METAMORFO (ESSE TAL DE ROCK “N” ENROW) —IV—

XIX

Roque Metamorfo, transfigurado no presidente Joe Biden, muito compenetrado de suas atribuições, olha atentamente um grupo de comensais. Quando percebe que está sob o olhar de muitas pessoas das quais chamou a atenção, ele fala:

— “A guerra mais longa dos Estados Unidos, eu (apontando para si mesmo, repete) eu terminei. França, Alemanha, Reino Unido saíram do Afeganistão e deixaram tudo, toda a tecnologia de guerra para o Taleban e o Estado Islâmbico, quero dizer, Islâmico. Quero dizer mais uma vez: Is — lâm—Mico. Não paguei nenhum mico. Eu não. A retirada das tropas foi um chutasso (a tradutora toca levemente seu braço, dizendo alguma coisa), quero dizer, um sucesso. É isso mesmo, foi mesmo um sucesso. A Casa Branca, o Departamento de Estado, o Pentágono, não tinham outro pistão. Quero dizer não, não tinham mesmo noção (a tradutora cochicha algo em seu ouvido): ops, ops, opção”.

No momento seguinte dois seguranças vestidos de “homens de preto” aproximaram-se dele e disseram algo em seu ouvido esquerdo e direito. A seguir pegaram-no pelos cotovelos afastando-o do local em que estava falando. Roque Metamorfo/Biden aceitou ir saindo, mas logo parou e disse, soltando-se bruscamente das mãos dos “Men in Black”, mostrando nítida irritação, argumentou: “quem começou essa coisa de retirada do Afeganistão foi meu ante credor, quero dizer, antecessor. Apontando para os lados, os dedos em riste, disse visivelmente irritado:

— “Esses caras mal-encarados aí, vestido de preto, estão a serviços dos militares que trabalham com alienígenas, afirmou “Biden”. São agentes não-oficiais do Governo dos Estados Unidos da América. Em minha modesta opinião são terroristas intergalácticos”.

Algumas pessoas estavam rindo, algumas delas de modo exagerado. Outras se perguntavam o que estava a acontecer realmente na festa. Quem eram aqueles palhaços que faziam tão bem o papel dessas figuras importantes da política. Aquele “Biden” parecia mesmo o Biden de verdade. Os donos da festa nem de longe poderiam dizer que estavam insatisfeitos com as performances. Não poderiam ser os presidentes originais dos EUA. Não poderiam, de modo algum, ter vindo prestigiar uma comemoração no Piauí.

XX

Liliana passou as mãos carinhosamente por sobre o ventre. Ainda não sabia estar grávida de gêmeos. Afagou o íntimo de quatro meses com carinho enquanto olhava com certo desprezo a movimentação geral. Aquele burburinho sem pé nem cabeça, sem fundamento coerente, pessoas falando-se mutuamente sobre o sexo dos anjos.

Ninguém ali comentava um livro, um filme, uma pintura renascentista, um movimento cultural da virada do século XIX para o século XX e deste para o XXI. Todos estavam ocupados em tecer teias de aranhas para pegar um inseto semelhante. Todos pareciam estar na pele do besouro bombardeio: absorvidos em soltar seus conteúdos venenosos uns sobre os outros, e julgando-se muito espertos com isso. Quem é quem mais elegante, mais fofa, mais bonita, mais na moda, mais, mais??? Qual foi a mais recente picada do inseto vistoso da novela???

O convívio com essas inconsciências indiferente à própria representação, narcísica. Os efeitos da impossibilidade de se comunicar com elas. A incomunicabilidade entre as personas na intimidade dos filmes de Antonioni ou de Bergman se repete amiúde nas relações das pessoas sem que elas se deem conta dessa verdade, para elas intangível.

Sentiu-se em desespero ao saber que não poderia continuar representando entre essas pessoas que exigiam dela uma empatia que não conduzia a lugar algum. Exceto ao vazio de vidas vazias de sentido. Onde buscar sentido naqueles bate-papos sem eira nem beira??? Como questionar o intelecto frívolo daquela gente sem parecer presunçosa ou soberba??? A crise pessoal, social, todas as crises parecem sim, deriva desse rio subterrâneo de fenômenos psíquicos advindos dessas pessoas que divulgam apenas o próprio lugar comum!!!

