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'É ASSIM QUE DEVE SER' - CAPÍTULO 16

'Some fools think
Of happiness, blissfulness, togetherness
Some fools fool themselves, I guess
They're not foolin' me
I know it isn't true I know it isn't true
Love is just a lie made to make you blue
Love hurts
Ooh love hurts
Ooh love hurts'
(Love Hurts - Nazareth)




Meus pés estão doendo, lanhados. As solas ardendo, queimando. Uma indefinível sensação de conforto me acomete quando eu os mergulho na bacia com água quente e sal grosso, embora minha cabeça continue a latejar.

- Não, obrigada. - Digo a Fernando que me traz um copo com água e o bendito psicotrópico receitado pelo psiquiatra de minha tia quando eu ainda acreditava que estes poderiam me curar. - Leva. - Murmuro após tomar da água, devolvendo-lhe o copo vazio. - Não adianta me olhar. Eu não vou tomar. - Retruco, sem olhar para ele, de pé, à minha frente, com o comprimido na palma de sua mão aberta. Houve uma época em que eu os tomava porque minha tia dizia que me fariam bem. Não queria...não poderia recusar um pedido dela que me beijava no topo da cabeça assim que eu a obedecia. Eu tentei convencê-la de que não surtiriam efeito, mas ela parecia não me ouvir.

Era um inferno!

Eu vivia dopada o que anulava minhas forças contra os ataques frequentes do que, mais tarde, compreendera ser uns tais de Incubus. Um nome pomposo para um bando de mortos viciados, em sexo, que perambulam pela noite adentro à caça de vítimas que os saciem. Eu os mandara à merda ou de volta ao inferno quando a raiva tomara conta de mim e, escondendo os comprimidos que deixei de tomar, no fundo da gaveta de calcinhas, passara a permanecer lúcida. Lúcida, eu os enfrentava. Descobrira de onde vinham, desmistificando-os. De seres alados e demoníacos transformavam-se, aos poucos, no que eu poderia chamar de 'quase humanos'. Partes deles eram iguais as de um homem como o rosto, o tórax e a genitália irritantemente exposta. A outra parte, permanecia como a de animais, pernas arqueadas, pelos em excesso e cascos no lugar dos pés. Nos olhos, uma vaga lembrança de Humanidade. Assemelham-se aos Sátiros ou Faunos das florestas. Eu os espantara de minha vida para sempre desde quando perceberam que, de mim, nada mais teriam além de um par de ouvidos que os escutassem. E como falavam! Por San Juan Diego!!! Por que não procuravam a um padre para se confessarem??? Por que a mim??? De vítima, passara à conselheira de mortos maltrapilhos, em sua maioria, ainda extremamente ligados ao corpo que se decompunha bem diante dos meus olhos ainda aterrorizados. Por mais que eu estivesse acostumada às tais visitas, não havia como me acomodar ante o sofrimento alheio. Não. Não os escutava perdendo o meu precioso sono por bondade. Não. Insisto que não sou boa. Fora por puro egoísmo. Não sei o que me espera do Outro Lado. Talvez, um dia, eu mesma esteja no lugar deles, então, quem irá me escutar? Talvez, um deles se lembre de mim e me acolha como a louca que os escutava. - Porque não tô nervosa! - Explico, aumentando o tom de voz, endireitando-me ao encosto da cadeira. - Tô cansada. Nervosa não. Ainda. - Aviso. - Dá pra tirar isso de perto de mim?

- Só um, vai. - Pede ele com aquele jeitinho que me faz pensar duas vezes. -Vai...toma. - Estreitando meus olhos, eu o encaro.

 - Onde encontrou isso, Fernando?

- Não começa...- Resmunga.

- Fernando! - Franzindo a testa, com os pés mergulhados na água, um braço apoiado à mesa da cozinha, pergunto, desconfiada. - Isso é do seu pai? Como conseguiu abrir a gaveta de remédios? - Ele, enfim, larga o comprimido sobre a mesa,  agachando-se diante de meus joelhos. Eu uno as coxas enquanto ele afunda as mãos na água da bacia. Meus olhos o acompanham, então eu grito. - A chave fica comigo, Fernando! Me responde, por favor!

