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Novela em verso 


NAQUELE VERÃO 

milena

Voltava eu à pátria. À pequena 
ilha onde nascera e me criara
e donde, moço ainda me empurrara
o destino cruel que tudo ordena.
Voávamos entre ilhas... Tarde amena,
calma, sem nevoeiro, tarde clara,
para os céus açorianos tarde rara
de começos de Abril... assim serena.
Como depois me disse, ela também 
voltava às raízes, ao torrão
donde a levara, um dia, sua mãe,
pouco antes de nascer, a partilhar,
já desde então, da triste condição
desta fatal diáspora insular...

Vinha vazio voo... uns dez talvez.
Mas mil que fossem, eu tinha notado
de certo aquele rosto aureolado
de um misto de ousadia e timidez.
Não sei se houve no mundo alguma vez
encontro entre amantes combinado
numa existência e noutra consumado...
não sei se amor refaz o que desfez
a morte. Sei que a atração nasceu
logo ao primeiro olhar e que cresceu
a cada novo olhar, para nos guiar
com um inexorável fatalismo,
irresistível, místico tropismo,
e aos braços um do outro nos lançar.

E sei que tive então clara noção,
claríssimo presságio, cristalino
que se traçava ali o meu destino
- e o dela - para o próximo verão.
É que para além da mística atracão,
daquele ar transcendente e peregrino,
vinha dela um eflúvio feminino
que concitava intensa tentação...
Telúrico apetite, plexo astuto
que, a cada doce enleio e inocente 
arroubo de meiguice e de ternura,
nos cobra o erótico tributo
da lasciva avidez... desejo ardente,
que o mais cândido afecto transfigura...

É que era mesmo linda a criatura,
cinturinha de vespa vaporosa
boquinha sensual apetitosa
a prometer delírios de doçura.
E aqueles maneirismos de insegura,
ora me dando os olhos, curiosa,
ora mos retirando receosa,
a suscitar reparos de censura
da velha companheira... mais prudente.
Oh! quem pode conter o  amoroso
apelo dum corpinho tão bem feito,
quando o oferece olhar tão insistente,
num palminho de cara tão formoso
e num sorrir discreto ... contrafeito

O olhar entre azul e o cinzento
conforme a timidez ou ousadia
com que do meu fugia ou insistia,
ao oscilar do vário sentimento.
O cabelo era longo, louro e lento,
em queda que dos ombros lhe escorria,
dourada catarata que luzia
em reflexos de luz e movimento.
Mas não eram os olhos, o cabelo,
os lábios, o pescoço, a tez tão pura...
havia ali mais profundo apelo:
mística vibração que me atraía,
pujante de meiguice e de ternura,
que me incitava que me seduzia.

Pra lhe falar faltou-me a ousadia..
ou talvez fosse o medo de quebrar
aquele doce enleio. Ia esperar
o desembarque e então lhe falaria.
Ela também de certo que não ia,
na presença da outra, aceitar
que me apresentasse. Era acirrar
os zelos com que ela a protegia.
E o verdadeiro amor é cauteloso,
avança pouco a pouco a passo leve,
é paciente, é meigo, é cauteloso...
a correr riscos graves não se atreve
de frágil que se sente e melindroso...
e foi amor assim que me conteve.

O desembarque foi uma surpresa...
é que, apesar de tarde, havia então 
no terminal enorme multidão,
esperando outro voo, com certeza.
E o meu plano de usar de gentileza,
de a ajudar, de ter uma atenção,
de lhe falar, desfez-se em frustração...
de nada me serviu a subtileza...
Mas, como nos amores estorvados,
em que, a cada novo estorvo, mais aumenta
a fome dos desejos não logrados,
quanto mais a matrona ma levava,
a perder-se na turba barulhenta,
mais eu a queria, mais a desejava.

Chamava-lhe Milena a companheira:
--Milena, espera! Olha, um momento...
a saída é ali... o guarda-vento,
vês?... Olha, vai atrás da bagageira.

Já bem entrada em anos, ar de freira
que se evadira há pouco do convento,
modo desconfiando, rabugento
de abadesa mandona, rija, inteira...
Milena obedeceu-lhe e foi atrás
da bagageira... A outra perspicaz
e má, olhou-me e regougou, danada,
qualquer abominável bizarria
que nem eu entendi, mas que trazia
o hálito da guerra declarada.

No hall, enfim, entre o beijo de alguém
que a vinha receber, e um segredo
que ali lançava as teias dum enredo
olhou-me novamente com desdém
(a do segredo e beijo olhou também)
Estremeci... não foi por lhes ter medo,
mas por sentir-me, no olhar azedo
das duas, tão sozinho, sem ninguém...
É nos beijos e abraços,  nos carinhos
que os felizes se dão, que os sozinhos 
se revêem em toda a amargura
sa sua solidão. não há sofrer
mais triste, mais amargo que não ter
um beijo à nossa espera... uma ternura.

Não pode haver miséria mais severa,
não há maior tristeza maior dó
do que voltar à Pátria triste e só,
sem um abraço amigo à nossa espera.
É que o abandono degenera 
em recusa cruel. O próprio pó,
em que agoniza como fosse Job
no desprezo a que Deus o expusera,
recusa o desgraçado que só quer
aninhar-se no pó para sofrer.
Não há maior tristeza, maior dor.
Beijo, segredo, olhares de desdém...
tudo isso me doía... mas ninguém, 
ninguém à minha espera era pior.



o velho gonçalo

Instalei-me na  quinta dum amigo,  
companheiro de exílio que, como eu,
deixara, um dia, tudo o que era seu, 
para ir juntar migalhas de mendigo,
na emigração. Não pode vir comigo,
que a labuta da vida lho tolheu.
Foi o Gonçalo quem me recebeu,
velho caseiro ilhéu ao modo antigo:
--E o menino Luis ficou por lá,
só Deus sabe por onde ao deus-dará...
enfim... a vida. Eu não entendo nada
de nada já... mandou carta a dizer
que tu vinhas aí, a refazer
a saúde que tinhas abalada.

Velho  Gonçalo, o mais fiel caseiro
que houve nestas ilhas, e o mais fino...
A quinta era o seu reino e o seu destino:
a verde laranjeira, o limoeiro,
a toranjeira, o universo inteiro
do sumarento mundo do citrino
crescia, obedecendo ao divino
poder das suas mãos de feiticeiro...
Crescia, modelando-se em umbelas...
enormes cogumelos que os meus sonhos
prístinos de criança encantavam
e, nos dias chuvosos, imitavam
guarda-chuvas gigantes e bisonhos.

Velho Gonçalo, que recordações!
que ralhos contra as nossas correrias...
e os ninhos, meu velhote que tu ias
mostrar-nos pelos bardos... e as lições
que tu nos davas, quando rapagões
queríamos saber de mergulhais,
de garfos e de estacas... de enxertias.
Saudades, meu Gonçalo, nem supões
quanto as saudades tuas e as lembranças
da quinta de quando éramos crianças...
quanto elas preencheram as conversas
tristes do nosso exílio e desespero...
Mas deixa, meu Gonçalo que eu não quero
ralar-te com memórias tão perversas.