XXI

Os membros mais fundamentalistas do grupo de Roque Metamorfo haviam buscado um final radical para o tríplice e festivo evento. Uma grande diarreia para a maioria dos presentes. Roque Metamorfo conseguiu dissuadi-los da peça. O ser humano nele não clama por humilhar o próximo, mas para revelar as verdades que nele existe. Um ser humano não é, segundo sua avaliação, sinônimo de dissipação em dejetos. Mesmo sabendo que nessa cidade, muito pouco se poderia fazer para não cair numa rotina de pessoas nervosas para conseguir um incesto num motel de periferia.

O Coringa faz outra aparição entre pessoas que estão ao redor do palco onde se apresentam cantoras, cantores acompanhados de suas violas e bandas de música. Sempre com seu terno verde, gravata e lenço amarelos, o Coringa é contemplado com aplausos pela empatia que provoca. Desta vez ele anuncia uma nova atração:

— Um cantor lourinho, que costuma aparecer com cabelo moicano em linha espichada no alto da cabeça. O Talentoso Supla, anunciado como sendo “O Tropeço”, personagem da família Adams. Surplix/Tropeço/Metamorfo com sua aparição física descomunal, parece um enorme gigante boçal. Senta-se num banquinho que some abaixo do corpanzil. O Coringa, entra numa de entrevistador e começa a perguntar:

— Você é um artista do showbiz de vida fácil, como se define hoje, depois de tantos anos de apresentações sempre tão ligadas em gírias defasadas e piruetas imitativas do Mico Leão Dourado do Rock Rola, Mick Jagger??? Você queria ser a Rola do Mico Jagger??? — “Surplix” parece meio constrangido com as perguntas do Coringa, mas tenta sair-se delas. Sorridente responde:

— Eu escolhi ser um Rock Rola para transmitir as coisas que pedem para ser expressas por meu coração "crush". Meu Rock Rola está pra lá da música, é atitude, é ser diferente dos bruzundangas que não nasceram com meus privilégios. Diferente dos motoqueiros de entrega, dos caras classe média das bandas de rock, dos Robertos Carlos da vida, dos berradores, chorões e cornos da música sertaneja.

O apresentador Coringa está sempre sorrindo, afinal ele se notabilizou por seus sorrisos sempre muito espalhafatosos, num rosto deformado que imita uma gargalhada sem fim. “O Metamorfo/Tropeço/Surplix, o entrevistado não se sente muito à vontade com as perguntas cada vez mais surpreendentes:

— “Surplix Tropeço” é verdade que você herdou do pai a fama de azarado??? Você não se destacou no mundo dos holofotes dos palcos. Foi sempre um menino adolescente riquinho, cujos pais sempre lhe abriram com facilidade as portas de entrada no mundo fútil do entretenimento serelepe. Você sempre foi sapeca???

— Quando eu morava em Nova Iorque minhas tietes eram cocotas que se achavam podres de chique. Meu síndico quando me flagrava na rua ou nas escadas pegando na padaria delas, passava por mim e me chamava de “Papito”. No Brasil eu apelidava as pessoas em geral de “Papito” e o “nick” pegou.

— Era “Papito” não porque era pai, afirma sorrindo o Coringa, mas porque já tinha na época esse papo debaixo do queixo (risos)??? “Nick” pra quem não sabe, quer dizer “apelido”. Você morava no bairro Lower East Side onde corria solto o tráfico de entorpecentes. E as garotas que por lá circulavam davam fácil, em troca de um bagulho de erva, coca ou um pico de heroína.

— Elas gostavam mais era mesmo de comprimidos de anfetamina, rebateu Surplix. algumas pílulas de anfetamina. Você era mais conhecido no pedaço por “Tom” e o “nick” do síndico era “Jerry”. Ele terminou morrendo de over dose, é verdade???

— ““Não sei ao certo te dizer, mas o cara era meu amigo e gostava de “voar””.

A entrevista com “Tropeço/Surplix” terminou quando o banquinho em que estava sentado quebrou sob o excesso de peso. Ele desabou no chão de costa e se debatendo todo. Teve alguma dificuldade de se levantar, mesmo com ajuda de algumas pessoas que estavam a assistir a “prosa”. Levantando-se meio sem jeito, Tropeço/Surplix despediu-se grunhindo. Vale dizer que as falas do monstrengo Surplix com as faces semelhantes às da criatura “Tropeço” da família Adams, eram traduzidas por um anão que, do lado dele, interpretava para o público presente às exaltações verbais nas respostas dele.