- Estavam sobre o criado-mudo. - Diz ele, baixando a cabeça e a voz, tocando suas mãos em meus pés, acariciando-os. - Tá bom assim?

- Uh-hum. - Reviro os olhos, inspirando profundamente. Estou adorando a massagem que ele faz em meus pés, alternadamente. Ele sempre foi bom com as mãos. É impressionante. Cozinha bem, massageia bem e, bem, o restante eu me reservo o direito de não me recordar. Não agora em que comprime com a 'almofadinha' de sua mão, num ponto específico em meu tornozelo, logo abaixo do ossinho saliente. Saliente! É exatamente assim que me sinto enquanto ele desliza e esfrega insistentemente sua mão neste ponto, acendendo partes do meu corpo já há muito adormecidas. - É o ponto do sexo. - Esclarece ele, olhando-me de baixo para cima: defensivo, sério, persistente, inocente,  fascinante. Lindo.

- Não me diga? - Zombo dele, prestes a entrar em combustão. Num repente, puxo a perna direita, retirando meu pé da água, salpicando gotículas  em seu rosto. Ele as enxuga com o dorso de sua mão, mantendo-se de cabeça baixa. - Desculpa. - Grasno, desconsertada, tentando escapar de sua mão que se prende ao meu tornozelo, forçando meu pé a tocar o fundo da bacia. - Che-che ga, né!? - Gaguejo, sentindo minhas bochechas ruborizando. Ele me ignora por completo, num riso mudo.

- Aprendi com um cliente do restaurante. Ele viajou à Índia onde aprendeu várias técnicas. Dessa, eu nunca me esqueci. - Explica ele, enquanto manipula outros pontos, encarando-me com os olhos inquietos. - Tenho muitas habilidades.

- Não me diga? - Finjo surpresa, levando a mão ao peito que se move contra a minha vontade. - Vc leva jeito. - Comento, engolindo em seco, desviando meus olhos flamejantes à torneira da pia. Por milésimos de segundos, penso ver a tia, de costas para mim, cantarolando enquanto lava a louça. Solto o ar pela boca, tonta pela avalanche de sensações que inundam a minha mente...esquentam o meu corpo. Outro daqueles momentos em que o silêncio é constrangedor. Sinto-me aflita quando a cabeça está cheia de perguntas, letras volitando, trombando umas contra as outras, loucas para saltarem de minha boca fechada.

- Tá melhorando? - Sua voz rouca me pergunta. Assinto, sufocada. Não consigo sustentar esse olhar por muito tempo e ele sabe disso, então, de súbito, ergo meus pés molhados, flexionando meus joelhos, cravando os pés úmidos contra seu tórax. - Porra! - Ele tomba contra o chão, sorrindo.

- Obrigada. Vc foi muito útil. Não sei o que faria sem esse escalda-pés. - Exulto, secando um pé por vez, com a toalha, pousando-os no piso frio. Ele continua sentado no chão, apoiando, nas mãos, seu corpo inclinado para trás, o rosto bronzeado destacando ainda mais a brancura dos dentes à mostra, um jeito desleixado, relaxado, os cabelos ainda mais claros, o torso à mostra. - Dá licença! - Rosno, curvando meu tronco, pegando a bacia, equilibrando-a para que não escorra água e molhe o chão que eu mesma limpo. Com a lateral da perna, eu o afasto do meu caminho. Ele observa cada ato meu como se eu estivesse num palco. Posso sentir o calor de seu olhar penetrando por entre as costelas, inflamando minhas costas. - O que foi? Nunca viu? - Provoco, encarando-o, parada abaixo do batente da porta que me leva à área de serviço. Ele, num impulso, se ergue, vindo até mim quando responde com a voz grave.

- Bonita assim, nunca.