--Ficas no quarto grande... até convém,
no quarto grande que era do Luis,
já que ele não pôde ou não quis
acompanhar-te. Há anos que não vem,
os velhotes morreram, eu também
já vou ficando... como o outro que diz,
não tenho forças, sinto-me infeliz...
é que afinal não tenho já ninguém.
Afloravam, nos olhos do Gonçalo,
lágrimas más... queria consolá-lo,
mas ele esquivou-se: --Deixe, deixe...
São lágrimas de velho, parvoíces...
duas vezes crianças... são tolices.
Não há razões para que ninguém se queixe

É o quarto maior que cá se arranja,
disse o caseiro feito intendente
do velho casarão remanescente
dos tempos opulentos da laranja.
Quando a vertente sul, em toda a franja
marítima da ilha, lentamente
se transformou em laranjal verdente,
cada palmo de terra, cada granja.
Durou pouco a benesse, e das fortunas
que se fizeram a carregar escunas
e brigues e chalupas... só ficaram
um ou outro chalé arruinado
incoerentes ecos dum passado,
que há muito se extinguiram, se calaram.

O quarto do Luis... Oh, decepção
dos espaços que morrem! Oh, vazio
das pareem eco - tudo frio -
Oh! o frio da vossa solidão!
Como eu tentei reanimar-te então.
ó quarto do Luis,  atar o fio
de mil reminiscências que partiu
o tempo ao dissipar-se. Oh, dispersão!
E eu que brincara ali vezes sem fim
andei, em vão, a procurar por mim...
só vislumbrei algum farrapo absorto,
agonizando ao longe, num passado
incoerente, absurdo, desfasado...
Tudo sem vida... tudo, tudo morto!

A estante com os livros lá estava,
linhas de pesca, os laços da moreia
as barbatanas - patas de sereia -
que era o que a Ricardina lhes chamava...
a Ricardina... sim...bem me lembrava...
o que era feito dela? --Uma canseira
casou e foi viver para a Madeira
--informou a Florinda que arrumava
o quarto abandonado e que vinha
--dia sim, dia não - alternativos -
lavar, limpar, fazer a comidinha
para este velho... arranjo que já vinha
do tempo em que os velhotes eram vivos
--pediu-me a Senhora, coitadinha...

--A Ricardina! Os pais ainda estão.
O Ti  Canastra havia de gostar
de ver-te...a ti e ao Luis... Ao mar,
há muito que não vai... A embarcação,
a lancha em que naquela ocasião
lembras-te?... o mar... a rebentar
e o Ti Canastra sem poder varar!
Jesus, que mar... cada arrebentação!
A lancha foi entregue ao tribunal.
Dívidas. Gente pobre é mesmo assim.
A Ricardina morreu no hospital,
por lá... Diz que de flato, cá por mim,
não estava lá, não vi, mas o pardal
do marido... ai, coisa mais ruim!

Boa Florinda, se lhe davam trela...
--Ó mulher, você também quando começa...
ainda não se comeu... e não se esqueça 
que agora somos dois! Que tagarela!...
Era o Gonçalo a ralhar com ela,
lá da cozinha. Ela foi-se à pressa
e eu fiquei ruminando na promessa
dumas sopinhas frescas da panela
em que ela punha mil e um esmeros
... e saberes antigos que os penates
guardavam na despensa, entre temperos
com que ela camuflava disparates,
esturros e guisados exageros
de alhos, de cebolas, de tomates...

Nas sopas da panela não, que as fazia
sempre muito bem feitas, a rigor...
obra de mito cheiro e de sabor.
A terrina de louça em que as servia
fumegava na mesa e rescendia
a hortelã-pimenta...um primor
que eu sempre lhe gabava com fervor
--As suas sopas são uma magia!
--Mais ou menos... a gente cá se ajeita...
--Florida há-de  me dar essa receita
para eu levar para lá, para o Luis
--Pois sim. Nada mais fácil. Qualquer
tipo de carne... frango...Quem quiser,
se for tempo de caça, codorniz.

--Coze-se a carne e coze-se o toucinho
entremedeado -melhor é do fumeiro-
a linguiça também... vai tudo inteiro
com muita hortelã e um galhinho
pequeno - quem tiver - de rosmaninho...
não há nada que dê aquele cheiro...
Coze-se tudo bem. O pão caseiro,
rijinho... para ensopar bem o molhinho
no fundo da terrina às fatias,
por cima as carnes e essas bem macias...
a linguiça, o toucinho e... o caldinho
em que tudo cozeu, inda bem quente,
vai por cima de tudo, Ah! um dente 
de alho, ou dois que é para dar gostinho.

E voltou-se a falar da Ricardina,
do Tonho e do Rui e do Albano...
dos que tinham partido ano após ano,
cumprindo aquela dura e triste sina
da emigração... ou fuga clandestina
que os levava a cruzar o oceano
no porão dum navio americano,
e de lá para a cadeia e para a ruina.
Todos os do meu tempo e criação
e muitos que eu não tinha conhecido,
tinham partido atrás de vãs esperanças,
deixando os seus na triste condição
de povo destroçado, reduzido
a velhos, a mulheres e crianças.

josefina

E até aquela imagem feiticeira
- Milena - se ia esvanecendo então,
delindo-se em fugaz recordação...
Mas numa certa tarde soalheira,
sempre guardada pela companheira,
fui encontra-la lendo no salão
paroquial, o único rincão
que, ali na vila, tinha a lisonjeira 
honra de se chamar biblioteca.
Lia atentamente e recorria
a um velho dicionário destroçado.
Falei-lhe. Pareceu-me um tanto seca,
talvez por timidez, ou cortesia...
ou certo ar de surpresa... reservado.

Foi breve o encontro, mas valeu a pena
que, sem palavras quase, uma certeza
ficou clara entre nós, que a firmeza
da nossa mútua entrega ia ser plena.
E assim nos aceitamos na serena 
e necessária dor, e na estranheza
de alguém que se contempla na leveza
dum destino a que Eros o condena.
Nem nos beijamos. Apenas se roçaram
as nossas mãos confusas , constrangidas.
Os olhos sim, que só eles disseram
o que os lábios surpresos não ousaram...
pois não carece serem proferidas
promessas que nos olhos se esconderam.

Ao outro dia voltei eu ao salão,
na esperança que talvez ela viria,
e desta vez, sozinha, sem a... guia,
cuja presença eu tinha por razão
do embaraço e da hesitação
com que Milena, então, correspondia
à minha exaltação e alegria.
Não aparece. Espero, mas em vão.
Só no regresso, quando já frustrado,
atravessava um espaço arborizado,
lá no centro da vila, a avistei.
Mal me viu, correu a me encontrar
e, ali mesmo, antes de cumprimentar,
pôs-se a falar da outra. Eu escutei.

Chamava-se a matrona Josefina,
a tia Josefina, em quem Milena
se habituara a ver desde pequena
uma segunda mãe: --Mas é malina...
tu não calculas, eu sou a menina!...
rapaz que se aproxime, é uma cena, 
fica raivosa, às vezes põe-se obscena,
gestos desaforados de varina...
Se ontem não berrou foi com vergonha 
do padre. Lá, em casa foi medonha,
ralhou, ralhou, julguei que me batia!
E quer levar-me já daqui para fora...
"vamos para longe, vamo-nos embora,
aqui mais não, aqui nem mais um dia!"

Emocionada, os olhos rasos de água,
Milena soluçou e fez beicinho
de quem ia chorar. Tiro um lencinho,
acudo, envolvo-a no meu braço, afago-a,,,
Enxugo, meigo, toda aquela mágoa
que lhe alagava o rosto e o mominho
rasgou-se num débil sorrisinho.
E, recostada no meu ombro, trago-a
para um recanto mais íntimo, Ela então
me abriu aí, de todo, o coração...
Falou de Josefina e da surpresa
que lhe tramava a maldita mulher,
e como conseguira esconder
por tanto tempo, tamanha torpeza.

