As Belas e Os Lambretas - Uma História dos Anos Dourados

 

 

 

 

 

AS BELAS E OS LAMBRETAS

UMA HISTÓRIA DOS ANOS DOURADOS

 

 

 

PREFÁCIO DO AUTOR

 

Há algum tempo tenho pensado em escrever uma simples e despretensiosa história sobre minha querida infância e juventude, naquela tão festejada época denominada Anos Dourados, um tempo que deixou muita nostalgia em quem viveu intensamente aquele período.

A história que pretendo contar está ambientada na pacata Andrada, cidade do extremo sul de São Paulo, onde vivi até os vinte e seis anos, me estabelecendo após isso na capital paulista.

Assim, quando me veio a vontade de escrever, recorri, em um primeiro momento, à memória e ao álbum de fotografias, além de uma boa conversa com uma das personagens da história, ou seja, a minha querida esposa, que apontou em meu trabalho de pesquisa vários pontos de discordância.

Pequenas discussões surgiam em relação aos pontos divergentes, onde cada um defendia sua versão da história, exceto na parte que elas convergiam.

Foi quando minha Laura sugeriu:

- Por que não promovemos um encontro com nossos velhos amigos? Eles poderiam nos ajudar a montar esse quebra cabeça, e seria uma tarde bem divertida!

Não havia melhor maneira de relembrar fatos que ficaram escondidos em algum cantinho da memória, que ouvir as histórias dos próprios personagens que as viveram de fato.

A festa foi um sucesso, com o comparecimento de toda a velha turma dos Lambretas – logo esclarecerei sobre o que se trata esse nome -, e as meninas (hoje senhoras casadas e algumas até avós), na maioria ex-alunas do Madre Tereza, um colégio que existe até hoje em Andrada.

As histórias foram surgindo de uma forma bem natural e, na medida em que iam sendo contadas, em meio a gargalhadas e até mesmo de algumas lágrimas, Laura ia me dirigindo olhares zombeteiros, sempre que os pontos confirmavam sua visão e denunciavam a minha dificuldade em relembrar alguns fatos, que eu jurava não terem ocorrido ou acabava modificando uma coisa ou outra.

- Não há como negar – declarou Francisco Carlos, que chamávamos de “Chimba”, por alguma razão que não me recordo -, a memória de Laura sempre foi melhor que a sua!

- Ah, não pensem que a memória do Afrânio melhorou muito – disse Lourdes, sob o protesto do nosso amigo, que negava com a cabeça, de forma tão engraçada que arrancou risadas de todos os presentes.

Não há de se negar a memória prodigiosa de Laura em comparação a minha, que não conseguia gravar o próprio número do celular adquirido há mais de seis meses.

Sacando um bloco de notas do bolso da camisa, eu anotava alguns pontos que iam surgindo, na medida em que a conversa avançava, enquanto Laura, mais por dentro da tecnologia, gravava em seu celular o que nossos amigos iam falando.

Assim, em um misto de aventuras, situações cômicas e romances (que dominou quase todo o contexto da história), o manuscrito acabou surgindo, com algumas incorreções e exageros, é verdade, mas Laura explicou que, sem tais detalhes, a coisa poderia ser muito enfadonha.

- Você não é o Machado de Assis - disse ela, rindo -, portanto já está de bom tamanho!

Laura também teve participação na revisão do texto, corrigindo os erros gramaticais e retirando todos os palavrões, apesar de meu protesto veemente quanto ao fato. Porém, conhecendo o poder de persuasão de minha Laura, acabei desistindo da reclamação.

Também ficava decidido que, a mim caberia a tarefa de começar o relato, sob minha própria perspectiva, ou seja, contaria a história desde um determinado ponto.

Assim, dividiria a história, situando-a em nossa infância e juventude, com ênfase nos relatos de nosso namoro, que acabaram tomando uma posição de maior destaque, pela natureza dos fatos ocorridos.

Assim, entre belas e lambretas, vamos à história propriamente dita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1

 

FUTEBOL, VISITAS E SOPA

 

Não estou bem certo do porquê de ter escolhido este título tão estranho para esse capítulo, que nada tem a ver com culinária, e sim com lembranças e impressões de minha infância e juventude. Mas a verdade é que, toda vez que me lembro destas duas fases da vida, vejo minha mãe no fogão a gás – novidade de uma época em que, na maioria das casas interioranas os fogões ainda eram lenha –, mexendo a sopa com a colher de pau.

Logicamente, na época do ano em que o clima na pequena Andrada, cidadezinha típica do extremo sul de São Paulo, era muito frio - especialmente à noite -, a sopa era o tipo do prato que não poderia faltar no jantar - geralmente era um maravilhoso caldo grosso servido na entrada -, alimento que aprendi a apreciar desde criança.

Aos oito anos lembro que meu pai estava com o ouvido praticamente colado ao rádio capelinha, enquanto minha mãe estava na cozinha, preparando um lanche. Escutávamos atentamente o jogo entre Brasil e Uruguai, pela Copa do Mundo de 1950.

Naquele dia já estávamos preparados para comemorar o nosso campeonato mundial. O primeiro tempo foi muito tenso, onde prevaleceu o empate, que daria o título ao Brasil.

No segundo tempo, aos dois minutos de jogo, Friaça abria o placar em nosso favor, e explodimos de alegria com gritos e abraços. Achávamos que seria agora impossível que os uruguaios pudessem nos bater.

No entanto, aos 21 minutos Schiaffino empatou a peleja, e já começamos a ficar preocupados, pois o time, conforme o narrador dava a entender, estava muito nervoso.

Assim, aos 34 minutos do segundo tempo o coração verde e amarelo sentia um baque, quando Alcides Ghiggiamarcava o segundo da Celeste Olímpica, enterrando nossas esperanças e atirando o país em um luto sem precedentes.

No ano seguinte, talvez para dar ao brasileiro um pouco de ânimo após o fiasco de 50, a CBD decidiu realizar um torneio de campeões nacionais, onde Palmeiras e Vasco foram escolhidos para representar o Brasil. O torneio, na época, fora tratado como um verdadeiro torneio mundial (hoje há certa polêmica em torno disso, mas na época esse campeonato foi tão importante que lotou o Maracanã, e a final entre Palmeiras x Juventus, e quase todos os jornais davam a Sociedade Esportiva Palmeiras como campeã mundial interclube).

Assim, lavou-se a alma do brasileiro. Com um empate por 2 x 2 o Palmeiras foi sagrado campeão mundial de 1951, o que devolveu, ao menos em parte, o orgulho do brasileiro pelo futebol.

Finalmente em1958 nos sagramos campeões mundiais, sob os pés de um negrinho de dezessete anos, que deixava o mundo inteiro assombrado com suas jogadas de craque, o qual, anos mais tarde, receberia a coroa e o cetro do esporte bretão.

Assim, o mundo, em uníssono, proclamava o mais novo soberano do futebol: o Rei Pelé!

O Brasil, portanto, acabava de se tornar campeão mundial de futebol, graças ao talento do rei menino e do gênio das pernas tortas, Mané Garrincha – que protagonizaria a copa de 1962, sem Pelé, que havia se contundido - além de Djalma Santos, Vavá, Didi, Gilmar, e outros craques que povoaram o imaginário de crianças e adultos daquela época.

Enquanto o povo nas ruas soltava fogos e comemorava o feito dos nossos jogadores, eu ficava ali na sala da casinha da Rua das Roseiras, observando empolgado deliciosas discussões de como o Brasil havia derrotado o selecionado da Suécia e imaginando como teriam sido as jogadas dos gols, uma vez que, na época, o rádio era a única forma de acompanhar as partidas, e já sonhando com o dia em que os lances seriam reprisados no cinema da cidade - o Cine Radial, uma das poucas distrações que tínhamos ali, na época.

Logo após esgotar o assunto da bola, a sopa era colocada na mesa e minha mãe já anunciava que a janta estava pronta. Nesta ocasião papai, mamãe, tios, tias se ajuntavam em volta da mesa da cozinha, enquanto nós, as crianças e jovens (nessa época eu contava com dezessete, como Pelé), jantávamos na sala, em uma mesinha de centro, e nos sentávamos em almofadas, ou no sofá, segurando o prato na mão – e a vida ia correndo, e a conversa alegre ia reverberando por aquelas paredes, as que chamávamos lar.

Foi nesta ocasião que meu tio Lázaro, assíduo leitor de jornais e revistas, comentava sobre um cantor que estava se tornando um grande sucesso no mundo inteiro: Elvis Presley era o seu nome, sobre quem meu tio traçava as mais severas críticas, descrevendo o moço de topete e costeletas como sendo o mais novo representante da perdição da juventude, onde relatava seus trejeitos no palco com sua guitarra na mão e uma música ensurdecedora, deixando a plateia jovem em transe e os pais enfurecidos com seus requebros.

