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"É ASSIM QUE DEVE SER" - CAPÍTULO 32

He must have really hurt you
To make you say the things that you do
He must have really hurt you
To make those pretty eyes look so blue

(Heal the pain - George Michael)

Do alto do penhasco, vejo seu corpo sem vida, desconjuntado, como o de um boneco cujas articulações são móveis. A cabeça pendendo para o lado, o tronco perfurado pela rocha pontiaguda. A camisa branca com mangas bufantes, retalhada. Mais uma onda e o perco de vista. O mar o quer para si. Grito, angustiada, implorando a ele que me espere, embora saiba que, se ele estivesse vivo, não aprovaria a decisão que estou prestes a tomar. "Só Aquele que te dera a vida poderá tomá-la, Morgana." Esse era o meu Giovanni. Homem crédulo, sem religião. Conectava-se Àquele que o criara através do bem que fazia ao próximo. Como pode? O mesmo homem forte, corajoso, impetuoso, amoroso e cheio de compaixão agora não passa de comida para peixes. - Seu Deus não existe, meu amor. Não existe. Minha vida não tem sentido sem vc. - Murmuro, lembrando-me do homem que falava comigo sem mover os lábios. Telepatia. Foram anos de uma união perfeita. Lutávamos pelo pão de cada dia juntos. Colhíamos as uvas em nosso quintal sob o sol ameno do dia e, à noite, ainda que exaustos, nos amávamos, livres, sem tabus ou restrições muito cultuados entre os tementes a um deus que castigava ao invés de perdoar.

Nossos filhos abençoados nos foram tomados. Antoine morrera abatido pela Peste. A pequena Eve, cabelos da cor do fogo, olhos de esmeralda, sempre atenta a tudo e a todos fora covardemente culpada por bruxaria. Morrera com um golpe de punhal em seu coração amoroso. Sem forças para lutarmos, meu amado e eu nos deixamos tomar pela fúria invejosa de um povo que Giovanni curara, durante anos, graças à sua habilidade em lidar com ervas, alquimia e magia.

Acabara-se a Magia. O sonho. Não há mais nada a fazer aqui além de pular. Abro os braços em forma de cruz e peço que o Criador, de quem eu duvido, me ajude a encontrar Giovanni do outro lado. Assusto-me quando sou repentina e brutalmente puxada para trás. Seu sorriso é demoníaco. Seu rosto é tão perfeito quanto o de um anjo. Quem o visse sem o conhecê-lo diria tratar-se de um bom homem. Tolos. Ele não é bom e jamais será homem. Jamais voltará ao mundo como homem. Vagará pela Eternidade como um espírito diabólico à procura de uma pobre alma que, em um ato de desespero, o invoque uma vez mais e lhe dê, em troca, um corpo para que ele o habite.

- Vc o tirou de mim, Ga'al. - Digo com a doçura dos loucos. Meus olhos avermelhados, vidrados nos dele que confiam em mim. Sua mão forte vai soltando, aos poucos, meu braço. Calculadamente, sorrio. Ele, por instantes, corresponde ao meu sorriso, com uma certa inocência. É o momento ideal para que eu dê dois passos para trás e salte, jogando meu corpo contra o vento que me faz sacolejar no ar como uma pipa em dias de ventania. Meu Antoine amava pipas. Cair não é tão ruim assim. O ar me falta. O coração acelera tanto que chega a parar. No entanto, antes de me espatifar de encontro às rochas banhadas pelas ondas inclementes, ouço seu grito de horror e ódio. De joelhos, à beira do abismo, suas últimas palavras antes do meu impacto ainda ressoam aqui dentro de mim.

- Eu vou te encontrar, Morgana!

"Nos vemos no inferno".

Este fora o meu último pensamento e então...

A Escuridão se fez.

****

Um sonho recorrente. Acordo com um aperto no peito, o corpo dolorido e a lembrança de que fora amada. De olhos fechados, tento manter essa sensação por mais tempo. É tão morna e aconchegante. Sinto-me segura com ele. Ele. Ele. Quem é ele? Uma ideia me vem à mente e me faz sorrir.

- Se ao menos eu acreditasse em vidas passadas ou em reencarnação...

- Eu acredito.

- Puta merda! - Exclamo, afastando-me, enrolada no lençol, tombando no chão. Meus olhos alucinados não creem no que vejo. - O que tá fazendo na minha cama, Fernando?! - Olho ao redor, puxando o ar pela boca. As paredes tomadas por infiltrações. No teto, uma aterrorizante mancha negra que se espalha como gosma. A janela fechada, o cheiro de mofo no ar. - O que aconteceu aqui??? O que eu tô fazendo aqui???

- Vc não se lembra? - Diz ele com a voz fraca.

- Não! - Recostada ao guarda-roupas, abraço os joelhos dobrados. Ao menos, estou vestida. Uma longa camisola preta com a qual minha tia costumava rondar pela casa após a meia-noite orando em algum idioma que eu desconhecia. - Vc não me tocou, né!?

- Vontade não faltou, baby... - Um sorriso amarelo baila em seu rosto enquanto ele puxa o tronco e as pernas flexionando os braços e se recosta à cabeceira. Está mais magro, frágil. - Eu mal consigo caminhar, Giulia. Como eu poderia te tocar? - Há doçura em seu olhar quando ele me questiona, meio que indefeso. - Como soube que eu estava morrendo?

-Aaah! - Reviro os olhos, vendo passar por minha memória todas as cenas dantescas daquela noite de horror. - Nem queira saber. - Dramaticamente respondo, enfurnando os dedos em meu cabelo despenteado. - Foi um horror! Não quero falar disso. Vc tá vivo e é isso o que importa. - Ele solta uma risadinha e cerra os olhos.

- Não me lembro de nada.

- Sorte a sua! - Sorrio, erguendo-me do chão imundo. São bichinhos que se movem no piso ou eu estou vendo coisas? Onde estão os meus óculos? São bichinhos, meu bem. De onde eles vieram? Do inferno por onde sua tia andou. Nossa tia. Devem ter vindo agarrado àquele cabelo  horrendo que não vê escova há séculos. Não fala assim dela. Ué! Tô mentindo??? - Só eu que os vejo?

- Vê o quê? - Fernando se inclina, na tentativa de ver o chão. Tonto, seu dorso tomba sobre o colchão. Rindo, ele confessa que está ferrado. - Giulia...- Murmura ele contra o travesseiro. Seus olhos azuis amedrontados me procuram. - Eu não queria ter feito aquilo. Juro. Eu não quero morrer. Vc acredita em mim?



- Sim. - Digo, reticente. Recordo-me da carta e de tudo o que agora conheço. Estou diante de um psicopata. É preciso saber lidar com eles. Aaaah! E vc sabe muito! Cala a boca. Finja que não sabe de nada. Finja que essa carta nunca foi lida. Não posso. Não pode? Quer morrer, querida? Não. Então finja! - Isso acontece com muita gente, sabe? Há coisas entre o Céu e a Terra que muitos desconhecem.

- Seja clara.

- Vc foi sugestionado. - Digo fazendo careta enquanto, sentada na poltrona estofada em camurça verde, cruzo as pernas, fugindo dos vermes que circulam, livremente, pelo piso do quarto. Que diabos é isso?

- Como assim? - Boceja ele, sem abrir os olhos de tão pesados.

- Tá me ouvindo, Fernando? - Ele faz que sim com a cabeça e sorri, meio que abobalhado. Ainda observando o incômodo movimento dos pontinhos pretos e asquerosos sobre a tábua corrida, não entendo o porquê de estar aqui, conversando amistosamente com o homem que matara o pai - MEU TIO - e a irmã. Mesmo assim, vc não o odeia. Não. Não consigo. Tenho pena. Pena quem tem é galinha, meu bem. - Credo! - Exclamo ao erguer a cabeça. Assusto-me com seu olhar vidrado em mim. Um olhar incisivo, invasivo, indecifrável. Não o reconheço por instantes. Esquisito. - Carlos me disse...- Bufando, ele joga a cabeça para trás. Ouço o baque seco da pancada. Ele solta um "Ui" doloroso. Solto uma risadinha vingativa. Isso foi pelos meus gatinhos, seu monstro. - Então...- Pigarreio. - Carlos me ensinou que nunca nunca nunca estamos sozinhos. Seja na rua, no bar, no elevador ou mesmo nesse quarto.

