Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

É ASSIM QUE DEVE SER - CAPÍTULO 28

Who's gonna pay attention

To your dreams?

And who's gonna plug their ears

When you scream?

You can't go on, thinkin'

Nothings wrong, but bye


Who's gonna drive you home, tonight?

(Drive - Cars)



"É só isso?", pergunta-me ele sem deixar transparecer piedade ou compaixão pela pouca bagagem que ele acaba de acomodar, cuidadosamente, no porta-malas do carro. Minha mochila, eu a carrego no colo enquanto a bolsa de viagem onde entulhei as poucas roupas que levara à casa de Doc está ao lado da mala que sequer chegara a abrir após o retorno do hospital onde fora internada na noite hedionda quando os amigos de Fernando me dilaceraram por dentro. Agora, aqui, sentada no banco do carona, tudo parece tão distante...quase um pesadelo porque, o que realmente importa é estar com ele que acaba de me olhar de soslaio abrindo um sorriso tímido. Ruborizo em pensar se ele me ouvira ou não. Ah! E daí? Estou tão ansiosa e contente que já não desejo esconder meus sentimentos.

- Posso? - Aponto o indicador ao botão do volume do rádio. - Amo essa música. - Justifico-me enquanto ele assente com a cabeça e começa a cantarolar baixinho "You cant go on, thinkin' nothings' wrong, but bye. Who's gonna drive you home tonight?".

- Amo essa música. - Declaro, animada pelo fato de ele gostar da mesma música que eu. Isso é um bom começo. Ele percebe meu contentamento o que me faz baixar os olhos enquanto os seus se mantém fixos na estrada. No rosto, a expressão suave iluminada pelas luzes dos postes que passam céleres pelas janelas. Os postes ficam para trás como a vida que levara até agora. Tudo o que já fui quero deixar de ser. Preciso recomeçar da maneira correta, crescer, estudar...quem sabe, voltar a dançar? Não sonha tanto, estúpida! Como vai contribuir com as despesas da casa sem trabalhar? Como vou trabalhar no "California" sem que ele perceba? E se ele descobrir que abriga uma dançarina de boate que dança para saciar a lascívia de homens babacas que me oferecem ótimas gorjetas? - Diabos! - Resmungo.



- O que houve? - Diz ele, sem desviar os olhos do trânsito.  A mão segurando a alavanca do câmbio de marcha com tanta segurança e virilidade que me fazem engolir em seco . O que mais essas mãos podem fazer? - Giulia, o que houve?

- Nada não. - Respondo, observando o vai e vem do limpador de para-brisas e seu ruído hipnótico. Suspiro antes de mentir. - Preciso procurar emprego. Amanhã mesmo vou tratar disso. Pode ficar tranquilo. - A mão máscula larga a alavanca e, suavemente, pousa em minha coxa. Puta merda. Uma corrente elétrica percorre todo o meu corpo e a sensação é maravilhosa. Jamais sentida antes. - Eu-eu - Gaguejo, pigarreando logo em seguida. - Eu preciso...- A luz vermelha e difusa do semáforo me deixa leve enquanto vou me distanciando. Sua voz rouca chega aos meus ouvidos, tranquila. O dorso de sua mão afaga minha bochecha enquanto ele se refere a um assunto que não fora mencionado. Não em voz alta.



- Para de se preocupar com bobagens.



- Não são bobagens. - Replico, sem me importar se ele lera ou não os meus pensamentos. Que leia! Sinto-me cada vez mais íntima e ligada a ele. - Eu não vou admitir ficar em sua casa sem contribuir com algo, Carlos. Na casa de Doc, eu cozinhava e limpava tudo. Eu não vou me sentir bem se não te der algo em troca. Não é justo. Vc trabalha pra viver. Vc não é um cara rico.



- Como sabe? - O sinal verde surge acima de nossas cabeças. Ele, de súbito, retira a mão de meu rosto levando-a de volta ao câmbio de marcha. Limpo a garganta. O carro segue adiante. Observo sua agilidade ao mudar as marchas. Da primeira, ele chega à quinta num piscar de olhos. Sempre quis aprender a dirigir, mas Fernando não sabia ensinar. Gritava em meu ouvido como se eu fosse obrigada a encaixar todas as novas informações em partes da minha cabeça e pôr em prática tudo o que ele me havia ensinado da noite para o dia. Meu tio chegara a me ensinar alguma coisa. Ao menos, sair da garagem e andar com o carro a vinte quilômetros por hora, com a marcha engatada 'na segunda', eu sei. - Eu posso te ensina ar o resto. - Diz ele, distraído. Bufando, estreito meus olhos, fixando-os nele e, antes de pedir para que ele pare de ler meus pensamentos, uma onda de ternura me invade. Será que essa onda vai me perseguir daqui por diante? Meu coração finge parar por segundos. Puxo o ar pela boca, sentindo os batimentos cardíacos aumentando de intensidade. O que há nele que tanto me encanta? Eu sei que preciso ficar ao seu lado. Eu sei que é o certo a ser feito, no entanto, como isso vai rolar? Seremos amigos, companheiros que dividem as despesas? Por que eu disse que ele era pobre? Pareceu esnobe? Ridícula. Isso não se faz.

- Perdão se te ofendi. - Murmuro.

- Ofender? Eu só quero te ensinar a dirigir. - Ele me olha intrigado, rindo do ronco que escapa de meu nariz sempre que rio espontaneamente. - Se vc não quiser, eu não ensino. - Encolhendo os ombros, ele imprime em cada palavra um tom divertido. Uma rápida olhadela para mim, um sorriso maroto surgindo em seu rosto e ele volta a olhar para frente. Perfeito. Minhas bochechas estão queimando. Devo estar parecendo um tomate maduro. - Pensei que quisesse. - Resmunga ele, afetando desânimo. Ainda que ele esteja me tratando como uma criancinha a quem ele quer fazer rir, eu me desmancho no assento quando levo as mãos ao rosto, balançando a cabeça numa negativa.



-  Não, Carlos! Não é nada disso. - Com as mãos no rosto, afasto os dedos e o fito pelos espaços entre eles. A voz sai abafada quando explico. - Não é pelo lance de aprender a dirigir. - Antes mesmo de eu pisar em ovos, tentando escolher palavras que não o ofendam, ele me pergunta.



- É por eu ser pobre? - Assinto, de cabeça baixa. - Vc acha que me ofendeu por pensar que eu sou pobre?

- Sim. - Suspirando, admito. - Desculpa. Eu não fiz por mal. Eu também sou pobre. Meus pais biológicos são pobres. Sério! - Gesticulando afobada, no afã de consertar o meu erro, minto...outra vez. - Eu sou super acostumada à pobreza. Meus tios não eram tão ricos e eu não vivia uma vida tão nababesca assim.



- Nababesca?! - Ele bufa uma risada gostosa. Eu abro um sorriso bobo. - Giulia, se acalma. Eu não tô ofendido. Embora eu não possa ter oferecer uma vida...-  Uma pausa e, então, modulando a voz de locutor de rádio, ele pronuncia. - Nababesca... - Reviro os olhos, sentindo-me patética, enquanto o ouço concluir. - Não sou tão pobre a ponto de não poder hospedar uma amiga em minha casa.



- Amiga. - Repito, meio que decepcionada.



