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A QUARENTENA - Episódio #3 | Série Natália

Natália se recompôs, enxugou as suas lágrimas, olhou no espelho aquele rosto alvo, branco, que fez seus colegas de escola chamarem-na de branquela por anos a fio. Arrumou o seu cabelo. Deu um breve, mas profundo suspiro de quem tenta abafar o seu vazio interior, e respondeu alto: - Já vou mãe. Sua mãe a escutou lá da cozinha e retrucou:

- Então vem logo, porque sua omelete já está esfriando.

Ela deu uma corrida até a cozinha, passando pelo corredor. Porém antes de chegar no lugar de destino algo a deteve no meio do caminho. Um retrato pendurado na parede do corredor. Era toda a sua família em um sorriso exemplar. Seu pai, sua mãe, seu irmão e ela. Ela se lembrou da ocasião da foto e sorriu. Lembrou-se de um tempo perdido. Uma época em que todos se comunicavam diariamente, mas que nos últimos anos não era possível.

Ela se perdeu no caminho, em seus profundos pensamentos. "Por que nossa vida não é mais assim? Era tão bom". Pensou por dentro, numa sensação agradável pelo desejo, mas ao mesmo tempo assustadora. Fez um gesto de negação, agitando a cabeça, tentando deletar tudo isso da memória, em vão. O pensamento a detinha. "Lembre-se do café-da-manhã". Lembrou-se. Correu até a cozinha e assustou-se. Porque estavam todos sentados à mesa.

Pai, mãe, irmão. Assim que ela entrou, o rosto de todos direcionaram-se a ela, perceberam o semblante dela.

- Entre, minha filha, estávamos todos esperando você, - disse a mãe. sem obter resposta a mãe continuou - O que foi? Está assustada. Seu rosto está inchado, estava chorando?

- Não foi nada mãe, eu só estou assustada, por causa dessa praga que parou o mundo. (Na mente dela ela queria dizer: estou assustada porque estão todos sentados tomando seu café ao mesmo tempo rs)

- Então sente-se filha. Tome se café.

À mesa, o pai na cabeceira, nome José Roberto Andrade, com a roupa do trabalho, 54 anos, é médico; sua mãe, Cristina Andrade, 50 anos de idade, cabeleireira, não trabalhará durante esse período, e seu irmão, Claudinho, de 9 anos. Natália completa essa família normal de classe média. Três serão obrigados a ficar em casa, por tempo indeterminado. Ordem do governo. Ordens são ordens. Não se discutem, mas Natália discutia (pelo menos em seus devaneios, nos seus pensamentos).

A filha sentou-se e perguntou aos presentes: - Até quando vamos ser obrigados a ficar em casa? Todos se entreolharam e o pai respondeu sério e sereno:

- O tempo necessário, filha. Isso é coisa séria, precisamos tomar todas as precauções, agora preciso ir. O dever me chama.

Levantou-se, colocou seu agasalho e saiu. Sentindo-se um herói. Afinal, ele era um dos encarregados do hospital a atender pacientes em estado grave de casos suspeitos do Coronavírus. De todos, ficaram a mãe, ela e seu irmão. Depois da conversa do pai, houve um minuto de silêncio pela reflexão causada pela fala. Despediram-se dele. Esperaram o pai sair. E a conversa continuou...

[CONTINUA]
Prof Eduardo Nagai
Enviado por Prof Eduardo Nagai em 22/03/2020
Reeditado em 24/03/2020
Código do texto: T6893997
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Prof Eduardo Nagai
Maringá - Paraná - Brasil, 39 anos
17 textos (446 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 29/03/20 22:39)
Prof Eduardo Nagai

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