- No banheiro também? - Sua voz, num tom soturno, arrepia os pelos dos meus braços. Há um sotaque, em cada palavra. Um sotaque que desconheço. Uma sombra o circunda, variando de intensidade e largura. Pode ser a falta de seus óculos, querida. Pode ser...- Eu não gosto da ideia de alguém me espionando enquanto 'solto um barro'. - Cerro os olhos, desgostosa.

- Eu odeio sua maneira chula de se expressar, Fernando. Vc continua um porco. - Ele ergue um canto da boca.

- Nunca estamos sozinhos? Prossiga. - Puta merda. É um sotaque britânico...só que não. - Fale mais, doce criança.

- Continuando... - Interrompo-o porque sei que ele está começando a se animar e a se movimentar com mais força e destreza ainda que não consiga sair da cama. "Fale mais, doce criança???"...que porcaria é essa??? - Neste quarto, há mais coisas do que vc pode imaginar. Nesta casa, onde antes havia vida e amor em abundância, as trevas se infiltraram de maneira permanente. - De soslaio, olho para o teto. A 'geleca' negra continua sobre nós, ameaçadora. Respirando, lenta e continuamente. Inflando e se esvaziando como um sapo gordo e repugnante. - 'Formas Pensamentos' como diria Carlos. Tudo o que fazemos e pensamos pairam sobre nossas cabeças gerando luz ou trevas. E cá pra nós, meu bem, vc é um poço de trevas.

- E vc é santa! - Rebate ele.

- Não. - Inspiro, apoiando os braços no espaldar da cadeira. - Mas estou tentando melhorar. Já não faço as bobagens que fazia. O que antes me dava prazer já não me dá mais. Agora, vejo tudo com mais clareza...entende? - Replico, incomodada. Ponho os óculos enquanto a sombra se apodera de seu corpo. Agora, ambos são um só. Arquejo, espantada quando o ouço me chamar de "Mo ghràdh" - Fernando! - Ele cruza as mãos sobre o abdômen sem tirar os olhos de mim. - Que merda é essa!? Não é inglês, francês, italiano nem espanhol!

- Gaélico, anjo. Gaélico. Significa 'Minha querida' em gaélico. Eu posso te ensinar, se vc quiser. - As mãos se descruzam. A voz sai de sua boca como música. Seu corpo se move, elegantemente, em minha direção. Meu queixo caído o faz rir, de maneira contida. Ele cobre sua nudez com seu roupão branco, embora seus pés mergulhem no oceano negro formado por 'minhoquinhas' que escalam suas pernas sem que ele se importe com isso. São miasmas. Miasmas!? Como sabe!? Não sei. Só sei que sei. - Miasmas ou larvas mentais. - Define ele.

- Vc me ouviu??? - Ele afirma com a cabeça enquanto eu cravo as unhas em minhas coxas cobertas pelo tecido fino da camisola. Entredentes, pergunto. - Fernando, desde quando vc ouve pensamentos?

- Ele não ouve. Quem ouve sou eu.



- Vo-vo você?! - Dessa vez, um forte arrepio me faz tremer como se houvesse levado um choque elétrico.
- Miasmas. - Repete ele enquanto o isqueiro acende o cigarro que ele traga com furor. Fernando não fuma. Eu sei. O que tá rolando aqui? Não sei. Baforando círculos de fumaça no ar, ele desvia os olhos ao teto, examinando-o por segundos. Um sorriso sombrio se desenha em seu rosto que se transforma, aos poucos. Penso em me levantar e sair correndo. Um simples gesto de sua mão me faz desistir. - São ideias projetadas pela mente humana e materializadas no mundo astral. - Continua ele. - Somos nós que as alimentamos todos os dias. O dia inteiro. Somos nós que criamos esses adoráveis seres que vc está vendo aqui, neste exato momento. - Engulo em seco quando ele se senta na beirada da cama, em frente a mim, cruza uma perna sobre a outra com ares de um psicanalista e, pausadamente, me pergunta.

- No que tem pensado ultimamente, Giulia?

- Em possessão? - Com o coração aos pulos, eu o encaro. Definitivamente, não estou mais conversando com Fernando. Diante de mim, existe um homem com os cabelos negros, lisos e bem penteados para trás. Os olhos da mesma cor dos fios alinhados. Olhos enormes e astutos. Nariz afilado. A boca rosada, dentes brancos, a pele extremamente branca. Pálida. Uma expressão de soberba no semblante coberto pela fumaça do cigarro . - Cadê o Fernando? - Tomada por uma coragem que vem do âmago do meu ser, interrogo o visitante.

- Aqui, comigo.

- O que vc quer dele?

- Nada.

-  Quem é vc? Vc me é familiar. Eu te conheço?

- Sim. - Uma pausa e ele volta a tragar, exalando fumaça pelo nariz e pela boca semiaberta. Tossindo, eu o ouço, cruzando os braços sobre meus seios. Isso é frio ou medo? Isso importa? Não. - Vc ainda era muito nova quando estive aqui pela última vez. Sempre alegre, agarrada ao seu tio. Eu nunca imaginaria que se vc se transformaria em uma mulher tão fascinante.

- Vc conheceu meu tio? - Rosno, desconfiada.

- Sim. Sua tia era minha prima. Adorável. Celeste sempre foi adorável. - De perto, percebo detalhes. Seus dentes são pontiagudos. As unhas enormes e sujas. Ele cheira à terra  úmida. - Ela ainda continua adorável. De uma forma distinta, mas, ainda assim, adorável. - Sua cabeça se inclina em minha direção. Acuada, salto da poltrona. Atabalhoada, tropeço na perna da cadeira e caio no chão. Arrasto-me  até a porta onde me escoro. Xingo os vermes que me alcançam numa fração de segundos. Grito, de nojo. Ele ergue uma das mãos e eles somem como que por encanto. Penso em agradecer ao visitante, no entanto, o medo é maior do que a gratidão, logo, emudeço. As mãos espalmadas na parede, os olhos estatelados, a respiração sem controle, volto ao passado. - Lembrou- se de mim?

- Ga'al! Meu tio te detestava! - Afronto-o. - E se ele tinha algo contra vc é porque vc não prestava!

- E ainda não presto.  - O cigarro cai no chão. Ele o apaga com a ponta do pé. As unhas são tão sujas quanto as das mãos. Como se ele tivesse andado a noite toda em meio à terra úmida, escura. Terra de cemitério? Sim. Pode ser. - Vc é como sua tia, Giulia. Sensitiva. Vive entre os dois mundos. - Dando um passo à frente, ele afirma. - Difícil viver assim, não é?

- O que vc quer?

- Voltar a Terra.

- Como assim??? - A medalha de São Bento já está em minha mão trêmula. Respirando pela boca, giro a maçaneta da porta. Trancada. Sem ter para onde ir, caminho apressadamente para a janela, próxima à cama. - Voltar como??? Vc é louco??? Vc tá morto!!!

- Renascer. - Diz ele erguendo os braços estendidos como um ator que agradece ao público ao final do espetáculo. - Simples. Nascer de novo.

- Isso é impossível! - Afirmo, insegura.

- É possível sim. Em condições muito especiais, é possível sim. - Do que esse morto patético tá falando? Condições especiais. Condições especiais. Diz alguma coisa! Ela tá perto demais! Dizer o quê??? - Giulia...

- O que vc quer de mim?! - Berro, afastando-me de sua mão estendida.

- Pense, Giulia. - Diz ele, pacientemente. - Raciocine.

- Volta pro inferno! - Ordeno, desorientada. - Deixa o Fernando em paz! - Repito mentalmente as palavras em latim que livrara São Bento das armadilhas do Mal. Perco a noção das palavras quando o vejo a um passo de mim. Quero respirar. O ar me falta. - Crux...Crux...- Um forte cheiro de enxofre invade minhas narinas. Fico tonta, enjoada. - Não...me...toca. - Aviso. Basta que seu dedo sujo encoste em minha testa e lá estou eu, cercada por túmulos, vermes, jazigos, mausoléus, espíritos em decomposição. Os pés enfurnados na terra...úmida e negra. - Não me toca...por favor. - Imploro num suspiro. Minhas pernas perdem a força. Minha cabeça gira...gira...gira. - Eu não vou deixar...que...vc...me...- Meu corpo se desequilibra. Meu braço esbarra na escrivaninha. O vidro do porta-retratos se espatifa no chão. Meu tio me sorri na foto, certamente, tirada por minha tia em uma das muitas viagens deles em lua-de-mel. Ajoelho-me no colchão e, de olhos fechados, imploro. - Tio, me ajuda. Me ajuda, por favor.

- Ele não está aqui, anjo.

