Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

MENTIRAM, OMITIRAM E ENGANARAM

MENTIRAM, OMITIRAM E ENGANARAM
Em 1960, Joanna era a única parteira do povoado Dois Morrinhos, situado no Triângulo Mineiro. Minerva, uma jovem de 18 anos, deveria dar à luz naquela semana, mas havia algo diferente na barriga da moça e logo ela foi encaminhada para ser examinada pelo Dr. Eduardo, médico que atendia aos moradores na cidade, sede da região. No hospital, após uma ultrassonografia, a futura mamãe foi conduzida à sala de partos onde Dr. Eduardo, com a ajuda de Márcia sua fiel enfermeira, realizou uma cesárea. Minerva ficou muito feliz ao ver seu lindo menino que embora pequeno, era muito saudável.
Minerva e seu filho receberam altas três dias depois de seu parto e com seu marido Antônio Maria, registrou a criança no Cartório da cidade. O que ela não ficou sabendo é que Dr. Eduardo fizera o parto de gêmeos.
A esposa do médico também havia parido dias antes um natimorto, mas isso lhe foi ocultado. Ela acreditava que seu filho estava em uma incubadora, ganhando peso. O doutor viu no nascimento dos gêmeos a possibilidade de levar um deles e apresentar à sua mulher como seu filho.
Foi o que fez, registrou Francisco, nome escolhido pela sua esposa em homenagem ao santo, sendo ele criado com todo conforto. Sua verdadeira história, somente lhe seria revelada 20 anos depois, quando estudava muito para formar-se médico como “seu pai”.
A alegria do jovem casal, partilhada com amigos e parentes, durou apenas uma semana. Minerva, sem que ninguém nada entendesse, tornou-se violenta, começou a ter alucinações e delírios.
Na época as pessoas não conheciam o que hoje é conhecido como PSICOSE PÓS-PARTO, uma forma mais severa da depressão pós-parto. Antônio Maria notou que ela estava tratando mal o próprio bebê. Receando que algo muito pior pudesse acontecer e sem que Minerva soubesse, resolveu levar a criança para ser cuidada por seus familiares até que a esposa melhorasse.
Para evitar ser visto, seguiu por um caminho conhecido desde sua juventude, por onde cruzaria um rio de águas normalmente calmas, mas na noite anterior havia chovido muito, essas águas estavam extremamente revoltas.
Mesmo assim, Antônio Maria improvisou uma jangada com troncos de madeira e no escuro da noite iniciou a travessia do rio. No meio do percurso a correnteza mais forte virou a pequena embarcação. O pai consegue chegar à outra margem do rio, mas seu filho desaparece no turbilhão das águas. Desesperado, Antônio procura sem êxito o bebê.
Temendo as consequências de seus atos, desiste de sua busca infrutífera e foge para bem longe. Ao amanhecer, Minerva nota a ausência de seu marido e do filho. Os vizinhos tentam achá-los em vão.
Todos concluem que Antônio fugiu dali levando a criança.
Ainda sob efeito da doença, a moça pouco se importou com o desaparecimento, na cabeça dela pelo menos o marido estaria cuidando de seu filho.  Ela não se sentia uma boa mãe.
Dois meses depois, curada, Minerva vai a uma quermesse no povoado. Durante a festa reencontra Ariovaldo, um antigo namorado que estava de passagem. Carente e inebriada pelo vinho quente do qual abusara, acabou a noite nos braços do rapaz.
Quando acordou pela manhã, ele havia partido sem deixar nenhum recado e para local ignorado. Porém, o que parecia ter sido apenas uma noite de amor, foi o início de uma nova gravidez. Desta vez, foi à parteira Joanna quem fez o parto de mais um menino. Minerva não apresentou problemas de saúde, mas resolveu mudar-se e começar vida nova em São Paulo. Vai morar com sua irmã mais velha que não via há anos.
Emprega-se como cozinheira e está feliz. Carlos Alberto, nome dado a seu filho, vai crescendo e aos três anos de idade Minerva decide colocá-lo em uma creche.
Ela jamais se preocupou em registrar essa criança e só se dá conta disso no momento da matrícula, quando a certidão de nascimento é solicitada. Promete entregar o documento no dia seguinte e de fato faz isso, mas apresenta a certidão do filho desaparecido. Ninguém nada percebe, pois ambos se chamam Carlos, um Alberto e outro Eduardo.
Na creche Carlinhos mostrou seu lado risonho, brincalhão, amável, companheiro, era uma criança feliz. Mas nos estudos, nada lhe interessava. Bastava sua mãe se distrair para ele estar com uma bola nos pés. E assim foi crescendo.
Durante as aulas de esporte na escola, destacava-se por sua incomparável habilidade. Era tão fenomenal que seu professor resolveu apresentá-lo ao treinador de um grande clube de futebol profissional. Chamou a atenção já na primeira “peneira” para garotos da sua idade. De imediato é contratado por um empresário conhecido por revelar jovens talentos. Apostando no futuro do rapaz, passa a custeá-lo para que a família possa se manter numa boa condição. Minerva deixa seu emprego para acompanhá-lo aos treinos. Ao completar 15 anos de idade, é convocado para integrar a seleção brasileira de futebol sub 16 e conquista o seu primeiro título mundial.
A imprensa esportiva já o coloca como futuro melhor jogador do mundo e ao ser convocado para a seleção brasileira sub 17, ganha todos os títulos que disputa. Estava confirmado, surgia ali um novo gênio do futebol. Poucos atletas no mundo chegam à seleção de seus países com tão pouca idade, mas Carlinhos, junto com seus companheiros, conquista a medalha de ouro olímpica de futebol e o Campeonato mundial de seleções.
E é escolhido como o melhor jogador de futebol do mundo.
No retorno ao Brasil, após a conquista de mais uma copa mundial, como de costume, toda delegação de jogadores é recebida em Brasília pelo Presidente da República. Em entrevista coletiva, transmitida para todo o país, um repórter pergunta:
_Carlinhos, você já conquistou todos os títulos que um atleta poderia, tem uma situação financeira excelente, o que mais ainda pode querer nessa vida?
Ele respondeu lacônico:
_Gostaria de poder reencontrar meu pai Antônio Maria Menezes De Souza e Silva que desapareceu a muitos anos do povoado de Dois Morrinhos e meus avós Angelina Maria e José Maria.
Essa entrevista estava sendo acompanhada por Antônio Maria que ao ouvir seu nome e os nomes de sua mãe e de seu pai conclui aos gritos:
_Meu filho não morreu naquele rio, ele não morreu!