Os olhos arregalados de meus pais eram seguidos de comentários como “espero que seja uma moda passageira” ou “Só falta esse absurdo contaminar o Brasil” ou ainda, “Nós copiamos esses estrangeiros em tudo o que não presta” e assim a maledicência ia sendo esparramada enquanto a sopa enchia nosso bucho.

Anos mais tarde todos dariam o braço a torcer, se rendendo às canções daquele que, assim como Pelé, fora coroado rei, ou seja, Rei do Rock and Roll.

Logo após o jantar, mamãe passava um café, cujo aroma se espalhava pela sala, onde meu pai e tios conversavam animadamente, contando história de infância e juventude - mais ou menos como estas, que agora pretendo reunir aqui. Todos ficavam ouvindo atentamente, especialmente quando a vez de falar era do tio Lalo, um homem gordinho e de bigode fininho que, de um jeito muito engraçado, tornava suas histórias muito interessantes, mesmo que a maioria delas não passasse de lorotas.

No final das contas, esse era o ponto alto daqueles momentos, onde todos riam muito de suas histórias e anedotas.

 

 

 

 

 

 

2

 

78 RPM

 

Daquela reunião até aqui, dois anos já havia se passado.

Papai chegou em casa, como sempre, assobiando uma canção. Desta vez trazia um pacote, o qual depositou sobre a mesa. Minha mãe veio recebê-lo com um beijo, enquanto nós vínhamos pedir-lhe a bênção – conforme costume da época – e, desta vez nem foi preciso que mamãe nos chamasse várias vezes, já que estávamos muito curiosos com o conteúdo daquele pacote.

Papai ia desamarrando o barbante e retirando o papel da caixa, logo surgindo uma belíssima vitrola portátil, que foi colocada sobre um aparador.

Ficamos maravilhados e ansiosos, imaginando como aquele engenho funcionava e, especialmente, para que serviria – mesmo porque não tínhamos, na época, a menor ideia do que fosse uma vitrola.

Foi quando retirou de outro pacote alguns discos. Eram os pesados bolachões de 78 RPM, que se tornaram parte de nossas audições diárias. Lembro até hoje que eram discos de Emilinha Borba, Luiz Gonzaga e um do qual, particularmente, eu gostava muito: Bob Nelson, um cantor que se caracterizava de cowboy e cantava músicas de estilo country, embora em português.

Bob Nelson já havia se apresentado pelo menos umas três vezes no circo da cidade, o Monumental, que de monumental, cá entre nós, não tinha muita coisa, exceto um gordão, que comia uns vinte pedaços de torta e desafiava a plateia a quebrar seu recorde, o que logicamente nunca acontecia. Mas, em uma época em que não havia televisão e o rádio era uma das poucas distrações dos cidadãos comuns do interior, tanto o cinema quanto o circo tinham a função de movimentar a vida social daquele pedaço de chão. Mais tarde, com o advento do Rock and Roll, a cidade ganharia um clube, onde eram promovidos os bailes e, não raro, peças de teatro, além de bingos beneficentes e outros eventos.

Um ano mais tarde, Luiza, minha irmã mais velha, ganhou de presente de aniversário um disco de 78 RPM do maior astro do Rock: Elvis Presley - aquele que fora alvo das críticas ácidas do meu tio Lázaro, - sendo que, não seria exagero se disséssemos que ela tocou, em uma semana, umas duzentas vezes a música I Need Your Love Tonight, enquanto tentava tirar alguns passos da música, logicamente de um jeito atabalhoado, inventado os passos que imaginava na cabeça, alguns baseados em algumas filmagens que apareciam antes dos filmes de cinema. Só mais tarde, com a chegada dos primeiros aparelhos de TV em Andrada, pudemos ver como se dançava esse tal de Rock and Roll, que, como dizia meu tio naquela noite, acabou por contaminar não só a pequena Andrada, como o país inteiro com suas guitarras, baterias e rodopios, quando a maioria dos jovens acabou aderindo ao estilo de dançar, alguns com uma agilidade impressionante, outro nem tanto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2

 

CAMPINHO

 

Ao lado de casa havia um terreno baldio, que logo foi transformado em campinho, assim que o dono do terreno mandou limpar o mato e terraplanar o local.

Foi nessa época que acabei fazendo amizade com Chimba, que ia passando na calçada e me viu fazendo embaixadinhas com a bola de meia.

- Tenho uma bola de verdade, vamos jogar?

Aceitei de pronto.

E assim, ficamos ali brincando de toques e dribles, até minha mãe chamar para a sopa.

Logo o campinho foi povoado com a molecada do bairro, e meu círculo de amizades foi aumentando com a chegada de Bartolomeu Vaz, Gregório Matoso e Ricardo Afrânio.

Foi mais ou menos assim que surgiu o “Peralta da Vila Esporte Clube”, que só durou até o dono do terreno baldio resolver construir algumas casas, acabando com as nossas pretensões de levarmos o clube aos grandes campeonatos da várzea de Andrada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3

 

SOBRANCELHAS DE TATURANA

 

Julia, minha irmã mais velha, cuidava de uma menina enquanto a mãe trabalhava como professora à tarde. Tal tarefa durou mais ou menos seis meses, e Julia mostrou-se uma babá muito eficiente, apesar da pouca idade.

Porém, como eu era um garoto muito peralta, e que encarava com naturalidade a eterna batalha entre meninos e meninas, antes que o interesse por garotas fosse despertado na adolescência, tornei a vida daquela pequena criatura um inferno.

As brincadeiras eram no sentido de irritá-la, não dando trégua, a não ser quando era repreendido por Julinha ou por minha mãe, que me dava umas chineladas quando passava dos limites.

A menina era gorducha, tinha a íris de uma cor que lembrava o mel quando banhado pelo sol, e sobrancelhas grossas, o que foi um prato cheio para minhas zombarias.

- São olhos cor de âmbar, e as sobrancelhas dela são graciosas, e ainda será uma linda mocinha quando crescer – dizia minha irmã, a defendendo e me colocando em meu lugar -, mas se é guerra que você quer, direi a ela que você ainda chupa o dedo.

Assim, eu a chamava de sobrancelhas de taturana, enquanto ela ria, dizendo que eu ainda chupava o dedo, deixando-me furioso.

Logicamente, eu não havia ainda esgotado meu depósito de zombarias e de brincadeiras de mau gosto.

Uma vez, enquanto minha irmã havia ido preparar o leite da pequena, ela brincava no fogãozinho na varanda de casa. Havia, no dia anterior, descoberto uma carcaça de sapo no terreno do lado de casa e logo o guardei em uma caixinha de sapato, já pensando em como o utilizaria.

Assim, vendo a gorduchinha ali, tão despreocupadamente brincando com suas panelinhas, não hesitei em jogar aquele sapo morto em cima dela.

O grito da menina chamou a atenção de Julinha, que saiu para a varanda de forma a ver o que estava acontecendo.

O resultado dessa traquinagem foi um chute na canela dado pela gorducha, umas três ou quatro chineladas de mamãe e o corte da mesada que meu pai dava mensalmente.

Dentre as maldades que havia realizado na meninice, de uma, em particular, me arrependi amargamente, e que foi decisiva para uma mudança radical de atitude, e que teve relação direta com aquela criança, mas que contaremos mais adiante.

Aliás, para que o leitor fique bem-informado, Laura Manoela era o nome daquela criaturinha, e tal fato que me deixou com certo remorso, revelarei a seu tempo, pois foram determinantes em certos acongecimentos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4

 

E POR FALAR EM BAILES...

 

Ainda me lembro do primeiro baile no ATC que participei, embora a contragosto, em 1954. Eu tinha mais ou menos uns treze anos e achava tudo aquilo uma amolação, mas como naquela época o recém-inaugurado Albuquerque Tênis Clube – Também conhecido como Clube dos Aviadores -, o único da cidade por muitos anos, começava a promover bailes aos finais de semana, minha família acabou comprando uma mesa em um desses eventos.

Fiquei chateado, já que, naquela noite ia passar um filme de faroeste com John Wayne e Dean Martin, no Cine Radial, os quais se tornariam meus atores favoritos, junto ao impagável Jerry Lewis e nossos brasileiríssimos Oscarito, Zé Trindade, Grande Otelo, Golias, Ankito, Mazzaropi etc.

Uma das ironias sobre a história do Rock and Roll em Andrada foi o fato de que, em 1956 eles passaram o filme “Ao Balanço das Horas”, nome nacional dado para a película “Rock Around the Clock”, que era um filme sobre Bill Halley e seus cometas, porém a repercussão não havia sido tão grande na cidade, pois havia uma proibição para menores, aliás, um tipo de censura bem ridículo, comparado àquilo que as crianças assistem hoje na TV.