- Volta pro inferno, verme maldito. - Ameaço-o com a cruz que arranco da parede. Sinto-me ridícula como em um filme de horror antigo onde o vampiro adverte ao seu inimigo: "É preciso ter fé". Fé eu tenho, mas nada acontece além de seu riso macabro espalhando-se pelo ar pesado, difícil de se respirar. Tombo para trás quando ele me toca num ponto entre os meus seios. - Não me machuca. - Peço de olhos bem fechados, tendo-o sobre mim. Os braços sustentando seu peso, mantendo-o afastado por centímetros. Seu cheiro de carne podre revolta meu estômago, suando frio, a pressão arterial despencando. Faz alguma coisa! Isso não é hora de desmaiar! Levanta! - Crux sacra sit...

- Mih Lux. Non Draco sit mih Dux. Eu amava essa oração quando vivo. Um aviso. Não vale nada após a morte. - Giro a cabeça para o lado, vomitando sobre o lençol. Abro os olhos e vejo, nos dele, sua intenção. Com gosto azedo na boca e a raiva se espalhando pelo corpo todo, encolho minhas pernas, apoio meus pés em seu ventre, empurrando-o para longe.

- Acalme-se. - Diz ele com sua voz melíflua, seus dentes de crocodilo, olhos de serpente, de pé, recostado à parede. Os cabelos impecavelmente penteados. -  Eu jamais faria algo que vc não desejasse, "Mo ghràdh". O ritual deve ser feito com amor e paixão. - Gargalhando histericamente, repito.



- Amor e paixão por vc??? Por Fernando??? - Advirto-o num grito. - Desiste, mermão! Vivo ou morto, ninguém mais vai tocar em mim se eu não quiser!  ENTENDEU??? - Procuro-o, desesperada, pelos cantos do quarto. Sua imagem se desfez numa explosão silenciosa e negra. O corpo de Fernando é jogado contra o chão. Penso em ajudá-lo, mas...o medo me paralisa. - Eu sei que vc ainda tá aqui! Eu sei! Vc não vai conseguir o que deseja! Não vai! - Continuo a gritar agarrada à cabeceira da cama. Eu sei que preciso ser forte, mas...puta merda! Eu quero um dia de paz em minha vida! Um dia! É pedir muito! - VC NÃO VAI TOCAR EM MIM! - Minha garganta arranha de tão alto que grito. Sem forças, fico ali, parada, chorando e, sem saber com quem ou contra o que estou lutando, permaneço entre os lençóis fedidos. Uma lufada de vento frio me envolve enquanto cerro os olhos e elevo o crucifixo, orando com fervor. - VADE RETRO, SATANA!

Silêncio.

Ouço somente minha respiração descontrolada e o aterrorizante tic-tac do relógio carrilhão de parede, em madeira pintada. Ele se foi.

Rindo e chorando, histérica, enfurno meus dedos em meu cabelo e penso no único homem que me salvaria desse inferno. O que ele quis dizer que deve ser feito com amor e paixão? Que deve ser feito com amor e paixão, ora bolas!!! Eu não amo o Fernando! E só existe Fernando em seu mundo, meu bem. PARA!

- Não suporto mais lutar. - Choramingo em posição fetal. - Eu não quero essa vida pra mim.

- Giulia...

- Puta merda!

- Que porra eu tô fazendo aqui no chão!?

- Levanta e anda! - Ordeno enquanto arranco, selvagemente, os lençóis da cama, calçando meus chinelos, observando se os tais miasmas partiram de fato. - LEVANTA, FERNANDO! - Ele me obedece, sorrindo. Imobilizo-me por segundos, observando seu sorriso doce, inocente. Ele é lindo. - Seus olhos estão azuis novamente...

- Tu tomou o quê, baixinha? - Ele me zoa como nos tempos de criança. Isso me toca profundamente. Ele se deita sobre os lençóis limpos, o cabelo em desalinho, a face pálida. - Vc tá estranha, baby. - A mão que acariciava seus cabelos, agora os puxa, raivosa.

- Vc tinha que estragar tudo com esse "baby" irritante!?

- Volta, Giulia! - Implora ele, num gemido.

- Não! - Saio do quarto, deixando a porta semiaberta. De olhos fechados, procuro vestígios de que o maldito escocês morto partira de vez. - Que nunca mais volte do inferno de onde saiu. - Meu dedo desliza sobre o interruptor. - Acho melhor deixar as luzes acesas. - Digo do lado de fora do quarto. Ronronando, ele concorda.

- Vc vai voltar? - Bufando e sorrindo, com uma trouxa de roupas imundas em meus braços, respondo.

- Talvez.

Nem pense em se apaixonar por esse monstro! Nunca. Eu tenho pena dele. Eu já te disse. E eu já te falei que quem tem pena é galinha! A palavra "remédio" te remete a alguma coisa. Ok. Eu me calo.

***

Amo meus cílios! São longos e volumosos, do tipo que destacam o meu olhar, para variar, sempre triste.

- Não pisca! - Ordena Lollipop. - Vai estragar todo o meu trabalho. - Seus seios estão desagradavelmente bem próximos ao meu nariz, o que me faz permanecer estática na cadeira desconfortável do camarim. - Se vc não parar de chorar, eu juro que faço uma cruz de batom no seu rosto!!!

- Não briga...- Resmungo, engolindo em seco, pescoço pendurado para trás, apoiados no encosto da cadeira, os olhos bem abertos e úmidos. Estou suando em bicas por conta da claridade absurda gerada por dez lâmpadas incandescentes grudadas à moldura do enorme espelho retangular para o qual estou de costas. Respirando pela boca, arquejo dramaticamente ao me lembrar dos últimos dias em que passara naquela casa onde um dia, já fora o meu lar. - Não fala em cruz. Pelo amor de Deus. -  Ela gargalha, despachadamente. Amo seu jeito de se expressar livremente. Contara todo o meu suplício a ela. Desde o momento onde socorrera Fernando após sua ridícula tentativa de suicídio, até meu encontro asqueroso com o demônio escocês e suas larvas. Contrariando minhas expectativas, Lollipop - A Stripper que faz um homem gemer por seu pirulito - divertira-se a cada palavra que saía de minha boca besuntada de batom cor "Vermelho Infernal". - Por que eu não transei com o escocês demoníaco??? POR SAN JUAN DIEGO, Lolli!!! Acho que até vc deveria ter o mínimo de bom senso e entender o porquê!

- Até eu??? - Finjo não ver sua expressão de ofendida enquanto ela capricha nos cílios inferiores e vai falando displicentemente. - Não vejo problema algum. Afinal de contas, não era exatamente o escocês pegajoso e sim o Fernando! O corpo era do Fernando. - Abrindo um sorriso indecente, ela faz girar o pirulito no canto de sua boca com a agilidade de um liquidificador. - Fernando. - Repete ela, revirando os olhos azuis faiscantes. Linda! - Tecnicamente...- Continua ela, fazendo girar a cadeira. Ela a faz parar quando estou diante do espelho. Após alguns segundos em que a luz deixa de ofuscar meus olhos, observo meu reflexo e, por mais que ela tenha dado o melhor de si para que eu me sentisse bela, sinto-me sem vida, sugada, esquecida por ele. Ele que deveria ter me salvado de tudo. Ele que...- Giulia! - O velho estalar de dedos diante de meus olhos e eu desperto com suas mãos nervosas despenteando meus cabelos, deixando-me com ares de uma das meninas de "Charles" em "As Panteras". - Na prática, apesar de possuído por um espírito caquético, vc estaria transando com o corpo de Fernando!

- Sei...

- Bastava fechar os olhos e viajar!

- Vc viajou naquele corpinho, Lolli? - Pergunto por perguntar porque conheço a resposta. Gosto da maneira como ela olha para o espelho, retira o pirulito da boca e assume.