- Amiga. - Repete ele, lançando-me um olhar enigmático. Arquejo quando os dedos de sua mão voltam à minha coxa, apertando a pele sob o tecido do vestido. - Uma amiga muito especial. - Acrescenta ele. Mordo o canto da boca, analisando friamente o que acabo de ouvir. 'Uma amiga muito especial' não é exatamente o que quero ser dele, porém, é melhor do que somente uma amiga. E, por outro lado, eu, cretina, não posso reclamar, pois quem dera início a essa palhaçada de 'amigos' fui eu. EU ME ODEIO! - Tá com fome? - Pergunta ele, com a mão direita ainda sobre a minha coxa. Um pequeno gesto que muda tudo. Tipo...parece que somos um casal que se conhece há anos. Uau. Se meu tio me visse neste exato momento, ficaria super mega feliz. Eu tenho certeza! Quando eu era mais nova, sentada no banco traseiro do carro dele, enfiava a cabeça entre as duas cadeiras da frente e ficava admirando a união e o companheirismo entre meus tios. Ele descansava sua mão na perna dela. Ela a pegava com carinho e a beijava sempre que podia. Daria para cortar uma fatia do amor entre eles de tão sólido que era. Por que tudo mudara tão bruscamente? Por onde anda a tia? Meu tio tá no Céu? Agora, eu estou no lugar dela, estática, sem saber o que fazer, quando ele me provoca. - Então, a garotinha quer massa?



- Não sou garotinha! - Esbravejo, movendo a cabeça, o cabelo amarrado em um rabo-de-cavalo conquanto não mova um músculo sequer da perna. Não quero deixar de sentir sua mão sobre minha pele. Talvez não seja nada. Talvez, seja um início ou somente um local aleatório que ele encontrara a fim de descansar a mão. Fernando fazia o mesmo, mas havia desejo, luxúria em cada gesto dele. Com Carlos é diferente. Ele simplesmente repousa a mão em mim como se fôssemos cúmplices. Por San Juan Diego! Eu não quero que isso acabe. Não quero que acabe! - Eu sou uma mulher! - Declaro, altiva. Surpreso, ele retruca.



- Eu sei. Uma linda mulher.



- Até parece...- Reviro os olhos, os dedos dos pés se movendo como minhocas, a respiração ofegante. - Acho que precisa de óculos.



- Acho que vc precisa aprender a receber elogios.



- Sério?



- Sério. - Afirma ele, enquanto eu vou deixando que minha mão esquerda escorregue até a dele. Pronto. Minha mão está sobre a dele. Não foi tão difícil assim. Uau. Sua mão é quente, pulsante. Outro revirar de olhos. O mesmo que precede as visões. Jogando a cabeça para trás, recosto minha cabeça no couro da cadeira e fecho os olhos e, em segundos, posso ver imagens. Imagens. Puta merda. Imagens que não pertencem somente a ele.



Diabos!!! O que eu faço em suas memórias???

 

Uma árvore torta, centenária. A copa frondosa, os galhos retorcidos, folhas alaranjadas formam um tapete crocante onde piso, acelerando meus passos até iniciar uma corrida em sua direção. Seus braços abertos sob a luz de um sol ameno, um vinhedo longo ao fundo. Sua blusa branca, botões no decote em "V", mangas bufantes. Um espetáculo! Ouço o alarido de crianças vindo até mim. Abro meus braços, caindo de joelhos na relva. Perturbadoramente emocionada, abro um sorriso repleto de um amor jamais vivenciado antes. Um amor maior do que sentira por meus tios ou por mim mesma. Um amor...



- Quem são essas crianças? - Penso alto.



- Que crianças!? - Exclama ele, retirando, num repente, a mão, desfazendo a conexão. - Que crianças, Giulia? - Repete ele a pergunta usando um tom mais calmo do que o normal. Um tom sombrio que se infiltra em cada palavra que ele repete pau-sa-da-men-te. - Quem são as crianças, Giulia? - Em seu olhar há uma ânsia, um desejo, uma inquietação que me incomodam.



- Criança?! - Replico, encolhendo-me no assento como um bichinho acuado. - Não faço ideia do que falei. Eu tenho essas esquisitices de vez em quando. Falo bobagens o tempo todo. Eu detesto essa merda de dom. - Estalo a língua, resmungando. - Dom é o cacete! Isso é uma maldição. - Bufo, exaurida. - Isso cansa, sabia? Essa coisa de ficar vendo o que os outros já viveram, cansa. - Nossos olhos se encontram. Outro sinal vermelho. Nossas bocas estão perigosamente próximas. Sua respiração está tão pesada quanto a minha. Ele e eu sabemos que minha visão não fora por acaso, mas, nenhum dos dois deseja romper o silêncio que se instala como uma parede de vidro que nos separa. Por Deus. Há lágrimas em seus olhos. - O que vai cozinhar!? - Quebro o encanto, deixando minha voz mais aguda do que gostaria. Ele se afasta, voltando ao volante. O carro volta a se locomover. Encostada à porta do passageiro, controlando minha respiração e o diafragma que sobe e desce como o fole de uma sanfona, observo-o a manobrar o volante com habilidade. Uma curva acentuada para a direita e, finalmente, paramos diante de um grande portão preto, em ferro forjado, do tipo "duas folhas". Está escuro e a chuva não dá tréguas. Nada vejo além do movimento alucinado do limpador de pára-brisas e da imagem dele, das árvores pendendo sobre um muro alto de onde caem folhas turbilhonadas ao sabor do vento forte. Os montes verdejantes, o penhasco, o mar lá embaixo chocando-se contra os rochedos. As crianças, seus olhos claros, a pele alva, os bracinhos abertos...- Giulia. - Sua voz serena e o ruído do freio de mão puxado com força me tiram do transe. - Vc tá bem?

- Uh-hum - Num repente, ele beija minha bochecha, abre a porta do carro e caminha lentamente em direção ao portão fechado. Ainda tonta pelas memórias e, principalmente, pelo beijo roubado, suspiro enquanto admiro cada movimento daquele homem à minha frente. A cabeça baixa, as costas um tanto curvadas, a camisa grudada em seu corpo, os músculos das costas se movendo sinuosamente como se estivesse prestes a começar a dançar, sem pressa alguma. Ainda que os pingos grossos, sob a fúria do vento, o vergastem, ele parece não querer se apressar.



Pois bem, meu bem. Não se apresse. A visão daqui está um espetáculo! Ele joga a cabeça para trás, então ouço o som adorável de sua gargalhada. De duas, uma: ou ele é daquele tipo de louco que ri no meio da rua enquanto caminha e fala com um grupinho invisível ou, para variar, ouvira a besteira que acabo de pensar. Foda-se. Ele volta a baixar a cabeça com o molho de chaves nas mãos ágeis e, finalmente, o portão se abre ao meio. Ele ergue os braços como um maestro pronto para conduzir sua orquestra. Então, num solavanco, empurra as metades, uma para cada lado. - Nossa. - Murmuro, arregalando os olhos, abanando, inconscientemente, as mãos em leque, enquanto ele se joga no banco do motorista absolutamente encharcado. - Vc...tá- tá...molhado. - Diabos! Quando comecei a gaguejar?



- É. - Ele ergue uma sobrancelha e, inclinando suavemente o tronco sobre mim, conclui com a voz  ligeiramente sensual. - A chuva molha.