--Quer que eu case. Que eu case! Imagina!
com um homem de cá... aquela fera!
Diz que ainda é seu sobrinho, e diz que era
este o destino  que, em pequenina, 
me reservava minha mãe... Cretina!
E eu a imaginar que me trouxera
a vir passar aqui a primavera
para me dar prazer...e ela maquina,
maldita, uma coisa destas! Má!
mulher sem dó!...Mas não conseguirá,
porque eu recuso. Nem eu quero vê-lo!
Nem quero ouvir falar da criatura!
Nem desse arranjo, dessa impostura...
que isto é mentira... Deus que pesadelo!

Eu nunca imaginei. Nunca, meu Deus!
agora é que eu entendo os modos dela,
aqueles zelos tolos, a cautela
com que ela me guardava... até dos seus
primos, sobrinhos... toda a parentela:
"é homem é ateu, tu és donzela,
não se fala com esses camafeus"!
às vezes eu até achava graça,
meu deus que tola, como  era inocente...
que nunca suspeitei desta trapassa!
Falava dum sobrinho cá na ilha
"rico e bonito, um homem competente
para casar com a minha própria filha!"...

E chorando contou-me ela também"
como ficara órfã, pequenina,
como a criara a tia Josefina,
que nunca conhecera oura mãe...
E que a tratava sempre muito bem...
só com aquela raiva viperina
aos homens... a constante serrazina
a que se habituara ela também...
--Nunca saía só: "ou vou contigo
ou tu não vais", Nunca tive um amigo,
e amigas, se tinham irmão...
Porque que só agora revelou
todo o controlo em que me criou?
Porque não disse antes?... que aflição!...

--E que faço eu agora? ela quer
apresentar-me ao homem. Diz que estou
em perigo de vida... e já mandou
dizer-lhe que viesse para me ver...
E agora eu não sei que hei-de fazer...
Não tenho cá ninguém1 E desatou
num choro tal que quase sufocou...
Eu não podia ainda entender
o drama todo em que se debatia.
O que ela me dizia não podia
ser a verdade toda... era impossível...
Eu suspeitava ali muito exagero,
aquela história absurda... era incrível!

__Olhe, Milena, eu não entendo bem: 
há muito de esquisito em tudo isso.
Se a sua tia tem um compromisso
para casá-la, a si, com alguém,
sem seu consentimento, ele não tem
qualquer valor, é totalmente omisso.
E nem importa que ela meta nisso
possíveis intenções da sua mãe.
A Milena só tem de dizer não!
Mas ouça cá, será que a pressão
familiar também vem doutro lado?
Quando chegámos cá no outro dia,
quem foi que a beijou e à sua tia,
no hall, depois de termos aterrado?

--Foi uma amiga dela, a Guiomar
- a retornada - que foi receber
a minha tia. Ela é também mulher
do dono da pensão Doce Lar, 
onde nos fomos ambas hospedar...
Mas ai meu Deus, se vem ela a saber
que eu saí de casa para te ver!
Tenho de ir, tenho de voltar.
Adeus, procuro-te outra vez, amigo.
Seja onde for, eu hei-de ir er contigo.
Detive-a um momento --Não se esqueça,
procure-me na Quinta da Galera
é lá que eu vivo. Estou à sua espera.
Ela selou num beijo a promessa.

o homem

A primavera vinha-se instalando
em todo o seu frescor, toda a pujança...
No mar, tudo vagares, paz, bonança,
em terra, hidranjas que vinham bordando
cada valado a ponto-cruz... sonhando...
com promessas de azul e verde-esperança.
No mar uma inocência de criança,
bailando como em festa de noivado.
Findava Abril e, como por encanto,
desde aquele encontro no recanto
do parque, e desde que Milena, então,
me prometera visitar a quinta,
toda a esperança que eu julgava extinta
voltara a inundar-me o coração.

--Eu vou, dissera então... quando puder...
não sei bem como, que ela não desiste,
nunca me larga...mas eu vou... E insiste:
um dia destes, creia, eu vou lá ter!
E um dia veio sem minguém saber.
Eu quis beijá-la, mas ela resiste.
--Não. Olha, tu ainda não ouviste
a história toda. Quero-ta dizer!
Quando nos encontrámos no jardim,
Nada te disse, nada, sobre mim.
Falei só dela, só daquela... tonta.
preciso que me ouças se quiseres,
José, ser meu amigo. E se quiseres,
te peço que me ajudes, nesta afronta.

Sentámo-nos os dois sobre o balcão.
Milena tinha urgência em que a ouvisse
e com razão, que tudo o que me disse
ali, tocou-me fundo o coração
--Não tenho pai, também não tenho irmão.
Se algum amigo tive foi tolice
da minha isolada meninice,
não tenho agora quem me deite a mão.
Eu já pensei em recorrer a alguém,
ao padre que a conhece muito bem,
a ver se a convence, se lhe pede.
Sozinha eu não consigo. Já chorei,
já implorei, ralhei, ameacei
matar-me... tudo em vão... ela não cede.

não fala noutra coisa, É impossível
termos uma conversa que no fim
não acabe empeçando no ruin
do homem, neste casamento incrível!
E como se pôs má, ruim, terrível!
E isto é recente, ela não era assim...
desde criança, fez tudo por mim
com aquele amor de mãe inexcedível
que só têm as mães. Quando eu perdi
a minha, era ainda bebé. não lhe senti
a falta. Só depois de ter crescido
é que eu chorei...e não foi de a perder
mas sim de a não lembrar, de não poder
sentir-lhe a falta e a dor de a ter perdido...

--Olhe, Milena, eu acho que você
antes de mais, precisa de o ver,
ver e falar com ele. Nem sequer
o conhece, é um enigma, vê?
Você tem de saber bem o porquê,
os motivos que tem essa mulher.
E também o papel que possa ter
esse homem em todo este banzé.
Tudo isto é mito incoerente...
Como é que a sua tia, de repente,
depois de a ter criado em tanto mimo,
insiste agora assim nessa maldade,
querer casá-la assim contra vontade...
e com um homem que ainda é seu primo?

--O homem não  me é nada. esta tia
não é tia de sangue. O marido
era irmão do meu pai e foi ferido
na guerra da Guiné. No mesmo dia
em que meu pai morreu, também morria.
Esta desgraça deve-as ter unido
estreitamente e deve ter partido
o elo natural que as prendia
às ilhas, emigraram. Josefina 
que tinha já família na Argentina
partiu logo. E sem saber que faça,
comigo para nascer, a minha mãe,
primeiro hesita, mas lá vai também
juntar-se à companheira de desgraça.

Milena interrompeu-se. Atrás de nós,
à entrada do terraço, um burburinho,
impondo-se ao bulício marinho...
assustou-a --Nós não estamos sós,,,
Era a matrona a irromper feroz,
e a empurrar os velhos do caminho,
ar tresloucado, a grenha em desalinho:
--Viram-te pra cá vir, eu vim após.
Que fazes tu aqui, ó criatura?
Menina sem carácter, sem vergonha!
Agora andas pra í ó sua... impura,
por casa duns e doutros, depravada?
Quem te meteu no corpo tanta ronha,
queres tornar-te em coiro, desgraçada?