- Ah! - Emito um grunhido cheio de drama. - Me poupe! - Afogueada, com a bacia encostada em minha barriga, chego ao tanque onde derramo a água já fria. Abro a torneira, enchendo de água as mãos em concha. Lavo meu rosto, molho a nuca, prendendo o cabelo num coque desorganizado no topo da cabeça. Estou um bagaço e irritada porque ele continua a me observar, jogado contra a parede que divide os dois cômodos como se a casa fosse desabar. Seus olhos azuis e lânguidos estão perigosamente fixos em mim, enquanto verifico que há roupas sujas no cesto. 'Deixa pra amanhã', penso, girando a cabeça ainda dolorida em sua direção. Sinto-me quente por dentro e, de certo, não é por desejo. É raiva! - Eu nunca nunca nunca deixo os remédios dele fora da gaveta que eu sempre tranco à chave antes de sair do quarto. Conta outra, Fernando. Conta agora! - Ordeno, passando por ele que se encolhe, cruzando os braços, abrindo outro sorriso absolutamente desnecessário. - Vá pro inferno. - Resmungo, retornando à cozinha onde um prato de macarrão ao molho branco me aguarda, fumegando tal qual a minha cabeça, cheia de incertezas. Puta merda. Eu amo massa. Amo a que meu tio cozinhava. Amo tudo o que esse filha da puta prepara quando quer me agradar ou pedir desculpas. Sou, definitivamente, um dos cãezinhos de Pavlov à espera de recompensa  e ele sabe disso porque pisca sorrateiramente, já sentado à mesa, à minha espera. - Explica isso. - Recomeço, enxugando minhas mãos nervosas na barra de meu vestido de chita. Um daqueles velhinhos e puídos que uso em casa, longe da atenção de todos. Um dos que ele, por acaso, aprecia. - Vai falar ou eu vou ter que te obrigar? - Estaco, de súbito, ao cruzar a porta. Cerro os punhos, estreitando meus olhos, salivando. A estômago ronca. Eu enrubesço. Nada mais embaraçoso do que os ruídos intestinais quando se quer manter uma postura sensual e autoritária. Dou de ombros. Fixo meu olhar no prato, antevendo minha alegria na fumaça branca e serpejante que se infiltra em minhas narinas. Ele se mantem em silêncio, batendo com a palma da mão sobre o assento da cadeira onde, segundo ele, devo me sentar, então confessa, entregando-me os talheres.

- É um dos meus. - Elevo uma sobrancelha. A boca se abrindo lentamente. -  Satisfeita? Eu tenho os meus, ué! - Enfatiza enquanto arrasta a cadeira onde já estou sentada, puxando-a para perto de si. Estamos tão próximos que sinto os pelinhos de seu braço roçando nos meus. - Vcs dois não são os únicos loucos dessa casa. Eu também herdei essa porra. É genético. - Diz ele, assoprando o macarrão enrolado ao garfo, próximo à sua boca. - Sabia? - Ele me olha de lado e ri da minha expressão de perplexidade.

- Desde quando vc usa tarja-preta, Fernando???

- Desde que vc me deixou. - Puxo o ar pela boca, embasbacada com sua resposta rápida e certeira. - Acha que é fácil dormir sem ter vc falando a noite toda no meu ouvido ou rindo de suas próprias piadas sem graça? - Rindo, eu jogo o guardanapo em seu rosto, enfiando a primeira garfada em minha boca. Está quente pra cacete. Queimo minha língua, logo, abano com as mãos a boca aberta, arfando feito um cão. Ele volta a rir como o fazia quando era mais novo. Um riso leve, gostoso de se ouvir, assim como sua voz que sai suave quando me alerta. - Para de me olhar desse jeito ou eu vou achar que vc ainda gosta de mim. - Fecho a boca, voltando meus olhos desorientados à fruteira sobre a mesa. Minhas bochechas voltam a arder. Estou ruborizando mais uma vez, o que é absolutamente inapropriado a uma mulher experiente como eu. Não perco tempo fazendo novas perguntas porque estou apreciando cada partícula da massa que parto com o garfo e a faca arrancando um gemido lamurioso de Fernando que acha uma blasfêmia partir o macarrão ao meio. Foda-se. Eu não tenho a menor paciência para executar o ritual monótono de manter o garfo um pouco inclinado, enrolando poucos fios, horizontalmente, e no sentido horário, de maneira que os fios não pendam do garfo. É assim que ele faz. - O segredo é dar um espacinho no prato e levar a porção que se quer comer para o cantinho.

- Sei. - Ele ri de minha careta, mas continua.

