mais alto até que uma onda de calor invadira-me e eu explodi dentro dela tão rapidamente, com tanta violência que gritei, agarrando-me a ele.


- Faça-me sua, Gio...


- Tenho medo de te machucar...


- Não tenha...eu quero. - Implorei de olhos fechados, arqueando minhas costas. - Me machuque...amor.


- Morgana...- Aquela voz em um tom de ameaça enlouquecia-me. Seu corpo parado sobre o meu, seu olhar indeciso e amedrontado e sua língua umedecendo aquele boca que me pertencia...dei-lhe um tapa bem dado em sua face direita, espantando-me com a minha própria reação. Ao contrário do que eu imaginava, ele apenas abrira um sorriso lento, quase maligno. - Eu te avisei...


- Faça o que deve ser feito, Sr. Salviatti! - Desafiando-o eu não me enrijeci. Apenas solucei seu nome enquanto seus braços me enlaçavam e um breve instante de dor fora imediatamente aliviado pelo prazer. Eu senti que ele temia. Temia mostrar-me sua virilidade, sua fome. Tolinho! Sorrindo, eu ofegava sob ele e então ele percebera que eu era tudo, exceto frágil. Havia força em minhas mãos que o agarravam. Havia paixão nos meus lábios que se colavam ao dele com ansiedade e agilidade no meu corpo que se contorcia sob o dele. Eu era livre e invencível. Imortal, absolutamente livre e feliz e meu corpo estava vivo, nunca estivera tão vivo. Pronunciei palavras sem conta até que Gio esvaziou-se dentro de mim, depois apoiara-se fracamente às grades de ferro da cama, vendo suas forças se esvaírem. Eu senti seu coração quando fechara suas mãos fortes e suadas em torno dos meus ombros. Nesse instante, quando julgava-me a mulher mais feliz do mundo inteiro, ele me surpreendera quando, arquejante, dissera.


- É preciso torná-la uma mulher de respeito, Sra. Morgana Salviatti! - Arquejei, boquiaberta. - E não há tempo a perder.
Morgana Milletto
Enviado por Morgana Milletto em 27/11/2019
Código do texto: T6805338
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Sobre a autora
Morgana Milletto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 50 anos
50 textos (407 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/19 00:38)
Morgana Milletto