E você, seu galucho gargaludo
quem te mandou roubar esta donzela?
Mas eu... eu não me chame Josefina,
se você não pagar por isto tudo!
e com juros, seu rufião cornudo!
Há-de pagar-mas todas! E o sovina
deste velho caquético... e a cretina
dessa mulher-a-dias... ah! cão mudo,
vê o ladrão, mas não é dela a presa!
Oh, sonsa, encobridora, eu hei-de vê-la
em cima sua essa... morta,,, tesa!
E era a vir contra nós de escantilhão,
com os velhotes a tentar detê-la,
Milena a esconder-se um desvão...

A cena era medonha. A Florinda,
estacara no meio do terraço
puxando no Gonçalo por um braço,
que, prestes a cair, tentava ainda
agarrar a intrusa desavinda.
Milena, agachada no espaço
do desvão duma porta que, de escasso,
mais parecia expô-la à infinda
raiva daquela tresloucada tia...
Aterrada, tremendo, trespassada
de medo... nem tugia nem mugia.
Josefina parara junto dela 
e curvava-se já engalfinhada
para a agarrar, mas nisto cai sobre ela...

A Guiomar: --Não, Josefina, não!
Tu endoidaste? Ah, mas eu te amanho!
E, botando-lhe às grenhas o gadanho,
arrastou-a para a porta do saguão...
--Não pode ser. Assim ao empurrão!
Entrar assim em casa dum estranho?
Isto dá bronca... e eu também apanho,
inda acabamos ambas na prisão!
E lá se foram tão subitamente 
como tinham chegado. Um furacão
que por ali passasse de repente,
e arrasasse tudo, não teria
causado em nós maior consternação,
maior pavor, mais profunda agonia.

Na rua havia gente. Ouvem-se vaias
--Bruxa dum raio, tu inda dás cabo
dos pobres velhos, alma do diabo!
Ó Guiomar, aguenta-te, não caias,
agarra-a bem, levanta-lhe as saias
e dá-lhe umas nalgadas nesse rabo...
Leva-a daqui essa cara de nabo!...
Como elas se arrepelam,  ah! catraias...
Achamos graça, mas ouviu-se então
um gemido tão triste, tão sentido
tão cheio de aflição e de ansiedade...
Era Milena ainda no desvão,
lançando em desespero o seu pedido
--Ajudem-me, meu Deus, por caridade!

Àquele apelo de Milena acode
logo a boa Florinda, diligente, 
ergue-a contra si e, docemente,
tenta leva-la. Mas Milena explode
num choro convulsivo...  Ninguém pode
conter as próprias lágrimas. Somente
Florinda não chorava... e sorridente,
num gesto cómico de quem sacode
alguma sombra má que o encobrisse,
toma nas mãos o rosto de Milena
e, olhando-a bem nos olhos: --Ouve cá
já chega de lamúrias! Quem te disse
que eu gosto de te ver assim, pequena?
Já para a cozinha, vou fazer chá.

Sentou-nos à mesa todos três,
beijou Milena, em cheio nas testa...
maternalmente: --Isto assim não presta!
Assim lavada em lágrimas, bem vês
ainda vou pensar que tu é que és
a única culpada desta festa.
Mas diz-me lá porque é que aquela besta
da Guiomar... aqui... fez o que fez?
E a outra, a Josefina, entrar assim
tão descaradamente, ar tão ruim
de quem vem a matar, tal espavento!
Milena, então, contou-lhe do parente
da tia Josefina... o pretendente...
daquele incrível casamento.

--Da família aqui da Josefina,
só há cá um que me venha à mente.
Dos outros, tudo o que era seu parente,
e eram muitos... todos na Argentina.
Para o que cá ficou foi uma mina
a emigração de toda aquela gente
casas, terras, tudo, finalmente
veio parar às mãos deste sovina.
Casou para casa do Manuel Nabais
- outro ricaço - inda enricou mais:
não há por cá ninguém com tal valor.
A própria Josefina, o que era dela,
o prédio que ela tinha na Portela,
está tudo em poder deste senhor.

É o Francisco Pana, o serrilha,
enviuvou há muitos anos já
e nunca mais casou. É mau. Não há
onzeneiro maior em toda a ilha.
Quando a mulher morreu, pegou na filha,
pô-la nas freiras novas... foi de lá
que ela casou. Hoje é tão má 
como ele. Uma agiota, empresta e pilha
os bens dos infelizes que a desgraça
obriga a lhe pedir seja o que for...
não larga mais, é como uma carraça.
Ti Canastra perdeu a lancha assim
juro de juro... e o grande estupor
levou-lhe a lancha, a casa, tudo enfim.

Agora se ele quer casar contigo,
isso não sei... ele anda por aí
muito boato, mas esse nunca ouvi...
Mas eu tiro isso a limpo. Ele é amigo
do padre... bom deixa isso comigo.
Mas essa Guiomar que veio aqui,
isso é má rês. Eu, quando lá servi,
para ela me pagar, foi um castigo...
A chaleira chiou e a Florinda
serviu o chá. Mas mão refeita ainda
de toda aquela enorme comoção,
Milena não quis chá, quis foi partir. 
--Meu Deus que horror! Eu tenho de ir.
Deus sabe o que me espera - uma prisão.

Ah, nunca mais me deixam vir à vila!
Depois deste escabeche... que loucura.
E com aquela horrível criatura
sempre a segui-me como um cão de fila...
Ah, nunca mais! Tentei persuadi-la 
a ficar --Fique. Volta noutra altura.
Olhe, Milena, aqui está segura...
A sua tia... é só preveni-la
que você fica cá com a Florinda,
que fica uns dias, ou melhor ainda.
diz-se-lhe que a Milena está doente,
que não pode ir, apanhou frio...
que aqui na costa às vezes o surrio
do mar consegue adoecer a gente.

Riram-se todos do meu infantil zelo
que teve, enfim, apenas o condão
de aliviar um pouco a situação,
lançando ao tenebroso pesadelo,
uma réstia de humor... e de fazê-lo
em total inocência e compaixão...
Milena, claro foi-se embora então,
mas só depois de ouvir-nos um apelo
para ter mito cuidado e ser prudente,
lá na pensão, com toda aquela gente.
Florinda prometeu que ia lançar
as bases de um contacto bem seguro,
alguém, lá na pensão que de futuro
nos pudesse, a miudo, informar.

florinda

Com a vinda de Milena e toda aquela
barafunda, na Quinta da Galera,
tudo mudou. Florinda renascera.
Mostrava-se agressiva na querela
que se ia aos poucos armando entre ela
e as da pensão... --Malvadas! Oh! prouvera
a Deus!... Mas eu... não perdem pela espera...
hei-de vê-las as duas numa cela!
O Gonçalo também. Que entusiasmo,
sempre que se falava da Milena!
--Aquelas cabras! Eu ainda pasmo
daquele atrevimento...aqui metidas,
como se fosse! E a pobre da pequena.


Passou Florinda a vir todos os dias
à Quinta. Vinha à tarde e ia dando
notícias de Milena e contando
o que ia descobrindo das manias
da josefina: --A do padre Tobias,
Elvira, aquilo é funda, mas eu ando
a descosê-la... Ela, de vez em quando
lá escorrega: --Florinda, tu sabias
que o Chico veio cá falar com o velho,
já duas vezes? Veio pedir conselho...
não sei para quê, parece casamento...
coisas da Josefina da Portela
e duma moça que veio com ela.
da Argentina, para aquele  ferrugento.