Porém, não teve jeito senão me enfiar no terninho azul marinho e ser torturado pela chatice de ficar observando alguns gatos pingados dançando ao ritmo da orquestra do Maestro Zefirelli, enquanto eu me entupia de Crush – um antigo e saudoso refrigerante sabor laranja – e amendoim.

Logicamente, dois anos mais tarde acabei me tornando assíduo frequentador dos bailes, não só no clube quanto os promovidos nas casas. Até mesmo eu, um garoto tímido e franzino, acabei me tornando um dançarino competente.

O Albuquerque, apesar do tamanho da cidade, era muito frequentado por alguns conjuntos que, no futuro, acabaram tendo seus estrelatos nas grandes capitais. Um dos conjuntos (hoje eles chamam de bandas) era Ronnie Lourenço e seus Roquetes – tal nome pode até soar estranho hoje em dia, mas na época eram quase todos dessa forma, talvez para imitar o famoso grupo Bill Halley e seus Cometas.

Alguns desses conjuntos até chegaram a ser alvos de chacotas, como no caso dos Apimentados, que tocaram umas três ou quatro vezes no Albuquerque, mas logo trocaram o nome da banda para Os Intocáveis, já que, invariavelmente eram chamados de “Acebolados” pelos gozadores de plantão.

Uma das características desses conjuntos era o fato de que seus repertórios giravam em torno de versões das músicas de consagrados cantores e conjuntos norte-americanos. Eu, sem dúvida gostava mais quando esses conjuntos tocavam e cantavam as músicas originais, mesmo com o inglês um tanto duvidoso. Porém, não se pode negar que as versões eram muito boas e fizeram bastante sucesso, principalmente a música Estúpido Cupido, da doce Celly Campello, que talvez tenha sido o maior fenômeno musical daquela época, ou seja, época dos primeiros passos do Rock and Roll Brasileiro.

No início, não tínhamos referência de como se dançava o Rock and Roll, assim, convencionou-se que as danças deveriam ser baseadas nas fotos dos bailes estrangeiros, que geralmente saiam na revista O Cruzeiro, ou naquilo que se via no cinema. Porém, todos, de um jeito ou de outro, acabavam envolvidos pelo turbilhão de notas que se sucediam como uma metralhadora num campo de batalha.

Com o tempo, acabamos pegando o jeito, e, na medida em que outros estilos foram surgindo e tomando conta desses bailes, como o twist, por exemplo, e íamos tentando nos adaptar aos novos passos de dança.

E foi em um desses bailes, já meio altos de tanta Cuba Libre e Hi Fi, que decidimos fundar os Lambretas, já que todos nós, jovens de classe média, possuíamos aquelas saudosas motonetas italianas. À minha, uma lambreta azul clara, dei o carinhoso apelido de Penélope, gesto que os meus companheiros também seguiram, batizando suas máquinas com nomes femininos. O Lineu tinha a Suzy, o Bart (Bartolomeu Vaz) tinha a Sofia, o Matoso a Vanusa, o Chimba (Francisco Carlos) a Marta Rocha, o Américo a Wendy, e o Afrânio a Serena, todas elas identificadas com seus respectivos nomes nas laterais, todas com as letras padronizadas pelo Honório, um rapaz que pintava ônibus e placas de publicidade.

E assim se seguiu uma verdadeira mania entre os Andradenses, que era a de montar suas gangues – na época, gangue se referia a uma turma que se juntava para se divertir, correr com suas lambretas e, às vezes, brigar entre os rivais – todas devidamente identificadas, de acordo com o desenho bordado nas costas da jaqueta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5

 

QUANDO ALAGARTA SE TRANSFORMA EM BORBOLETA

 

Era o Baile da Primavera, e uma das jovens que estava na fileira lateral de mesas do lado dos chamados “convidados de honra”, acabou me chamando a atenção. Ali reconhecidos antigos moradores do sobrado avarandado: o Dr. Pedrosa, um advogado que agora trabalhava para a prefeitura, e Dona Marta, além de Heloísa, a filha mais nova.

E foi mais ou menos assim que me dei conta que Laura Manoela, a criança com quem eu vivia de implicância, havia crescido. Aquela foi uma grande surpresa para mim, já que há anos não a via.

Mas, exceto pelas palavras de Julinha, quem iria imaginar que aquela criança chata, atrevida, rechonchuda, de sobrancelhas esquisitas, fosse se transformar em uma bonequinha encantadora? E, quem poderia imaginar que a pestinha fosse me enfeitiçar de tal maneira que já não conseguia mais parar de olhar para ela?

E ainda, não fosse o fato desta criatura ignorar-me totalmente, o que logo percebi nos bailes que se seguiram, era bem provável que Laura já tivesse entrado no rol das minhas parceiras de dança preferidas.

Naquela ocasião, a família de Laura Manoela havia voltado para a antiga residência, uma casa avarandada da Rua das Roseiras, recentemente reformada, e exibindo um belo jardim, que se estendia por quase todo o entorno da casa.

Depois desse primeiro contato, que não passou de uma troca ocasional de olhares – que ela teimava em fazer parecer muito ocasional -, muitos bailes se passaram, e com eles as tentativas em criar coragem para pedir uma dança à minha antiga desafeta, sendo todas empurradas para o baile posterior.

O temor em ser ferido em meu amor-próprio com uma vergonhosa recusa, e ser objeto de gozação da turma por vários meses, me levou a adiar uma aproximação, até que, em um desses bailes – mais precisamente o Baile de Verão –, quando havia me decidido em arriscar um ataque mais incisivo, tive minha primeira decepção com a menina.

Foi assim:

No Albuquerque havia um terraço que se estendia ao longo de todo o edifício, formando uma letra L, onde as pessoas iam tomar ar fresco, já que no salão fazia muito calor nas noites de verão.

Subi com um copo de Grapette – um refrigerante da época – para o tal terraço, a fim de me refrescar, quando reparei por entre as plantas que Laura e algumas amigas conversavam animadamente. Logicamente falavam sobre rapazes!

Assim, aquelas meninas malvadas iam citando os nomes de cada um desses infelizes, enumerando as vezes que elas haviam se recusado a conceder uma dança, ao que se seguiam muitas risadas.

Fiquei pasmo ao ouvir o meu nome, mas procurei afinar o ouvido, a fim de ouvir o que diziam.

- Não viram o filho do Seu José Luís - disse uma loura alta –, que parecia um pavão se exibindo no salão, com aqueles passos esquisitíssimos?!

- Sim, - respondeu uma moreninha, que arrumava um detalhe do vestido de uma amiga –, o tal Mike Paolo é um exibicionista nato.

Todas caíram na gargalhada, menos Laura, que se distraia acariciando as pétalas de uma gardênia na floreira da sacada.

- Se não me engano – dizia Rita, a melhor amiga de Laura -, aquele é um velho conhecido de, Laurinha!

- Sim – disse a loira alta -, são até vizinhos novamente!

Laura, sem se voltar para as meninas que lhe dirigiram aquelas gracinhas, deu de ombros, respondendo:

- O que diz respeito a esse moço – disse friamente – deixe os mortos descansarem em paz!

Foi como se alguém me atirasse uma balde de água gelada na cara. Nunca poderia imaginar que, de alguma forma, ela pudesse ainda guardar alguma mágoa daquele incidente do sapo ou do bailinho.

Hoje reconheço que fui um perfeito idiota, mas o que está feito não se pode desfazer.

Assim, saí dali de fininho, a fim de não ser descoberto, o que poderia me colocar em uma situação vexatória.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6

 

OS PROBLEMAS DO MATOSÃO

 

*Segundo depoimento do próprio Gregório Matoso no dia da festa.

**Aqui a narrativa passa para a terceira pessoa.

 

Gregório Matoso, mais conhecido por seu sobrenome no aumentativo – a turma o chamava Matosão -, trabalhava como mensageiro na prefeitura de Andrada. Assim, sem contar com os ínfimos vencimentos que recebia para entregar a correspondência nas seções, para seu desespero, acabara também se transformando em uma espécie de “faz tudo” do Dr. Pacheco, prefeito de Andrada na ocasião.

Naquela manhã, o pobre Matoso estava com uma cara nada amistosa, pois o prefeito havia convocado metade da repartição para cuidar da vinda de certo astro do rock and roll, contratado para uma apresentação no Albuquerque Tênis Clube que, considerando os resmungos e maledicências do Pachecão, ainda não havia dado as caras na cidade.

A impaciência não era à toa, pois todos na cidade se lembravam perfeitamente de quando dizia aos quatro ventos que traria o Sr. Nat King Cole para Andrada, na ocasião da visita do astro da música norte americana ao Brasil e, consequentemente, quase fora linchado pela população ao descobrirem que tudo não passava de bravata do pretensioso político. Assim, trazer um jovem talento para a cidade seria uma espécie de retratação aos cidadãos de Andrada, mesmo porque projetara um futuro brilhante na câmara dos deputados, e que viria por água abaixo em caso de deixar de trazer o tão prometido astro do rock and roll, e ser conhecido como um politiqueiro que não cumpre aquilo o que promete.

