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QUEBRANDO BARREIRAS - INQUIETO - PARTE 6

                                       XIV - INQUIETO

Everybody is restless, everybody is scared
(E todo mundo está inquieto, todo mundo está assustado.)
               Everybody is looking for something that just ain’t there
               (Todo mundo está procurando por algo que simplesmente não
                                                                                             está lá.)
                                         Everyboby is restless!
                                    (Todo mundo está inquieto!)

                                      “Restless” – do Álbum Breaking Hearts – 1984


                              Estranhando o silêncio, Bernie abriu os olhos e ao ver o amigo olhando para ele, sorriu.
- Que foi?
- Nada... Fazia tempo que eu não te via assim...
   Bernie sentou-se.
- Assim como?
- Sujo, suado, depois de uma partida de futebol... Você está sempre... parecendo que vem de um evento social...
- É... mas em casa eu sempre estou bem informal. Lá em San Fernando o máximo que eu posso e gosto de jogar é “Squash” ou ping-pongue com a Toni.
- Você joga “Squash” com ela?
- Claro que não, só ping-pongue.
- É isso que deixa teu corpo assim? – Elton perguntou.
- Assim como?
- Firme...
   Bernie colocou a camisa em volta do pescoço e cruzou os braços, cobrindo-se.
- Não faço nada especial. Um pouquinho de musculação de vez em quando. Gosto de andar a cavalo no rancho em Lincoln, mas é muito raro. Sou bem preguiçoso pra jogos de campo... Mas é gostoso me sentir assim... como se estivesse em casa.  Correndo com o Rod agora a pouco, eu me senti... com quinze anos de novo, quando fazia o mesmo com meus amigos pelas estradas de Market Rasen, quando a gente tinha que ir a algum lugar e ia de bicicleta ou de moto. Geralmente minha mãe marcava um horário pra eu chegar e... eu chegava uma ou duas horas depois, ele disse, rindo. Eu nunca obedecia. Não conseguia. Geralmente me metia em alguma confusão antes...
- O sermão era homérico, não?
- Meus pais nunca me davam sermão. Principalmente minha mãe... Meu pai me dava gelo, o que era ainda pior. Quando eu fazia alguma coisa errada, ele ficava dias sem nem olhar na minha cara... Isso doía mais que a pior surra que ele pudesse me dar.
- Método de educação interessante. Bem francês...
- Muito francês... Bernie disse, sorrindo saudoso.
- Você me disse uma vez que Tony não era tão danado quanto você.
- Tony era o filho que meu pai merecia. Seo Robert e dona Daphne deviam ter parado nele. Sempre foi bom aluno, bom filho, era tudo o que eu não era. Era o mais velho... o exemplo...
- E Kit?
- Pode parecer estranho, mas... eu mal conheço o Kit. Ele sempre foi o bebê da casa e ainda era quando eu vim pra Londres. Tinha seis anos...
  Bernie fechou os olhos de novo e ficou em silêncio. Elton ficou olhando para ele.
- Isso me fez lembrar o meu avô... disse Bernie pensativo, ainda de olhos fechados. – Tenho muita saudade dele...
- Queria tê-lo conhecido...
   Bernie já tinha dito a ele a relação bonita que havia tido com o avô materno John Leonard Patchett Cord que faleceu quando ele tinha nove anos.
- Seria tão bom se eu tivesse conhecido você... nessa época. Já te disse que sempre quis ter um irmão?
- Umas... mil vezes. E eu disse umas mil e duas... que você tem... Que nostalgia besta é essa agora? - Bernie disse, rindo sua risada safada que chegava a ser tímida.
 Elton não soube o que dizer. Ele tinha razão. Bernie era o irmão que ele nunca tinha tido. Aquilo se tornava ainda mais verdade quando ele dizia.
 Bob, o secretário de Elton, apareceu e disse:
- Quer que eu sirva o lanche agora, Elton?