O "velho" era o padre. E a Elvira
era sobrinha dele. Ou... bom... amiga
a fazer fé nalguns --É... há quem diga
que é as duas coisa. --É mentira!
Despeitas e invejas... Nem admira,
tudo atrás dela e ela nem lhes liga
enxovalham a pobre rapariga.
--É, mas da fama ela já não se livra.
Era a Florinda pronta a defender
as virtudes de Elvira e o Gonçalo
a fazer  de advogado do diabo:
--Onde há fumaça, há fogo Ela é mulher
e o padre, no Passal é que é o galo,
e ela é bonita... oh, aquele rabo!

--Velho baboso! Havia ter vergonha.
Não tem idade já para tal tolice...
"aquele rabo"... ah, se ela o ouvisse
dava-lhe umas palmadas nessa fronha!...
Cos pés para cova... olhe não se ponha
agora a sonhar com parvoíce.
Tenha juízo, homem, já lhe disse.
E não fique com essa carantonha,
que quem deseja aquilo a que não chega
vive inquieto e nunca mais sossega...
Deixe isso para os rapazes, oh, Gonçalo.
Tudo a brincar, mas Gonçalo zangou-se.
Florinda, ao dar por isso, desculpou-se
E para fazer as pazes quis beijá-lo.

--<
não morrem nunca. Eu sei que sou velho
que bem me sinto e também tenho espelho,
mas ainda sonho... e desejo ainda...
e quando vejo uma moçoila linda
como é Elvira...  o beicinho vermelho...
peitinhos a saltar-lhe na berlinda...
...São más, ruins, vocês, mulheres velhas1
Tão mlinas  vocês como as abelhas...
matam o macho a fome e ao desprezo
quando já não lhes seve nos caprichos...
Não sejas má, os velhos não são bichos,
e eu mesmo velho assim inda me prezo.

com lágrimas nos olhos, o velhote
saiu porta fora. Ela espantada 
olhou-me arrependida da tirada
e saiu atrás dele num virote.
Vi-os depois sentados num caixote,
 no terraço. Florinda desolada,
tentando consolá-lo da piada,
limpava os próprios olhos ao saiote.
Uma amizade já de muitos anos
plasmara as duas almas de tão perto
que quando uma sofria desenganos,
tristezas, ilusões, o sofrimento
duma tocava a outra no concerto
da mesma dor, do mesmo sentimento.

A amizade cresce e se envigora
contente só de si, é o mais isento,
o mais puro, o mais nobre sentimento
de que é capaz a alma humana... Embora
se cante e louve amor, amor devora,
infanticida, o seu próprio rebento
de egoista que é e avarento.
Quango parce dar, não dá, penhora....
A amizade pura e verdadeira
dá-se espontânea, livre, toda inteira,
nada reserva, nada pede em troca.
De beijos e carícias usurário
amor é de amizade tão contrário,
que quanto abraça amor, amor sufoca...

Amizade, amizade, a quanto obriga!...
Chegou cedo a Florinda, um are festivo
de quem traz mais notícias: --O motivo
para querem casar a rapariga
com o patife do Chico é intriga 
das duas...Descobri... o objectivo
é reaver a casa e o respectivo
terreno da Portela... é velha a briga.
Quando a mãe morreu, a josefina
pediu, exigiu, até mandou
um advogado cá da Argentina,
imaginem! Mas o unhas de fome
do Chico tanto fez,. tanto aldrabou,
que, às tantas tinha tudo no seu nome.
Antes da Guiomar ir pra Angola
eram amigas já, e confidentes.
Nas cartas que trocavam,  frequentes,
conjuravam-se já contra o carola
do Chico. Guiomar comprou pistola
e trazia um papel, --As competentes
palavrinhas que aquele tira-dentes
há-de assinar e ir para a gaiola...
E exibia o escrito que trazia:
--A confissão do roubo que o patife,
o sem vergonha, fez à luz do dia...
para que conste e toda a gente veja.
... e depressinha, antes que eu lhe espatife
os miolos com esta benfazeja.
Era assim pitoresco o linguajar
da mana Guiomar - faca e calhau...
aquilo era mulher de instinto mau,
se se zangava, era logo a matar.
Foi madrinha de guerra até casar
com um sargento sorna de Bissau,
um de Santa Maria,  o garajau
que, depois de casar, a chamou
para a Guiné... e ela foi. Depois,
já ambos em Angola, abasteceram
a tropa com comer, vacas e bois
que a Guiomar e ele iam comprar,
no mato, aos pretos. Lá enriqueceram,
depois vieram para cá morar.

A Florinda, de certo, ainda não tinha
chegado ao fim daquela excursão
pelo passado dos donos da pensão.
Ia continuar a louvaminha
quando a interrompeu a campainha
que pendia lá fora no portão
e que servia apenas a função
de avisar que à porta da cozinha
ia surgir alguém... Logo a seguir
um vulto desenhou-se na incerteza
dos vidros do postigo.  Hesitante,
Florinda levantou-se e foi abrir,
a custo dominando a surpresa
que lhe causava aquele visitante.

--Senhor Padre, isto é mais do que se vê
Traz água no bico, sim senhor...
passa anos sem cá vir este pastor
e agora assim aqui, sem mais nem quê...
O que é que o traz por cá? Ninguém o vê,
homem de Deus? Mas entre, por favor,
não fique aí â porta que o calor
ainda lhe faz mal... Vossemecê
entre, venha cuidar das ovelhinhas
do seu redil, de que há-de um dia dar
contas a Deus...  que há-de querer saber
se olhou por elas, pobres coitadinhas...
ou se as abandonou para manjar
do lobo mau que só as quer comer...
Padre Tobias, não se atrapalhou:
--Lingua de trapos, veja não lhe caia
algum ventinho!... Seu rabo de saia 
atrevidona, eu visto calças!... Sou
o seu Prior e não lhe dei, nem dou
confiança pra isto, sua arraia
Eu vim cá prevenir: não se distraia,
que isto daqui pra lá tudo mudou!
Deixe de andar aí na linguarice...
a Elvira já foi bem castigada
por ter caído assim na patetice
de lhe contar aquilo que é segredo... 
Mas a culpa é só sua, desgraçada...
e se não tem vergonha, tenha medo.
--É só o que lhe digo. É um alerta.
E não se atreva a ir mais ao Passal
pra ir sondar Elvira... sai-se mal,
nem pense que não vai ser descoberta...
Pobre da moça, não é lá muito esperta,
é uma ingénua, é, mas é leal
ao tio que a criou... e é natural
que me há-de dizer tudo - fique certa.
E comigo é que tem de se haver...
Deu meia volta e foi fazer tinir
de novo a campainha do portão...
Nós ficamos pasmados sem saber
o que dizer ou mesmo o que sentir
daquele sacratíssimo sermão.

Reagiu Florinda --Ai, agora
é mesmo o fim, e não se falará
mais em casório e nem me admirará
que a Josefina se vá já embora.
Mas eu inda hei-de it por aí fora
sondar minhas comadres.  Deixa lá
que se não for Elvira, outra será.
pois isto a cada hora, Deus melhora.
Voltou o outro dia, era certo
que o fim daquilo tudo estava perto,
que a Josefina fora convocada
para ir ao Passal com a Milena,
e depois duma triste e longa cena,
tinha vindo de lá desenganada.