- Então, tranquilamente, vc vai enrolando sem lambança. É tão fácil quanto beijar. - Ronrona próximo ao meu ouvido, levando o garfo à boca aberta. Estremecendo, eu ouço sua gargalhada enquanto ergue a taça de vinho tinto que se choca, suavemente contra a minha. - A Roma come i romani. - Ele solta um 'hummm', bem longo e enfático. Quer falar, mas, faz um gesto com a mão, para que eu o espere. Leva o guardanapo à boca cheia e ainda assim, ele é pateticamente perfeito. - Buon appetito! - Por San Juan Diego! É muita informação para minha cabeça que volta a latejar. Só quero sentir o gosto do molho e deixar de pensar em tudo o que me intriga, então, reparto, com intensidade, meticulosamente, os fios lambuzados no molho branco porque quero irritá-lo. Levo o garfo à boca, cerrando os olhos, inflando as narinas. Escuto o tilintar dos talheres contra o prato. De soslaio, vejo seu olhar de reprovação. Dou de ombros. Não sou o tipo de mulher requintada que ele encontra todos os dias em seu restaurante fino, elegante, com uma adega asquerosa, nojenta, fétida! Por que a polícia não encontrou aqueles vagabundos??? Por que ainda não os mataram? - Por que não tenta aprender, amor?

- PORQUE JÁ SEI! - Ele se assusta com a ferocidade de minha resposta e a expressão de ódio que deve estar estampada em meu semblante quando me lembro do que passei naquele lugar terrível. Arrependo-me, pedindo perdão. Ele assente e volta a comer, em silêncio. - Meu tio me ensinou. - Falo baixo, controladamente. - Mas, prefiro comer assim. É mais fácil.


- 'Meu tio me ensinou'. - Repete ele, num tom irônico, fixando-se a um ponto na parede. - Sei...- Uma pausa sombria e então complementa. - Por que não pratica o que O SEU TIO te ensinou?

- Porque não quero. - Desanimada, largo o garfo, afastando o prato de mim, embora ainda esteja com fome. Recordo-me do tio, lá, em sua cama, deitado, sozinho, mergulhado em um mundo obscuro, esquecido de si mesmo. Meu estômago se embrulha. Meus olhos se enchem d'água, a raiva sobe como as lavas em um vulcão prestes a eclodir, quando cuspo as farpas, o punho contra a mesa, a voz tão grave que não a reconheço. - Porque odeio bancar a mulher fina, educada. Porque gosto do que sou, embora saiba que não sou o que gostaria de ser. Porque meu tio não se importa com o que sou. Ele gosta de mim como eu sou. Minha tia gostava de mim como eu sou e quem diz gostar de mim, deveria gostar de mim como sou e não tentar me mudar! - Ele estreita os olhos, abanando a cabeça, o que aumenta a minha ira por me sentir abaixo dele. Sempre foi assim. Sempre será. - O meu tio gosta de mim como sou! - Afirmo, chorosa.

- Vc fala como se ele ainda estivesse aqui. - Descansando, tranquilamente, os talheres ao lado do prato, ele cruza as mãos, apoiando-as à beirada da mesa. Seu olhar incisivo me faz prender a respiração por segundos quando sentencia, elevando o canto da boca. - Ele não vai voltar. Estamos sozinhos. Vc e eu. Vc precisa se acostumar a essa realidade.

- Cala a boca. - Choramingo.

- Baby...ele não vai...