- Sim e não gostei. - O pirulito volta à boca enquanto ela me dá as costas e caminha até o armário de metal, caindo aos pedaços, de onde retira, triunfante, sua estola de plumas em um tom de lilás que me faz delirar. - Hoje vc precisa de algo especial, querida. - Sua voz ganha um tom de ternura que somente as mães possuem. Lollipop consegue sustentar suas duas filhas com a grana que ganha dançando ou seja lá o que ela faz no palco...e fora dele. Não nego que ela dance bem, mas, digamos que, seu forte é rolar no chão com o pirulito na boca, abrir as pernas e, de maneira bastante ousada, mostrar suas partes íntimas aos idiotas que a ajudam a pagar a escola das meninas. É óbvio que ela não gosta do que faz para viver. Ela adora cozinhar. Seu empadão de frango é de comer 'rezando'. Embora seu sonho de montar uma lojinha onde possa vender o que produz esteja longe de ser alcançado, ela ainda tem tempo para sorrir e me abraçar enquanto ajeita a estola ao redor de meu pescoço. - Vc sofreu muito. - Lamenta ela beijando o topo de minha cabeça. - Precisa se alegrar e acreditar em milagres. - Faço uma careta de contrariedade misturada à compaixão que a faz levar a mão ao peito. Sinto sua dor ainda que ela jamais me tenha contado qualquer história triste de sua vida repleta de tragédias. - Milagres acontecem o tempo todo, Tiffany-Twisted! - Seus olhos marejados me comovem. Sua mão pousa em meu ombro enquanto seu rosto fica bem próximo ao meu. Ela pisca para o meu reflexo, apreciando sua obra. - Vc está linda. Um anjo de botas prateadas como quando o seu homem te encontrou.



- Não fala nele.

- Por que não, meu bem? Apesar de não ter sua sensibilidade em ver e ouvir coisas, algo me diz que vcs vão se encontrar muito em breve. - Tento esconder um sorriso imbecil que nasce diante da possibilidade de tornar a ver Carlos, deixar tudo para trás e viver o resto da minha vida ao lado dele. Examinando minhas expressões faciais que vão da alegria à tristeza passando pelo desespero, ela sussurra em meu ouvido. - Acredite em milagres. Eles acontecem o tempo todo. - Estremeço, fechando os olhos e, tomada por uma onda de ternura, mergulho em sua mente.

***

Dentro do carro, ela sorri ao motorista que retira a mão direita do volante e acaricia sua barriga pontuda e baixa. "O bebê se mexeu!", exclama Lolli, exultante. Linda, radiante como toda mulher grávida, faltando poucos dias para o nascimento de sua segunda filha, ela não tira os olhos do homem que, ligeiramente, beija a aliança em sua mão esquerda. "Finalmente nos casamos", diz ele, sorrindo, olhos grudados na estrada, longa, escura, livre do vai e vem de veículos. É noite. Ela assente com a cabeça, feliz, cheia de planos para o futuro. "Já escolheu o nome dela?", o marido quer saber. "Diana", Lolli responde. "A deusa da caça???", indaga ele, soltando uma risada gostosa. "Mais uma mulher no mundo a encantar e laçar um homem pelo pescoço. Igualzinho à mãe". Rindo do marido, Lolli joga a cabeça para trás, descansando-a no encosto do banco do carona. Inspira e expira, levando a mão ao peito. De olhos fechados, ela expressa desconforto em seu rosto contraído. O marido pressente as contrações. "Vamos ao hospital?!", propõe ele, entre a ansiedade e o nervosismo. Ela força um sorriso explicando que não há necessidade. "Dizem que a segunda filha demora mais tempo para nascer. Não será cuspida como a Vitoria foi. Relaxa". Contrariado, ele volta a atenção à estrada, alertando que nem todos os partos são iguais. No rádio, sua música predileta: "Heal the pain", de George Michael. Ele cantara para ela assim que a conhecera, ainda jovens. "Me deixa curar a sua dor", pedira ele antes do primeiro beijo.

A filha mais velha, sentada no banco traseiro, intrigada, retruca enquanto brinca com o cinto afivelado em sua cintura: "Laçar um homem? E homem é vaca pra ser laçado, mamãe?"

Lolli gira o pescoço para o lado esquerdo e, com a cabeça entre os banco, serenamente, explica: "Vaca não, amor. Boi. Homem é boi e alguns dão muiiito trabalho para serem laçados". "Como o papai?", Lolli, exalando um longo suspiro, confirma:  "Sim. Como o papai".

Antes de voltar ao seu lugar, ela o beija na bochecha e cochicha em seu ouvido: "Felizes para sempre?"

Ele repete a frase numa afirmativa e, num arroubo de felicidade, sela os lábios rubros de Lolli com um beijo.

Rápido demais.

A buzina intermitente e aguda, os braços dela ao redor da barriga. As mãos dele trincadas no volante, o pânico no semblante de seu homem. Sem compreender o que está prestes a acontecer, cega pela luz intensa dos faróis, ela se volta para a filha, esticando seu braço até tocá-la. O ruído intenso dos pneus freando não a impedem de ouvir Vitória alertando segundos antes do impacto.

"O caminhão, papai!!! O cami...!!!"

***

- Lolli, eu tenho orgulho em ser sua amiga. - Digo, retornando à realidade, os olhos marejados. Minhas mãos apertam a dela que ainda se encontram sobre o meu ombro direito. - Conta comigo...sempre. - Ela engole em seco, tritura o pirulito com os dentes; enxuga uma lágrima, ajeitando sua peruca 'rosa purpurinada' bem próxima ao espelho. Abre a gaveta, retira de lá um novo pirulito. Joga no lixo o papel que o envolvia. Dá dois passos para trás, penteando, com os dedos, as longas franjas que pendem do sutiã igualmente rosa. Um profundo suspiro, os olhos fixos no teto. Piscando por repetidas vezes, ela evita o choro ao me ouvir, desolada que, de alguma forma, eu conheço a sua dor.  - Eu não tenho grana, mas tenho ótimos ouvidos. Quando quiser desabafar, chorar, xingar ou apenas ficar calada, conta comigo.

- Obrigada, querida. - Sua voz sai embargada quando ela me diz algo que vou levar comigo para sempre. - Giulia, há mulheres que não podem sequer ter o direito de fraquejarem. Mulheres sem pais, irmãos, família ou amigos. Mulheres que precisam ser guerreiras o tempo todo, ainda que desejem ser apenas mulheres...exaustas. - Suas mãos se apoiam na mesa onde nossas maquiagens, espalhadas, tomam todo o espaço. Demonstrando um imenso cansaço, ela continua olhando para seu reflexo como se não houvesse mais ninguém além dela, na sala. - Eu queria ter um dia de descanso. Um dia de paz. Um dia sem pensar no quanto eu poderia ser feliz se a vida não o tivesse tirado de mim. Mas tirou...- Uma pausa onde ela fecha os olhos, abanando a cabeça como quem espanta uma abelha furiosa. A voz sai por um fio quando ela continua. - Eu não quero ser forte. Quero desistir. Morrer. Dormir até ele voltar, mas...- Um arquejo de dor, e ela prossegue. - Se eu me for, quem vai cuidar delas? - Baixo os olhos e respeito seu silêncio. Penso no quão estúpida eu sou. Egoísta. Não. Estúpida. Vc ainda tem chances com ele e fica aí se lamentando. Ela não pode ter seu homem de volta, meu bem, porque ele tá morto. MORTO! Dê valor ao que vc ainda tem! - Well! - Exclama Lolli, girando, com o polegar e o indicador, o pirulito que molha seus lábios perfeitos e, agora, extremamente sensuais, sabor morango. - É hora do show! - Diz ela sob o batente da porta. - Seguir em frente é preciso, meu bem. É preciso. Ah! - Grita ela, girando nos calcanhares, em meio ao corredor que antecede o palco. Estou de pé, na porta do camarim quando ela me orienta, antes de abrir as cortinas. - Quando a vida te der um limão, faça uma caipirinha. E se ela te oferecer um homem como o seu, criança, agarre-o! AGARRA ESSE HOMEM, MULHER! - Sinto meu peito se encher de esperança enquanto escuto o alarido infernal dos clientes que a aplaudem assim que seu nome é anunciado. As cortinas se fecham. Lembro-me de que sou a próxima a entrar. Já escolheu a música? Vc sabe que já. A mesma daquela noite? Qual o problema? Acha que ele vai surgir porque vc vai dançar a mesma música? Não seja estúpida! Minto. Eu apenas gosto da música e da coreografia. Só isso. Ok. Vc quem sabe. Acertou! Eu que sei. Não vá errar como da última vez. Eu não erro e quando erro, improviso. Ah...tá. Sou uma bailarina. Sono una ballerina! Uma bailarina que acredita em milagres.

Patético.

Remédios???

Ok. Eu me calo.