- É. - Repito, meio que rindo histericamente, entre roncos absolutamente desnecessários. Patético, ridículo. Por que eu não penso antes de falar? Por que eu não consigo ser articulada com ele da mesma forma que sou com qualquer outro homem? Por que estou sorrindo para ele enquanto ele retira a blusa pela cabeça de uma maneira irresistivelmente sexy? Eu não sei o que há de tão fantástico na maneira como alguns homem retiram a blusa pela cabeça, curvando o tronco, puxando-a com força, mas isso sempre me fascinara. - Que nojo. - Minto, ofegando semi-hipnotizada, vendo-o secar a nuca e o tórax com a camisa úmida, arremessando-a, em seguida, contra a minha mochila. Fingindo não perceber meu súbito entusiasmo, ele afunda o pé no acelerador e passamos pelo portão até pararmos próximos à casa cujas luzes estão apagadas. Aproveito o momento em que ele retorna ao portão a fim de fechá-lo e inspiro profundamente seu perfume de Sândalo impregnado na camisa molhada, repetindo seu gesto. Passo a camisa em meu rosto, colo, braços como uma louca no cio e...



- Giulia? - Diz ele, enfiando a cabeça no vão da janela do passageiro. Fecho os olhos, absolutamente embaraçada. Por favor, diga que vc não viu o que acho que vc viu! - Giulia?



- Oi! - Solto um riso nervoso entremeado por soluços. - Sua blusa. - Digo. - Ainda tá molhada. -  Eu a mostro a ele que assente com a cabeça, sem mover um músculo de seu rosto. Os braços apoiados no teto do carro, os dedos tamborilando, os olhos incisivos, penetrantes, estudando meus gestos desarticulados. Creio que ele está se divertindo em me ver assim. Pode dizer. Eu pareço uma louca. Uma mulher se lambuzando com a camisa molhada e fascinantemente cheirosa de um quase estranho. Diga. Diga que é deprimente. Diga que sou uma insana, tarada, carente. - Não é o que parece. - Defendo-me.



- Do que tá falando? Não vi nada. - Mente ele, abrindo a porta do passageiro enquanto saio, desconcertada, porém, ainda consigo ver nascer um sorrisinho cínico no canto de sua boca. - Carlos, querido. - Ele se volta para trás, definitivamente decidido a me encarar. - Então...- Pigarreio, imprimindo indiferença em minha voz vacilante quando decreto, de cabeça baixa, evitando seus olhos brilhantes. - Vc vai precisar mudar de sabão em pó. - Ouço ele bufar. Eu me odeio por ser tão idiota. - Essa camisa pode ficar mais clara do que isso. - Elevo a camisa na altura de seus olhos. Atordoada por não poder tocar em sua pele a dois palmos de meu nariz, abro a blusa e, como um toureiro que sacode a muleta vermelha a fim de atiçar o touro, eu sacudo o pano impregnado de boas sensações, espirrando gotículas de água em nossos rostos. Ele solta uma risadinha piedosa. O que estava ruim, ficou pior. Estou me sentindo totalmente imbecil. Não havia nada mais estúpido do que isso para ser dito ou feito? Ainda assim, continuo a tagarelar porque é assim que eu costumo agir quando estou nervosa. Falo bobagens e mais bobagens. - Isso aqui nunca foi branco! Nunca! - Enfureço-me. Ele cruza os braços, fingindo dar importância às asneiras que continuam a sair de minha boca. - Mas, pode deixar comigo! Ninguém deixa uma roupa mais branquinha do que eu! - Ele morde o canto da boca, o que me deixa ainda mais nervosa, excitada, falante e desnorteada. - Ah, meu bem! - Movo a cabeça como um 'booble head' sobre o painel de controle de um caminhão e digo, afetando confiança. - Se tem uma coisa que eu sei fazer é lavar uma roupa! Sei mesmo!



- Sério? - Ironiza ele, abrindo o porta-malas, afundando a cabeça, à cata de minhas bagagens. Em pé, ao seu lado, sinto-me uma adolescente virgem à procura de algo a dizer que me faça parecer, aos seus olhos, uma mulher desejável. Vigorosamente, ele puxa as malas com seus braços fortes e, olhando-me de esguelha, questiona, expressando surpresa. - Quer dizer que o sabão em pó que eu uso não presta!? - Aperto os lábios, mostrando-lhe o meu polegar ereto. - Caramba. Impressionante.



- Tá me zoando?

- Nunca! - Diz ele, num tom solene, passando por mim, levando tudo o que tenho até a entrada da casa. Não sei se me irrito por sentir sarcasmo em suas palavras ou se me calo e paro de falar asneiras. Jogando minha mochila nas costas e, ainda, com sua blusa em uma das mãos, eu opto pela segunda hipótese. Cruzando o umbral da porta de entrada do que parece ser uma sala, informo, aflita. - Ah! E teremos de trocar o amaciante também. Vc põe suas roupas brancas para quarar? - Ele balança a cabeça de um lado para o outro, lentamente, jogando as chaves sobre o que parece ser uma mesinha. Insatisfeita, com o claro sinal que ele emite de que devo parar de falar em sabão em pó e amaciantes em um momento tão precioso quanto este, continuo a falar merda. - Carlos! - Exclamo, exaltada. - O ato de quarar uma roupa branca é fundamental para que ela continue branca! Vc não sabia disso??? - Sua testa se enruga enquanto seus olhos, paulatinamente, vão sorrindo para mim. - Tá me zoando? - Pergunto uma segunda vez, sentindo borboletas batendo asas dentro da minha caixa torácica. Essa é a deixa para eu calar a boca. Afinal, estamos a sós, dentro de sua casa, as luzes apagadas, seu olhar incidindo sobre o meu, a luz do candeeiro preso à parede da varanda iluminando sua boca rosada e macia. Puta merda. Eu jamais tive tanta vontade de beijar uma boca como a que estou agora, logo, penso que deveria calar a bendita da minha boca! - Por que tá rindo? - Esbravejo empunhando sua camisa amassada, umedecida ainda em minha mão. - Isso é absolutamente importante. Quarar é uma arte! - Grito, afrontando-o. - Vc deveria dar atenção ao que eu falo, Carlos!

- Eu dou. - Retruca ele, meio que indiferente ou, sei lá, talvez, decepcionado. Talvez esteja revendo sua atitude e tenha acabado de descobrir que fora má ideia me trazer para cá. - Não foi. - Responde ele, acomodando minha bagagem no chão da sala escura. - Pra te falar a verdade. - Seu tronco se ergue, seus olhos estão fixos nos meus, o que me faz calar imediatamente. - Trazer vc pra cá foi a coisa mais correta que eu já fiz em toda a minha vida.

- Uau. Uau...- Repito por não pensar em outra coisa além de 'uau' para dizer. - É sério? Digo...tem certeza? - Sussurro, sensualizando minha voz ao estilo Marilyn Monroe. - Se quiser, ainda dá tempo...

- De vc calar essa boquinha? - Suas mãos estão em minhas têmporas novamente. Ai...eu adoro esse jeito másculo e gentil com que ele me trata. - Giulia, para de pensar por um segundo, por favor? - Assinto com a cabeça, a boca entreaberta, aguardando que seus lábios se encontrem com os meus. Recosto-me à parede, de pernas bambas. Fecho os olhos. Sua mão esquerda já não está em minha têmpora.  Seu braço esquerdo, esticado, está ao lado de meus olhos atônitos. Com muito esforço, controlo o impulso de beijar, morder a pele de seu braço forte, musculoso na medida certa. Braços de um nadador. Estou prestes a dar o primeiro passo, quando sua boca encosta em meu ouvido. Arrepio-me toda enquanto ele dá uma risadinha e me pede, cochichando. - Chega para o lado?