- Cala a boca! - Levo as mãos às orelhas, tapando os ouvidos. Se ele tivesse cravado um punhal no fundo do meu peito, não doeria mais do que está doendo agora. - Giulia...- Já não ouço sua voz ou sinto seu toque em meu braço. Engulo em seco, cerrando os olhos, contando, em voz alta, até dez. Já não estou na cozinha. Volto ao ponto onde parei quando, respirando pela boca aberta, apoiando as mãos nos joelhos flexionados, os olhos fixos no chão, ofegante após ter corrido por quilômetros, desisto de persegui-lo. Vagarosamente, como num filme em câmera lenta, percebo estar rodeada por pessoas estranhas que me olham, rindo, comentando, apontando seus dedos para mim. Então, entendo o porquê. Estou de biquini, pés descalços em meio a uma das ruas mais movimentadas daquele bairro, distante da praia onde estávamos há pouco. As raquetes, Fernando descendo areia abaixo, sorrindo. Pedro logo adiante, sua cabeça se elevando entre dezenas de outras. Luzes das vitrines, letreiros luminosos em neon são acesos anunciando a chegada da noite. Faróis dos carros amontoados à espera do sinal abrir me fazem sentir vergonha, logo, eu me abraço, cobrindo meus seios. Olho para os lados e não vejo Pedro que desaparece entre a multidão como uma borboleta alçando voo. O burburinho aumenta. Há pessoas ao meu redor. Alguns me oferecem ajuda, outros perguntam por meu nome,  outros, ainda, me xingam. Eu curvo meu tronco, cobrindo, com as mãos, o meu rosto. Vou me encolhendo até virar um amontoado de carne e ossos, os fios embaraçados do meu cabelo escondendo meus ombros e costas expostos. Penso no quanto as pessoas podem ser cruéis. No quanto são persuadidas por outras quando em grupo. O vozerio toma conta da calçada enquanto choro, acuada, atormentada, sem saber onde estou. De súbito, uma sensação assustadoramente familiar. Eu já passei por essa situação antes, em algum lugar do passado. Um Déjà Vu. As mesmas pessoas ao meu redor, o mesmo sentimento de repulsa. O ódio era mais exacerbado, os trajes eram outros. Os insultos também. Estava tão sozinha quanto agora. Tão amedrontada quanto agora. Quero me erguer, escapar do grupo que me empurra contra a parede. Olho em seus olhos, recordo-me de um tempo em que fora odiada, espancada, banida do meu vilarejo. Eu procurava por ele e não o encontrava. Eu vagava durante as noites, o cabelo cortado, arrancado por eles, à navalha. A dor causticante no couro cabeludo. Chamo por seu nome. Ouço os risos debochados, encaro os rostos deformados. Recuo, desnorteada, sem saber o que sou ou onde estou. 'Giovanni'. Grito seu nome uma segunda vez. Estendo meu braço, baixando meus olhos. A mão se abre perfurando o bloqueio humano. De olhos fechados, chorando, envergonhada, desesperada, anseio por sua ajuda. Ouço sua voz firme, sua mão se prende à minha. A multidão se afasta, abrindo espaço ao homem por quem procurei desde que o perdera para os malditos padres que nos separaram porque o meu Giovanni, meu pobre Giovanni, curava o povo com suas poções e sua Alquimia. Ele cobre meu corpo com uma manta vermelha e me leva em seus braços. Enlaço seu pescoço, inspirando seu perfume. Não é amadeirado. É cítrico. Giovanni jamais mudaria sua fragrância. Dizia ser seu ponto forte. E ele estava certo. Seu cheiro másculo me encantava e me excitava. Mas havia muitos outros pontos nele que o tornavam especial. Encosto meu nariz em seu pescoço uma segunda vez. Certifico-me de que não é amadeirado o seu cheiro. Não não não. Não é o meu Giovanni. 'Vc tá bem?', de olhos bem abertos, ouço a voz de Fernando. O rosto é o de Fernando. Os braços que me seguram são de Fernando. 'Vc tá bem?', insiste ele, acomodando-me no banco do carona. Retorno a este mundo, deixando no outro, o meu Giovanni. Olho para Fernando que deve estar falando algo, pois sua boca se movimenta incessantemente. Seus olhos severos me fitam incisivamente. Os meus vasculham o interior do carro, procurando sentido no que acontecera. Sinto frio. Tenho fome. Ainda me recordo das sensações vividas em outra época e da saudade que ele me deixa. O coração estala no peito enquanto vejo as pessoas nas ruas, os carros de um lado para o outro. Olhos vermelhos piscam através do para-brisas. Os faróis desfocam a minha visão. Quero retornar e tentar reencontrá-lo, mas Fernando grita em meus ouvidos, repreendendo-me por ter corrido como louca. Ele me pergunta o motivo. Eu me calo, voltando minha atenção à janela do carona onde me vejo refletida. Toco em meu rosto, em minha cabeça. O cabelo está aqui. Continuam longos. O que se passou durante aquele instante de horror? Em qual época eu fui parar? Quem é Giovanni e por que este nome me causa angústia, tristeza e uma profunda sensação de vazio? Por que corri atrás de Pedro? O que eu queria descobrir? Por que estou tão confusa? Tão cansada? Quero dormir e não acordar.