- Senhor Matoso, venha até aqui! – berrou o Dr. Pacheco de seu gabinete.

Matoso, que já estava cuidando de outro pedido feito pelo prefeito, largou o que estava fazendo para atender ao homem, que já demonstrava uma carranca capaz de causar calafrios ao servidor mais imperturbável da repartição.

- Pois não, Senhor prefeito!

- Vão até o Albuquerque e leve estes documentos à secretária do Dr. Adalberto – disse -, e depois, passe no Hotel Glória e veja se aquele irresponsável do Roberval Murillo já chegou por lá! Caso ainda não tenha dado o ar da graça, fique de plantão na estação e só saia de lá depois de telefonar para a prefeitura dizendo que o homem já chegou!

Matoso, que já achava o prefeito uma figura ridícula e insuportável, considerou se deveria pedir demissão ali mesmo, dizendo um palavrão ao mandatário. Conteve-se e foi fazer o que o prefeito pedira.

O que mais irritava Matoso era a hipocrisia do prefeito, que se podia observar pelo tom elogioso com o qual passou a bajular o cantor no momento de sua chegada à prefeitura, e por ocasião de sua apresentação no Clube dos Aviadores, ainda mais considerando que o prefeito detestava rock and roll e tinha uma opinião muito negativa a respeito de astros como Roberval Murillo.

Matoso não tinha uma opinião muito diferente a respeito do cantor, mas não pensava em elogiá-lo pela frente e criticá-lo pelas costas. Aliás, nem mesmo o Mike Paolo, que detestava o cantor, faria algo parecido.

Gregório Matoso, apesar de pensar que tinha o importante papel de representar a revolta juvenil – o que fazia perfeitamente bem nos Lambretas -, desaprovava totalmente as atitudes do principal dirigente do município de Andrada, tendo como único consolo o fato de não ter votado no chefe naquelas últimas eleições.

Fez tudo o que o prefeito pediu, sendo, assim, o portador da boa notícia da chegada do astro do Rock ao hotel, ligando diretamente ao mandatário que, aliviado, inadvertidamente acabou batendo o telefone na cara do rapaz, que praguejou do outro lado da linha.

 

 

 

7

 

ROBERVAL MURILLO

 

* Narrativa volta para Mike, segundo depoimento de Laura.

 

O Colégio Madre Tereza, conceituada instituição de ensino da pequena Andrada, estava em polvorosa com a notícia. As alunas, geralmente comportadíssimas, moldadas segundo as rígidas normas morais da sociedade andradense, agora demonstravam uma excitação anormal, segundo opinião da irmã Consolação, que achava um absurdo que moças ficassem de fuxico e risadinhas por causa de um desses deformadores dos bons costumes.

A notícia de que o famoso Roberval Murillo estaria vindo à Andrada para uma apresentação no Andrada Tênis Clube deixou todas aquelas moças em polvorosa. Até algumas freiras, um pouco menos rígidas que André Superiora, estava muito empolgado com a comentada vinda do rapaz, que era já o artista mais tocado nas rádios da capital e do interior.

O prefeito, Dr. Pacheco, havia conseguido, através de um amigo comum do empresário do rapaz, incluir Andrada na turnê do cantor. Seria um único dia no ATC, mas o suficiente para causar o maior rebuliço entre os jovens andradenses.

Porém, se o clima entre as jovens era de expectativa e histeria, entre os rapazes era o de certo desprezo, o que poderia ser traduzido por uma ponta de ciúme não confessado. Até havia, dentre eles, aqueles que gostavam das músicas, mas evitavam comentar o que quer que fosse a defesa do cantor, por receio de serem ridicularizados.

Entre as Lambretas, o clima não era diferente.

Assim, lembro-me de um dos diálogos que tivemos no estacionamento da lanchonete Navegantes, onde costumávamos nos reunir.

- Quem esse cara penso que é?! – Disse eu –, onde se viu chegar aqui e tomar conta do nosso pedaço?!

Chimba aplaudiu!

- É isso aí, ninguém vai mexer com os brotos de Andrada na cara de pau!

Bart, por sua vez, assumia um tom mais conciliador, pois não via nada demais no fato de um cantor de Rock and Roll ir cantar em Andrada!

- Bobagem – disse – vocês estão procurando pelo em ovo! Vai ver o cara é até boa praça! Além de tudo as músicas dele não são até bacanas!

- Está é fazendo todas as garotas da cidade ficar birutas– os brotos só falam nisso o tempo todo! Até a minha Penélope está ficando meio boba!

Referia-me ao fato de um problema com a partida de minha lambreta.

- Pirou, Mike? Está até parecendo o Padre Alfredino, quando fica resmungando pelo pátio!

- Soube por uma das garotas da Madre Tereza que a Madre Superiora está uma arara com o cantor – disse Chimba, enquanto lustrava o retrovisor da lambreta.

- Quer saber – respondi–, a Madre Consolação sabe das coisas! Vai ver já até descobriu que o cara é um baita de um sacana!

- Se não me engano foi ela mesma quem te proibiu de ficar na porta do colégio – disse Bar tolo, em tom de brincadeira – Andava querendo a todo custo fazer a cabeça das mocinhas da Madre Tereza!

- É, Mike – disse Chimba, caindo na risada – ele te colocou pra correr pessoalmente naquela festa junina! Lembra?

Fiz uma careta para Chimba, que inabalável com meu gesto, gargalhavam em cima da lambreta.

- Agora, fora de brincadeira – disse eu, passando o pente sobre o topete – vamos deixar o cara vir pra cá e arrebanhar os brotos?

Bart deu de ombros.

- Eu duvido que esse Roberval Murillo esteja interessado nas garotas de Andrada! Só quer mesmo e cantar e levar alguns cobres do Pachecão, nosso querido prefeito!

Esta última frase foi dita em um tom de ironia, tornava mais ou menos clara à opinião de uma parte do eleitorado andradinense sobre o velho político.

- Nem me fale o nome desse demagogo – se queixava Matoso -, já não chega o que passo servindo de capacho para esse sujeitinho na repartição! Acredita que o Pachecão me encarregou de recepcionar esse cantorzinho na estação de trem e ainda acompanhar o sujeito até o hotel, carregando sua bagagem?!

- Preferia que o Pachecão tivesse trazido outro tipo de atração – resmungou Mike, atirando a japona sobre a lambreta – um circo poderia ser bem mais batuta que um chato topetudo qualquer.

- Ou a Celly e o Tony Campello – sugeriu Afrânio, um fã declarado da cantora.

A razão de minha prevenção contra o tal Roberval Murillo, diferente dos rapazes, era o fato de mal poder esconder o ciúme em ter um “concorrente” por perto. Na verdade, minha preocupação era com Laura, minha paixão secreta. Para mim, qualquer bacana que chegasse perto da garota podia se tornar um empecilho para uma futura conquista. Assim, se uma aproximação, em razão das palavras que ouvi durante o Baile de Verão já era algo praticamente impossível, quem diria se o cantor se engraçasse com ela.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8

 

ENCONTROS E DESENCONTROS

 

Nos dias que se seguiram eu procurava sempre a presença de Laura nas proximidades. Ficava feliz quando, disfarçadamente, a via passar, ou ocasionalmente, debruçada na janela olhando para a rua. Por outro lado, me entristecia quando não a via. Porém, Laura parecia me ignorar totalmente e, consequentemente, acabei me cercando de verdadeiro pavor de sofrer uma rejeição, diante de qualquer possibilidade de falar com a moça. Desde aquele diálogo de Laura com as amigas no terraço do clube, havia ficado aborrecido com a frase pronunciada por ela: “deixemos os mortos descansarem!”

E assim, minha relação com Laura Manoela se dava em alguns encontros ocasionais, sem que ela esboçasse o menor conhecimento sobre a minha presença. E por mais que eu procurasse chamar a atenção da moça, ora acelerando a lambreta, hora conversando alto quando nos reuníamos na frente de casa, mas nada disso adiantava. Laura parecia feita de mármore.

Em algumas noites, eu ia para a janela do quarto, e me debruçava por horas, esperando que ela surgisse. Porém, ela não aparecia, e quando calhava de estar na varanda, talvez percebendo minha chegada, acabava entrando rapidamente.

No caminho para a escola, às vezes acontecia de pegarmos o mesmo ônibus. Ela também parecia alheia a minha presença, e na maioria das vezes, acabava se afastando de mim. Se eu estava na parte de trás do ônibus ela ia para frente, se eu estivesse na parte da frente, ela permanecia na parte de trás. E assim também aconteceu na padaria, no açougue e onde quer que a encontre.