Antônio Maria morava numa pequena cidade em Tocantins e não possuía recursos para ir ao encontro de Carlinhos em São Paulo. Daí teve a ideia de contatar uma emissora de TV e conceder uma entrevista exclusiva em troca do pagamento de suas despesas de viagem. E foi o que fez, mas omitiu o episódio do rio. Contou apenas que resolveu se afastar devido aos problemas de saúde de sua esposa. Na sequência o repórter pergunta:
_ Então você só voltou agora porque seu filho está rico e famoso?
Antônio Maria, constrangido responde:
_Não amigo, eu não voltei por isso, o fato é que eu tenho leucemia, e ainda não achei nenhum doador compatível, minha esperança agora, é meu filho.
A entrevista termina e Carlinhos já está no estúdio para conhecer seu pai. Após um encontro emocionado e sem palavras, ambos seguem para a casa de Minerva, esta sem alardes chama Antônio e lhe pergunta:
_Que história é essa, você fugiu com meu outro filho e agora está dizendo ser o pai deste?
Antônio tenta relatar o ocorrido no rio, mas Minerva sem pestanejar dispara:
_Esse filho não é o seu, o pai dele é outro que também sumiu como você. Eu apenas usei a certidão do outro filho para matricular esse na escola.
Minerva, contudo pede a Antônio Maria que mantenha a versão de ser o pai de Carlinhos, já que ele desconhece seu passado e quer tanto ter um pai.
Os exames efetuados para a doação da medula resultam incompatíveis.
Longe dali, Dr. Eduardo acompanhava pela TV ao desenrolar de todos os acontecimentos relativos ao meio irmão de Francisco, seu filho. Como sua esposa havia falecido no ano anterior, resolve revelar a ele toda a verdade. Muito emocionado, Francisco ouviu toda a narrativa de seu pai e ainda com lágrimas nos olhos comentou:
_Não o culpo, pode ter sido obra do destino, afinal vocês dois me deram educação, estudos e carinho, o que talvez meus pais legítimos não pudessem me dar.
Os dois sabem que seu aparecimento agora traria sérios problemas para Dr. Eduardo, poucos entenderiam sua atitude. Pensa então em apresentar-se como um doador de medula, mas seu pai lhe diz:
_Filho, passei todos esses anos de minha vida sabendo que chegaria o dia da verdade, errei, por melhor criação que lhe tenha proporcionado, cometi um crime, devo pagar por ele. Vá e salve seu verdadeiro pai.
Francisco segue para São Paulo, descobre o telefone de Minerva e apresenta-se como um conterrâneo de Dois Morrinhos que gostaria de tentar ser o doador da medula. Ela não gosta da ideia, afinal aquela cidade só lhe traz más recordações, mas Antônio desesperado concorda em vê-lo.
Quando o encontro acontece, sem rodeios, Francisco inicia a conversa dizendo:
_Sou o verdadeiro filho de vocês dois.
Antônio Maria não espera o rapaz concluir sua apresentação e aos gritos diz:
_Minerva, ele não morreu naquele rio, ele esta vivo! Vivo! Vivo!
Usando a prudência de ouvir mais e falar menos, Francisco sorri alegremente e entre muitos abraços, pergunta:
 _Por que motivo achou que eu havia morrido em um rio?
Antônio Maria conta toda a história da travessia desastrada com o bebê recém-nascido, imaginando sempre, estar diante daquela criança e complementa: _Passei toda minha vida, desde aquele momento, sentindo remorso de ter provocado a sua morte, vejo que o seu destino foi outro.
Francisco, atônito diante de tais revelações, sente-se invadido por um turbilhão de pensamentos: Ao tomar a atitude de levar um dos gêmeos, meu pai também me salvou de um afogamento, o que fatalmente, teria acontecido se os dois bebês estivessem na jangada. Nesse emaranhado todo, consegue vislumbrar a possibilidade de livrar seu pai das consequências do rapto e comenta:
_Sim, fui salvo por um pescador que me levou ao médico. Eu estava muito roxinho de frio e muito mal. Depois de muitos cuidados esse médico acabou me criando como seu próprio filho.
Minerva conta para Francisco que havia usado a sua certidão de nascimento, por esse motivo, Carlinhos chamava Antônio de pai. Assim, combinaram que ele seria apresentado a todos como um sobrinho distante que surgiu para tentar doar a medula. Carlinhos seguiria acreditando ser Antônio seu pai e seu meio irmão apenas um primo.
Francisco é apresentado a Carlinhos, como um primo distante de Antônio Maria. E mesmo sem saber que está diante de um meio irmão, torna-se muito amigo dele.
Dias depois, após vários exames, vem à confirmação da compatibilidade de Francisco para doação da medula.
O procedimento é realizado com sucesso e como era de se esperar, tem grande repercussão na mídia.
Durante toda a fase de recuperação de Antônio, Francisco passa a admirar seus pais muito mais pela simplicidade de ambos, do que propriamente pelos laços sanguíneos. Carlinhos e ele são vistos sempre juntos e o afeto entre eles é enorme.
Quando a equipe médica anuncia a cura de Antônio Maria, Francisco resolve voltar para sua casa no interior. As despedidas são emocionadas, mas o também futuro médico deve retornar para continuar seus estudos.
Minerva e Antônio Maria, embora morando juntos na casa do craque Carlinhos, dormem em quartos separados, a união entre eles é apenas de fachada, mas vivem felizes.
De volta ao lar e após narrar com detalhes toda à experiência vivida na viagem, Francisco analisa com seu pai de criação toda a situação.
Tranquilos iniciam uma longa conversa, concluindo:
Dr. Eduardo mentiu para sua esposa, desse modo, deu a ela a oportunidade de criar uma criança com todo amor que uma mãe tem por seu filho. Ao ser tirado de sua mãe biológica, além de ser criado com muito carinho e estudar nas melhores escolas, Francisco teve sua vida salva pelo pai adotivo, pois fatalmente seria outro seu destino se estivesse com seu irmão naquela jangada. Carlinhos encontrou em Antônio Maria um pai, a quem amaria por toda vida. Esse, por sua vez, sentia-se aliviado com a sobrevivência de Francisco que ele acreditava ser o filho perdido no rio. Com o reaparecimento do filho de quem usou a certidão, agora com outro nome, Minerva também estava aliviada.
E por derradeiro, Francisco pergunta ao Dr. Eduardo:
_ Pai, e meu irmão gêmeo? E se ele realmente foi salvo por alguém das águas do rio?
Olhando o filho no fundo dos olhos, Dr. Eduardo arremata:
_Acredito que no mundo, muitas vezes, milhões de pessoas optaram por mentir, omitir ou enganar, como melhor alternativa. A menos que você, por ser gêmeo idêntico a ele, ou alguém do nosso conhecimento o encontre, ele jamais conhecerá a sua verdadeira história. Enquanto isso não acontecer, prevalecerão todas as MENTIRAS PIEDOSAS contadas.