***
Falta queijo no macarrão, então salpico o parmesão, puxando o prato que eu havia esquecido. A comida já está fria, no entanto, como com sofreguidão sob o olhar curioso de Fernando que já retirou seu prato da mesa. 'Vai com calma.', diz ele,  enfurnando seus dedos entre os fios do meu cabelo, massageando meu couro cabeludo. Isso é bom. Isso me faz relaxar. Estou exausta de tanto correr...à toa. Pedro sumira novamente, deixando atrás de si perguntas cujas respostas podem estar diante de mim, abrindo um sorriso encantador. Fernando, com um dedo, retira a franja da minha testa. 'Vc está febril', ele assevera, roçando o dorso de sua mão em minha bochecha enquanto mastigo, engolindo a comida como se não houvesse amanhã. Ele quer me levar para a nossa cama. Quer me medicar. Eu peço que me espere. 'Tô com fome', falo de boca cheia. Ele me examina com seus olhos experientes. Ele supõe que eu seja burra. Ele tenta me seduzir com seus truques e carícias. Está um tanto mudado ou finge muito bem. Quase chego a acreditar que ele, de fato, mudara. Que vai se manter assim, calmo, pacífico, todo meu para sempre. Mas aprendera a desconfiar. Ele fora o meu professor e, quando desconfio de algo, vou até o fim para descobrir o que está escondido. É por isso que, repentinamente, eu largo os talheres sobre o prato, engolindo o último fio do macarrão que sugo com força. Bebo um pouco do vinho. A taça volta à mesa, estrondosamente. Ele se assusta e volta a medir minha temperatura com o dorso de sua mão em minha testa. Empurro seu braço e, sem pensar duas vezes, olhando firmemente em seus olhos azuis, eu disparo.

- O que vc fez ao Pedro? Eu sei o que fez. Só me conta com detalhes. - Ele recua o tronco, os olhos arregalados, a cabeça inclinada levemente para a esquerda. Parece olhar para uma louca fugitiva e perigosa quando complemento. - E qual foi o motivo? Não foi por ciúmes. Eu sei. Diz. Qual foi o motivo?

***

A febre chega aos quarenta graus. A garganta queima. Meu corpo todo dói. Parece que levei uma surra daquelas pessoas que me cercaram, embora nenhum deles tenha me tocado. Não os dessa época. Mas, os outros...os outros sim. Manchas vermelhas se espalham pelo meu corpo. Fernando se vê desorientado. Pesquisa nos livros uma possível causa. Eu rio, deitada no colchão, coberta com seu edredom macio, fofinho como ele. Meu olhos úmidos estão ardidos. "Vc já teve catapora e sarampo. Eu me lembro. Então não pode ser.", afirma ele, folheando um dos sete volumes de capa dura da "Enciclopédia de Medicina e Saúde" comprado pela tia quando ainda éramos crianças. Ele anda de lado ao outro do quarto e há algo nisso que me diverte porque não paro de rir. Talvez, seja dele e de seu novo jeito de ser. Talvez, eu esteja rindo de mim mesma por acreditar que ele possui um novo jeito de ser. Talvez, eu não consiga parar de rir porque já não sei se quero saber o que acontecera a Pedro ou ao meu Giovanni. De onde surgiu a porra desse nome "Meu Giovanni"? Isso não sai da minha cabeça enquanto Fernando, concentrado em sua leitura, descarta as possíveis doenças que me deixaram pintadinha como o meu vestido de 'pois' que agora está pendurado em um gancho atrás da porta do quarto, o que me faz pensar em como ele me vestira com a camisola branca que cobre meu corpo ou em como ele me dera banho sem que eu me lembre disso.

