LEONEL IV - FARINHA DO MESMO SACO? - CAPÍTULO 10

CAPÍTULO X – FARINHA DO MESMO SACO?

Floyd calou-se ao ouvir o amigo dizer que não queria perder sua amizade, como ele também não desejava isso.

- Você é meu único amigo... Leonel continuou.

- E os caras da faculdade? Por que você não se aproxima de mais ninguém, desde que me conheceu? Você tem tudo pra ter muitos amigos. Talvez se eu me afastar...

- Na faculdade eu tenho colegas, vários, mas não são meus amigos. E eu não vou ter a banda pra tocar.

- Você tem talento pra tocar em qualquer lugar com qualquer banda. Não pode ficar dependendo de uma banda mixuruca de subúrbio de cidade do norte do Estado. Você é um excelente pianista e um tecladista fantástico. Pode tocar em Campinas, Ribeirão Preto, São Paulo e até no Rio. Ficar grudado em mim só está encobrindo sua música!

- Quem é que está querendo afastar a gente agora, droga!?

- Estou só querendo te livrar de uma situação difícil com seu pai e todo mundo.

- Meu pai não sabe de nada ainda.

- Mas se seu irmão sabe, é uma questão de tempo pra ele saber...

- Eu não tenho nada a ver com todo mundo e não tenho medo do meu pai. Eu o amo e sei que ele me ama também e quer me ver feliz. Não vou deixar de ser seu amigo só porque sou... amado de uma outra forma for você.

- Não é tão simples assim...

- Por que não?

Floyd terminou de secar o cabelo e sentou-se no sofá, jogando a toalha sobre ele.

- Pra você é muito fácil dizer “tudo bem, o cara me ama, mas é inofensivo” e passar por cima de tudo. Pra mim não é. O buraco é mais em baixo. Eu não sou tão inofensivo assim.

- Pensei que fosse... E pensei que fosse simples. Era simples antes...

- Não é mais... Quem segurava a minha angústia era o Gil. Não sei se você percebeu, mas eu não tenho mais ele. Conviver com você, ignorando isso foi difícil, mas... eu já tinha me acostumado. Eu tinha ele. Não tenho mais... O que eu sinto por você não é brincadeira, Leo. É sério e é forte. Não sei se teria a mesma liberdade com você, depois de tudo... Alguma coisa mudou... entende?

- Não muito... Você não tem... o Caio agora?

Floyd passou a mão pelo rosto.

- O Caio é uma criança, Leonel. Eu não tenho nem posso ter nada com ele. Se o pai dele descobre é cadeia na certa. O Gil tinha idade e estrada pra conviver comigo do jeito que vivia, mas eu não posso meter o Caio nisso. Estou morando aqui com ele, por causa da banda e porque não quero voltar pro meu antigo apartamento. O Gil está em tudo lá. Mas essa situação não é pra sempre.

- E se a gente dividisse um apartamento?

- Você ficou doido? Bateu a cabeça no piano da sua tia?

- É tão absurdo assim?

- Não vai dar certo! – disse ele, levantando-se. - Nunca daria certo, caramba! Seria... Seria como você conviver com a Helena depois que ela se casasse com seu irmão!

- Ah, cara, não exagera.

Floyd colocou os cabelos para trás e respirou fundo.

- Não pense que eu fiquei feliz quando eu descobri o que sentia por você, Leo, porque eu não fiquei. Já foi bem complicado pra mim, descobrir, no começo da minha adolescência, que eu sentia atração por outros garotos na escola e tentar esconder isso do meu pai. Ele acabou descobrindo justamente por que um garoto no segundo colegial ficou assustado quando eu disse pra ele que ele era bonitinho, contou pra mãe e o pai dele reclamou pro meu. Seo Teodoro Fontes não se deu ao trabalho nem de conversar comigo direito. Me pediu explicações e eu só disse a verdade: que gostava do garoto. Meu pai nem perguntou pra mim o que eu sentia de verdade. Me colocou pra fora de casa. Fiquei na casa de uma tia por alguns meses, mas não aguentei a cara feia dela pra cima de mim e me mandei de lá também. O resto da estória você já conhece.

Floyd respirou e tomou fôlego pra continuar.

- Quando eu te vi no show do “Legião” em Campinas... senti que você já tinha estado na minha vida de alguma forma. Não tinha encontrado você por acaso. Você era o Leo. O meu melhor amigo Leo. O motivo pelo qual eu tinha nascido aqui, nesse país, nesse Estado e nessa época.

- Vai começar com isso de novo?

- Vou... Você veio pra conversar e vai ouvir o que tenho a dizer.

Leonel calou-se. Floyd continuou.

- A gente se encontrou, conversamos muito e eu me apaixonei... Mas depois de um tempo, você me contou sobre a sua família, sua avó, seu pai, sua tia, seu irmão... e eu percebi que eu não cabia na sua história do jeito que eu queria. Não era pra isso que eu estava aqui. Chegava na frente do espelho todo dia e repetia: “Você não sente nada por ele, Floyd.” E eu seria muito feliz pro resto da minha vida se isso fosse verdade. Mas não era... Conheci o Gil e, numa das nossas noites de bebedeira, desabafei com ele e ele ouviu tudo com toda paciência. Ele gostava tanto de mim que ouvia sempre, cada vez que eu voltava depois de um show nosso. Suportou cada fossa, aguentou muita coisa comigo. Sinto muita falta dele agora... Você não pode ficar perto de mim do jeito que ele ficava e o Caio fica. Nós não somos... “farinha do mesmo saco”. Dá pra sacar?

LEONEL (REENCARNAÇÃO) IV – CAPÍTULO 10

“FARINHA DO MESMO SACO?”

OBRIGADA, SENHOR, POR TUDO!

POR SUA PIEDADE, ENSINA-ME A SER PIEDOSO...

POR SEU AMOR, ENSINA-ME A AMAR SEM RESERVAS...

E PELAS BÊNÇÃOS!

NÃO PERMITA QUE EU ME APARTE DE VÓS

BOA TARDE E OBRIGADA!

Velucy
Enviado por Velucy em 07/08/2020
Código do texto: T7028890
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