- Como???



- O interruptor...- Puta merda. Um click e meu mundo cai feito jaca podre. Ele não queria me beijar. Desejava somente acender as luzes da sala e...



- U-au. -  Puxo o ar pela boca, enchendo meus pulmões. Seguro a respiração enquanto meus olhos escaneiam cada canto da sala, agora iluminada. Ele toca meu queixo caído e eu, instantaneamente fecho a boca, perplexa,



- Gostou?



- Carlos...- Sussurro fantasmagoricamente. - Isso é...



- Minha casa. - Jogo a mochila no chão, dando dois passos à frente, girando, observando, apreciando os detalhes de uma das salas mais bonitas que já vira em minha vida. Não é tão grande quanto a da minha tia, mas, é tremendamente aconchegante e bem decorada. - E, agora, é sua também. - Afirma ele.



- Minha também. - Repito mecanicamente, sem me importar com a porra de seu dom irritante. Toco nos móveis em madeira rústica espalhados por todo o cômodo. Logo adiante, paredes formadas por tijolinhos pintados de marrom escuro com um toque de verniz. Fixado neles, um quadro bucólico que me faz lembrar do lugar onde as memórias dele me levaram há bem pouco tempo. Árvores, arbustos, folhas secas no chão, duas crianças correndo de braços abertos pela relva verdejante. - Gostou?



- Sim. - Respondo, empurrando-o para o lado a fim de me dar espaço para que eu continue a estudar o local. - Muito...



O sofá marrom, em couro, brilha sob a luz da luminária rebaixada. Almofadas brancas, marrons e vermelhas jogadas, aleatoriamente sobre o móvel emprestam à sala um ar desleixadamente elegante. Dois abajures. Um de cada lado do sofá. Num outro canto, uma poltrona, igualmente em couro. Daquele que, de tão esticado, brilha por si só. Um espetáculo!!! Preciso controlar a minha vontade de pular sobre ela e ficar ouvindo o som da chuva lá fora, espreguiçando-me até dormir.



- Fique à vontade. -  Sugere ele, estendendo o braço, a mão na direção da poltrona. Com os olhos girando de um lado para o outro, ainda estou captando todas as informações e repassando-as ao meu cérebro agitado. No centro da sala uma mesinha linda, fofa, redonda em madeira maciça e, sobre ela, vasinhos com plantas decorativas formam um círculo. No chão, sob a mesinha, um tapete verde-musgo e no fundo da sala, abaixo do quadro, 'La Pièce de Résistance!'



- UMA LAREIRA!!! - Grito, eufórica, pulando, mexendo os braços e pernas como uma líder de torcida em final de campeonato de Futebol Americano. - Eu AMO lareiras! Eu AMO lareiras! - Giro meu corpo numa pirueta e o encontro atrás de mim. Dou dois passos até ele, falando alto, gesticulando. Alheia aos seus olhos semicerrados, os lábios umedecidos, uma expressão de ternura e uma pitada de malícia, explico. - Eu sempre quis ter uma lareira, mas a tia dizia ser inútil já que morávamos em um local onde o frio não era intenso. Mas...tipo...não importava! O essencial era ter uma lareira. É aconchegante, chique, romântica, esplêeeendida! - Dou uma pausa, inspirando e expirando. Com a mão pousada no peito, repito. - Eu amo lareiras.



- Eu percebi. - Murmura ele, displicentemente encostado ao espaldar do sofá, ombros relaxados, as pernas afastadas, observando-me com aquela expressão esquisita do tipo: "O que eu fui fazer da minha vida?". Tremendamente envergonhada, eu cruzo os braços e me aninho na poltrona, mordendo o canto da boca, olhando o teto enquanto emito um ruído semelhante a um pneu esvaziando-se aos poucos. Tento não olhar para ele porque sei que ele me examina e disso eu não gosto. - Eu sabia que vc iria gostar da lareira. - Lanço meu olhar questionador a ele. Erguendo os braços na defensiva, ele esclarece.  - Não sei como, mas...sabia que iria gostar.

 

- Isso aqui é lindo, Carlos. - Salto da poltrona e, diante das cinzas na lareira, ajoelho-me. Desconfiada, aproximo a mão dos troncos escuros que não foram totalmente consumidos pelas chamas. O local está frio, logo, ele não a utilizara recentemente. Logo, ele não recebera ninguém recentemente ou...talvez tenha sido tão avassaladora a paixão entre ele e a vagabunda que já correram até o quarto e fizeram amor em sua cama! - Que ódio. - Rosno ao me erguer de súbito ao mesmo tempo em que ele se levanta do sofá e vem ao meu encontro. - Cacete. - Praguejo, esbarrando em seu corpo duro feito pedra. Inocentemente, toco em sua pele ainda úmida. Meu coração vibra como a corda de um violão. - Nossa. - Digo, sentindo tudo girar ao meu redor. Ele me mantem de pé enquanto recupero o equilíbrio. Um frescor que vem de suas mãos me faz estremecer. Ergo os olhos. Vejo os dele. Puta merda. Ele gosta de mim? Ele gosta de mim. Ele gosta de mim! Ele gosta de mim??? - Minha mochila! - Falo alto, desviando os olhos, girando o pescoço, chicoteando seu rosto com a ponta do meu rabo-de-cavalo. - Foi mal. - Digo, alvoroçada, os braços esticados a fim de alcançar a mochila e me ver livre dessa pressão insana que ele exerce sobre mim. Não sei se estou inventando coisas ou se, de fato, há algum tipo de sentimento dele em relação a mim. Mas, e as vagabundas que aqui dormiram??? - Será que eu poderia tomar um banho?! -  A raiva sai entredentes enquanto jogo, violentamente, a mochila sobre as costas.



- Para com isso, Giulia. - Pede ele, com serenidade. Suas mãos estão em minhas bochechas quando ele volta a pedir. - Para de bobeira. Eu moro sozinho. - Inflo as narinas, então, bufando, insisto, dando um longo espaço entre as frases como se eu tivesse acabado de tomar um dos calmantes de tarja preta da minha tia.



- Eu preciso...de um banho...preciso me acalmar...tirar a poeira do corpo. Hoje...o dia foi...estranho. Eu tô cansada. - Suas mãos deslizam das bochechas até os braços; dos braços até as minhas mãos que ele, delicadamente, aperta entre as suas. Finjo não sentir sua intenção, fixando, involuntariamente, meus olhos em seu pescoço absurdamente atraente. Puta puta merda. - Vc poderia sair da minha frente e, pelo amooorr de Deus, me mostrar onde fica o banheiro? - Repito, irritada.



- Posso. - Sua testa se encosta à minha. Eu devo admitir que esse é mais um dos muitos gestos dele que me fascinam, além da voz firme e grave que impõe. - Mas, antes, vc precisa me dizer o porquê dessa carinha emburrada.



- "Carinha emburrada???" - Exalto-me. - Não me trate como criança! Eu não sou uma criança! - Seu polegar acaricia meu lábio inferior. Meus dentes ficam à mostra.