- Isso é causado pelo trauma que vc vivenciou hoje. - Diagnostica ele, fechando o livro, deixando-o sobre a escrivaninha. - Vc precisa descansar e beber muita água. - Diz ele, sentando-se na beirada da cama, inclinando-se sobre mim, com os braços em cada lado do meu corpo. Gosto do jeito como me olha. É cheio de ternura. Acho que estou alucinando por conta da febre porque ele se deita ao meu lado, sem tirar a roupa quando poderia se aproveitar da situação e me usar como sempre o fizera. Meu peito sobe e desce como um fole nas mãos de Luiz Gonzaga. Que diabos está acontecendo comigo? Por que há sombras espalhadas pelo quarto? - O melhor é ficar quietinha. Amanhã, pela manhã, se não melhorar, te levo ao médico. - Sua voz é firme assaz serena. Estou febril, mas não louca. Há algo de errado nessa pintura. Seu sorriso é enigmático. Quase maquiavélico. Onde está o meu Giovanni?

- O que vc me deu, Fernando? - Digo com a voz entaramelada, a garganta seca. Engulo a saliva, molhando os lábios quentes com a língua. Ele me beija na testa, nas bochechas e na boca. Um beijo casto, quase infantil. - Fala...Fernando.

- Fiz o que minha mãe me ensinou. - Sussurra ele, aconchegando-se ao meu corpo. De conchinha, ele me abraça. Suspiro aliviada por estar em casa, mas o seu abraço em nada se assemelha ao do meu Giovanni. Não me traz a segurança que sinto nos braços do meu homem. Nossas mãos se entrelaçam na altura da minha barriga. Meus olhos estão abertos, meus ouvidos, atentos. Meu hálito está quente. - Ela sempre me dizia que para aproveitarmos melhor as propriedades de um comprimido, o correto é deixar que ele se dissolva na língua.

- Que...papo...é...esse? - Pisco repetidas vezes, procurando me manter acordada.

- Como vc é teimosa, eu fui obrigado a esmagar um deles e por em seu macarrão. - Ele solta uma risadinha malévola. - No pote do parmesão, mais especificamente. - Extremamente tonta, lutando contra um sono esmagador, eu ainda o ouço ralhar comigo. - Quando eu disser pra fazer uma coisa. Faça. Pra que aquela loucura em sair correndo atrás daquela bicha? Por que não deixou ele passar por vc quando vcs se chocaram na areia?

- Vc viu? - Assopro a pergunta, sem fôlego. A despeito de estar perdendo os sentidos, anestesiada pela ação do calmante triturado, eu ainda consigo compreender o que ele diz ter feito. Quero gritar, mas, mal tenho forças para levantar meu dedo mínimo. - Fer...Fer...