****

- Ai!!! - Grita Sweet Jane, absolutamente espantada com o tapa que lhe dou na face quando nos cruzamos no corredor.  - O que eu te fiz, sua vaca?! - Indignada, ela esfrega a mancha vermelha estampada em sua bochecha com o formato dos meus dedos. Acho que combinam com seu rosto de vagabunda interesseira, gananciosa. - Vc é louca!!! - Afirma ela, irada, afastando-se de mim. Rindo, eu falo alto que não sei porque bati, mas ela sabe porque apanhou. Coisa de mulher de malandro. - Isso vai ter volta! - Seus olhos chamuscantes borrados de rímel se voltam contra mim quando ela insiste em me ameaçar, puxando-me pelo braço. Uma onda incômoda de adrenalina passeia por minha corrente sanguínea. Algo como espetadinhas na superfície da pele. Fui impulsiva. Odeio isso, mas não posso deixar que ela note, então, eu a ouço rosnar perigosamente próxima ao meu rosto. - Vou acabar com a tua vida, piranha metida a gente!

- Que meda. - Afetando desprezo, movo meus lábios sem proferir som algum. Arrependo-me tarde demais. Já foi. Não dá pra voltar atrás. Meu orgulho de mulher fora ferido quando soube, através da carta de Fernando, que ela tentara ocupar meu lugar. Que lugar? Vc não quer esse lugar. Vc não gosta do Fernando. Acabou. É passado. Acorda! Eu sei...eu sei. Já me arrependi. Tô falando. - Venha como e quando quiser, meu bem! - Com as mãos na cadeira, eu a incito à briga ainda que eu odeie brigar. Creio que nunca batera em outra pessoa além de Fernando, quando criança. Ele era praticamente meu saco de pancadas e ainda sorria após as surras. Acredito que ele sabia que tudo mudaria em alguns anos. E assim foi. Ele crescera e sua mão também. Espancava-me quando contrariado, longe dos olhos dos pais e dos amigos que sempre o acharam extremamente dócil. - O que ela pode fazer contra mim? - Pergunto a mim mesma tentando encontrar alguma brecha por onde ela possa entrar. Eu a vejo entrar no camarim. Ouço o som estrondoso da porta que se fecha violentamente. Ela me odeia. E com razão. - Ora, o que ela poderia fazer contra mim? Me matar??? Por San Juan Diego... - Meus olhos aflitos movem-se de um lado para o outro. - Cacete! - Assusto-me com mãos gigantes em meus ombros. - Quer que eu morra cedo, Doc?!

- Para de pensar em bobagens, Giulia. Enquanto eu estiver aqui, ninguém toca em vc. Ok? - Assinto com a cabeça, abrindo um sorriso forçado. Doc tem aqueles olhos que sorriem. Meu tio também os tinha. Sua voz é tão doce quanto a do pai de Fernando. Seu coração é imenso como ele. - Tá na hora de trabalhar, meu anjo. Vai.

- Vc acha que devo pedir desculpas a ela? - Olhando para ele, aponto o polegar para o camarim - Acho que peguei pesado.

- Não. Agora não. Depois. - Doc encolhe os ombros,despreocupado. - Como vc mesma disse, o que ela pode fazer contra vc?

- É - Forço uma risadinha, conquanto meu coração esteja apertado. Meu tio sempre dissera para que eu jamais magoasse alguém porque, segundo ele, há pessoas extremamente rancorosas neste mundo, capazes de guardar o momento preciso em revidar uma ofensa. Sweet Jane é uma dessas. Agora não adianta mais chorar pelo leite derramado, meu bem. Vamos dançar e veja se não erra de novo. - Bobagem! - Dou de ombros, afetando tranquilidade, mas, eu sei que lá no fundo do fundo do fundo, eu, estupidamente, dei um peteleco na primeira peça da pilha de dominós.

- Giulia, vai!

- Claro, Doc! - Digo, apressada, atravessando a cortina que me separa do palco. Uma olhada de soslaio e confesso a Doc, logo atrás de mim. - Eu fiz merda, Doc. Fiz merda. Algo de ruim vai acontecer.

****

A mesma coreografia. A mesma música. Dublo Leona Lewis com perfeição. O incômodo presságio desaparece debaixo dos fachos das luzes coloridas que se misturam sobre minha cabeça. Os círculos azuis, amarelos e roxos que se movem de um lado ao outro do piso do palco me distraem. Sorrio ao retirar, com estupidez, o macacão de mecânico manchado de graxa. Os homens urram de prazer e eu ainda não cheguei à parte onde sou obrigada a parar de dançar, sonhar e cantar, e então, rebolar e me agachar até eles que, como predadores babões, coloquem gorjetas nas laterais do biquini todo trabalhado em lantejoulas prateadas que ornam com as botas igualmente prateadas. As botas com as quais o patife do homem que eu amo me vira pela primeira vez na vitrine da entrada do "Hotel California". Interessante. Percebo que há alguma coisa em minha dança que os fazem parar, observar...até aplaudir. É por esses momentos que ainda estou aqui. Em que outro local eu poderia dançar livremente além deste palco? No "Municipal?!" Minha vida como bailarina fora arruinada pelo porco psicopata. Fernando me tirou tudo. Só me resta isso aqui.

- Uau! Obrigada, bonitão! - Minto ao palhaço que segura entre os dedos uma nota de cem. Acenando, ele se aproxima do palco e, com os olhos maliciosos, me chama de "gostosa". Engulo a saliva que sairia em um cuspe com a velocidade de um raio se eu não precisasse da grana. - Não seja apressado! - Advirto-o, erguendo uma das sobrancelhas enquanto pego a nota. - Nem pensar, tolinho. - Aumento o tom de voz, dirigindo-me ao imbecil cheirando a uísque, com duas rodelas de suor nas axilas. Com a ponta de minha bota de cano alto em seu queixo, eu o impeço de me tocar. - Isso pode doer, meu bem. - Outros urros. Por quê? Não faço a menor ideia. Isso é doentio. Num giro, dou as costas a eles. Caminho até a barra de "Pole Dance", meu playground particular. De cabeça para baixo, cerro os olhos no ritmo quente e romântico da canção. Minhas pernas estão emparelhadas à barra. Sinto-me fantástica nesta posição. É mega difícil conquistar tamanho controle do corpo. Treinei por dias a fio. Uhuul! Consegui! As pontas do meu cabelo tocam o piso. Abro as pernas, vagarosamente, enquanto cantarolo. - Keep bleeding...i keep keep bleeding love. - O rosto másculo de Carlos surge em minha mente. Uma pontada em meu peito e eu me apoio nas mãos. Um 'zum zum zum' esquisito nos ouvidos atrapalha meu raciocínio quase pondo tudo a perder. Contorciono meu corpo, de forma que meus saltos voltam a tocar o chão. Ergo a cabeça com rapidez. Meu cabelo é jogado para trás. Novos urros e palmas. Uma estranha sensação de que alguém me observa na escuridão do fundo da boate, ao lado da porta de saída me faz parar e pensar: "Bem que poderia ser vc". Sem parar de andar, requebrando, de um lado ao outro do palco, chuto o macacão contra a plateia. Outros urros. Pergunto-me porque homens são tão imbecis. Eu chutei um pedaço de roupa! Eu não pulei pelada em cima deles!!! O que tem de sexy nisso???

"Você"

Puta merda! Quem falou isso??? Não pare de dançar. Ainda não terminou. Vc precisa retirar o sutiã, lembra? Cala a boca. Vc não ouviu??? Nada. Não ouvi nada. Jogue o sutiã e pegue as gorjetas.

- Vá pro inferno! - Grito enquanto balanço a cabeça furiosamente na esperança de retirar qualquer memória dele dentro da minha mente exaurida pelos últimos acontecimentos. - Eu ouvi. - Afirmo, ressabiada, permitindo que os clientes à esquerda do palco me ajudem a pagar pela estada em algum hotel ou a contribuir com as despesas na casa de Doc que me convidara a ficar por lá, sem prazos ou cobranças. Levanto-me com o suficiente para pagar a 'mesada' de minha mãe e ainda ficar com alguns trocados. - É por isso que é tão difícil largar esse emprego. Onde se ganha tanto em tão pouco tempo?

"Vc não precisa disso".

- Porra! - Dou uma pirueta enquanto meus olhos, alucinados, percorre todos os cantos da boate. Meu coração bate no compasso da música. O show deve terminar. - É vc que tá aí? - Arrisco, num tom baixo. "Carlos?", chamo-o mentalmente. Sem respostas. Em pé, abro as pernas, esticadas, de frente para a pequena multidão aglomerada no 'gargarejo'. Inflo as narinas. Esboço um sorriso desdenhoso. - Se estiver, segura meu sutiã...baby. - Agressiva, apoio minhas mãos nos joelhos um tanto flexionados. Jogo os cabelos para frente e para trás em segundos. Tonta, recuo dois passos. Sensualizando, abro o gancho do sutiã modelo "Push Up" que junta e levanta meus seios que já não são pequenos. Adoro esse modelo. Super valorizam qualquer tipo de seios e homens adoooram de seios. Mulheres também. Acho que poucas admitem. Há algo de divino neles. Ouço os pedidos dos homens suados, desgrenhados, embolados à minha frente. Imploram para que eu faça o que não gosto de fazer. Aguardo por alguma resposta. Alguma reação. Algo que me impeça de fazer o que estou prestes a fazer. "Faz alguma coisa!", provoco a voz que se calara. - COVARDE! - Os idiotas batem palmas como se meu grito fizesse parte do show. Dois passos à frente e já não ouço a música tampouco as palmas e berros dos ensandecidos que usam a madeira do palco como tambor.