O Chico não casava com ninguém,
e o prédio da Portela era esquecê-lo.
--O prédio é meu, só meu, e tem o selo
da posse justa. Quando a sua mãe
morreu, devia lá no armazém,
de anos de fiado e desmazelo...
comida, roupa, tudo, até o novelo
de lã pràs meias... tudo sem vintém
ela ia lá buscar. Tudo a fiar.
Morreu e, contar feitas, nem o prédio,
nem os tarecos davam para pagar.
E eu que  sempre fui e sou honesto,
pobre de mim, não tive outro remédio,
Tomei o prédio perdoei o resto. 

A Josefina, claro, incapaz
de se calar, rogou terríveis pragas
ao Chico Pana: --Deixa que ainda as pagas
e há-de ser no inferno. Satanás
há-de barrar-te o rabo de aguarás
pra ver com que vontade te desnalgas
a arrasta-las nas brasas. Três adagas
em cruz no coração e uma tenaz
para tu arrancarem pelas costas...
e essa maldita língua feita em postas...
tu vais pagar por esta falcatrua,
ladrão. E apopléctica arranhou
a cara do sobrinho que a arrastou
engasgada de raiva até à rua.


NAQUELE VERÃO - 6
elvira

A pobre Milena  resgatou-a,
daquela horrível cena, a boa Elvira,
levando-a para o seu quarto --É mentira
tudo o que o Chico diz. essa leoa
da tua tia... é...é má pessoa,
mas esse Chico oh, ninguém lhe tira
o primeiro lugar. Vira e revira
é capaz de comer uma meloa
sem a partir. Grandíssimo aldrabão!
mas deixa. Olha eu levo-te à pensão,
que brigas, eu já vi, não são para ti.
A Florinda contou-me que tens gosto
naquele moço lá da quinta... Aposto
que em pouco tempo o vês. Vem por aqui

E foram por esconsos e travessas
para evitar olhares indiscretos...
Não havia entre as duas mais afectos
que as emoções presentes, e mesmo essas
eram confusas: --Olha, não se esqueças
--diz Elvira -- que eu tinha já projectos
pra te ver longe destes ... inquietos...
mas oh aconteceu tudo às-avessas.
Queria ver-te só para te avisar
para que não caísses em casar
co Chico Pana, aquele... inconsciente...
pedi inda à Florinda, mas coitada,
ela não foi capaz de arranjar nada...
depois foi isto assim, num de repente

Ao  chegar pensão, Milena Insiste
com Elvira que entrasse --Olha Elvira,
m bom falhanço já ninguém mo tira...
vamos, não tenhas medo... tu não viste
ainda o meu quarto...ele é bem triste
comparado co teu... mas nem admira,
quartinho reles de pensão caipira...
mas vamos,  anda, entra... ouvistes?!
A minha tia vai ficar ruim,
mas não faz mal, porque ela é mesmo assim,
ralha comigo por tudo e por nada...
Deus queira que isto agora a desengane...
e o maldito do homem que se esgane
com o prédio que roubou à desgraçada.

Elvira entrou... um pouco apreensiva,
mas entrou. E Milena, hospitaleira,
ofereceu-lhe a única cadeira
do quarto, e, sem outra alternativa,
pôs-se a afastar um pouco a respectiva
colcha, para se sentar à cabeceira 
da cama. Nisto rola a travesseira
para o chão, e ambas, numa tentativa
espontânea de de apanhar a almofada,
dão-se mútua e medonha cabeçada...
e riem, riem, riem a fartar.
Milena é que pôs fim à brincadeira,
dizendo, aflita, para a companheira,
--Calar, calar! Meu Deus a Guiomar...     

Aporta abriu-se, e, mesmo sem entrar,
alguém meteu o rosto na abertura...
era, de facto, a cada feia e dura
da dona do lugar, da Guiomar.
Nem abriu a boca, só aquele olhar
cortante e frio... Nem uma escritura
teria dito mais da criatura
e do recado que ali vinha dar.
Ambas as moças, muito envergonhadas,
ficaram para ali embasbacadas
com os olhos na intrusa... A Milena
inda esboçou uma desculpa breve,
mas em vão, Guiomar não se deteve
para a ouvir, e abandonou a cena.

Entreolharam-se ambas no espelho,
num gesto de amizade e simpatia:
--É má, não é? --Se é! Tem a mania
de andar sempre a meter cá o bedelho.
O quarto era pequeno e tudo velho.
A cama era de ferro e quase enchia
o espaço todo. A um canto ainda havia
um guarda-fato antigo e vermelho,
uma mesinha com a mesma cor,
aos pés da cama era o penteador,
debaixo do espelho na parede.
--É pequenino, é --disse Milena
a modos de desculpa --uma pena...
nem é lugar onde ninguém se hospede...

Mas olha, até tem porta para o quintal
às vezes escapo mesmo por aqui
e voui até ao mar... é mesmo ali...
é só atravessarmos um pinhal...
Só tenho é medo... que isto afinal,
não conheço vivalma por aí.
O outro dia... que susto... até corri,
sentia-me mais leve que um pardal...
Era um homem tão grande, tão grandão,
com umas barbas pretas e um bordão,
enorme, sem sapatos, pé rapado...
Evira riu-se muito. --Isso é o rosca,
coitado, não faz mal a uma mosca,
um tonto, inofensivo, um desgraçado

--Pois é, pois é... Mas olha, não sabia
e tive um medo!...Nem queiras saber,
como se alguém viesse a correr
pra me matar, ai filha , que agonia!
Agora já conheço, a minha tia 
conta que ele é assim depois de ter
perdido o que tinham pra viver,
às mãos da Chica Pana, essa mafia...
a quem ele empenhou a casa e o pouco
de terrenhas que tinham, por dinheiro
prà mulher se ir tratar para Lisboa...
morreu do cancro, e ele ficou louco,
e agora anda por í o dia inteiro
em rezas prà mulher vir de lá boa.


A simpatia pura e cristalina
que crescia entre as duas raparigas
ia-as fazendo mais e mais amigas,
duma amizade forte e genuina
--Há tanto Tempo aqui e imagina...
foi preciso haver estas intrigas
prà gente se encontrar... olha não digas
ainda nada à... tia Josefina...
desculpa, ams eu cá não posso vê-la...
mas meu padrinho vai falar com ela
pra te deixar sair deste... pavor...
e ir visitar-me e darmos uma volta
por aí fora... E então, por aí à solta,
olha, vai ser do bom e do melhor.

Olha, Milena, até aqui foi mal...
mas deixa, agora que eu já te conheço
isto vai virar tudo do avesso.
O  meu padrinho pede, ele é legal,
hás-de ir lá visitar-nos ao Passal...
Mas não oves, lá dentro?  É o regresso
da tua tia... Ai... que eu ainda impeço
com ela!... Não!... eu vou pelo quintal.
De facto, lá para os lados da frente
começara m berreiro indecente
de praga a grossaria... guedelhuda...
Elvira abriu a porta: --Eu voi, Milena,
antes que me aconteça alguma cena
triste... Tu, calma, que isto agora muda!