Eu evitava falar sobre isso com o pessoal da turma, mas uma vez cheguei a comentar assunto com o Vaz, sobre as minhas suspeitas em relação à filha do Dr. Pedrosa. Ele disse que nunca havia reparado nisso, e até disse que ela já havia o cumprimentado em umas duas ocasiões no dentista do bairro, porém não chegaram a conversar, já que ela e a irmã estavam entretidas com uma dessas revistas de moda feminina, e da outra vez ela já estava saindo do consultório quando ele entrou.

- Acredita que ela nunca me cumprimenta e até finge não me ver?!

- Então ela deve ter muita raiva de você – disse Vaz, pousando a mão no meu ombro -, acho que por causa daquela história do sapo.

- Você acha que ela ainda guarda mágoa? Nossa, depois de tantos anos!

- Por que você não chega nela e conversa a respeito?

Aquela pergunta de Vaz me deixou um tanto desconcertado, e tive que reagir quase que imediatamente dando uma gargalhada, que não deve ter convencido o meu amigo.

- Você acha que vou ficar chorando por uma garota, quando tem vários brotos na minha cola?

Vaz balançou a cabeça com um sorrisinho desconfiado.

- Então não se preocupe com ela – disse, ligando a lambreta -, vá procurar um dos brotos.

E acelerou, jogando a fumaça da lambreta em minha cara.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9

 

OS COLÉGIOS PADRE MACHADO E MADRE TEREZA

 

Andrada, além da escola pública, tinha também dois ótimos colégios, que eram a Madre Tereza, para moças, e o Padre Machado, para rapazes. Com exceção de Matoso, que fazia curso de mecânico após o expediente na prefeitura, todos os rapazes das Lambretas estudavam no Padre Machado. Naquela época, havia conseguido me eleger como presidente do grêmio estudantil, responsável por eventos como esportes, festas e até excursões.

Uma ocasião aconteceu de Padre Olavo, o diretor da escola, nos informar que faríamos um evento em conjunto com o colégio Madre Tereza, conforme sugestão da Irmã Consolação. O objetivo era o de arrecadar fundos para o orfanato que as duas instituições mantinham, e o evento escolhido seria a representação de algumas peças de teatro.

Os grêmios estudantis das duas escolas se reuniram na presença da Madre Consolação e do Padre Olavo, a fim de acertarem os detalhes e a data da apresentação. O evento teria lugar no anfiteatro do Colégio Madre Tereza, bem maior que o do Padre Machado. Assim, restava à organização escolheras peças e os atores, o que foi feito em um encontro na Madre Tereza.

E assim, em um sábado de manhã, os alunos das duas escolas se reuniram para a escolha dos alunos, o que foi feito em comum acordo com a professora de artes.

Após ser escolhido pelo professor de latim para representar o Colégio Padre Olavo, observei que Laura havia sido também uma das escolhidas para representar as alunas do Madre Tereza e conversava animadamente com as colegas de classe e, como de costume, sequer notou – ou fingiu não notar – minha presença.

Porém, como se fosse um capricho do destino, fomos sorteados para o mesmo grupo, o qual representaria a peça Romeu e Julieta, de Shakespeare.

Meu coração disparou.

Já o de Laura Manoela parecia ter se transformado em pedra.

Independente da relação fria e distante que se estabeleceu entre minha amiga e eu, se alguém dissesse que os céus conspiram para que dois corações se unam, seria difícil descartar essa hipótese depois disso que aconteceu: no sorteio, a escolha para representar os papeis de Romeu e de Julieta recaíram sobre mim e Laura.

Entretanto, no que diz respeito à paixão no tocante aos personagens, o rosto levemente transtornado de minha companheira de peça anunciava uma tragédia à parte, que nem Shakespeare poderia imaginar igual. O semblante de surpresa, seguido de um olhar frio por parte de Laura, direcionado para onde eu estava ao se anunciar o par romântico, me deixou um pouco incomodado. Porém tive a esperança de conquistá-la durante o tempo em que estivéssemos reunidos para o ensaio.

Durante os ensaios, Laura, ao contrário de mim, se revelou uma atriz razoável, demonstrando uma competência quase profissional, mesmo quando tínhamos nossos diálogos amorosos e apaixonados durante os ensaios– lembrando que, nessa época, sob os rígidos padrões morais, o beijo na boca era algo impensável, e um ato restrito apenas aos pares românticos do cinema e aos namoros sérios, e ainda assim, de forma discretíssima.

Consequentemente, as cenas ficavam apenas caracterizadas pelo beijo na mão e pelos diálogos românticos.

Mesmo sabendo que as cenas românticas não eram reais, meu coração se enchia de alegria, diante das falas de Laura, de modo que, eu acabava fingindo que as palavras eram dirigidas a mim, ou quando podia lhe tocar a mão e encostar os lábios, mesmo que por breves momentos. Porém, ao se findarem os ensaios, ela se revestia daquela capa de frieza e desprezo, e eu voltava a minha triste realidade de desprezado.

Em um desses ensaios, durante o lanche que nos traziam nos intervalos, vi a oportunidade de me aproximar um pouco mais intimamente de Laura. Peguei dois copos de suco de uva e estava levando um para lhe oferecer, quando aconteceu algo que me deixou aterrado.

Já bem próximo, quando estendia o copo em direção à Laura, acabei tropeçando em um dos refletores, que estavam no piso para reparos, derramando parte do conteúdo no vestido da menina.

Foi como o chão se abrisse sob meus pés. Laura me encarou com tanta indignação, que me deixou gelado. Depois, sacudir a cabeça negativamente e se retirou. Eu fui atrás dela, a fim de lhe pedir perdão pelo descuido, mas ela não deu a menor atenção ao que eu falava.

Senti-me um verdadeiro idiota, nesta ocasião, desejando desaparecer dali.

No ensaio do sábado posterior ao incidente, tentei ainda pedir desculpas, mas ela, simplesmente, tratou o assunto com indiferença.

- Não me lembro disso! – disse depois de me dar as costas e me deixar falando sozinho.

Tal atitude foi como se alguém me tivesse dado uma bofetada na cara. Senti uma raiva quase que incontrolável daquela menina malvada.

Em um impulso, fui atrás dela a fim de interpelá-la, e disse:

- Não se preocupe moça! Depois da peça prometo que sumirei da sua presença e não terá mais que ver a minha cara! Se eu pudesse voltar atrás, não teria aceitado o papel, pois sei o quanto minha presença lhe incomoda. Mas dentro de poucos dias não precisará mais me suportar.

Diante de minha atitude, fosse pelo tom firme de minha voz ou pelo olhar colérico que lhe dirigia enquanto despejava o meu furor que saturavam minha alma, Laura pareceu se retrair, como uma presa indefesa diante do ataque do predador.

Tal atitude quase me fez arrepender-me de meu ímpeto em lhe insultar. Assim, antes que fraquejasse, dei-lhe as costas e fui para casa, ainda magoado, e com o coração em pandarecos.

No dia da peça, apesar de muito contrariado em estar ali, desempenhei minha parte, não deixando transparecer o meu incômodo.

Durante o evento, fingi não notar aquela menina malvada, mesmo sendo tentado a lhe dirigir um olhar de desprezo.

Daquele dia em diante, decidi arrancar Laura Manoela do meu pensamento.

 

 

 

 

11

 

A LANCHONETE NAVEGANTES

 

Havia em Andrada algumas lanchonetes, mas a nossa preferida era a Navegantes, de propriedade de Benedito Gusmão, o seu Benê, que nas noites de sábado participava de um grupo de luta livre em um espaço cedido pela prefeitura, e que era como um circo, com uma lona cobrindo o ringue e arquibancadas de madeira.

Seu Benê acabou ficando amigo dos Lambretas quando, em um desses eventos não pode contar com o filho para o substituir, pois tinha viajado. Assim, como o Américo já havia trabalhado de chapeiro por algum tempo para comprar uma lambreta, acabou se oferecendo para ajudar, e não foi diferente com o restante do grupo.

- Se um integrante dos Lambretas decide ajudar um amigo, todos ajudam, pois somos irmãos de japona – disse o Afrânio e Matosão, foram servir os fregueses das mesinhas. Eu e Chimba, como não sabíamos fazer nada, fomos nomeados encarregados da limpeza e da organização das mesas.

Seu Benê ficou tão contente que ofereceu uma rodada de refrigerante e cachorro-quente para todos e ingressos para a Noite dos Campeões, que fechava a temporada de lutas antes das férias de julho.

Assim, quase todas as sextas-feiras e aos sábados, estacionávamos as lambretas no meio fio e nos sentávamos na mureta da lanchonete para conversar e contar piadas, uma reunião sempre regada a refrigerantes e batatas fritas.