"Tira! Tira! Tira!"

Que diabos eu estou esperando? Exatamente!!! Que diabos vc está esperando??? Meu bem, vc se esqueceu que ele não lê pensamentos em ambientes barulhentos??? Ele não está aqui. Deve estar te zoando de onde quer que ele esteja! Acorda! Agora é tarde! Joga esse sutiã, pega a grana do gordinho ali e vamos pra casa! Vc tá certa. Claro que estou. Ele não está aqui. Se ele lê pensamentos, pode estar a quilômetros de distância daqui e vc aí...besta...esperando por ele. É. Vc tá certa. Arranca logo isso e termina esse show.

- Ok...- Concordo, sentindo a alegria sair de mim tão ligeiramente quanto o ar que escapa de uma bola de aniversário. Estou murchando quando sinto a porcaria da mão de um canalha qualquer tocar a minha bota prateada! - NÃO SE ATREVA! - Mal termino de falar e o garotão parrudo, com a blusa desabotoada, é empurrado ao palco. Sua missão: arrancar meu sutiã. "Uiii!", geme ele enquanto ainda estou retirando a ponta de minha bota prateada dos culhões entre suas pernas. Seu tronco se curva para frente. Doc! Tô com medo, Doc. - NUNCA MAIS FAÇA ISSO, SEU PATIFE! - Aviso, agora, erguendo um dos joelhos que acerta, em cheio, seu queixo. Ele urra. Dessa vez, de dor. - DOC! - Desesperada, olho ao redor e não o vejo. Ele é o cara que controla esses pervertidos. Ele é o cara que nos protege desses merdas. Ele é meu amigo. - NÃO TOCA EM MIM! - Cuspo no rosto redondo e ensebado do carinha que deseja ser motivo de orgulho de seu chefe, abaixo de nós, na plateia. Enxugando o rosto com o dorso de sua mão, ele mostra os dentes desalinhados em um sorriso sarcástico. Paralisada pelo medo, ouço os gritos de incentivo para que ele termine o que começara. - DOOOOC!!!

- Mostra a porra desses peitos, piranha!

- Como ousa a falar comigo nesses termos??? - Vou sendo empurrada para trás pela fúria irradiada de seu peito. Nervosa, pisco por diversas vezes. Apuro a visão. O rapaz não está só. Há mais dois mortos, horrendos, que o incitam à luxúria e à violência. - Doc! Me ajuda! - Berro, acuada. Sua expressão de desprezo me irrita a ponto de eu cerrar os punhos e golpeá-lo com um 'direto' que o atinge no nariz. Um pouco mais de força e eu o quebraria. - Putz! - Abro e fecho a mão que o golpeou. Dói. Por que não aparece ninguém para me ajudar. Alô!!! Tem alguma coisa errada acontecendo aqui no palco! DOC!!! Se antes, ele desejava retirar meu sutiã, agora ele quer me ferir porque eu detonei seu orgulho de 'macho alfa'. Estão rindo dele. - SE AFASTA DE MIM! DOC! - Ao girar minha cabeça para trás, ele me surpreende, puxando uma das alças do meu sutiã. - Arrebentou! - Lastimo, com as mãos no bojo que ainda esconde meus seios. O linha tênue que separa nossos mundos já não existe mais. Logo abaixo, vivos e mortos se aglomeram, incitando, sugerindo, uivando como animais no cio. Já não sei se estou sonhando ou se é real. Desperto quando o ouço gritar.

- Sua puta miserável!

- Seu verme desprezí...- A dor dilacerante no olho direito me faz cambalear. Sem querer retirar as mãos dos seios ainda cobertos, eu caio para trás, batendo a cabeça na barra onde, há pouco, eu me divertia. - Deus do céu. - Sussurro, absolutamente desorientada. Minhas costas foram de encontro ao chão. Puxo o ar pela boca. Não consigo respirar. As luzes coloridas, agora, me atrapalham. Um vulto gigante vem em minha direção. - Para! Para! Não se aproxima! - Encolhida em posição fetal, aguardo pelos primeiros chutes. Era assim que Fernando começava suas semanais sessões de tortura. Doc. Cadê vc, Doc. - Me ajuda...- Enxergando por um só olho, vejo sombras que se espalham pelo teto da boate. Morcegos sobrevoam nossas cabeças como em um filme de terror. Como eu nunca havia percebido que eles sempre estiveram aqui? Bebidas, sexo, drogas. Tudo o que eles desejam está aqui. Por que eu não os havia visto antes?

- Levanta! - Ordena o verme que ganhara uma força extra: a sobrenatural. Atrás dele, dezenas de mortos unidos, flutuam em uma nuvem negra gigantesca. Negando-me a apanhar de um bostinha, 'filhinho de papai', vou me arrastando feito minhoca, procurando por uma saída. Uma dor maior do que a física embarga minha voz quando peço por ajuda. Sweet Jane ri de mim, por trás das cortinas, trancando a porta de acesso ao camarim. Doc deve estar por lá. "Me ajuda", imploro a Sweet Jane que ergue o dedo médio, apontando-o para mim. É a tal 'Lei do Retorno'. Eu mereço. - Vaca! - Diz o rapaz tarado ao pisar em minha mão. Minto. Ele não pisa. Ele esmaga minha mão direita enquanto a esquerda ainda sustenta o sutiã que ainda cobre meus seios. Passara a ser uma questão de honra não mostrar nada a esse idiota.  - Isso dói? - Questiona-me ele, irônico.  Engulo em seco ao ver os tipos de seres que o cercam. Bestiais que se assemelham às cobras com garras imensas, línguas que se desenrolam, lascivas. Corpos nus. - Ninguém vai te ajudar, docinho. Tira essa porra agora. - Docinho é o cacete!

- Não tenho medo de vc nem dos seus amiguinhos. - Vou falando rápido, a voz esganiçada. Ele me olha com desconfiança quando eu aponto o queixo para os seus ombros. Deve pensar que estou louca quando balança a cabeça numa negativa. Certamente está pensando: "Meus amigos estão do outro lado, na plateia, sua vaca." - Não me olha com essa cara! Eu não sou louca! Deixa eu me levantar e aí a gente conversa de homem pra homem! - Um chute em meu estômago me faz gemer. Um gemido baixo. Fernando me ensinara a ter controle sobre a dor. "Quando eu te bater, não grite", era o que ele me falava. Autocontrole. Devo isso a ele. Curvada, acuada, seminua e vencida, peço, mentalmente, que Doc apareça e me salve antes que seja tarde. - Covarde. - Digo entredentes, após o segundo chute. Esse, nas costas. Dói muito. Não consigo me mover e impedir que sua mão nojenta tire de mim seu troféu estúpido. Cubro meus seios com as mãos, abrindo o olho que não fora atingido pelo soco. De esguelha, eu o vejo erguer o sutiã, arrancando palmas e palavrões chulos dos monstros deste e do 'Outro Lado'. Uma onda de ódio me reenergiza, pondo-me de pé, cambaleante como um pugilista que se ergue antes do gongo anunciar sua derrota. O DJ, enfim, desliga o som. "Dá uma lição nela", grita alguém lá do fundo. Inspiro profundamente. Não sei o que dói mais: o olho, as costelas ou a monstruosa falta de compaixão de Sweet Jane que assiste a tudo, quieta. Costelas quebradas? Pode ser. Não seria a primeira vez. Minha mão direita se agarra a barra de 'Pole Dance'. Reagindo à dor, realinho a postura sem me importar se meus seios estão à mostra ou não. Engulo um grito de dor. Cuspo sangue no chão. De costas para mim, o covarde ainda celebra no palco. É tão grotesco o que vejo daqui. Laços escuros saem de seu corpo e se ligam aos bestiais que, por acaso, estão me olhando com a expressão: "Agora eu vou te ferrar". - Não se eu puder evitar. - Digo ao mesmo tempo em que elevo a perna esquerda flexionada e, num esforço hercúleo, eu a estico, enfiando o salto da bota bem no meio da coluna vertebral do ensebado. Precisamente, na torácica! - Vá pro inferno, canalha!

