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Q.B. - CHOC ICE GOES MENTAL - PARTE 22

                                XIII - CHOC ICE GOES MENTAL

                              (Lord Choc Ice... fica maluco!)
 
                                                                                   
              No dia seguinte, 21 de maio, Elton chegava à casa de Bernie para discutirem sobre o lançamento do álbum e fazerem um balanço de tudo que estava acontecendo em sua carreira até ali.
   Ambos passaram grande parte do dia falando do novo álbum e sobre o trabalho de Bernie e suas pinturas. Elton era um grande apreciador de arte e gostava particularmente do trabalho que o parceiro desenvolvia há alguns anos.
   Em determinado momento do dia, Elton entrou no estúdio de Bernie e viu o piano que o letrista tinha em sua mansão. Ele gostava muito daquela parte da casa por motivos óbvios; levantou a tampa do piano e começou a dedilhar qualquer coisa a esmo.
- Devo sair? – Bernie perguntou, vendo que ele parecia ter intenção de trabalhar. – Você não veio aqui pra isso.
   Elton apenas sorriu sem responder e continuou tocando. Iniciou a introdução de “Love, the barren desert”, do álbum lançado por Bernie em 80 no qual ele tinha feito uma tímida participação como backing vocal.
   Bernie colocou a mão na cintura e sorriu.
- Eu não vou cantar...
- Não te pedi nada...
   Elton continuou tocando e Bernie, vendo que tirá-lo dali seria algo quase que impossível, saiu da sala e sumiu para o interior da casa. Voltou minutos depois com outra roupa e apoiou-se no piano, disposto a ouvir Elton tocar já que não tinha outro jeito. No meio daquela seleção sem nenhuma intenção de canções que Elton sabia que o amigo curtia, começou a tocar “Parabéns a Você” olhando para ele com ar travesso. Bernie ia fazer 33 anos no dia seguinte.
- Não vem com essa, vai.
- Só pra quebrar a tensão.
- Ninguém aqui está tenso, que eu saiba, ele falou, esticando o corpo e os braços sobre o piano.
- Cansado?
- Não, satisfeito. O álbum ficou lindo.
- Eu também achei. Me arruma alguma coisa pra beber?
- Pode ser água? – Bernie perguntou, sorrindo.
- Se só tiver água, eu não quero, mas não acredito que você só tenha água em casa, Bern. Você tem uma adega lá embaixo que eu sei. Você já bebeu... vodca martíni?
  Bernie ficou olhando para ele sério e não respondeu.
- Bebeu sim... claro que bebeu. É dos deuses, não é?
- Eu não vou te dar isso, cara. Não quero você maluco na minha casa. Não foi pra isso que você veio aqui também... Se foi... dá o fora agora.
   Elton riu alto. Num ato de pura molecagem, tinha conseguido provocar o parceiro.
- Está me expulsando da sua casa? Estou brincando, irmãozinho. Traz cerveja ou vinho mesmo. Juro me comportar.
   Bernie foi buscar. Elton começou a tocar um instrumental tranquilo e de certa forma bem denso; quando Bernie voltou com dois copos que tinha um líquido transparente meio fosco, perguntou:
- De quem é essa música? Nunca ouvi isso.
- É minha! – Elton respondeu, parando de tocar.
  Apanhou um dos copos e bebeu seu conteúdo sem pensar. Cuspiu tudo na hora.
- Caramba, o que é isso?!
- Água... com limão e umas pedrinhas de gelo de vinho que a Toni faz pra mim.
- Você toma isso? – Elton perguntou fazendo uma careta.
- Não sei se você esqueceu... mas eu também não posso beber. Você não pode beber, então... ou é isso ou é água pura.
- Você disse que bebia vinho branco esporadicamente. Que no dia do seu aniversário...
- Muito esporadicamente. Mas não vou fazer isso junto com um viciado que não tem controle de si mesmo. Enquanto você quiser manter seu vício... não conte comigo para alimentá-lo... irmãozinho. Eu sei o que álcool faz comigo.
  Elton ficou olhando para ele e sentiu-se envergonhado. Bernie conseguia dizer-lhe verdades que calavam sua boca de maneira tranquila, mas firme.
- Continua tocando, Bernie pediu.
  Elton tomou mais um gole da água, fez outra careta, mas engoliu e voltou a tocar.
  Bernie continuou ouvindo, mas tinha um sorriso muito sutil nos lábios. Elton se envolveu novamente na música e tocava de olhos fechados e seu rosto tomou uma feição séria, quase triste. No final, ele cantou apenas uma frase, antes de terminar a canção: “He’s the man who never died... Imagine, he’s a man who never died...”
   Bernie sentiu um arrepio e os pelinhos de seu braço se eriçaram. Ele sentiu um súbito mal estar e esfregou os braços com as mãos.
   Elton terminou a longa canção e olhou para ele, ainda emocionado.
- Gostou?
- Lennon acabou de passar por aqui... É... uma das coisas mais lindas que você já compôs. Fez pra ele?
- Fiz pro John, ele repetiu, balançando a cabeça lentamente.
- Quando?
- Na França, enquanto gravava o “The Fox”.
- E porque não lançou ainda?
- Nem sei se vou lançá-la.
- Então pra que fez?
- Sei lá se é boa coisa ficar... relembrando isso...
- Você não vai relembrar o fato, vai relembrar o homem. Isso é bonito demais pra ficar guardado. De qualquer maneira... não acho que ninguém tenha conseguido esquecer John Lennon.
- Eu não consigo... A morte dele... e principalmente a vida dele está sempre comigo. Morro de saudade... Mas você já fez “Empty Garden” pra mim. Ele já foi homenageado nela e relembrado no “Jump up!”.
- “Empty Garden” foi o meu jeito de falar da minha dor. Esse instrumental é o seu.
- É… Você tem razão. Vou falar com o Bill. Ele também gostou dela e...
- Também? Cara, se você não colocar essa música no nosso próximo trabalho ou pelo menos como compacto ou Lado B de qualquer coisa, eu...
- Calma, talvez eu faça isso... Vou pensar.
- Promete?
  Elton ficou olhando para os dedos iniciando “Empty Garden”, mas não respondeu. Tocou por alguns segundos e Bernie ouviu em silêncio, pensativo. De repente, Elton falou:
- Não consigo cantar essa música. Não sei como eu toco nos shows... Minha garganta bloqueia se eu não estou no palco.
  Bernie não disse nada. O assunto também o abalava demais. De repente, ainda tocando, Elton disse:
- Acho que vou me casar...
  Bernie franziu sutilmente as sobrancelhas e ficou olhando para ele entre perplexo e incrédulo, com um leve sorriso nervoso. O amigo parecia não estar muito bem. Elton parou de tocar.


                      XIII – CHOC ICE GOES MENTAL - PARTE 22
                        VOCÊ JÁ PERDEU A CABEÇA ALGUMA VEZ...
        QUANDO AS COISAS NÃO CORREM COMO VOCÊ ESPERA?
                                   QUEM NÃO, NÃO É?

                              DEUS NOS ABENÇOE A TODOS
  OBRIGADA, SENHOR, POR TUDO QUE CORRE BEM EM MINHA VIDA!
                          E PELO QUE NÃO CORRE TAMBÉM!



Velucy
Enviado por Velucy em 06/02/2020
Código do texto: T6859379
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Sobre a autora
Velucy
São Paulo - São Paulo - Brasil
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