E é que mudou. Daí a poucos dias
veio Elvira à pensão, a convidar
Milena para irem passear.
--E com a aprovação das tuas... tias!
--Só tenho uma... e tu não terias
da mina vida, deste meu penar:
a Josefina sim. a Guiomar
nada me é, a não ser arrelias.
Riram e foram ambas num passeio
que as levou à igreja e ao correio,
ao porto e à Casa Primavera...
Apanharam floridas no jardim,
...uma é pra ti e outra para mim...
só não foram à Quinta da Galera!...


as lapas
Mas não tardaram. Logo ao outro dia,
Florinda foi chamar-me ao terraço,
onde eu estava a procurar num maço
de papeis velhos, uns que o Luis queria
que lhe mandasse... Ao ver que e caía
aquela papelada do regaço
fiquei sentado, mudo de embaraço,
de olhos na Florinda que se ria...
As moças enfiaram porta dentro
e vieram postar-se bem no centro
do terraço, seguidas do Gonçalo...
Achei aquilo tudo u disparate,
e senti-me corar como um tomate...
e nem sequer tentei dissimula-lo.

E em fila indiana à minha frente
foram formando todos um cortejo...
pra virem uma a uma dar-me um beijo
dizendo: --Bom dia minha gente!
A minha gente era eu somente...
só o Gonçalo, sentindo certo pejo,
não me beijou - fingiu! O meu desejo
era sumir dali completamente...
tal foi o embaraço e a vergonha
que eu senti.  E dois... todos a rir...
riam às gargalhadas... não sei bem...
talvez fosse da minha carantonha...
mas eu por fim não pude resistir...
descontraí, pus-me a rir também

Tudo acabou em festa. Pôs-se a mesa
Florinda, sem que eu desse por isso,
tinha frigido inhames e chouriço:
--E guardo o que é melhor  pra sobremesa
--disse-nos ela --e é grande a surpresa...
E foi --Lapinha mansa que Zé Riço,
esta manhã, antes de ir para o serviço
foi apanhar... vizinhas... que beleza!
E estavam vivas --Olha --disse Elvira
pra Milena --é assim que a gente faz,
olha, vê bem... assim é que se tira...
coa concha duma vem-se à outra e zás...
mas Milena, coitada, nunca vira
e tinha nojo --ai, não sou capaz!

--Não és capaz? Então o que é que custa?
uma concha vazia e faz-se assim
mete-se rente à putra... até ao fim...
bumper baixo da lapa... assim, bem justa...
...ai olha acara que ela faz... assusta!
--exclama Elvira a olhar pra mim
--como se fosse um bicho... assim , ruim...
ai, ai, ai, minha rica Santa Justa!...
--Com efeito Milena não sabia
como pegar na lapa e tremia...
tremia e  encolhia-se com uma
na pontinha dos dedos. Viu cheguei-me,
tirei-lhe a lapa -- Olhe não se queime,
veja lá... não é brasa nenhuma...

e pra lhe dar coragem fui ralhando
com a Elvira: --Também não é preciso,
assim... lapa tão grande... de improviso!
pobre Milena, está-se iniciando
nas lapas, coitadinha... e  eu é que mando
agora, devagar, com mais juízo....
e olha Elvira, eu até simpatizo
com os escrúpulos dela, e só quando 
Milena se sentir mais à vontade,
é que deve comer... sem ansiedade...
sem ser forçada... que isto é mesmo assim...
sem mais preparação isto, de facto,
há-de parecer, ao primeiro contacto,
uma barbaridade enorme, enfim...

Quem vem de fora assim... não imagina...
é preciso ter calma, esperar, vá...
com essa lapa enorme, veja lá... 
arranja-se uma mais... mais pequenina...
Olhe Milena, aqui na ilha, é sina
de quem de fora vem, pra ser de cá,
tem de comer a lapa que o mar dá
à ilha nossa mãe... a genuína 
lapa... e crua...ao natural!... Assim
se torna filha das ondas noturnas,
que hão-de embalar seus sonhos de noivado
com o mais lindo e loiro e fresco ondim...
dos queen vivem ocultos pelas furnas
do mar que lá suspira enamorado.

Tadinha...ói... tem medo esta menina...
--Pus-me a brincar com ela --Deixe lá
que eu descasco-lhe uma, venha cá...
esta gostosa aqui e é genuina...
é mansa, cá das nossas, muito fina...
das que, segundo a lenda o mar nos dá...
Abra a boquinha, vamos...abra, vá...
que esta não lhe faz mal... é pequenina!
Já está solta na concha... é só sorve-la...
abra a boquinha, é uma chupadela...
assim... e ela entra logo, mal
a chupe. --E eu engulo sem provar...
--Milena não... precisa mastigar,
tomar o gosto que se não não vale!

E Milena, coitada, quis sorver
a lapa, com os lábios estendidos
como quem dava um beijo, olhos perdidos
no tecto da cozinha, pra não ver
o bichinho que estava inda a mexer
com os corninhos todos estendidos...
Quis, mas não acertou... humedecidos
os lábios dela vieram-se prender
muito abertos e quentes no meu dedo...
por entre eles veio, um pouco a medo,
a língua levemente titilar
a minha pele... Senti um arrepio
de súbito prazer que me invadiu
e uma vontade imensa de a beijar.

Mas não beijei e segurei-laje o rosto
com a mão livre para lhe meter
na boca a lapa... e pra me convencer
que era brincadeira de mau gosto, 
ela engulhou e eu fiquei mal disposto
com toda aquela cena...--Se quiser,
Milena, deite fora... e hjá-de comer
as  lapas noutra altura... Isto é suposto
dar-lhe prazer  e ser mais engraçado...
Assim com esse ar desconsolado
não tem graça nenhuma... deite fora,
cuspa-a na minha mão, que isto afinal
inda lhe vai é mesmo fazer mal...

E ela cuspiu, depois --Oh! obrigada!
e, agarrada a mim, ela escondeu
o rosto no meu peito e gemeu
palavras de desculpa, envergonhada
--Gostava tanto de ser mais ousada...
foi um receio assim que se meteu
na minha boca e que depois cresceu 
dentro de mim... lapa desconsolada...
--Pronto. Não se falarias isso...
a gente, lapas, e você chouriço...
que também é petisco cá da ilha...
e a Florinda  frita-o que é um gozo...
e com este inhaminho saboroso
é uma verdadeira maravilha.

E momentos depois estava esquecido
todo aquele episódio. E sem mais nada,
voltamos todos, logo, à petiscada...
Milena ao seu chouriço preferido,
outros às lapas. Eu compadecido
da pobre moça, ainda atarantada,
pra que ela se sentisse acompanhada,
comi também chouriço, mas fingido...
Conversamos. Milena quis saber
dos papeis que me tinha visto ler,
sentado no terraço --Até agora?
velharias, recordes de jornais 
velhas fotografias e postais
que o Luis quer, quando me for embora...

--E quando é que te vais embora?
--Inda não sei ao certo, mas talvez
eu fique por aqui...sei lá... um mês
ou dois... depende... não vou deitar fora
esta oportunidade que há agora
de nós nos vermos... muita, muita vez...
E o teu regresso? Quando é que prevês
o teu regresso? --Não sei. A demora 
é com minha tia que inda queria 
meter em tribunal aquele harpia
do Chico e os outros estafermos
que a roubaram --Então e tu já queres
partir?... Meu deus e não preferes
ficar mais um tempinho pra movermos?

Ela ruborizou e gaguejou 
uma desculpa --Não. Também gostava
que nos víssemos mais... Não me importava
até de cá ficar... Ela pensou
-a minha tia- quando cá chegou
recuperar a casa onde morava,
em moça, na Portela, mas estava tudo
nas mãos do Chico e falou
o piano de morarmos nesta  terra...
bem vês depois desta maldita guerra
com o ladrão, melhor é abalar.
Ao menos na Argentina a casa é nossa
e não há lá ninguém que queira ou possa
route-la... o melhor é regressar.