Infelizmente, meu plano de arremessá-lo sobre seus comparsas não dera certo. Em condições normais, eu conseguiria, mas a dor tomara muito de minhas forças. Ele sequer se move, olhando-me com chama nos olhos. "Puta que pariu. Eu tô perdida", penso enquanto o assisto vindo em minha direção como um trem desgovernado. Cerrando os olhos, faço a única coisa que me resta. Grito. - DOOOC! - Alguém passa por mim com tanta rapidez e agilidade que chegara a arrepiar os pelos do meu braço. Um baque seco. Um corpo que cai. Abro um olho. O outro já está absolutamente imprestável. Sobre o parrudo covarde, um homem que o monta como naqueles touros mecânicos.  Seus braços sobem e descem num frenesi violento. Dois, três, quatro, cinco...seis socos bem dados na cara do patife desacordado.

- DOC!? - Alegro-me ao ser coberta por seu casaco muito maior do que eu. - Doc, por onde andou!? - Choramingo abraçada a ele.



- Perdão. Eu não sei como eu deixei isso acontecer. Dei uma saída e, quando voltei, Sweet Jane me pediu pra dar uma olhada no motor de seu carro lá embaixo. Perdão! - Seus braços enormes me envolvem. Seu coração está doendo. - Como eu deixei isso acontecer? - Lamenta ele, olhando com piedade meu rosto que, segundo sua expressão, deve estar um desastre. - O que fizeram a vc, meu anjo?

- Eu tô bem, Doc. Quase acabei com ele. - Enfatizo meio que orgulhosa. - Vc precisava ver. - Com os olhos marejados, ele beija o topo de minha cabeça. - Doc! - Afasto-me dele, bruscamente. Giro meu corpo na direção do porco caído no chão do palco. Seus amigos o levam, desacordado. Solto uma gargalhada histericamente diabólica enquanto desço as escadas e corro até eles. Doc me acompanha, protegendo-me. Impedindo o grupo de caminhar, rosno. - Se vc estiver me ouvindo, seu inútil, aprenda a lidar com mulheres! - Seu rosto é uma pasta de sangue. Chego a sentir piedade dele. Ele te surrou. Mereceu. Eu sei. Ainda assim, é terrível ver alguém sofrer. Idiota! Antes ele do que nós. Ele que morra! Não fala assim. - Doc! - Digo sem tirar os olhos do cortejo fúnebre entre vivos e mortos que descem a escadaria que leva à saída. O mais velho deles ameaça processar a boate por uso de violência. "Processa, filho da puta!", vinga-me Lollipop jogando cerveja em seu rosto. Por muito pouco, Lolli reinicia outra confusão. Doc se coloca entre ela e o mau caráter cuja cabeça se choca ao tórax de Doc. "Sai fora!", Doc os expulsa enquanto volto a observar o ambiente. Não há mais sombras ou morcegos do além. Doc tem luz própria capaz de iluminar tudo por onde passa. Dentro de seu casaco que cobre parte das botas, pego-me pensando: "Se não foi o Doc, quem surrou o imbecil?"

- Não faço ideia.

- Vo-vo cê???

- Mal se curou do machucado na testa e já ganhou um olho roxo. Vc só me dá trabalho. - Bufa Carlos, olhando-me de um jeito que me faz corar. Abestalhada, não consigo pronunciar uma só palavra. Creio que, se eu abrir a boca, meu coração pula sobre ele. - Eu o seguro pra vc. Afinal, ele meu. Não é?

- Que-quem?

- Seu coração, Giulia. Seu coração.

- Não revire os olhos para mim. Depois de tudo o que aconteceu eu perdi um pouco do meu raciocínio lógico. - Putz! Este sorriso acaba comigo. - E para de me olhar assim! - Com a mão, tampo o olho inchado. Devo estar assustadora. - Eu não preciso de sua piedade.

- Não é piedade, boba. E vc tá linda.

- Mentira! - Num arroubo de raiva, eu o puxo pela mão até chegarmos ao fundo da boate, próxima à porta de emergência. - Precisamos de privacidade. - Respondo como se ele houvesse me perguntado. - Eu sei que estou horrível. - Cochicho.

- Por que fala baixo? - Cochicha ele, inclinando-se, suavemente em minha direção.

- A vaca da Sweet Jane tá olhando pra cá. - Enciumada, eu tento cobri-lo com meu corpo. Não consigo. Ah! Vá pro inferno! - Não olha pra ela!

- Giulia...- Eu o interrompo, tirando-o do raio de visão da loira vingativa. - Quer parar e me escutar! - Sob o vermelho "sangue" do letreiro de 'SAÍDA', eu o encaro, inflando as narinas. - Giulia...

- Por que não chegou antes??? - Indignada, recuo dois passos. Cruzo os braços e o examino. Que saudade desse corpo, de seu cheiro de floresta. Eu daria a vida por vc, seu imbecil. - Vc assistiu a tudo calado? Era vc quem estava na minha cabeça! Claro!!! Eu sabia que era vc!!! Por que deixou que ele me batesse???

- Eu...

- Como vc pôde deixar que me agredissem e ficar olhando sem fazer nada??? Como??? Responde!!!

- EU TÔ TENTANDO!

- NÃO BERRA COMIGO! EU JÁ FUI MUITO HUMILHADA POR HOJE!

- Deixa eu te explicar! - Mesmo gritando, sua voz é doce. Seu olhar é doce. Suas mãos em meus braços, uma onda de calor...- Eu não...

- Não tem o que explicar! - Sacudo os braços. Ele me solta, carregando o cenho. - Vc é como o Fernando. Gosta de me ver sofrendo! Vcs são todos iguais! E eu que pensei ter achado um príncipe! Estúpida que eu sou! - Arfando, eu o vejo se curvar. A cabeça quase na altura de seus pés. - Que diabos pensa que está fazendo??? LEVANTA!!!

- CALA A PORRA DA BOCA, GIULIA! - Como um saco de batatas, ele me joga contra seu ombro. De cabeça para baixo, soco suas costas, exigindo que ele me solte, embora não queira sair dali nunca mais. Sua mão, cuidadosamente, puxa o tecido que cobre minha calcinha. - Eu te disse pra nunca mais me comparar àquele merda!

- Me solta, Carlos!

- Agora mesmo! - Sou arremessada contra o banco do carona, em couro marrom, de seu carro - uma antiguidade - estacionado na calçada em frente à boate. Seu cheiro de sândalo está por todos os cantos. Ajeito-me no assento, observando-o contornar o carro e abrir, cautelosamente, a porta do motorista. - Mais calma? - Pergunta-me ele sem olhar para mim. De olhos no volante, seu diafragma se expande e se contrai, expande e contrai. Ele fecha a porta com força. "Não tem geladeira em casa?", reclamaria Fernando quando eu repetia o mesmo gesto ao fechar a porta de seus carros importados. - Dá pra parar de pensar nesse cara?!

- Sim.

- Que bom. - Aproveito a pausa para me olhar no espelhinho do tapa-sol acima de minha cabeça. - Puta merda. - Arrependo-me. Horrorizada, escondo-me do espelho, encolhendo-me no banco, cobrindo o olho com meu cabelo sujo e desgrenhado. Pareço uma louca. Uma dessas que se mete em brigas por um gole de cachaça. - Por que me trouxe pra cá? Eu quero ir embora. Tô cansada...de tudo.

- Ir embora pra onde? - Sua voz vem em minha direção, logo, suponho que ele esteja olhando para mim. - Vc tá morando com alguém? - Sorrio, pressentindo um toque de temor em sua voz trêmula. - Posso te levar até lá, se quiser.

- Não precisa.

- Não me custa nada. - Insiste ele. O leve temor se dissipa. O que me irrita profundamente. Ele não se importa. - Giulia?

- Não precisa! - Falo alto, abrindo a porta do carro. - Eu não preciso de sua piedade. Ademais, posso ir andando. É perto daqui.

- Vai de botas?

- Qual o problema?! - Uma perna minha já alcança a calçada enquanto a outra e o resto do corpo, dentro do carro, aguardam alguma reação dele. - Estou acostumada à longas caminhadas. Meu tio e eu corríamos em maratonas. - Ergo o queixo, numa soberba. Minha perna ainda lá fora. Não quero sair do carro. Não mesmo. - Jamais vencemos, mas nunca desistíamos. - Esboço um sorriso triste. Meu tio jamais deixaria que me fizessem mal. - Nunca...- Penso alto.