Somente alguns anos depois Dr. Eduardo e seu filho tomariam conhecimento do que passo a narrar.
Surreal, patético, mas acampadas às margens do Rio da Prata no Triângulo Mineiro, viviam 05 casais de garimpeiros com seus filhos.
Moravam precariamente, em casebres achamboados. Imaginavam que ainda poderiam encontrar um veio de ouro na mina já abandonada.  Raramente encontravam algo e assim mal dava para comprar alimentos. Comiam o que era nativo como agárico, mandioca e algumas frutas como, murici, cajuzinho do campo, gabiroba. Caçavam, pescavam, a região era repleta de abelhas tataíras e sobrava mel para adoçar o leite tirado de uma velha cabra.
As terras eram um carrascal e ruins para plantio.
Na noite anterior havia chovido muito e ao crepúsculo, o leito do rio estava agitado.
As famílias estavam reunidas em volta de uma fogueira, assando um caititu. Já era noite, as redes de pesca estavam instaladas de uma margem a outra do rio. Com sorte, na manhã seguinte encontrariam algum peixe preso nelas.
As crianças brincavam, quando de repente uma delas veio correndo em direção aos adultos reunidos, gritando alto, apavorada:
 _ Pai, mãe, tem uma criança dentro de um caixote enroscado na rede.
_ Ela chora muito!
Seus pais riram afinal esse menino era cheio de fantasias e até por desídia nada fizeram, mas quando mais duas meninas vieram com a mesma notícia, ainda incrédulos, resolvem verificar.
Estarrecidos e aparvalhados, os mineiros constatam que realmente havia uma criança que chorava a plenos pulmões. Estava dentro de uma caixa que já fora usada para guardar garrafas de cerveja, muito bem forrada, amarrada a um tronco de árvore que parecia fazer parte de uma jangada. Inicialmente o grupo todo ficou inerte, nem sabiam que providências tomar.
Então Carmem, uma das mulheres, toma a frente e resolve soltar a caixa do tronco e retirar o bebê. Ele estava ensopado, abacinado, tremendo, parecia que não viveria mais uma hora naquelas condições. Imediatamente retiram as vestes da criança, estas visivelmente novas. Carmem era mãe de cinco meninas e tinha muita prática. Levou a criança para perto do fogo, trocou a sua roupa e acomodou o bebê que não deveria ter mais de 10 dias junto a seu peito. Logo já se notava a cor dos lábios voltarem à cor normal. Muitas das mulheres do grupo haviam sido mães recentemente e brigavam pela primazia de amamentar o pequeno náufrago.
A criança adormeceu e os demais fizeram o mesmo.
Na manhã seguinte Carmem comenta com seu marido Joaquim:
 _Se não encontrarmos nenhum parente dessa criança, eu quero ele pra mim.
Por ser tartamudo, era de poucas palavras, apenas concorda com um meneio de cabeça, afinal só tinham filhas. Ela acreditava que fora por vontade divina a criança estar em seus braços.
Ao amanhecer, Carmem e Joaquim vão até Monjolinho para saber se havia alguém procurando pelo bebê recolhido das águas.
Foi uma busca onde, visivelmente, nenhum deles queria encontrar ninguém. Na volta para o acampamento relatam aos companheiros que não descobriram parentes do nenê e que assim sendo, eles criariam Oswaldo, nome escolhido para dar ao recém-nascido. Pediram ao grupo que jamais revelassem esse segredo.
No mês seguinte Joaquim iria até a cidade mais próxima para vender a pequena quantidade de ouro encontrada pelo grupo de garimpeiros.
Era algo irrisório, mas daria para comprar sal, fósforos, e pequenos objetos usados para higiene pessoal.
Assim, Joaquim, Carmem, as cinco filhas mais Oswaldo, seguiram para Prata, sede de todas as pequenas cidades da região.
Após a venda, dirigiram-se para o cartório de registros e somente naquele dia tiraram os documentos de suas filhas e de Oswaldo. Os anos passam. Oswaldo e suas irmãs sempre tinham problemas de saúde devido à falta de higiene no local do acampamento, nenhuma delas havia estudado. Sem condições de continuar buscando ouro já que não restava quase nada dele, abandonam o garimpo.
A família vai morar em Dois Morrinhos, um vilarejo próximo dali, onde as crianças teriam assistência médica e estudariam em escola pública.
Os conhecimentos de Joaquim já haviam sido comprovados por todos, era um especialista em ervas e raízes com as quais preparava “garrafadas”, único remédio disponível. Mas esse conhecimento não era uma opção de trabalho na cidade. Foi quando encontraram Mauro. Ele fora garimpeiro em outros tempos naquela mesma mina, hoje abandonada. Conhecia a história daquela família e resolve ajudá-los. Emprega o casal e acomoda a todos nos fundos de seu armazém de secos e molhados.  A família passa a morar ali, por muitos anos.
Oswaldo, agora com 25 anos, também trabalha no armazém de Mauro.
Havia estudado até o ensino médio, sempre bom aluno. Certo dia, na expectativa de conquistar uma garota, resolve fazer a barba e cortar os cabelos para melhorar a sua aparência.
Como em todas as barbearias existentes no mundo, lá havia uma pilha de revistas velhas. Enquanto aguarda para ser atendido, resolve folhear algumas.
Lendo uma reportagem sobre uma pessoa que doara a medula para o pai do maior jogador de futebol do mundo, salvando-o da morte certa, depara-se repentinamente com uma foto. Sente um arrepio forte, seu coração acelera e pensa: Como somos iguais! Pede ao barbeiro para levar a revista para casa e mostra aos seus pais. Estes desconversam, embora saibam que pela semelhança absurda entre ambos, poderiam sim, serem irmãos, ou parentes, mas nada comentam.
Oswaldo com o pouco interesse de seus pais de levar o caso adiante, esquece o assunto.
No mês seguinte, Mauro, seu patrão, incumbe Oswaldo de resolver problemas com a receita estadual em Uberlândia, cidade que distava dali uns 80 km.
Ele já tinha habilitação para dirigir, mas resolve ir de ônibus. Ao descer na rodoviária ouve do motorista:
 _Dr. Francisco, andando de coletivo? É um prazer transportá-lo, venha mais vezes!
Mais adiante, o mesmo se repete ao cruzar com uma senhora que o cumprimenta:
_Bom dia Dr. Francisco.