- Amor, não faz esforço. Se entrega. - Sinto seu hálito quente em minha nuca. - Não adianta lutar. Esse é dos fortes. Eu precisava calar a sua boca. Minha mãe, sua tia, dizia que em boca fechada não entra mosca. Lembra? Se aquele filho da puta tivesse ficado de boca fechada, vc não teria corrido atrás dele e não estaria com febre agora. Se aquele gay do caralho não tivesse me peitado quando eu fui atrás dele tomar satisfações, eu não teria partido ele ao meio. Não precisava de tanto. Eu sei. Eu entendo. Mas, vc me conhece. Quando começo a realizar um serviço, tem que ser bem feito. - Empregando uma força descomunal, tento me libertar de sua mão que comprime a minha a cada frase dita. Sinto seu ódio presente na voz contínua e monocórdica. Já não sou dona de meus movimentos. Estou quase cedendo, ouvindo, de longe, Fernando se vangloriar, rindo entre uma frase e outra. - Acho melhor esquecer o dia de hoje, amor. Não há o que ser dito. Minha mãe me ensinou a lutar pelo que quero e com as armas que possuo. Não dava pra te ver dançando com aquele merdinha. Não dava pra te ver longe de mim por tanto tempo. Juilliard???Nem pensar!!! Vc é minha. Sempre foi e sempre será. Não vai pra porra nenhuma de escola no exterior. Seu lugar é aqui...comigo. Vc não entende??? Como pensou em me largar e sair do país com aquele italianinho de bosta? Aquele merdinha deixou de dançar por um bom tempo, mas corre pra caralho! - Ele sacode meu corpo apoiando a mão pesada em meu ombro. - Já dormiu? Giulia??? Tá acordada??? - Abro os olhos, espantada. Não sei ao certo o que estou ouvindo ou de quem sai a voz sarcástica que escuto. Meus olhos pesados se fecham e, então, eu me entrego ao sono, sorrindo quando aspiro o cheiro amadeirado do meu Giovanni que me espera do Outro Lado. Eu sumo e o deixo falando sozinho. - Acho que ele nunca mais vai me esquecer. Pelo que vi hoje, ele vai até mudar de estado ou país. Outra surra como aquela ele não aguenta não. Merecia morrer, o desgraçado. Mas eu o poupei por sua causa, entendeu? Só por sua causa. E, porque ele me pediu. Vc tinha que ver, amor! A vozinha dele afinou depois que os caras acabaram com o rostinho delicado dele, com os pés que ele tanto prezava. Implorava feito uma garotinha. Não teve jeito. Juro que fiquei com pena quando ouvi o estalo de seu tornozelo, QUE DESPONTAVAM COMO DENTES..os ossos que despontavam como dentes afiados, as cartilagens, os tendões salpicados de sangue, seu grito de dor enquanto se arrastava pelo chão deixando uma trilha vermelha. Foi fantástico!!! Eu falei pra eles irem devagar, mas, vc não conhece aqueles caras, amor. Quando a gente dá uma ordem, eles a seguem até o fim. Eu tive que cochichar no ouvido do seu amiguinho: 'Finge que tá morto'. Acho que ele aprovou a ideia porque rolou no piso frio da adega, urrando de dor e depois se calou, inerte como um morto. Acho que fui super bacana com ele. Porra! Eu fui bacana pra caralho com ele, meu irmão!!! E olha o que ele me faz??? Aparece do nada e me coloca numa situação super difícil. Fiz merda! Porra, fiz merda! Minha mãe não vai gostar. Ela detestava quando eu falhava. PORRA! Olha o que eu fiz!!! Tive de dopar vc, amor. Eu não quis. Foi culpa dele. Só dele, amor. Juro. Dorme...dorme, meu anjo. Ele não vai mais te aborrecer. Não fala mais dele, ok? Não pensa mais nele. Esquece essa coisa de dançar. Vc nasceu pra ser minha. Pra me servir, me satisfazer. Foi isso que a mãe disse. Foi pra isso que vc veio morar com a gente. Sempre foi assim e é assim que deve ser. Por que vc não entende essa merda? Por que, Giulia??? Isso dói, baby. Dói pra caralho! Eu vivo por vc. Eu respiro por vc. Vc diz que eu te faço sofrer, mas...baby...amar é sofrer. Amar dói pra caralho! Amar é uma merda. Esquece essa porra de romantismo barato que meu pai...oops...seu tio te ensinou. Aprende uma coisa: A PORRA DO AMOR DÓI, BABY!

Vc é linda quando tá dormindo, amor. Tô com uma puta vontade de te foder, mas, vou te respeitar...por enquanto. Por enquanto, dorme tranquila. Vou ver meu pai. Não. É o 'seu tio tão amado'. Seu tio amado! Ai, ai. Seu tio tá fazendo merda, baby. Ele precisa entender de uma vez por todas que quando eu falo pra calar a boca e ficar quietinho é pra ficar quietinho, porra. Se a minha mãe estivesse aqui, tudo seria bem mais fácil! Muito mais fácil. Era ela quem dobrava o velho. Ele fazia tudo o que ela pedia. Ele confiava nela cegamente. Puta que pariu. Vai ser otário assim na casa do caralho! É. Acho que vc dormiu. Vou lá no papai e já volto, amor.

Se ele gritar, não se levanta, ok? Deixa comigo. Eu resolvo tudo. Seu tio querido sofre de 'Terror Noturno', sabia?  É. Acho que posso chamar assim. 'Terror Noturno'. Por que ele sempre tenta gritar quando abro a porta do quarto? Sabe, amor, ele deveria me amar mais do que a vc. Eu sou o filho dele. EU SOU A PORRA DO FILHO DELE! Shhhhh...

Acho que ele tá me chamando.

Quer saber de uma coisa engraçada, baby? Ele morre de medo de travesseiros. Eu rio tanto quando ele arregala aqueles olhos azuis!

São lindos...

Meu pai. Ele precisa me amar.

Volto logo! Seu tio precisa de mim.
Morgana Milletto
Enviado por Morgana Milletto em 04/06/2020
Código do texto: T6967974
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Morgana Milletto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 51 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/08/20 08:34)
Morgana Milletto