NAQUELE VERÃO - 8
noite de estrelas
Saímos para o terraço. Anoitecia...
o sussurrar das ondes a marcar
o ritmo da ressaca a respirar ...
que docemente adormecia...
uma gaivota exul  que se esquecia
do ninho no ilhéu , para ficar
naquele embalo doce a dormitar...
Milena a dar-me a mão se enternecia...
um lusco-fusco um diluir-se a dois,
um roçarem-se rostos e depois,
lábios que buscam lábios numa urgente
espontânea e total sofreguidão...
Milena sussurrava uma oração...
Oh! que este abraço dure eternamente!

Mas não durou, que, vindos da cozinha,
fingindo nada ver, os outros três 
voltaram ao terraço. Ninguém fez
comentário nenhum. Florinda vinha 
a falar em voz alta com a Elvira:
--É de noite, mulher. Olha vocês
melhor é irem indo ... pra outra vez
é virem mais cedinho... uma coisinha...
que é para dar tempo a esses dois pombinhas
de estarem os dois melhor... sozinhos...
que nos amores dois é conta certa,
e três é gente a mais.... Anda, mulher,
ponham-se a caminho. Se eu puder, 
amanhã há petisco... e a porta aberta!

Emocionada, abraçou Milena 
e depois deu um beijo a cada uma...
mas o Gonçalo não beijou nenhuma,
intimidado, creio, com a cena:
--Vai com elas, rapaz, que vale a pena,
com uma noite destas... nem costuma
estar tão estrelado...e ouve-se a espuma
a chilrear tão fresca e tão serena
no rolo... Vai com elas, rapaz,
mas juízo... vê lá se és capaz
de não fazer tolices, criatura!
Era o Gonçalo que se apercebia,
por fim, da emoção e poesia
daquele encontro cheio de ternura.

Ou talvez fosse a íntima atracção
que o bom velhote, há pouco descobrira
pela viçosa e robusta Evira:
--Vai, vai... não ande aí papão...
Florinda não gostou: --Seu velho, parvalhão!
--Deixa-o lá -- diz Elvira -- acha-me gira...
come-me com os olhos... nem admira...
pior é ser já velho que se não
ai, não te digo nada... era capaz
até mesmo de dar-lhe o que ele quer...
--Não sejas doida, Elvira, inda há aí
moços da tua idade... sei dum rapaz...
e tu sabes também... não val dizer
nomes, mas anda a morer por ti!

--Pois anda, mas é tolo... e não presta
para nada... E já é tarde... o meu padrinho
deve estar em cuidados. A caminho!
Deu ao Gonçalo um beijo na testa,
o velho respondeu com uma festa
que fez às duas mãos, muito mansinho,
no rosto dela: --Andar... e juizinho!
Vê lá, José, toma-me conta desta,
e aqui para a Florinda, já lhe digo,
que não se preocupe assim comigo,
que eu já estou velho pra fazer tolice...
mas sonho e desejo são assim,
view dentro dents até ao fim,
 como eu há pouco tempo bem lhe disse...

E lá fomos. A noite era só estrelas...
não havia luar...Só um livor
de luminosidade... um fulgor...
milhões de lantejoulas amarelas
a latejar no alto... milhões delas...
Um íntimo temor... pudor talvez...
apossou-se de nós... o resplendor
derramado por ruas e vielas,
enchia de mistério a escuridão,
recessos e recantos... e então,
oculto em cada sombra um sobressalto...
nós demo-nos as mãos... presentimento
ou mútua protecção... ou sentimento...
do mistério de luz vindo do alto.

Quando chegamos finalmente à praça,
foi preciso pensar qual é que eu ia
levar primeiro... Elvira não sabia:
--De qualquer forma pode dar desgraça,
que isto, meus amigos, se alguém passa,
por ti, Milena, e só, na companhia
dele, amanhã já não há freguesia
em toda a ilha onde se não faça
estranhos comentários: "ó menina
a sobrinha daquela Josefina,
a da pensão, ontem, à meia-noite...
na rua... com um rapaz... oh rapariga,
daqui nada, anda de barriga
à boca!... isto não haja quem se afoite..."

--Que esta gente é terrível. O melhor
é irmos ao Passal. A esta hora,
o meu padrinho, aflito com a demora,
ainda não se deitou e o pior 
será ralhar-me...Há-de ser o que for...
Tu ficas lá Milena, por agora.
José, coated, pode-se ir embora
que leva quase uma hora pra se pôr
na quinta... Fomos ao Passal . De lá
ia pôr-me a caminho --Ai, anda cá!
se vais embora assim, estragas tudo...
aue o meu padrinho há-de quero -te...
Anda cá, entra, não te vai comer...
Entrei, o padre, já de sobretudo

Estava à porta, pronto pra sair...
olhou-nos espantado --Mas vocês,
donde vêm vocês... vocês os três?
esperei, esperei, e tu sem vir,
Elvira! isto não se há-de repetir .
--Não há-de, não, Padrino...uma vez
e chega bem... eu sei, são quase dez...
a gente descuidou-se no subir...
--Subir de onde, Elvira, não me digas
que vêm da beira-mar... oh, raparigas...
com um rapaz... assim? isto é um perigo...
--Não! um perigo não... É o José...
vive na Quinta... o Ti Gonçalo até
jà disse que ia vir falar consigo.

--Não era isso que eu queria dizer.
O perigo está na língua essa gente.
Este rapaz ainda é teu parente
e o Ti Gonçalo já me veio ver
e já falamos. O que a gente quer
é tratar de evitar que se comente
por aí... é preciso ser prudente...
assim a estas horas... se alguém souber...
--Bem sei, Padrinho, nós pensamos mal
pensamos que da Quinta ao Passal
era mais perto, pronto, foi engano!
--Pior é que por causa disso
está o caldo entornado, o José Riço
vei buscar Milena... vinha ufano...

Todo inchado de orgulho, cum recado
escrito... D. Josefina queria
que Milena voltasse em companhia 
dele, "que é homem bom e assisado."
Vocês nao estavam cá e o coitado
voltou para a pensão de mão vazia...
Que eu cá só fiz aquilo que podia:
... mentir... menti! Menti com um danado:
 "As menninnas est-ao mum entretidas...
e vão fazer serão... depois eu levo...
depois da ceia, eu levo-a à pensão."
Vejam vocês, se aquelas presumidas
descobri a verdade... eu nem me atrevo
a imaginar o que elas dirão.

Mas vocês devem estar cheias de fome...
A Leonor deixou um empadão
de galinha no forno do fogão...
Vê lá, Elvira, se Milena come
alguma coisa. Há leite... ela que tome
contigo um bom copo de leite. Vão 
as duas lá pra dentro... agora!... Então...
vocês não se dewspegam, não? Wei home!
Xô! ambas para a cozinha... olha agora?!...
Isto vai ser conversa de homem... fora!
por fim, Elvira lá se resignou
e com Milena ela mão, saiu.
Padre Tobias, logo que nos viu
a sós, fechou a porta e suspirou.





FIM DA PRIMEIRA PARTE










 













 
José Serpa
Enviado por José Serpa em 09/07/2020
Reeditado em 31/07/2020
Código do texto: T7001258
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
José Serpa
Stoughton - Massachusetts - Estados Unidos, 83 anos
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