Aquilo se repete muitas vezes, ele só abanava a cabeça. Retornando a Dois Morrinhos, Oswaldo resolve descobrir o motivo pelo qual tantas pessoas o haviam confundido com tal Dr. Francisco. Em busca de alguma pista, torna a folhear a revista que trouxe da barbearia e confirma, era a mesma pessoa, a foto era de Dr. Francisco.
Naquela mesma tarde, Oswaldo tomava um refrigerante num bar, junto à calçada, quando é abordado por uma senhora bem idosa:
 _Dr. Francisco, que bom lhe encontrar. Fui enfermeira e trabalhei por muitos anos no Hospital de Prata com Dr. Eduardo, seu pai. Sou encarregada de pagar mensalmente as contas das propriedades dele aqui na cidade.
Estava indo para o correio enviar os recibos, mas se o senhor estiver voltando pra lá, por favor, pode poupar tempo levando pessoalmente.
Entrega o envelope e se despede.
Oswaldo agora tinha um endereço, seria do Dr. Francisco também? Essa dúvida lhe atormentou por uma semana.
Mauro pede que ele volte à Uberlândia para dar sequência à resolução de seus problemas com a receita.
Agora resolvo isso tudo, pensa Oswaldo.
Desta vez foi de carro. Lá chegando, vai direto ao endereço do envelope. Na entrada uma placa: Dr. Francisco Clínico Geral.
Ele entra usando cachecol e um gorro na cabeça, tapando seu rosto. Dirige-se à recepcionista:
 _Quero passar por consulta com Dr. Francisco.
Ela entrega uma ficha para ele preencher. Após algum tempo de espera, Oswaldo é chamado pelo médico com o costumeiro:
_ Pode entrar.
No consultório Oswaldo retira o gorro e o cachecol e quando Dr. Francisco levanta os olhos para cumprimentar o paciente, fica parado, atônito.
Começa a chorar copiosamente e diz emocionado:
 _Então você sobreviveu mano?!
Segue chorando e abraça fortemente Oswaldo. O choro é de soluços e alegria.
Oswaldo fica confuso por um instante, mas a palavra “mano” traz a confirmação de suas suspeitas, eles são irmãos.
Dr. Francisco sai de sua sala e ainda com lágrimas nos olhos, diz para a recepcionista:
_ Vou sair e não volto mais hoje.
Leva Oswaldo até a sua casa e o apresenta ao seu pai, Dr. Eduardo:
_ Pai, aqui esta ele, meu irmão que se perdeu nas águas do rio da Prata.
Até então Oswaldo se mantivera calado, queria ouvir mais que falar.
Dr. Eduardo abraça o rapaz comovido e diz para o filho:
 _ Francisco, chegou a hora da verdade, vamos à biblioteca e que ninguém nos interrompa.
Oswaldo argumenta que não poderia ficar muito tempo ali, pois tinha que resolver problemas do patrão. Dr. Eduardo se inteira do assunto e com um simples telefonema resolve a pendência de Mauro com a receita estadual.
Dr. Eduardo não tinha mais de 60 anos de idade, no entanto aparentava ser muito mais velho. Foi o único médico na região por muitos anos e as pessoas contavam histórias tristes sobre ele.
Gostava de um bom uísque e naquele momento tomou duas doses bem caprichadas. Sentou-se, pediu para Oswaldo não interromper suas palavras e prestar muita atenção nelas.
Iniciou aquelas revelações de cabeça baixa e foi dizendo:
_ Eu era o médico do hospital de Prata onde você e seu irmão nasceu.
Para de falar e dá um abraço em Francisco. Daí prossegue:
_ Sua mãe se chamava Minerva, vocês vieram ao mundo num parto cesariano. Ela não sabia que dera à luz a gêmeos univitelinos, então eu coloquei Francisco no lugar do meu verdadeiro filho que havia nascido morto no dia anterior. Desse modo ela levou apenas um bebê para casa. A única diferença entre você e seu irmão é que você tem sindactilia em dois dedos de ambos os pés.
Interrompe a narrativa e pede para que Oswaldo tire as botas:
_ Vê, você tem dois dedos grudados em cada pé. Seus pais verdadeiros eram pessoas muito simples e na época, estava claro para mim que eles não conseguiriam criar duas crianças Minha mulher já estava numa idade perigosa para voltar a engravidar, então dessa forma, achei justo fazer a troca. Apenas minha fiel enfermeira foi testemunha disto. O corpo de meu verdadeiro filho esta enterrado em minha fazenda, em local que só eu sei e que visito semanalmente, onde faço minhas preces por ele. Fiquei sabendo depois que sua mãe Minerva aproveitou a estadia na cidade para registrá-lo em cartório com o nome de Carlos.
Durante horas seguidas Dr. Eduardo narra com os mínimos detalhes todos os acontecimentos que envolveram a família, os gêmeos e o meio irmão Carlinhos. Já era tarde da noite e Oswaldo é convidado a pernoitar na residência para poder refletir e decidir sobre o que fazer com todas aquelas novidades.
No café da manhã ele diz ao seu irmão e ao Dr. Eduardo:
_Vamos manter essas mentiras piedosas, mas eu quero conhecer meus verdadeiros pais, meu meio irmão Carlinhos, sem prejudicá-los.
Ouvindo essas palavras, Dr. Francisco, pega o telefone para fazer uma ligação e pede para o irmão Oswaldo escutar:
_Mãe, é o seu filho Francisco, quero vê-la na próxima semana, pode ser?
Ao que ela responde:
_Claro meu adorado, venha quando quiser!
Como você está?
Ele responde:
_Mãe, passei uns dias pescando, estou mais moreno e com as mãos cheias de calos, sabe como é, falta de hábito. Só vou para um almoço, pois estou de viagem marcada para a o exterior.
Desse modo, na primeira visita de Oswaldo, ficar apenas algumas horas, diminuiria o risco dele ser descoberto.
Com o encontro marcado e Oswaldo devidamente instruído sobre detalhes dos hábitos de vida de seus pais e Carlinhos, lá foi ele para São Paulo.
Ele se apresenta como Dr. Francisco, se apaixona pelos pais e pelo meio irmão.
Como havia aprendido com Joaquim os segredos das ervas, pode ajudar na cura de sua mãe de uma solitária, com uma receita de sementes de abóboras.
Nas despedidas, abraçando fortemente Antônio Maria, já com lágrimas nos olhos diz:
 _ Pai, não se torture com seus velhos pensamentos, lembre sempre de que eu realmente sobrevivi às águas daquele rio, eu sobrevivi e é essa alegria que deve ocupar seu coração!  .
Daquele dia em diante, mês a mês, os irmãos se alternavam na troca de identidade para visitar os pais.