- Fala. - Estou tão tonta que estapeio sua mão a fim de não me jogar sobre ele. Arrependida, eu peço desculpa.

- Eu tô nervosa. Eu... preciso de um banho. Perdão. - Ele faz que não com a cabeça, estreitando os olhos incisivos. Sua voz sai baixa, melíflua.



- Diz, Giulia. Diz. - Certamente, ele tratara a última mulher a quem ele hospedara nesta casa da mesma forma com a qual está me tratando. Provavelmente este é o seu ritual de acasalamento. Ouço seu riso curto e não me importo que ele tenha lido o que estou pensando. É bom que leia mesmo porque eu posso ser infantil. BURRA NÃO!



- O BANHEIRO! - Chacoalho os braços, livrando-me dele. Giro nos calcanhares, cruzando a porta que separa a sala do corredor. Ouço seus passos ligeiros atrás de mim. Abro um sorriso macabro. Bem feito.  Sofra! - Onde fica o banheiro nessa casa, Carlos??? - Rindo, ele informa.



- A segunda porta à direita. - Praguejando, acelero os passos, ouvindo os dele logo atrás de mim. Diabos! Por que estou tão irritada. - Eu adoraria saber. - Informa ele, irreverente. Estaco em meio ao corredor, enchendo os pulmões de ar para, logo em seguida, explodir.



- PARA DE LER A PORRA DA MINHA MENTE!

- Foi mal. - Diz ele, atrás de mim.



O corredor é largo, as tábuas são de madeira corrida. Nas paredes, quadros de 'Natureza-morta' de um lado. Do outro, quadros com fotos antigas, dispostos um ao lado do outro. Provavelmente de seus antepassados. Por que não há nenhuma dele quando criança? Ou mesmo adulto?



- Por San Juan Diego. - Murmuro, estacando, novamente, diante da imagem, pintada a óleo, de uma linda mulher. Os olhos vívidos, cabelos longos, cacheados e negros. Um vestido branco, mangas bufantes. A cintura bem marcada por um corset preto realçando um decote atrevido, sentada na relva como se provocasse a luxúria no pintor invisível. - Linda. - Sussurro. - Quem era ela? - Falo contra o vidro, meio que enfeitiçada por suas feições que indicam uma felicidade extrema. Vagarosamente, aproximo meus dedos do quadro porque algo nela me fascina, porém, antes de pousar a mão no vidro, Carlos chama a minha atenção, a voz vacilante.



- Para! - Arregalo os olhos, sentindo sua mão pesada em meu ombro. - Vem tomar seu banho! Já tem toalhas limpas no banheiro.



- Quem era ela? - Repito a pergunta, sem conseguir tirar os olhos da figura da mulher esfuziante.



- A avó da minha avó. - Informa ele, num tom soturno. Volto meus olhos a ele e percebo melancolia em suas feições. Então, desisto de usar minha faculdade para descobrir o passado daquela mulher por quem simpatizei. - Toma. - Diz ele, a voz triste, passando de suas mãos para as minhas, toalhas alvíssimas, felpudas, fofinhas. - Vai tomar seu banho. - Agarrando-me às toalhas, reprimo meu desejo de acariciar seu rosto, cabelo. Beijar sua boca e curar suas feridas. Sorrio. Ele me corresponde, ordenando, docemente. - Vai. - Num átimo de segundo, engulo o sorriso, dando espaço à raiva quando penso que estou prestes a me enxugar com a mesma toalha de outra mulher qualquer que tenha feito parte de sua vida. - Bobagem, Giulia. Eu nunca trouxe ninguém à minha casa. - Trinco meus dentes e rosno.



- Para de ler a porra...- Ele me interrompe, furioso.



- Então para de pensar tanto! Eu não controlo isso, porra! Para de pensar e vai tomar seu banho! Agora! - Seguindo seu indicador que aponta para o fim do corredor, caminho, confusa, irritada, perturbada, envergonhada, arrependida e excitada. Amei a sua fúria repentina. - E não demora!



- Tá bom...- Resmungo ao entrar no banheiro, sem trancar a porta. Parte de mim o quer como homem agora. A outra parte, o quer como amigo, protetor, companheiro.



E quem disse que eu não posso ter o homem e o amigo ao mesmo tempo?

Eu adoro tudo nesse homem.

Puta merda.



****

"A gente pode acender a lareira?", fora a primeira pergunta que fizera a ele após o jantar saborosíssimo. Além de bonito, elegante, educado, Carlos cozinha muito bem. Um canelone ao molho branco recheado com carne moída. Hmmmm espetáculo! Repetira duas vezes sob seu olhar carinhoso.



- Normalmente, eu não como muito. Não mesmo. - Minto, após a refeição, os dentes escovados. - É que hoje aconteceu tanta coisa. Foi um dia atípico, saca? Um dia inesquecível. - Elevo meus olhos à luminária em vime e me recordo de Serena, a filha morta de Doc que partira ao encontro da Luz. Será que ela está bem? Dou uma longa pausa para, repentinamente, acordar. - Cara! - Ele franze a testa, surpreso. - Se eu te contar, vc não vai acreditar! Aconteceu tanta coisa em tão pouco tempo! Coisas...tipo...surreais! - Expiro pela boca, desviando o olhar vago às fagulhas que se desprendem das chamas hipnóticas. - Vc não iria acreditar.



- Acreditaria sim. - Sentado no tapete, ele se inclina para trás, espreguiçando-se recostado ao assento do sofá. - Vindo de vc, eu acredito em tudo.



- Não deveria...- Inspiro profundamente, segurando o ar nos pulmões. O remorso finca suas unhas afiadas em meu peito. Soltando o ar pela boca, assumo. - Eu não sou tão confiável assim.



- Não?

- Não! Eu sou terrível! - Fechando os olhos, elevo o queixo e insisto que ele me sirva mais vinho. O jeito seguro como ele entorna o líquido vermelho em minha taça me faz corar. Suas mãos são fortes,  os dedos hábeis. Adoraria ser tocada por ele. - Mais! - Exijo, numa euforia fora de costume.



- Vai ficar bêbada. - Adverte ele, abrindo um sorriso encantador. - Quem vai te levar pra casa depois? - Brinca ele, pousando a garrafa sobre a mesinha redonda no centro da sala onde estamos sentados.



- Ih! "Who's gonna drive you home tonight?"  - Rio meio que embriagada quando digo. - Isso é a letra...



- DE UMA MÚSICA! - Falamos em uníssono, gargalhando em seguida.



 - The Cars! - Comenta ele, sedutoramente relaxado.



- Isso! - Concordo, ainda rindo, elevando a taça acima de minha cabeça. Meu cabelo está limpo, úmido e solto. Visto minha camisola longa e branca.  Minha predileta. Seu tecido é fino. Um tanto transparente diante do fogo. Ainda que não olhe para ele, sinto que seus olhos incidem sobre mim e eu estou adorando ser vista por ele. Talvez, ele me veja como eu quero ser vista. - Adoro essa música. É tão triste...- Emborco a taça deixando-a vazia em duas longas goladas. - Muiiito triste! - Afirmo, leve, solta, feliz como não me sentia há muito tempo. Sinto-me em casa...ao lado dele. - Carlos! - Giro meu pescoço lentamente em sua direção. Seus dedos tamborilam sobre o couro do sofá, os olhos atentos. Há algo nele indecifrável. Algo que me atrai ainda mais. Acho que é o vinho ou lembranças que não são minhas...