- Daqui... uma hora, depois que... o meu irmãozinho aqui tomar um banho primeiro.
   Bob sorriu e deu as costas, voltando à casa.
  Elton sentou-se no chão. Bernie continuou falando:
- Quando eu nasci, você praticamente já tocava piano; quando eu fazia o colégio, lá em Market Rasen, você já não tinha seu pai com você; quando eu perdi totalmente meu rumo, você já estava lutando pra achar o seu... E eu acho que nunca teria achado o meu... se não tivesse respondido àquele anúncio... se você não tivesse aparecido na minha vida... Qual de nós dois deve lamentar não ter conhecido o outro antes? Não é você, cara.
   Elton sorriu. Bernie viu no rosto dele aquele sorriso tímido e infantil que costumava ver no rosto de Reg Dwight, logo que o conheceu. Esse sorriso nunca havia morrido. As mudanças todas que haviam ocorrido na vida de Elton poderiam ter mudado muito nele, mas não seu sorriso e a expressão dos olhos, sempre grandes, tímidos e tristes. Que Bernie sempre tinha achado “os mais doces que ele já tinha visto”.
- Tem visto a Renate? – Bernie perguntou, quebrando o silêncio e mudando bruscamente de assunto.
   Elton balançou a cabeça, negando.
- Cheguei da China hoje, Bern.
- Mas você esteve comigo pela última vez no dia 21 de maio. Não a viu mais?
- Não. Ela viaja muito também. Costuma ir a trabalho a Nova Yorque, Los Angeles, Denver ou mesmo a Montserrat. Nem sei se ela está na ilha agora...
   Bernie desviou o olhar a sorriu, passando a mão pela testa e afastando o suor e o cabelo.
- Que foi? – Elton perguntou.
- Quando você me disse que estava... namorando a Ali MacGraw, eu não levei a sério porque sabia que não ia dar certo, embora vocês dois tivessem realmente ficado juntos por algum tempo. E imaginava que não fosse dar certo, não por você, mas por ela. Pela reputação dela. Não tenho nada contra o número de caras que ela levasse pra casa, mas você não poderia nunca ser um deles. Você não aguentaria.
- Poxa! Até você!
- Não estou me referindo ao campo físico, não falo de sexo, falo de cabeça. Certo que você gostasse ou goste de mulheres mais velhas, mas... Ali não é do seu mundo, embora seja uma estrela também. Os casos dela desfilavam debaixo do braço dela como troféus. Você não cabia nessa situação naquela época. Você estava carente de carinho, ela estava caçando outro marido.
- Não entendi aonde você quer chegar.
- Eu vi você namorando a Ali e não acreditava no êxito daquilo; agora... você fica vermelho quando se fala da alemãzinha, só vê a garota uma vez em três séculos, fala dela como se fosse um pôster na parede de um teatro numa cidade em outro país... e eu já o imagino casado com ela.
- Você fala sério?
- Muito sério! Que idade ela tem?
- Não sei...
- Tem família na Inglaterra?
- Não sei, acho que não.
   Bernie riu.
- Está vendo?
- Mas eu não disse que ia me casar com ela...
- Disse sim!
- Não, eu disse que ia me casar, mas não disse...
- Você disse que ia se casar e logo em seguida o assunto era ela.
- Isso não quer dizer muito, Bernie.
- Você tem vontade de vê-la, não tem?
    Elton pensou um pouco e respondeu que sim, apenas balançando a cabeça.
- Sente falta dela?
  Um sorriso maroto surgiu em seus lábios.



                                  XIV – INQUIETO - PARTE 6
            OBRIGADA, SENHOR, PELAS MINHAS INQUIETAÇÕES...
                               E PELAS MINHAS CERTEZAS!
                                             BOM DIA!
                                DEUS NOS ABENÇOE A TODOS

Velucy
Enviado por Velucy em 13/02/2020
Código do texto: T6864932
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Sobre a autora
Velucy
São Paulo - São Paulo - Brasil
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