Oswaldo retorna a Dois Morrinhos e nada comenta com Carmem ou Joaquim, mas ajudado por Dr. Eduardo e por Francisco, monta um armazém de secos e molhados ainda maior que o de Mauro, onde vai morar com toda a sua família.
Conhece sem se identificar seus avós paternos e finalmente, consegue namorar a garota por quem se encantara.
Meses depois, já frequentando a casa de seu futuro sogro, em uma tarde de domingo, assiste pela televisão uma partida de futebol, onde Carlinhos era um dos jogadores.
Ariovaldo, pai de sua namorada chama Oswaldo e comenta:
 _Esse rapaz é nascido aqui na cidade e eu namorei a mãe dele muitos anos atrás.
Oswaldo arregala os olhos e pergunta:
 – Como é o nome dela?
 Ariovaldo sem entender direito a curiosidade do rapaz, responde:
 _ O nome dela é Minerva, eu até teria me casado com ela, mas ela mudou-se daqui e nunca mais a vi.
Oswaldo concluiu que Ariovaldo era o verdadeiro pai de Carlinhos.
Jamais se arrependeu de manter em segredo todas aquelas MENTIRAS PIEDOSAS contadas.

Mas, se o destino traçou caminhos tortuosos, estes certamente teriam que serem em algum momento liberados, as mentiras, omissões e enganos não poderia prevalecer,e para quem acredita, estava escrito que assim seria.
E essas mentiras seriam  descobertas com o passar do tempo.

A amizade entre os gêmeos aumentava e eles procuravam se encontrar sempre que possível. Francisco que jamais havia participado de uma pescaria passou a visitar o irmão com esse objetivo.
O Rio da Prata onde por pouco Oswaldo não perdeu a vida era abundante de peixes de varias espécies e os irmãos costumavam acampar as suas margens nos finais de semana. Queriam recuperar o tempo de convívio perdido, conhecer em detalhes o modo de ser, agir e pensar um do outro, tudo o que certamente teriam compartilhado se tivessem sido criados juntos, mas que o destino havia impedido. Na cidade, todos eram pescadores amadores, mas Oswaldo e Francisco os evitavam queriam estar a sós para poderem conversar sem interrupções, longe de perguntas e curiosidade alheias.
Não pretendiam revelar que no passado alguns erros haviam sido cometidos, mas certa vez o anonimato de que ambos buscavam esteve ameaçado.
Um morador que também pescava nas margens do rio, porem um pouco mais distante deles chegou apressado dizendo:
 _ Oswaldo minha filha levou um corte profundo na perna, ela esta a uns 100 metros daqui, me ajude a encontrar uma erva para fazer um curativo e estancar o sangue.
Por sorte ele estava falando com Francisco, Oswaldo estava cochilando dentro de uma barraca, assim, o médico pediu ao pai da criança para voltar e aguardar que rapidamente ele iria a seu encontro. Correu para a barraca, avisou o irmão o que estava acontecendo, pediu a ele para encontrar a erva, pegou sua maleta de primeiros socorros e foi em busca da acidentada.
Rapidamente limpou o corte, deu três pontos para fechar o ferimento e completou o curativo com a planta por cima da perna lesionada. Todos estavam admirados, sabiam que Oswaldo conhecia o poder curativo das plantas, mas desconheciam essas outras habilidades.
Para se justificar Francisco sorrindo diz:_ Fiz um curso de primeiros socorros, mas nunca divulguei isso para ninguém.
O Acontecimento serviu para deixar os irmãos em estado de alerta.
Durante anos a viagem entre Dois Morrinhos e Uberlândia exigia uma volta que aumentava a distancia de 70 para 180 quilômetros, mas com a construção e pavimentação da estrada nova, o trajeto que antes levavam 3 horas, agora seria feito em apenas uma hora.
O deslocamento de pessoas entre essas cidades aumentaria muito e eles precisariam tomar mais cuidado para não serem vistos juntos.
Combinaram que Oswaldo passaria 15 dias em companhia de Dr. Eduardo para aprender como agir caso fosse confundido com Dr. Francisco enquanto este aprenderia tudo sobre plantas e garrafadas.
E assim foi feito
Eles sabiam que o uso de disfarces, lentes de contatos, bigodes ou barbas, só poderiam convencer as pessoas de Uberlândia já que em Dois Morrinhos viviam seus avós, os pais de Antonio Maria.
De fato quando Antonio Maria resolve visitar seus pais as mentiras piedosas se mantiveram por detalhes.
Durante a visita Antonio Maria telefona e convida Francisco para uma pescaria no Rio da Prata que aceita de imediato, mas previne o irmão Oswaldo para que não apareça por lá, ou seja, visto pelo pai.
Na beira do rio o anzol de Antonio Maria se enrosca em um tronco de arvores e seu filho se prontifica entrar na água e soltá-lo. Já fora do rio enquanto calçava suas botas desperta a atenção de seu pai que nota que ele já não tem os dedos grudados e pergunta;
 _ Como conseguiu isso?
Francisco, acostumado com esses momentos delicados não perde a tranquilidade e sem se abalar responde.
_ É pai, esqueceu que quem me criou como filho é um médico? Ele me operou quando ainda eu era criança.
A partir daquele momento a sindactilia de Oswaldo poderia se tornar um problema e acertam que na primeira oportunidade realmente os dedos de Oswaldo seriam separados cirurgicamente
Mas o destino traçava outras linhas, a primeira mentira seria descoberta por acaso.
E foi em uma das visitas em que os irmãos se revezavam para ver a mãe.
Carlinhos havia mandado construir uma piscina olímpica na chácara que acabara de comprar. Para inaugura-la convidou muitos amigos inclusive Francisco. Mas aquela seria a data de Oswaldo e era  ele quem lá estava.
Prudentemente Oswaldo evitou entrar na água, mantinha-se vestido, é quando um dos rapazes já alterado pela bebida pede por socorro e corria o risco de afogar-se ele sem medir consequências entra na piscina, salva o rapaz com respiração boca a boca, que havia aprendido com Dr. Eduardo, mas após, com todas as roupas molhadas lhe oferecem roupas secas, e neste momento ao tirar seu tênis Antonio Maria percebe que os dedos dele seguem grudados.
Imediatamente chama seu filho para o lado e lhe diz.
_Ha algo que eu não sei, dias atrás você me disse que Dr. Eduardo o havia operado dos dedos grudados, como explica isso?
Oswaldo não dominava seus nervos como seu gêmeo, entrou em pânico o que logo foi notado pelo seu pai que procurou acalma-lo e quando isso ocorreu perguntou novamente. _ Como é possível seus dedos estarem grudados?