- Pergunta.



- Por que se preocupa tanto comigo? Digo...não que eu não goste. Eu amo. Digo...eu amo o fato de ter alguém neste mundo que me trate bem, mas...como tudo começou? De onde me conhece? Quando me viu pela primeira vez? Por que me ajuda tanto? Eu não me lembro de ter visto vc antes daquela noite onde dançamos em seu trabalho. Minto! - Hesito, revirando os olhos à procura de respostas no passado. Encontro. Com a voz arrastada, corrijo-me. - Não. Vc trabalhava no restaurante do meu tio e me salvou naquela noite do estupro. - Estalo os dedos, eletrizada. - É isso!



- Sim.



- Não, Carlos. Vc não me respondeu.



- Não?

- Não. E eu não estou tão bêbada assim. - Estico o braço, a mão segurando a taça onde ele derrama o vinho tinto e suave. Um longo gole e, encorajada pelo álcool, prossigo. - Vc não me explicou porque estava lá naquela noite ou como soube que eu estava sendo violentada.



- Isso importa? - Retruca ele, visivelmente incomodado. - Vc não acha que seria o dever de qualquer homem de bem tentar fazer algo por vc? Que espécie de ser humano seria eu se te deixasse daquele jeito, largada no chão frio até que o faxineiro te encontrasse no dia seguinte?! Por que voltar àquela noite onde eu não pude evitar que te machucassem!? - Pressionando as mandíbulas, controlando sua respiração, ele me pede entredentes. - Dá pra não tocar mais nesse assunto? Acabou. Passou. Eu odeio aquela noite. Odeio aqueles merdas. Odeio o filho do teu tio. - Transtornado, ele complementa num tom sarcástico. - Teu amigo de infância.



- Não é mais. - Apresso-me em corrigi-lo. Sua cabeça se inclina suavemente para a esquerda enquanto sua sobrancelha se ergue, vagarosamente. - Sério. - Ratifico, observando sua expressão de incredulidade desaparecendo, aos poucos. - Nunca foi e nem será. Pra mim, ele morreu.



- Morreu?



- Morto e enterrado. - Sussurro, umedecendo os lábios com a ponta da língua. O vinho está agindo dentro de mim, assim como o fogo crepitante na lareira. - Juro. Não quero falar dele. É passado. Não quero te chatear. Só queria saber como vc me encontrou. - Sensualizando, com as duas mãos, enrosco meu cabelo como se fosse uma corda e o solto sobre um dos ombros. Descaradamente, eu meio que me ofereço, empinando os seios. Com a voz mais doce do que o normal, eu murmuro. - Só isso, querido. Só isso.



- Só isso? - Ronrona ele, mordendo o canto da boca. Puta merda. O que eu faço agora? Eu não aprendi a seduzir. Passara da pureza à vida mundana, da noite para o dia, sob o controle nefasto de Fernando. Tremendo-me toda, observo Carlos se erguendo, com agilidade, pondo-se de pé. Engulo em seco, elevando o queixo admirando-o por inteiro. Jesus, Maria e José. Que corpo é esse??? Seu tronco é esguio, ombros largos, o abdômen definido. A camiseta azul ornando com a calça de seu pijama em moletom instiga a minha curiosidade. Fixo meu olhar entre suas pernas quando ele me chama, tirando-me do transe. - Giulia. - Bosta! Baixo os olhos, estranhando meu pudor virginal. ACORDA! EU JÁ FUI UMA PUTA! Afasto-me dele quando ele se senta ao meu lado e, falando baixinho, me pede desculpas. - Eu não quis ser grosseiro.



- Não foi. - Suspiro, enquanto ele me puxa para si. Um pouco mais de calor e eu entro em combustão espontânea. - Vc não foi grosseiro. Eu que sou chata. Falo muito. Deve ser o vinho. Não. Mentira. Eu falo muito, mesmo sóbria. Só o meu tio me aguentava, sabe? Eu sou muito chata. - Choramingo enfiando minha cabeça entre as pernas flexionadas, as mãos na nuca, inspirando e expirando. - Tô tonta.



- Vc bebeu muito. Vou pegar um pouco d'água pra vc. - Antes mesmo de ele se levantar, eu me ajoelho e, num repente, eu o puxo pela mão e imploro.



- Fica. Já tô bem. Conversa comigo. Eu preciso de vc. Digo...eu preciso que-que vc converse comigo. - Ele ri quando gaguejo. Eu sinto meu rosto enrubescendo à medida em que falo. - Eu gosto de conversar com vc, entende? Eu preciso preciso...- DE VC, IDIOTA! - De mais vinho! - Ele volta a se sentar e seus olhos percorrem, ligeiramente, o meu corpo. Estou contra a luz do fogo o que deixa o pano fino que cobre o meu corpo, translúcido. Meus pelos estão eriçados. Meus mamilos, túrgidos. Desconcertado, ele volta o olhar perdido à garrafa quase vazia. Mal posso acreditar que bebera tudo praticamente sozinha. Por que desviou o olhar? É porque não gosta do meu corpo ou não gosta de mulher? Um leve puxão em meu braço e eu caio feito manga madura ao seu lado. Emburrada, eu o ouço esclarecer.



- Nenhuma coisa nem outra. Vc é linda e eu não sou homossexual.



- Eu odeio quando vc faz isso. Eu não tenho privacidade pra pensar.



- Eu não controlo essa porcaria. Eu já falei. E não é sempre. É como um fósforo riscado na escuridão. Assim como vc, eu também não gosto desse dom. Ou vc acha que eu gosto de ouvir tudo o que falam a meu respeito? - Apoiada sobre meus calcanhares, as mãos nos joelhos, confiante, inclino-me em sua direção, esperando que ele se afaste. Ele se mantem imóvel. Bem perto de sua boca, eu sussurro.



- Como posso anular esse seu "Super Poder"?



- Normalmente, em lugares tumultuados ou com música muito alta, eu não consigo ouvir nada. - Responde ele, afastando o rosto iluminado pela luz bruxuleante das chamas. Por que fez isso? Sério. Mais uma dessas e eu desisto de te beijar. - Em boates, provavelmente, eu não vou te ouvir.



- Boates...sei. - Absolutamente embriagada, perco o pudor e toco em seu peito. Seu coração bate descompassado. Será por mim? Por que não me beijou? - Por que vc me ajuda tanto? Quando nos vimos pela primeira vez?



- Giulia...- Ele emite um gemido que me deixa mais tonta do que o vinho prestes a acabar. - Tanta coisa que a gente pode conversar e vc se prendendo ao passado.



- Mais??? - Exclamo, perplexa quando o vejo entornar o que resta do vinho em minha taça. - Vc me quer "bêdada"? - Seus olhos estão vidrados nos meus. Os meus, estão pesados, porém, ainda consigo enxergar uma expressão de dor, medo e compaixão tudo misturado em seu rosto másculo. - Não vai me responder, né? Eu te odeio. Vc me esconde algo, tolinho. E eu vou descobrir. - Ameaço, rindo feito louca. Meu limite etílico fora ultrapassado. Fechando os olhos, seu sorriso tímido é a última visão que tenho...

Deste mundo.