- Maratonas? Sei...- Desdenha ele.

- Mini! - Defendo-me, voltando à realidade. - Mini maratonas. Ainda assim, eram maratonas. - Impulsiono meu corpo para fora do carro. Aguardo um "Espera!" vindo de sua boca. Nada. Desisto. É muita humilhação em uma só noite! - Eu não preciso passar por isso. Não mesmo! - Digo enquanto bato a porta do carro, já fora dele, agora, com força. - Eu mereço ser feliz. - Afirmo, desapontada. Minhas botas prateadas reluzem sob a luz alaranjada do poste acima de nossas cabeças. - Eu mereço ser feliz. - Afirmo, indecisa. Respirar, para mim, tornara-se doloroso após os chutes do infeliz que arrancara meu sutiã, logo, emito um gemido baixo, ao dar o primeiro passo em direção ao...ao...ao nada. Eu não quero sair de perto dele.

- Não saia. Fica, Giulia. - Num instante, ele está de pé, diante de mim. - Fica comigo.

- Por que deixou acontecer? - De cabeça baixa, vejo suas mãos em meus braços, sinto sua boca em minha testa. Ele beija a cicatriz causada pela pedra lançada por Fernando. Que semana infernal. - Vc deixou de gostar de mim?

- Nunca. Olha pra mim. Deixa eu te explicar.

- Eu tô horrorosa. Não quero que me veja assim.

- Eu já te vi. Já era. Olha pra mim.

- Com um olho só?

- É mais do que suficiente.

- Sério???  - Seguro um riso infantil, sentindo a dor se irradiar até a bochecha inchada. Minhas olheiras ganharam um tom azulado mais intenso. Um horror. - Prometa que não vai rir de mim.

- Rir de vc?! - Indignado, ele me puxa pra si. Meus músculos se descontraem. As pernas ficam bambas. O coração bate acelerado. Sua boca contra meu cabelo sussurra. - Vc é a mulher mais forte e corajosa que já encontrei nesta vida. Não há porque rir de vc. Tenho orgulho de te conhecer. Orgulho, Giulia. Orgulho. - Meus olhos se enchem d'água. - Vc sempre foi assim. Forte.

- Sempre?

- Sim.

- Do que vc tá falando, hein?  - Desconfiada, ergo a cabeça, com a mão sobre o olho. - Não é a primeira vez que vc se refere a mim como se me conhecesse há milênios.

- Depois eu te explico. - Dou de ombros.

- Orgulho de quê?! Posso saber!? - Do olho, a mão vai para a cintura. O dedo indicador direito toca, desafiadoramente, seu tórax quando me exalto. - Orgulho de uma ex-garota de programa, stripper, vendida pelos pais, usada pelo melhor amigo de infância, atormentada pela tia morta, separada de um tio fantástico e - Puxo o ar pela boca porque respirar normalmente dói demais. A voz sai fraca após outro gemido. Então, digo num tom melodramático. - Abandonada por alguém que ela julgava ser o homem de sua vida.  - Ele beija meu olho medonho e, recuando um passo, olha-me com seriedade. Exibindo aquela expressão de compaixão que eu bem conheço, simplesmente declara.

- Sim.

- Sim!? - Estranho.

- Sim. Daí vem a sua força, Giulia. Do seu passado. De tudo o que viveu. Vc é forte, embora não perceba. Vc não se deixa vitimizar apesar das circunstâncias. Vc luta, literalmente. Hoje, eu não estava na boate quando vc me ouviu. Eu estava a caminho, decidido a te arrancar do palco de qualquer forma. - Arregalo os olhos, embora somente um se abra. Estupefata, eu fico ali, olhando para ele sem abrir a boca. "Por que me tirar do único lugar em que posso dançar?", penso. - Porque vc merece mais do que aquela espelunca.

- Tipo o quê, meu bem? O 'Municipal' ou a 'Broadway'?! - Ironizo. Um passo à frente e ele me empurra contra a porta fechada do carro. Estou novamente entre seus braços, sua boca perigosamente próxima à minha. Se não estivesse tão feia...- Ai eu me esqueci! - Exclamo, quase histérica. - Posso me inscrever na Jiulliard! Afinal, eu só tenho 23 anos e a idade limite para inscrição é 18.

- Não seja sarcástica.

- Não é sarcasmo. É a realidade. Eu não sou nada. Vc queria saber o porquê de continuar aqui, não é?! Agora já sabe. - Encolho os ombros, derrotada. - É pela dança. Não há outro lugar nesse universo onde eu possa dançar como eu sempre sonhei.

- Existe sim.

- Não existe!

- Eu vou te provar.

- Vc é irritante. - Digo entredentes.

- Vc também. Irritante e infantil, apesar dos seus 23 anos e da vida que já levou. Mas eu gosto disso em vc. Vc não perdeu a leveza, a graça, a pureza. - Assusto-me com o som de minha própria gargalhada.

- Pureza??? Eu??? - Apoio minhas mãos em seus ombros até parar de rir. - Ai ai. - Exalo um suspiro. Olho em seus olhos. Vou mudando de expressão enquanto nos observamos mutuamente. Meu riso some quando o questiono, incrédula. - Vc realmente acha isso de mim? É. Vc realmente acha isso de mim. - Convenço-me. - Tô tão cansada. - Recosto minha cabeça em seu peito. Seu coração bate apressado. Nervosismo? Raiva?

- Isso sempre acontece quando estou perto de vc.

- Vc continua lendo a porra dos meus pensamentos.

- Então não pense. Descanse. E pare de falar tantos palavrões. - Ele me empurra para o lado com um braço em minha cintura enquanto o outro, abre a porta do carro. - Decidido, ele declara. - Vamos pra casa!

- Casa? - Replico contendo minha ansiedade em gritar para todos que nós temos 'uma casa'. - Casa?

- Casa, Giulia! - Revirando os olhos, seus dedos desenham, no ar, o esboço de uma casa. - Porta, janelas, quartos, banho morno, cama quentinha. - Aimeudeus. Aimeudeus. Isso tá acontecendo? Sorrindo, ele me acomoda de volta ao banco do carona. Um sorriso patético se gruda ao meu rosto, independentemente de minha vontade. Deito a cabeça no encosto, cerrando os olhos. Ele gira a chave. Ouço o ronco do motor. "Igualzinho ao do meu tio", penso enquanto abro os olhos. Pelo retrovisor, vejo os letreiro luminoso em vermelho, da boate, cada vez mais distante. Fecho os olhos. Sinto o olho atingido. Xingo um "filho da puta". - Giulia! - Diz ele, num tom de repreensão. Nem ligo. - Quando chegarmos à nossa casa, dou um jeito nesse olho...e na sua boca suja. - Nossa casa. Nossa casa. Nossa casa. Eu poderia ouvir isso até o amanhecer e não me cansaria. "Nossa Casa". - Nossa casa. - Repete ele, de olho na estrada. Observo a lua imensa e amarela num céu estrelado. Descanso em paz porque, agora, estou nas mãos certas. Ouço sua risada. Sinto um arrepio. Calo minha intuição. A carta de Fernando vem à tona.

"O cara é louco. Levou a mulher ao suicídio. Adivinha com quem a mulher das fotos se parece?"

- Giulia, confia em mim. - Num tom soturno, ele meio que me ordena. Sua mão direita sobre a minha esquerda, me traz um certo conforto. - Vou te contar tudo.

- Tudo?

- Tudo. Confia em mim?

- Uh-hum...

Seus olhos ganham um brilho especial ao me examinar, por instantes. Um brilho diferente de tudo o que eu já vi. Depois não diz que eu não te avisei. Não vou dizer. Ele é maluco. Maluca é vc que aparece do nada. SOME! Não posso. Vou com vcs. Melhor assim. Concordo, meu bem. Concorda? Que bom porque eu deixei meus remédios no armário do banheiro dele. Quem sabe...de repente...eu precise usá-los. Isso não tem graça. Cala a boca ou te calo pra sempre. Ok.

- O quê!? Por que tá me olhando assim!?

- Nada. - Diz ele, encolhendo os ombros. Com o olhar fixo no trânsito, ele conclui. - A gente vai dar um jeito nessa voz também.

- Ah...tá. - Não permita. SHHH!
Morgana Milletto
Enviado por Morgana Milletto em 01/06/2021
Código do texto: T7268790
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Sobre a autora
Morgana Milletto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 52 anos
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Morgana Milletto