Oswaldo simula um mal estar, queria ganhar tempo para encontrar alguma resposta, pede para descansar um pouco em uma das redes ali instaladas, mas na verdade quer e consegue relatar o acontecido via fone para Francisco.
Minutos depois, chama seu pai para um canto e lhe pede para ter paciência e que sua pergunta seria respondida em uma visita a Dr. Eduardo em Uberlândia.
Ainda muito inseguro e alegando seguir indisposto se despede de todos, mas antes combina já para o dia seguinte o encontro e que haja uma explicação para a descoberta de Antonio Maria.
As linhas aéreas para seu destino são diárias, e constantes dessa forma logo pela manhã ele embarca e duas horas depois esta na casa do Dr. Eduardo.
Após as apresentações, e quem a fazia era Francisco, todos vão à mesma sala onde muito tempo atrás Dr. Eduardo revelou para Oswaldo que eles eram gêmeos. Desta feita e pela manhã não tomou bebida alguma, estava tranquilo, pediu para todos se acomodarem e contou nos mínimos detalhes a historia que envolvia os irmãos.
Antonio Maria, chocado, mas feliz chorava muito, mas ainda estava incrédulo, pois não entendia como jamais percebeu que eram duas pessoas que lhes visitava semanalmente.
Dr. Eduardo o conforta dizendo _ A única diferença entre os irmãos gêmeos é exatamente a que você notou ontem, ou seja, os dedos grudados e com um gesto pede a Oswaldo para entrar na sala,
Descalço ele mostra a seu pai os dedos grudados e Francisco mostra seus pés normais.
Antonio Maria chora mais forte, a emoção o domina, abraça a ambos, ri, pula de alegria e repete suas frases ELE NÃO MORREU NAQUELE RIO, ELE NÃO MORREU.
Quando a emoção de todos já esta controlada, Dr. Eduardo concluiu.
E então Antonio Maria o que fazemos agora que sabe de toda verdade?
Este por um momento se cala, respira profundamente e comenta: _ O que vocês chamam de Mentiras Piedosas agora serão Segredos Não Revelados, e assim seguira. Quero agradecer ao Dr. Eduardo que mesmo arriscando ser preso exigiu que Francisco fosse ate São Paulo para ser o doador de medula que me salvou de morte certa e também por ter criado um dos meus filhos e dado a ele a oportunidade de ser alguém importante na vida, pois eu não teria a menor possibilidade de fazer isso e finalmente ter evitado que meus dois filhos se perdessem nas águas do Rio da Prata.
_Se alguém o acusar de falsidade por ter assumido ser o pai de Francisco eu também errei quando assumi ser o pai do craque Carlinhos, e Carmem e Joaquim que criaram Oswaldo fizeram o mesmo. Acredito ter sido alguma força superior que fez com que eu notasse os dedos grudados e afinal pude saber que tenho dois filhos, e isso é uma alegria maior que tudo.
Ao se despedir prometendo segredo absoluto de tudo o que se interou Antonio Maria apenas reforça.
Dr. Eduardo aproveite e opere os dedos de Oswaldo.
Todos seguiam suas vidas com a maior tranquilidade, mas o que chamavam de mentiras piedosas e realmente eram mesmo, saberiam em pouco tempo que varias outras estavam para ser reveladas.
Em Dois Morrinhos Oswaldo e Isolda pretendem marcar a data de seu casamento.
Carmem e Joaquim, o casal que registrou e criou a rapaz de nada sabiam, para eles seria apenas a união do único filho varão deles.
Mas o noivo sabendo que ao convidar Antonio Maria e Minerva, Francisco e Dr. Eduardo poderiam ocasionar outras revelações, inclusive que Minerva descobriria que Ariovaldo seu futuro sogro estava vivo e a paternidade verdadeira de Carlinhos poderia ser conhecida, imaginou e conseguiu a data certa para o evento.
Naquela semana o craque Carlinhos havia conquistado mais uma vez o titulo de melhor jogador de futebol do mundo, a cerimônia de entrega seria dois meses depois, confirmam a data e hora que o jogador receberia o premio e sabendo que Minerva o acompanharia escolhem exatamente essa data.
Já no dia do casamento apenas Antonio Maria esta presente, e descobre que o sogro de Oswaldo fora seu amigo de infância e de grupo escolar. Francisco havia deixado sua barba e bigodes crescerem e usando lentes de contatos verdes e com os cabelos artificialmente descoloridos não foi reconhecido por ninguém e Dr. Eduardo fora convidado por ter sido ele ano atrás quem fez o parto de Isolda a noiva.
Durante a festa bastante animada Francisco dança com Célia uma das irmãs de Oswaldo e não se desgrudam a noite inteira.
Ficava claro que ali se iniciava um romance entre eles, mas que fatalmente no futuro poderia criar alguns embaraços, naquele momento Francisco não pensou nisso.
Na volta para São Paulo Minerva pouco se interessou em saber do casamento, ela imaginava não conhecer os noivos e seguia detestando a ideia de voltar pisar em Dois Morrinhos.
Por semanas  só falou do premio e das homenagens que Carlinhos recebeu.
Restavam ainda algumas mentiras para serem descobertas
Francisco ao iniciar um romance com uma irmã de criação de Oswaldo poderia em qualquer momento ser descoberto já que não usaria disfarces o tempo todo diante dela.
Oswaldo se casara com uma meia Irma de seu meio irmão Carlinhos, até quando seguiria sem que ela descobrisse isto?
E Minerva, nunca descobrirá  que tem dois filhos gêmeos?
Passados dois meses do casamento de Oswaldo e Isolda, as viagens quinzenais dos gêmeos continuavam, e este sempre dizia que iria tratar de negócios em São Paulo, agora ele era um comerciante e poucos questionavam o fato, pois a visita à sua mãe era mesmo rápida.
Contrariando os pensamentos do Dr. Eduardo, que dizia que as mentiras, e omissões podem se perpetuar, mais uma delas estava para ser revelada.
Sabendo que Oswaldo iria naquele final de semana para São Paulo, seu pai de criação Joaquim pede para ir junto, pois pretende se consultar com um ortopedista famoso por curar joelhos, e esta seria sua intenção.
Oswaldo concordou, não viu nisso nenhum risco e no dia marcado foram de carro para a metrópole. Diferente do costumeiro, pai e filho se hospedam em um luxuoso hotel, e a visita à sua mãe é mais rápida que a normal.
Como a consulta já havia sido previamente marcada, lá estavam eles no hospital.
O medico pede que apenas Joaquim entre em sua sala, alega privacidade com o paciente, mas durante os exames em conversa diz a ele.
_Conheço seu filho Dr. Francisco há muito tempo e agradeço a ele a confiança em me indicar para um amigo.