XXII

Liliana dirige de volta para sua casa tendo ao lado o marido meio que aflito por alguma razão por ela desconhecida. — Está tudo bem???

— Sim, responde ele. Foi uma bela festa mesmo. Ele liga o rádio. Estão cantando Pitty e a Rita Lee: ““Esse Tal De Rock “En” Enrow””. Um em número de estranhamentos perpassa a mente de ambos. Ele pergunta:

— Você não achou estranhas muitas coisas que aconteceram??? Ela respondeu:

— Faz parte a estranheza de tudo que hoje em dia acontece no mundo. Tudo soa estranho, como se a estranheza de tudo fosse parte normal do cotidiano.

Liliana de camisola, está no terraço do apartamento, talvez se preparando para ir dormir. Senta-se num balanço de criança enquanto o olhar se fixa no horizonte amanhecer.

— “Não é fácil fazer sexo com o universo. Ele é tão imenso...”. Seus pensamentos quase que são ouvidos como se ela estivesse a falar. — “O grande oceano do espírito do mundo...”. Sua voz interior ressoa na paisagem que amanhece. — “Os hormônios invencíveis da vida que quer continuar a viver superativos, extraordinários”. Ela continua a existencializar esse momento fenomenal, faz-se ouvir sua voz interior:

— Por que a demência do mundo se faz tão presente, como se todas as pessoas que nele existem agissem como se fossem todas Raimundos??? O que acontece com todas as pessoas que não se veem nem agem como se pudessem mudar isso??? Por que não fazem de seus dias acontecimentos abençoados e parecem acariciar seus fardos???

XXIII

Roque Metamorfo sente-se num estado de crônica perturbação neurológica. Ao pensar intensa mente em pessoas do convívio urbano da cidade entre rios onde habita, ele provoca a mutação de personalidade que atrai os sintomas de diferentes sensações. A mutação traz consigo transtornos incontroláveis que envolvem funções musculares, sensações e sentidos específicos daquelas pessoas com as quais passa não apenas a conviver, mas a repetir suas percepções, funções mentais, seus sonhos e pesadelos.

Não são dores neuropáticas as que está a sentir. Não são sequer dores mesmo. São choques de hipersensibilidade acompanhados de formigamento e adormecimento das regiões do corpo mais afetadas pelas mutações que afetam a cabeça, o tronco e os demais membros que controlam diferentes funções orgânicas.

Um dia ele despertou e dirigiu-se ao banheiro. Após a higiene matinal, quando estava a passar a toalha na cabeça e no rosto, ao baixar até os ombros, ele se surpreende e assusta-se ao ver o reflexo de um ser semelhante ao que se vê na capa do livro “Comunhão” do autor americano Whitney Strieber. Após encarar o estranhamento, ele é contemplado por visões que lhe parecem ser do interior labiríntico do Parque Nacional da Serra da Capivara, com seus sítios arqueológicos nas proximidades do Parque Nacional Serra das Confusões, com formações imensas, rochosas, ocupando extensas áreas da vegetação semiárida da caatinga.

Roque Metamorfo traduz as visões intermitentes das Serras da Capivara e Serra das Confusões como se devesse ir par lá. Ele não sabe exatamente por quê??? Sente-se atraído para suas entranhas de rochas do maior conjunto de sítios pré-históricos do Brasil. A primeira reserva federal de preservação do ambiente inóspito da caatinga e de sua imensa biodiversidade. O lugar é Patrimônio Cultural e Histórico da Humanidade, título confirmado pela Unesco em 1991. Seus sítios arqueológicos contêm pinturas e gravuras pré-históricas, realizações criadas por antiguíssimas sociedades que ocuparam a região por muitos e muitos milênios.

O Metamorfo está na estrada a dirigir-se para o município de São Raimundo Nonato a 576 km de Teresina. Ele lembra de ter visitado o Parque Nacional das Serras da Capivara e Serra das Confusões há uma década. Impressionou-se com a paisagem geológica, formações areníticas, cânions ruiniformes, boqueirões, fantásticas vistas panorâmicas geomorfológicas preservadas no Geoparque. Ele não se perguntava mais por que para lá se dirigia. Ele sabia.