Apesar do costume de alguns jovens de consumir bebidas alcoólicas, O seu Benê exigia identidade das pessoas dessa faixa etária. Nós, dos Lambretas, apesar de muitos já estarem na faixa dos 18 anos, nunca consumíamos esses itens, limitado o uso ao ATC, e só os costumeiros drinques chamados cubas-libres e Hi-fi durante os bailes, e tinha como objetivo criar coragem para tirar as garotas para dançar.

Em uma dessas ocasiões, Afrânio acabou passando dos limites e tivemos que levá-lo para casa, o que acabou com a nossa diversão e com a mesada do beberrão por alguns meses.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

12

 

O ASTRO ROBERVAL MURILLO CANTA

 

Se havia algo que me deixava profundamente incomodado era o fato de me ver obrigado a usar terno e gravata. Porém, para poder entrar no Clube em dia de baile, era uma norma que não podia ser desrespeitada sob pena de ter a entrada barrada.

- Diacho! – resmunguei, enquanto penteava o topete no espelhinho de Penélope –, me sinto um verdadeiro janota com esses panos.

Chimba, que também detestava este tipo de roupas, concordou.

- Isto é pior que o macacão que sou obrigado a usar na fábrica – disse –, mas lá não somos obrigados a colocar gravata.

- Não se queixem – disse Bartolo, também passando o pente de tartaruga no topete cheio de brilhantina – logo estarão lá dentro dançando e enchendo a cara de Cuba livre.

- É Cuba Libre, burro!

- Não sei não – disse Chimba, em tom zombeteiro, – O Mike parece ter se preparado para, finalmente, tirar a filha do Pedrosa para dançar de rostinho colado.

Caíram na gargalhada.

Não gostei nada da piada, pois a simples menção da filha do Dr. Pedrosa já me deixava tenso. Ainda mais diante do fato do cantor contratado para aquela noite. Será que ela ficaria deslumbrada com o tal Roberval Murillo?

Tratei de afastar Laura do pensamento, pois ainda não havia engolido a atitude da moça durante o ensaio de Romeu e Julieta, porém a coisa se apresentou um pouco mais complicada.

- Falando na filha do Dr. Pedrosa, eis aí a moçoila! – anunciou Bart, para o meu desespero.

Ela passou por nós, de braços dados com Ana Maria, a irmã mais nova. Cumprimentou meus amigos com um gesto de cabeça, mas passando por mim, voltou a conversar com a irmã, sem me dirigir sequer um olhar.

Já não esperava outra atitude, principalmente depois daquele desastre no ensaio e das coisas que disse a ela, portanto tentei afastar qualquer pensamento que pudesse evocar qualquer sentimento em relação à moça.

Já durante o baile, tratei de despejar alguns copos de Cuba Libre goela abaixo e partir para a pista de dança. Tirei várias moças para dançar, conversando de forma animada com cada uma delas. Vez ou outra olhava para Laura, aparentemente alheia ao meu desempenho.

Depois de algumas músicas, a orquestra do clube silenciou, e entrou o presidente do ATC, em companhia do prefeito – um verdadeiro arroz de festa -, o qual anunciou o grande astro do Rock and Roll, que entrou de forma espalhafatosa, com uma guitarra vermelha reluzente em punho, e uma roupa prateada, em minha opinião muito cafona.

Diante de sua entrada as garotas, enlouqueceram, sendo preciso até mesmo que a segurança do clube contivesse os ânimos das moças, enquanto o cantor começava a despejar notas musicais aos borbotões pelo salão, seguida por uma voz poderosa e um pouco rouca. Às vezes parava para executar uma espécie de dança, mexendo os quadris, que deixava as garotas malucas, e os garotos com muita raiva.

Olhei para Laura, que parecia também muito empolgada, conversando animadamente com Ana Maria e Rita.

Quanto a mim, queria muito esmurrar a cara de Roberval Murillo, o que, obviamente, não valeria à pena, uma vez que, na hipótese de amassar o nariz do rapaz, tal fato me transformaria no sujeito mais odiado da história de Andrada, e o que seria pior, pelas beldades da cidade, em peso naquele evento.

Respirei fundo e passei o pente no topete, gesto que repetia a toda hora, principalmente quando estava nervoso.

Após umas oito ou nove músicas, Roberval Murillo fechou o Show com um solo de guitarra. Depois foi se sentar em uma das mesas com o prefeito e algumas autoridades. Dentre eles o velho Pedrosa, que agora era advogado do município.

Estava sentado durante a apresentação do roqueiro. Recusava-me a ir para a pista de dança enquanto Roberval Murillo estivesse no palco. Porém, o destino havia ainda me reservado um duro golpe. Ao tocar uma música lenta, os casais começaram a se aglomerar na pista para dançar. Totalmente incrédulo, vi Laura Manoela sendo conduzida para o meio do salão por ninguém mais que Roberval Murillo.

Fiquei ali imóvel, assistindo o casal dançando.

Como se o destino ainda tivesse reservado uma derradeira dose de perversidade, ao terminar o baile observei que Laura se retirava animadamente, grudada ao braço da irmã

Pude ouvir nitidamente o diálogo, em um tom acima do que poderia ser considerado “natural”, além de banhado de ironia corrosiva.

“... e no final das contas, acabei dançando com o homem mais interessante do baile!”

O olhar que Laura dirigiu a mim enquanto pronunciava esta frase, me congelou o coração. Fiquei ali, como que fulminado. Não podia acreditar que estava passando por aquilo.

Fui para casa, triste e abatido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13

 

DOR DE CABEÇA E DE COTOVELO

 

Acordei com dor de cabeça, consequência da noite mal dormida e do exagero na Cuba Libre.

Não quis comer nada, saindo apressadamente para o colégio. Evitei olhar para a casa de Laura, coisa que fazia automaticamente, sempre que saia de casa. Estava determinado em esquecer a moça, portanto já seria um bom começo evitar certas atitudes, que se resumia em utilizar as mesmas armas da menina, que era baseada no desprezo.

Assim, a primeira coisa que fiz foi deixar de frequentar os bailes do ATC e de ficar na calçada de casa com os Lambretas, já que a casa de Laura ficava quase de frente para a minha.

***

(Neste ponto, a fim de que o leitor obtenha uma maior compreensão do universo de Laura, até pelo fato de que, este trecho da história, tenha sido totalmente relatado por ela, a narrativa passa para a terceira pessoa)

***

Seria bem provável que, se Mike tivesse dirigido o olhar para cima, enquanto se dispunha a fazer o contrário após o baile, pudesse notar o rostinho que observava o moço por entre as cortinas da janela do sobrado.

Tal atitude tinha se tornado um hábito criado pela moça, desde quando reencontrou Mike no baile. Era uma espécie de tributo que pagava para alguém a quem amava em segredo.

Sim, Laura amava Mike! Amava desde criança, mas como viviam brigando e achava o menino um cabeça dura, nunca quis que ele soubesse desse sentimento tão puro.

Assim, preferia o segredo, o que lhe garantia a proteção daquele amor tão verdadeiro e inocente, que conservava como uma joia.

A razão pela qual Laura preferiu manter distância do ente que amava com todas as suas forças, era algo que, se a alguém fosse contado, acharia tudo aquilo uma loucura, porém logo abaixo poderemos atinar com o motivo de tal atitude.

Assim, mostrava-se sempre alheia ao rapaz. Sofria por dentro, mas estava realmente determinada a não demonstrar qualquer sentimento.

Mike atribuía essa rejeição ao episódio em que lhe atirou um sapo, porém já não se lembrava de um acontecimento que causou à moça – uma criança, na época -, a mais profunda tristeza a qual tinha sido submetida, por causa de uma brincadeira de muito mau gosto do garoto.

No aniversário da irmã mais velha de Mike, resolveram fazer um bailinho. Nessa época o rapazola sequer pensava em garotas ou bailes, só pegando gosto por essas coisas anos mais tarde. Assim, como Laura estava em um cantinho ansiosa para que o menino a tirasse para dançar, viu seu pequeno idílio tornar-se realidade. O menino se postou a sua frente, fez uma reverência, curvando-se diante dela e a convidando para a contradança.

Laura, entre envergonhada e encantada, aceitou.

Foi quando o malvado moleque, enquanto lhe levava ao meio da sala, transformado em salão improvisado, soltou-se bruscamente do delicado braço de Laura, e começou a rir e zombar da menina.

- Achava mesmo que eu dançaria com uma gorducha das pestanas?

E saiu dando gargalhadas.

Laura, a princípio, ficou sem reação, demorando alguns segundos até perceber a situação. Depois desse espaço de tempo, em que a ficha caiu, por assim dizer, um estado de profunda decepção se apossou de sua alma, que lhe começava a sufocar o coraçãozinho, órgão feito para conter aquele amor puro e inocente.

Assim que as lágrimas começaram a brotar dos olhos cor de âmbar, atinou para os presentes que, penalizados, começaram a cochichar palavras como “coitadinha” ou “nossa, que dó”. Então, impulsionada por uma dor insuportável na alma, se precipitou para a saída da casa, indo aconchegar o soluço de Julinha, que me fuzilou com um olhar cheio de reprovação.