Mesmo sendo tartamudo, sabendo que poderia falar coisas indevidas e reveladoras Joaquim apenas pergunta: _ Dê onde o senhor o conhece?
Oriswaldo, este era o nome do médico, sem se preocupar com nada revela.
_ Sou o fisioterapeuta do primo dele o craque Carlinhos, por varias vezes durante os tratamentos eu o vi por lá, sei apenas que ele é medico clinico geral e tem seu consultório em Uberlândia.
Joaquim se cala, mas sabe que o segredo que guardou por anos juntamente com sua mulher pode já ter sido descoberto.
Medicado e com indicações de fisioterapias diárias, no hotel Joaquim indaga o.
motivo pelo qual Dr. Oriswaldo o confundira com tal Dr. Francisco.
Oswaldo pede para seu pai adotivo ouvir sua conversa com Francisco e depois com Isolda sua esposa, e que esta esteja em Uberlândia no dia seguinte em local e hora combinado. Joaquim não entende bem essas ligações, mas concorda.
Na manhã seguinte Oswaldo e Joaquim encontram Isolda e todos seguem calados para o endereço de Dr. Francisco.
São todos recebidos por Dr. Eduardo que leva a todos para a sua casa.
Ainda sem nada entender do motivo dessa visita Isolda e Joaquim se mantêm calados quando ouvem as já usadas palavras.
O que vou lhes revelar aconteceu há muitos anos quando do nascimento de Oswaldo e Francisco.
E por horas conta as historias do rapto, da perda nas águas de um dos bebes de como e porque Oswaldo era conhecido apenas por primo de Carlinhos e finalmente que este era meio irmão de Isolda.
Neste momento a comoção era geral. Isolda feliz por saber que o craque que o pai tanto admirava era seu próprio filho, que tinha um meio irmão, abraça a todos, esta chocada, mas muito alegre com as revelações.
Já Joaquim, com maior dificuldade ainda em falar, pois ficará surpreso, emocionado e nervoso tenta culpar de todo ocorrido a Dr. Eduardo.
É quando este comenta.
_Sei que errei, mas você fez o mesmo, registrou Oswaldo como seu filho legitimo, esta será a hora da verdade, temos que decidir o que faremos.
Um silencio sepulcral invade a sala.
E a visita se encerra com todos combinando que apenas Carmen e Sally namorada de Francisco saberia através de seu marido o que ali fora revelado.
Quando Carmem toma conhecimento dos fatos ainda comenta.
_Anos atrás, quando Oswaldo nos mostrou a foto de seu irmão na revista que havia encontrado na barbearia deveríamos ter buscado a verdade, esta só apareceu agora, mas estou de acordo, tudo seguira igual. Mas Sally se apavora, dizendo: Se Oswaldo e Francisco são irmãos eu não posso seguir meu namoro, também sou irmã dele.
Neste momento cabe a Carmen contar para ela, que jamais soube ou se lembrou do salvamento no rio que eles haviam criado e registrado Oswaldo, mas não eram seus verdadeiros pais.
A moça respira fundo aliviada, e comenta _Nunca imaginei uma coisa dessas, mas estou contente de não ser irmã de verdade de Oswaldo.
Tempos depois, chegara a hora de Carlinhos parar de jogar, e seu clube, marca para a sua despedida um jogo em Uberlândia, ele queria fazer sua ultima partida no triangulo mineiro onde havia nascido.
Toda delegação se hospeda em hotel no centro da cidade, uma multidão se aglomera a sua frente. E quando uma senhora já idosa tenta entrar para conversar com o craque. O porteiro a impede de suas intenções, e ela para justificar a sua entrada diz que ela foi a parteira em seu nascimento.
O serviçal pede um tempo para conversar e ver se esse encontro seria possível, e vai até o quarto de Carlinhos. Diz a ele que a parteira que o trouxe ao mundo queria dar lhe um abraço. O rapaz curioso concorda.
A conversa entre eles se inicia com ela dizendo: Sou Joanna, fui eu quem a pedido de  sua mãe Minerva fez o seu parto em Dois Morrinhos.
Carlinhos se espanta, e diz a ela: _ Senhora deve haver algum engano, eu nasci no Hospital de Prata.
E ela inocentemente retruca: _ Não quem lá nasceu foi seu irmão mais velho que desapareceu nas águas do Rio da Prata.
O craque imaginando que a senhora estaria com problemas mentais devido à idade, contorna o tema, lhe abraça tira fotos e se despede.
Porem, o fato deixa Carlinhos bastante curioso, imagina então na volta para casa confirmar as suas duvida.
 Minerva que nunca deixara de participar de nenhuma homenagem ao filho, desta vez alegando que iria se emocionar pela maravilhosa carreira dele ter chegado ao fim, ela preferia não sentir essas emoções, na verdade, ela temia mesmo era encontrar alguém de Dois Morrinhos.
     
Quando de volta a casa, Carlinhos é indagado pela mãe, que acompanhara tudo pela TV como havia sido as despedidas e após revelar todos os detalhes, inicia a conversa que queria ter com ela.
_Sabe mãe, uma senhora bem idosa, foi me visitar no hotel dizendo que ela não poderia deixar de dar um abraço na criança que pelas mãos dela havia entrado em nosso mundo.
_Como era o nome dela? pergunta Minerva inocentemente
_Joanna responde ele
E sem pensar ela confirma
_Como ela esta de saúde, Joanna me ajudou muito.
_Bem, para os 80 anos que tem.
_ É quando você nasceu ela teria mesmo uns 45, mas ela ainda trabalha, pergunta Minerva.
_Não, responde Carlinhos, mas vive em Dois Morrinhos com os filhos.
E a conversa termina com a frase que confirmava o que Carlinhos ouvira no hotel.
_Alem do seu, Joanna deve ter sido a parteira de mais de 100 crianças nascidas em Dois Morrinhos.
Daquele dia em diante Carlinhos passaria pesquisar então a historia do irmão que morrera no rio da Prata, conforme descobrira.
Na semana em que casualmente era mesmo Dr. Francisco quem visitava a mãe, Carlinhos em brincadeira diz a ele. _Você não foi me ver no jogo de despedida lá na sua cidade, e ouve como resposta_ Mas eu vou esperar a sua visita em minha casa, e que seja em breve.
Carlinhos vê no convite uma enorme possibilidade de iniciar a busca pela verdade de seu passado, aceita o convite.
No dia da viagem para Uberlândia, vai de carro e muda o caminho, seu destino inicial seria a cidade de Prata, onde a sua certidão de nascimento atestava ter sido lá que nascera.
Vai direto ao hospital, e com a certidão de nascimento em mãos, na recepção argumenta que gostaria de ver os livros do hospital para saber se havia tomado algumas vacinas.