***

Estou diante da lareira. O calor do fogo nos aquece. Lá fora, o uivo de um lobo solitário, o rugido do vento contra nossa porta de madeira. Por entre as brechas das janelas, o frio encontra passagem, A época é de fome e morte. No entanto, em nossa casa, não há espaço para nada além de amor. Nossos filhos dormem tranquilos em seus quartos sob os lençóis que eu mesma costurei. Juntara retalhos de vestidos e cortinas antigas e os remendara. "Ficaram lindos, Morgana.", diz ele enquanto beija Antoine na testa, pondo-o para dormir. Seus olhos incidem sobre os meus e, neles, encontro paz e desejo. Como ele faz isso eu não posso imaginar. Desejar o meu corpo e valorizar a minha alma. Tomar-me em seus braços com fúria e carinho. Jogar-me contra a cama e me amar com delicadeza. São gestos que me fascinam desde que nos conhecêramos ainda jovens. Ele rico. Eu, absolutamente pobre e perdida nas mãos de um padre a quem meus pais me venderam em troca de algumas moedas de ouro e uma mula que os levara para bem longe de mim.

Giovanni. Giovanni.



Seu nome soa como música aos meus ouvidos. Sua boca sacia a minha sede. Seu corpo me preenche por inteiro. Sua voz me faz esquecer da dura realidade em que vivemos. Uma época onde a Peste Negra retornara ao nosso vilarejo. Em seu abraço, sinto-me segura e tenho a certeza de que a morte não nos alcançará porque ele nos protege. Sempre fora assim e assim será. Fazemos amor no chão da sala tendo o fogo como testemunha. Enquanto ele me preenche por inteiro, fixo meus olhos cheios d'água na chama que devora as achas. O suave crepitar, sua boca em meus seios, em seu rosto um sorriso. Suas mãos em meu cabelo, minha boca encontra a dele.

"Sou sua.", deixo escapar entre gemidos quando seu corpo descansa sobre o meu. Seu cheiro me enfeitiça, seus olhos são de uma serenidade que me faz acreditar no impossível: de que não precisarei pagar pelo pacto que fizera.

Ainda jovem, devastada pelas torturas do padre porco, lascivo, repugnante, vendera minha alma a um demônio que me libertara, matando o padre com requintes de crueldade. A tudo assistira com um sorriso vitorioso no rosto. No entanto, o demônio não me deixara escapar sem que antes me fizesse assinar com o meu próprio sangue a promessa de que seria dele após a minha morte. Ga'al é o seu nome. Nome que sequer pronuncio. Nome que temo e este temor só não é maior do que o amor que sinto por Giovanni.

"Eu te protejo", promete-me ele, mantendo-me em seus braços enquanto escutamos o uivo do lobo lá fora. "Pactos são rompidos, Morgana. Eles terão a força e o poder que vc lhes conceder. Não tema. O medo atrai aquilo que tememos".

Beijo sua boca com voracidade e pânico. Sacio a minha sede, temporariamente porque, logo que nos separamos, o ar me falta e o quero novamente. Não me importo em tomarmos a sopa rala ou trabalhar de sol a sol na lavoura para entregar mais do que a metade do que temos aos vermes, biltres, monstros em forma humana que assaltam a cidade antes pacífica. Não me importo. "Daremos um jeito", é o que ele sempre me diz e é nele em quem eu acredito ou finjo acreditar. Sou tomada por um pavor que me consome sem que ele perceba. Um medo profundo e avassalador de perdê-lo para sempre e, então, me perder também. Sem ele, eu não existo. Eu não quero existir. Dou a minha vida pela dele e assim o farei quando a hora chegar.

****

Corro com os pés descalços pela relva onde, antes, ouvia o doce alarido das risadas de Antoine, o filho que a Peste me roubara. Corro alucinada. Corro em direção ao penhasco. "Giovanni!", ouço o eco do meu grito e a risada sarcástica de Ga'al que me fizera abortar a filha que eu daria ao meu doce Giovanni. Ga'al, insaciável, vingativo, ardiloso. Entrara em meu quarto enquanto Giovanni estivera ausente. Eu lutei. Lutei com todas as forças, mas ele, o ardiloso, me vencera.

Ele me estuprou...



O sangue escorre pelas pernas, manchando a camisola branca. Meus cabelos esvoaçam, enquanto corro em busca de socorro, mas, não há como fugir de um demônio. Ele vai te perseguir até consumar o seu desejo. E, o dele, fora o de acabar comigo.

"Giovanni!", grito uma vez mais, sentindo no rosto, a rajada do vento frio subindo das rochas lá embaixo. Meu Antoine amava ouvir o som das ondas contra os rochedos. "Eu posso pular, mamãe?", perguntava-me ele, os olhos claros como os do pai, a boca carnuda e rubra como a minha; a inocência que me encantava.

"Por Deus, meu filho! Jamais venha até aqui sem a mamãe ou o papai! Vc jura!? Diga que jura!"



O meu menino me obedecera. Permanecera longe do abismo onde agora me encontro. Agora, eu o entendo. A vontade de saltar e me libertar do sofrimento é pungente. Tão pungente quanto o amor e a saudade que terei de meu Giovanni.

- Vc não vai tocar em um fio de cabelo do meu Giovanni. - Rosno a Ga'al, afastando-o com um antigo crucifixo de madeira esculpido por Giovanni, grande conhecedor da Magia e Alquimia. "Quando usá-lo, faça-o com fé, Morgana. Com fé."

Empunhando o crucifixo, sinto-me tola porque parece não surtir efeito. Ga'al me rodeia como um maldito crocodilo à espera do momento exato de atacar. Meus olhos desesperançados procuram pelo homem a quem jurei amar pela Eternidade. É assim que deve ser e assim o será.



- Vc terá a minha alma, mas jamais o meu coração. Meu coração é dele. - Afirmo, abrindo os braços como uma cruz humana a dois passos da queda livre. Ga'al desfaz o sorriso irônico e, em seu rosto de linhas perfeitas. Eu vejo o medo surgindo, vagarosamente enquanto o mesmo sorriso se esboça em meus lábios trêmulos que murmuram. - Se eu morrer, vc virá comigo. Este é o pacto. Vc não tocará nele porque estará atado a mim até que meu Giovanni me reencontre e me salve. - Ga'al avança em minha direção. Eu dou um passo atrás. Meus cabelos parecem querer voar em direção ao céu, ao sabor do vento forte. Uma sensação de liberdade toma conta do meu corpo. Meu coração bate acelerado quando ouço meu amor gritando por meu nome. Em fração de segundos, perco o controle de tudo porque sigo ao seu encontro sem me importar com o ódio e o ciúme de Ga'al.

Emocionada, abraço o homem da minha vida pela última vez, ainda que não o soubesse.

Giovanni, enfurecido como jamais o vira antes, murmura palavras em um dialeto que desconheço. Palavras de poder que mantém Ga'al distante de mim.



Somente de mim...



Sem que eu possa compreender o que acontecera, numa fração de segundos, Ga'al usa de sua força descomunal contra o meu Giovanni que despenca desfiladeiro abaixo.



- Não solta! - Grito contra o vento, deitada sobre o chão de terra, implorando ao Criador forças na mão para que não me deixe soltá-lo. - Não faz isso! Não desista! - Imploro enquanto o vejo pendurado pelo braço que seguro. O braço que não largaria se ele não houvesse desistido de viver.



Antes de cair, meu Giovanni, leva consigo Ga'al que, sob invocações cabalísticas, transmuta-se em uma imensa mancha negra sugada para dentro de uma pequenina caixa.