Logo depois desse episódio, o pai de Laura acabou levando a família para morar na capital paulista, já que havia uma boa proposta de trabalho em uma grande companhia.

Desse modo, ao voltarem para Andrada depois de tanto tempo, não sabia qual seria sua reação ao se deparar com aquele antigo amor de infância. Pensava já haver superado esse sentimento que, no final das contas, só lhe fez mal.

No entanto, assim que viu Mike naquele baile, seu coração começou a bater mais acelerado, ficando claro que se equivocara ao supor que aquela paixão de anos atrás já havia se extinguido.

Foi um baque para a moça! Não estava preparada para aquele golpe baixo do Cupido zombeteiro que a fez inocente vítima de um sentimento que não queria reviver.

Revoltou-se contra si mesma, e lamentou que tivessem voltado para aquela cidade.

Porém, se por um lado sentia a traição do próprio coração, por outro lado, pensou em uma maneira de remediar a situação.

Assim, decidiu viver intensamente aquele amor apenas em seus sonhos, esmagando a realidade sobre seus pés, o que significava manter Mike a uma distância segura de si.

E teria um aliado à altura para enfrentar tal perigo: o desprezo.

Voltando para a ocasião em que contracenava com Mike no palco da escola, enquanto atuava como Julieta, a menina desafogava o coração, dirigindo ao seu Romeu as mais singelas e sinceras palavras de amor, sufocadas por anos.

O rapaz, logicamente, ignorava que, cada jura de amor pronunciada por Julieta, era, na verdade, Laura se declarando ao distraído Mike, e não ao seu personagem Romeu.

Assim, como por encanto, a fim de proteger um sentimento tão puro, dirigido ao ser amado, ao findar os ensaios, se revestia daquela roupagem de indiferença fingida.

Foi dessa maneira no baile, quando, para se exibir, Mike acabara dançando com todas as moças da cidade. Ela, logicamente, achou tudo aquilo ridículo, e teve vontade de chutar-lhe o traseiro. Porém, tirada para dançar pelo astro do rock, acabou vendo ali uma oportunidade de vingança, e ficou satisfeita quando percebeu o que lhe pareceu alguma perturbação por parte de Mike.

Porém, naquela manhã, enquanto observava Mike sumir dentre as árvores da alameda, sentiu tristeza na alma.

Algumas vezes havia considerado em uma aproximação gradativa, mas aquelas dolorosas lembranças a faziam duvidar se, algum dia, poderia abrir seu coração. Só de pensar em ter o órgão destinado a nobreza de sentimentos, de um amor concebido na infância, completamente destroçado, era para ela uma tortura que não tinha a menor disposição em vivenciar.

Uma voz grave ecoou pela casa, fazendo a moça se sobressaltar e acordar de seus devaneios. Era o pai de Laura, que advertia que chegariam atrasados ao colégio.

A menina desceu as escadas rapidamente. Não tinha disposição para ouvir sermão do pai naquele momento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

14

 

DECISÃO

 

E foi durante o trajeto de casa para a escola, enquanto mil coisas passavam por sua cabeça, que considerou se não bancava a tola escondendo um sentimento tão forte e nobre, e se já não era hora de tomar uma decisão a esse respeito. Se por um lado o coração juvenil relutava em se abrir para o amor, por outro existia um destemor que lutava para explodir e expor tudo o que sentia. Já havia pensado em se aproximar de Mike nos últimos bailes do Albuquerque, apesar de não saber como faria isto sem parecer uma oferecida. Sentia-se horrível pelo modo que se comportou durante os intervalos dos ensaios da peça, quando maltratou Mike impiedosamente, mas ao ver o rapaz que amava se atirando nos braços de várias moças no Baile de Verão, ficou fula de raiva.

Laura, na verdade, involuntariamente, acabou contribuindo para a atitude do rapaz, quando fingiu não o enxergar no baile. Pensou que, se ele quisesse que lutasse para ter sua atenção. E ela fingiria relutar, até que ele, rendido, declarasse sua paixão. E aí sim, ela depositaria nas mãos do moço as chaves do seu coração.

Porém, ao contrário do que a moça sonhava, Mike não era um campeão em matéria de sensibilidade, e acabou interpretando aquele jogo de sedução como má vontade da moça e desprezo por sua presença.

Durante a aula de álgebra esteve dispersa, a tal ponto, que foi preciso que Irmã Berenice lhe chamasse a atenção. Rita também parecia não entender a atitude distraída da amiga. Perguntou o que havia com ela, mas obteve uma resposta lacônica.

Não há nada – disse ela – apenas com um pouco de dor de cabeça.

Não seja chata – respondeu Rita, bem baixinho, para que a Irmã Berenice não ouvisse – está na cara que você está escondendo algo.

Laura limitou-se a fazer um gesto impaciente. Não queria ficar dando satisfação de seus pensamentos íntimos.

Passaram-se pelo menos dois meses.

Laura sentiu a ausência de Mike nos bailes, mas evitava perguntar por ele. Era mestra na dissimulação quando queria, e evitava até mesmo perguntar a Rita, sua melhor amiga, sobre as circunstâncias que levaram o rapaz a sumir de vista.

Não que não estivesse curiosa em saber os motivos de seu desaparecimento daquele evento tão importante para os jovens. Na verdade, se preocupava com Mike, com uma devoção tal que, até em suas orações o moço era lembrado.

Já não o via sair de manhã, uma vez que ele, para economizar o dinheiro do ônibus, saia mais cedo e ia para o colégio a pé.

Nessa época, Mike foi trabalhar meio período com o tio, na oficina mecânica, pois precisava de dinheiro para consertar a Penélope.

O fato de não mais vê-lo foi motivo de muita tristeza para a menina, que passava horas na janela, olhando para o horizonte, como se para localizá-lo em algum ponto.

E foi em um desses momentos, enquanto o sol se punha por detrás da serra, que a menina sentiu o peito apertado, deixando cair dos olhinhos cor de âmbar, as lágrimas do mais puro e verdadeiro amor.

Assim, após o choro que aliviou a alma, tomou uma decisão: Falaria com ele, mesmo com o risco de ser rejeitada.

Assentada na banqueta da penteadeira começou a escrever um bilhetinho.

Ela, que gostava de escrever poesias como passatempo, sendo até muito elogiada pela irmã Alexandra nas aulas de literatura, não conseguia colocar no papel as palavras exatas. Porém, dada as circunstâncias, escreveu um bilhete, com uma letra firme e bem-feita.

Ajoelhou-se na cabeceira da cama e rezou: “Querido Deus, sabes que não faço isso senão por um sentimento muito nobre! Inúmeras vezes orei para que o Senhor me fizesse esquecer esse amor não correspondido. Fui atendida, mas agora tudo voltou, e com uma força que já não consigo mais suportar sozinha! Peço que me ajude a ter coragem de abrir meu coração ao Mike, e se ele não for o rapaz certo, que o Senhor o afaste de mim de alguma maneira. Porém, se ele for o rapaz que o Senhor escolheu para fazer parte de minha existência, me ajude a atraí-lo para mim! Amém!

Foi até o portãozinho da frente da casa e estacou. Como iria atravessar a rua e colocar o envelope na caixa de correio da casa de Mike sem ser notada? -

Pensou por alguns instantes.

Nisso, ia passando um garotinho, com uma bola debaixo do braço. Chamou-o!

O menino relutou em se aproximar. Visto que ela insistia e segurava entre o polegar e o indicador uma moedinha, acabou se aproximando.

- Quer ganhar esse tostão? – perguntou Laura, agitando a mão, como para atrair o rapazinho.

- Quero – disse ele

- Só precisa levar esse envelope até aquela casa de paredes verdes e colocar na caixinha de correios.

O menino estendeu a mão para apanhar a moeda, mas ela afastou o objeto do garoto.

- Vá lá, coloque e te dou!

- Não vai me enganar, né?

- Nunca faria isso!

Ele pensou por algum momento, depois decidiu.

- Vou!

Assim, após fazer o que Laura pediu, veio requerer daquelas mãos delicadas o valor combinado, que ela deu com prazer.

- Agora, seja o que Deus quiser! – pensou, colocando a mão no peito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

15

 

QUANDO A DISTÂNCIA APROXIMA

 

(Neste ponto, a narrativa retorna ao narrador em primeira pessoa)

 

Havia considerado levar Penélope ao mecânico. Queria fazer uma revisão. Tinha a impressão de ouvir um ruído estranho ao acelerar. Porém, acabei adiando a decisão. O resultado foi desastroso: Penélope acabara tendo um grave problema no motor, e precisou ser encostada para reparos. O problema seria custear o conserto, uma vez que não ficaria nada barato, e meu pai já havia deixado claro que, me dando uma lambreta de presente, a responsabilidade pela manutenção seria toda minha.