A recepcionista o informa que um incêndio anos atrás havia destruído todos eles, e que ele poderia obter algumas informações com Márcia a enfermeira do Dr. Eduardo, única pessoa viva que trabalhava no hospital naquela época.
Carlinhos anota seu endereço e ruma para ele.
Lá chegando, desde logo percebe não ser a parteira que o visitou na noite de sua despedida.
Esta ao abrir a porta abre um largo sorriso para o ex-atleta dizendo.
Menino acompanhei sua carreira futebolística inteira.
_Mas como sabe que sou eu o jogador?
_Sempre vi a sua mãe ao seu lado em varias reportagens.
_E onde a conheceu, pergunta Carlinhos.
_Fui a enfermeira de Dr. Eduardo por muitos anos, fizemos uma centena de partos e a única que teve dois filhos homens gêmeos foi ela, como poderia me esquecer disso.
Carlinhos disfarça, mas intimamente acredita estar perto da verdade que busca, pergunta sobre as vacinas e se despede. Sem saber a ex-enfermeira revela algo que poderia incriminar seu antigo chefe.
Chegando a Uberlândia, vai até o endereço de Francisco, este era o de sua residência, mas quem atende a porta é Dr. Eduardo, em seguida chega o primo.
Após as apresentações, Carlinhos, sem saber estar diante do medico que levara uma das crianças para cria-lo como seu filho, conta toda a historia que descobrira.
Sem se abalar Dr. Eduardo olhando para Francisco diz a ele. Filho o cerco se fechou, vamos para a sala, e lá inicia as revelações do passado de todos eles.
Ao final destas, Carlinhos com lagrimas nos olhos comenta.
Eu tenho dois meio irmãos, e um deles salvou seu próprio pai doando a medula a ele, agora entendo o motivo pelo qual a minha não foi compatível.
Esta feliz quer encontrar Oswaldo, pede a Francisco que peça a ele par ir encontra-los em Uberlândia.
O encontro é emocionante, e o ex-jogador declara. _ Vocês são tão parecidos que mesmo os vendo todas as semanas nunca percebi que eram dois.
Durante alguns dias, todos se reuniram para pescaria no Rio da Prata, a única duvida seria. Como iremos revelar a nossa mãe que ela tem três filhos, e que Ariovaldo é sogro de um deles?
Quando Carlinhos volta para sua casa em São Paulo, sua mãe o aguardava com muitas saudades e após os abraços, o ex-craque resolve contar parte da conversa que teve com Dr. Eduardo, inicia dizendo.
_Mãe, alem de estar com Francisco, encontrei também Dr. Eduardo, o médico que lhe atendeu em Prata.
_Você pode agora revelar alguns segredos que guardou durante todo esse tempo, estou esperando por isso.
Minerva chora, e nervosa ainda tenta desconversar.
_O que ele pode ter lhe contado que você não soubesse?
_ Que eu tenho um irmão vivo, e que eu usei a sua certidão de nascimento, por esse motivo sempre chamei Antonio Maria de pai.
Ela se cala, minutos depois, inicia seus segredos.
_Filho, antes de você, eu dei a luz a uma outra criança, Antonio Maria por receio que eu fizesse algo de errado, pois estava doente, levou o bebe para seus pais o criar, mas na travessia do Rio a jangadas virou e ele perdeu a criança. Nunca mais soubemos dela, até que surgiu na volta do campeonato mundial o caso dele estar buscando um doador de medula, pois estava com leucemia.
Carlinhos interrompe e diz.
_Mãe, isso tudo eu já sei. Agora quero conhecer meu verdadeiro pai, e para isso precisamos ir até Dois Morrinhos, ele vive lá.
Minerva reluta dizendo
_ Nunca mais voltei lá, tenho muitas magoas vivida naquela cidade.
_ Precisamos fazer essa viagem, você terá ainda uma grande surpresa.
Minerva concorda e marca o dia, Carlinhos avisa a todos para lá estarem.
O encontro é na Igreja da cidade, único local onde poderiam se reunir varias pessoas.
Ariovaldo também havia sido convidado, embora não soubesse os motivos, mas sabendo que seu ídolo do futebol lá estaria, foi bem como os demais.
Assim quem inicia a conversa é Minerva, que vendo Ariovaldo, se comove dizendo.
_Carlinhos, você no passado queria ter um pai, e durante anos imaginou ser ele Antonio Maria, quero lhe dizer que seu verdadeiro pai esta aqui e agora.
E inicia sua historia.
_Quando me curei da psicose pós-parto, fui até uma quermesse, lá encontrei um antigo namorado, passamos a noite juntos, você é o fruto daquela noite nos braços de.
Vira-se, aponta para Ariovaldo e diz.
_Esse é seu verdadeiro pai.
Aos berros Ariovaldo pula de felicidade.
_Tinha que haver algo mais, eu adorava o jogador de futebol, e tenho agora o presente de descobrir que ele é meu filho.
Depois de muitos abraços Minerva continua.
_Quero aproveitar, e agradecer Dr. Alfredo, por ter criado Francisco como seu próprio filho após resgata-lo das águas do rio da Prata.
Nesse momento Dr. Eduardo interrompe e diz.
_Não Minerva, Francisco não é o seu filho resgatado do rio.
_Como não, ele salvou o pai dele doando a medula.
Nesse momento Dr. Eduardo argumenta.
_Não foi seu filho Francisco o salvo do Rio, mas sim Oswaldo, e com um sinal pede para ele entrar na igreja.
Minerva desfalece, quando recuperada e atônita diz.
_Alguém pode me dizer o que é tudo isso?
Novamente cabe a Dr. Alfredo revelar todas as mentiras piedosas contadas.
Já era noite e todos rumaram para Uberlândia, naquela cidade se hospedam no mesmo hotel que Carlinhos havia estado dias antes, este em um momento de reflexão agradece ao destino por ter cruzado com Joana, que deu inicio a todas essas revelações.
Ali ficaram por mais de uma semana, todos se inteirando de fatos que desconheciam de toda a família.
Nenhum dos envolvidos chegou a se arrepender de terem usados de mentiras, omissões e enganos usados no passado, mas estavam felizes por todas as verdades terem sido reveladas.
FIM


italianodeoderzo@hotmail.com










TITO CANCIAN
Enviado por TITO CANCIAN em 14/02/2020
Código do texto: T6866157
Classificação de conteúdo: seguro


Comentários

Sobre o autor
TITO CANCIAN
São Paulo - São Paulo - Brasil, 79 anos
18 textos (2670 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/02/20 18:00)
TITO CANCIAN