"Vc é livre agora".



Foram suas últimas palavras. Seu último sorriso triste.



Odiando-o por ter me deixado sozinha no mundo e, amando-o mais do que a tudo neste universo, fecho os olhos, retesando os músculos do corpo que cai tão rápida e violentamente do penhasco que morro antes de ir ao encontro das pedras.



Eu o procurei pelo resto dos dias em que vagara sobre a Terra, mas eu não o encontrei.



***



- Giovanni. - Repito, sentindo a jugular latejando em meu pescoço, as costas suadas grudadas ao fino tecido da camisola. Sentada sobre o colchão, olho ao redor e não reconheço onde estou. - GIOVANNI! - Berro, saltando da cama, sem compreender como fora parar ali, em uma quarto pequeno, uma cama de solteiro, os lençóis macios, cheirando à lavanda. Desnorteada e ainda procurando por ele, corro até a porta do quarto, abrindo-a, estrondosamente. Estou diante do corredor. Descalça, caminho, cautelosa, sob a luz vacilante do plafonier grudado ao teto. Confusa, levo a mão à testa úmida de suor. - Onde eu tô? - Repito seu nome para não me esquecer. - Giovanni. Giovanni. - Da testa, levo a mão à lateral do crânio e, emitindo um gemido de dor, afirmo ao meu reflexo que me encara espantado. - Sou Giulia! Giulia. Sono Giulia. - Com as mãos em concha, lavo o rosto, observando a água escorrer pelo ralo. Ergo a cabeça. Um arquejo de espanto. - Que merda é essa?! - Digo vagarosamente. Puxo o ar pela boca, num repente, retendo o ar nos pulmões. - Deus...- Espantada, não me reconheço. Levo segundos. Segundos em que não reconheço os traços do meu próprio rosto. Baixo a cabeça, atormentada, piscando incessantemente até tomar coragem e me olhar novamente. - Cacete. - Aliviada, solto o ar pela boca, apoiando as mãos na borda da cerâmica fria da pia. - Por que eu bebi tanto? - Lamento, fixando meus olhos na toalha de banho pendurada no gancho em inox. Tem suas iniciais bordadas. Quem o bordou? A mãe? A tia? A esposa? A amante? Meio que revoltada, toco-a com meus dedos percebendo sua maciez, o cheiro dele quando a encosto em minha bochecha. Sorrio. Meu peito chega a doer de saudades.



Saudades de quê? De quem?



Apago a luz do banheiro e sigo pelo corredor. Do sonho que tivera, nada mais me lembro além de um vazio aterrador. Penso que deveríamos ter ao lado da cama uma caneta e um diário para escrevermos detalhes do sonho porque eles somem num piscar de olhos. Os melhores sonhos se vão, num piscar de olhos.

Lembro-me do tio. Sinto sua falta.

- Preciso do seu abraço...- Sussurro, arrepiando-me por inteiro. - Tio? - Giro no calcanhares, estremecendo-me violentamente. Uma sensação desagradável de estar sendo observada me toma por completo. Não costumo ter medo dos que já partiram, mas, contrariando minha vasta experiência nesta área, agora sinto. - Carlos. - Balbucio amedrontada, apressando o passo em direção ao facho de luz que escapa de seu quarto, a porta entreaberta, um sopro de ar frio traz consigo o seu cheiro. Fecho os olhos. Ouço o coração batendo nas têmporas. Uma tristeza profunda me faz chorar sem que eu saiba o motivo.



- Giulia! É vc!? - Escuto sua voz firme e terna. - Giulia!?



No chão, recostada à parede, chorando como uma criança, procuro palavras para explicar a ele o que está acontecendo, embora eu mesma não saiba o porquê de tanto dor. Mais dois passos e ele, compassivo, abre a porta. Como uma adolescente infantil, escondo meu rosto lavado por lágrimas, entre os joelhos. Sem nada me perguntar, ele se senta ao meu lado. O livro que ele carrega na mão, provavelmente o que estava lendo antes de ouvir meus passos, é jogado contra o chão enquanto seu braço esquerdo envolve meus ombros e me puxa para si. De imediato, percebo que o vazio fora preenchido por algo além da minha compreensão, então, volto a sorrir sentindo seus lábios beijarem o topo da minha cabeça. Talvez, ele me ache infantil demais. Boba demais. Uma mulher que não seria capaz de lhe satisfazer como ele merece ser satisfeito, mas, sinceramente, neste exato momento, todo o carinho que ele me oferece, preenche, ocupa, acalma, aquieta minha alma. Num impulso de coragem, beijo sua bochecha, agarrando-me ao seu pescoço e, entre soluços, imploro.



- Posso dormir no seu quarto? Eu não vou incomodar. Juro. Só não quero ficar sozinha...hoje. - Minha mão em sua nuca, minha boca contra a pele de seu pescoço. O som delicado de sua voz em meu ouvido diz que "Sim".

- Vem. - Diz ele, erguendo-se. - Vc dorme na cama. Eu me ajeito no colchonete. - Num solavanco, ele me puxa e antes que eu possa lhe dizer o quanto isso é injusto, ruborizo quando sua boca macia e quente toca a pele da minha testa, suas mãos cobrindo o meu corpo estirado no colchão de sua cama em ferro forjado, o colchão de mola deliciosamente confortável. Uma cama de casal. Uma fisgada de ciúme e inveja me faz ofegar. - Para de pensar, Giulia. Para de pensar. Descansa a tua mente. - Sua voz rouca cochicha em meu ouvido. Outro sorriso patético se gruda em minha face, acompanhado de uma risadinha de satisfação. - Gosto de camas grandes. Só isso. - Esclarece ele, cobrindo-me com o seu edredom fofinho, exalando seu cheiro marcante de sândalo. - Dorme em paz, meu anjo. - Diz ele, beijando o dorso de minha mão, os olhos incisivos sobre os meus, pesados de sono.



- Meu tio me chamava assim...- Explico num bocejo. - Vc deveria ter conhecido o meu tio.

- Eu o conheço. Agora dorme. - Ele cheira vigorosamente meus cabelos e se deita ao lado da cama, em um colchonete fino. Isso não é justo.

- Se vc se deitar aqui, eu juro que não vou encostar em vc, Carlos. Não é certo vc ficar aí e eu aqui. - Um longo bocejo e jogo minha cabeça contra o travesseiro. - Vem pra cama. - Meu braço estendido, minha mão pendurada para fora do edredom. Sua mão segura a minha, o que me dá coragem e um frisson num ponto entre os seios. - Por...- Um longo bocejo e concluo. - Favor.

- Fica quieta, guria. - Solto uma risada fraca, os olhos pesando. Guria. Eu amo o jeito como ele me trata. Guria. - Durma com Deus e sonha comigo. - Ele solta a minha mão enquanto assinto com a cabeça. Suspirando tranquila, fechando meus olhos, suplico.



- Não me deixa...- E, num esforço, antes de me entregar ao sono, lembrando-me de seu nome, eu deixo escapar. - Giovanni.
Morgana Milletto
Enviado por Morgana Milletto em 21/11/2020
Código do texto: T7117492
Classificação de conteúdo: seguro

Comentários

Sobre a autora
Morgana Milletto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 52 anos
113 textos (1197 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/09/21 18:45)
Morgana Milletto