XXIV

Liliana sentada numa poltrona da sala de estar de seu apartamento, chama a filha e o filho de três anos para presenteá-los. Eles estão na festa de aniversário, cercado por coleguinhas de famílias amigas, vizinhas. Leslie é o nome da menina e Caronte, o nome do menino.

Ela, Liliana escolheu as denominações de batismo: Leslie, uma planta ornamental com folhas verdes brilhantes circundadas por espinhos. Caronte, o barqueiro do submundo na mitologia grega, responsável pelo transporte das almas usando canoas sobre os rios Estige e Aqueonte. Liliana prestou essas homenagens à cidade onde habita, banhada por dois rios: o Parnaíba e o Poti. Na mitologia Caronte nasceu dos mais antigos Nix, das mais antigas Personificações da Noite e de Érebus, Personificação das Trevas. Liliana não tinha uma avaliação otimista da espécie, dita humana, à qual supostamente pertencia.

XXV

Ao chegar à cidade de São Raimundo Nonato, com seus cento e setenta e três sítios arqueológicos abertos à visitação, Roque Metamorfo embrenhou-se, nessa noite de luar intenso que clarejava intensamente as frestas profundas, para ele abissais, que separavam as enormes paredes de rochas, movimentando-se apressadamente entre elas, como se fosse a última coisa que estivesse a fazer enquanto mantinha-se na configuração de bípede humano.

Roque Metamorfo exultava de regozijo e deleitação, antegozando a volúpia e o entusiasmo por saber que, nos próximos e breves momentos em que saltava entre as paredes das rochas, como se fosse ele uma fera antiga, antológica, antilógica, selvagem e pré-histórica, estes acontecimentos seriam os últimos de sua formatação dita humana.

O Metamorfo ganhou velocidade inédita com seus saltos de uma para outra parede das rochas. Saltos incríveis, fantásticos, extraordinários. Quem os visse não poderia narrar a outras pessoas esse acontecimento. Seria uma narrativa tão absolutamente inacreditável, que a comunidade ou o grupo para o qual transmitisse tal visão o consideraria louco.

Roque, exausto, após um grande espaço de tempo embrenhando-se nos confins dos labirintos, a correr aos saltos, labirintos que contavam histórias no Tempo dos antigos habitantes primitivos, chegou ofegante até o alto de uma rocha e conheceu através de seu corpo a mutação definitiva, da qual não poderia voltar à forma bípede antiga: suas mãos começaram por ser absorvidas pela formatação rochosa. Os braços, pés e pernas absorvidos por ela. As coxas, o ventre, o tórax. Por fim a cabeça lentamente foi se infiltrando na pedra. Seus olhos voltados em direção à configuração idealizada das estrelas, cintilavam ao lado da lua flamejante, luminosa, magnificente. Roque Metamorfo teve um último pensar, estranho como tudo que acontecia com ele desde muito tempo. Pensamentos que não eram mais totalmente humanos:

— “O homem em mim realiza essa atribuição, esse privilégio, sem que eu peça nada em troca. Tempestades açoitarão minhas rudes, rijas e intensas costas, raios estarão às minhas portas. A maravilhosa sensação de permanência e estabilidade será por certo benvinda, maravilhosa. Eu migro para essa outra dimensão da matéria por ter me descoberto”.

XXVI

A cidadezinha do município de São Raimundo Nonato, distante de Teresina 576 quilômetros, criada em 1912, com aproximadamente 40 mil habitantes, num território de 2.606,8 km2, jazia por sob a luminosidade lunar como se fosse uma Damasco ou uma Jericó encravada num sertão. Sertão à moda literária de Guimarães Rosa.

XXVII

Liliana abre a porta lateral do carro e se despede do casal de gêmeos na entrada principal da escola. Numa pequena área ajardinada, ao lado da portaria do colégio, crescia um vegetal de nome Azevinho, ou Leslie, planta ornamental de Natal, típica da Europa. A festa do Natal para ela seria a primeira.

Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 02/11/2021
Reeditado em 03/11/2021
Código do texto: T7376541
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