Assim, enquanto Penélope estava encostada, precisei andar a pé e, também tive que começar a trabalhar na oficina do tio Lalo. Isto significava deixar de frequentar os bailes por um tempo. Para esta possibilidade já havia me preparado. Aliás, seria para mim uma espécie de tratamento de choque, pois não veria Laura, e assim matava dois coelhos com uma só cajadada.

Dois meses se passaram.

Penélope estava novinha em folha. O sacrifício de trabalhar na oficina do tio Lalo acabou valendo à pena. Agora tinha o bastante para pagar o conserto da lambreta, e sobrava algum dinheiro para sair com os amigos.

De posse de Penélope, já podia dispor de meia hora para o café da manhã, observei, ao sair de casa, um papel que saia da abertura da caixa de correio. Como estava com pressa, acabei enfiando o envelope em um dos bolsos, sem ao menos saber para quem era direcionado, e acabei me esquecendo do mesmo.

Durante a aula de geografia, lembrei que tinha colocado o envelope no bolso da japona. Retirei-o disfarçadamente, e li.

Fiquei pasmo ao ver meu nome no envelope, escrita com letra delicada e precisa.

O bilhete era bem sucinto, apesar de escrito com um capricho exagerado, para algo que era de fato informal.

 

Nele se lia:

 

 

Prezado Marco Paolo

Preciso falar com você com certa urgência. Por favor, peço que me espere hoje, logo após o colégio, na entrada principal do Parque das Carmelitas.

 

Laura Manoela

 

 

Mal pude acreditar no que lia naquele pedaço de papel rosado e impregnado de um aroma inebriante. Precisei ler várias e várias vezes. Pensei que aquilo poderia ser uma peça pregada pelos amigos.

Meu coração parecia que iria parar. Estive disperso durante a aula, sempre pensando nos motivos que levaram Laura a querer falar comigo.

 

 

 

 

 

 

16

 

O ENCONTRO

 

Chegada a hora do encontro, entre apreensivo e feliz, me dirigi para a entrada principal do parque.

Fiquei ali esperando. Ela demorou alguns minutos – para mim pareceu uma eternidade-, mas logo despontou graciosamente pela esquina. Vinha conversando animadamente com Rita. Ao se aproximarem do parque, se despediram, e Laura caminhou até onde eu estava.

Fiquei meio que paralisado. Eu, que nunca tive problema em me relacionar com garotas, estava ali com tremedeira nas pernas.

Laura estava linda! Vestia uma camisa branca, com um lencinho azul marinho amarrado ao pescoço, da mesma cor da saia plissada. Era esse o uniforme das alunas do Madre Tereza.

Adiantei-me em cumprimentá-la, apesar de não ter a mínima ideia do que dizer e de como me comportar:

Olá, Laura -, disse eu, tentando não demonstrar meu nervosismo -, queria falar comigo?

Sim, eu gostaria muito – respondeu, com semblante sério.

Se for sobre aquele incidente no ensaio, eu não deveria ter falado daquele jeito com você...

Não, não é sobre isso que queria falar – interrompeu, balançando a cabeça negativamente-, podemos nos sentar na escadinha do coreto para conversarmos?

Quase não ouvia o que ela falava, pois estava totalmente enfeitiçado pela beleza de Laura, especialmente com a luminosidade de seus olhos, devido ao sol que lhe atingia em cheio o semblante.

- Oh, sim! Claro que podemos! Não há dúvida que podemos conversar ali...

Caminhamos vagarosamente até o local. Esperei que ela se sentasse, e me odiei de não ter estendido a mão para apoiá-la, como um cavalheiro deveria fazer. Porém, o fato de estar tão nervoso embotou-me os sentidos, e tive que me dar por satisfeito de não ter feito alguma bobagem maior na presença dela.

Ela olhou para o chão, depois para o céu, como que procurando as palavras certas.

- Me perdoe – disse ela, sem me encarar -, por ter te tratado tão mal durante todo este tempo.

Eu fiquei ali parado, olhando para ela, admirado com aquelas palavras.

- Sim, eu preciso lhe pedir perdão! Fui muito mal-educada e até mesmo cruel com você. Pode me perdoar?

- Claro que perdoo – respondi, porém, sem entender o porquê de haver se arrependido de suas atitudes.

Ao ouvir minha sentença de absolvição, ela sorriu. Oh! Que sorriso! Nunca mais pude esquecer essa expressão tão bela e despojada do desprezo de antes.

- Bem, acho que também devo te pedir perdão por aquela vez que...você sabe...te joguei um sapo.

Ela riu, e me fez rir também!

- Isso te rendeu um belo chute na canela – gracejou ela.

- Oh! Não nego que tenha merecido!

- Sim, você era impossível! Me fez sofrer muitas vezes, como na ocasião do bailinho...

Fiquei abalado ao ouvir dos lábios de minha antiga vítima, a menção sobre aquele triste episódio.

- Me fez chorar muito aquele dia – confessou ela, que, apesar do sorriso, pareceu carregar no olhar uma pequena mágoa.

- Poxa – respondi, envergonhado -, se eu pudesse voltar ao passado e apagar aquela burrada que fiz, eu o faria!

Expliquei sobre o meu arrependimento, e o fato de o pedido de desculpas não ter dado tempo, já que ela havia se mudado para São Paulo.

- Dançaria comigo, então?

- Não tenho a menor dúvida que dançaria com você!

- Não sei! Parece-me que não.

Eu encarei-a com surpresa.

- Ah, não duvide! Claro que eu dançaria contigo! Dessa vez não iria bancar o burro.

Ela sorriu, balançando a cabeça afirmativamente.

- Tenho notado que você não tem ido aos bailes nos últimos dois meses – disse ela, olhando para o chão – algum problema?

Fiquei surpreso, e feliz ao mesmo tempo, em ouvir que ela havia notado minha ausência, quando achava que ela me ignorava totalmente.

- Não – disse eu, tentando disfarçar o embaraço – na verdade, precisei parar por algum tempo, para ajuntar o dinheiro do conserto da Penélope.

Vendo que ela me olhou com certa surpresa, comecei a explicar que Penélope era o nome de minha lambreta. Ela riu.

Laura, então, se aproveitando de um breve momento de silêncio, quando estávamos sobre a ponte do laguinho, onde apanhei algumas pedrinhas, atirando-as na água, enquanto ficava observando os círculos que se formavam, se dirigiu a mim.

- Se te perguntar uma coisa promete me responder com muita sinceridade?

- Sim, claro! Responderei muito sinceramente!

Ela pensou por um instante.

- Confessou que bancou o burro por não me tirar para dançar, certo?

Confirmei com a cabeça.

E, por que nunca me tirou para dançar?

Não esperava por esta pergunta. Fiquei roxo e gaguejei. Mas, como ela ficou ali esperando que eu dissesse algo, enfim falei:

Bem, acho que fiquei com medo de ouvir um não.

Ora, mas por quê?

Acho que... porque tinha muita vontade de dançar com você, mas parecia me ignorar...

Mesmo assim acabou me trocando por outras.

Fiquei sem ação. Não sabia o que responder. Aquela era uma situação a qual eu jamais esperaria.

- Estou brincando – disse ela, rindo – aliás, acho que também tive culpa, uma vez que não lhe encorajei a tomar uma atitude mais direta. Mesmo durante os ensaios da peça.

- Eu... eu quero que me perdoe por ter sido um tanto desastrado te derrubando suco, e depois ter dito aquelas coisas...mais uma vez te peço perdão.

E depois concluí.

- Acho que tudo isso me intimidou um pouco!

Ela riu

- Me diga agora você, com muita sinceridade, - perguntei curioso -, dançaria comigo se tivesse lhe tirado para dançar?

- Eu adoraria ter dançado contigo.

- Mas, no último baile, digo, o último que fui, pareceu que você já tinha um par perfeito...

- Como assim?

- O tal Roberval Murillo...

- Ora, ele era um cantor muito bom! E tem um bom papo. E só!

- Poxa, cheguei a pensar que...

- Que eu havia me encantado por ele! Ah, vocês rapazes sempre achando que somos mocinhas que se apaixonam por qualquer um.

Ambos rimos.

-E você, tem alguém que você goste... digo...que esteja encantada...sei lá...

O semblante de Laura, que já era bonito, agora se havia iluminado.

Agora que eu estava observando Laura sob a luz do sol, notei que tinha sardas nas bochechas, que a deixavam ainda mais charmosa. Seus olhos eram de uma cor âmbar reluzente. Os cabelos castanhos escuros caiam pelos ombros, com uma charmosa franja, que lhe cobria completamente a testa, emoldurando seu lindo rosto e dando-lhe um ar gracioso. Aquela impressão, digo, a impressão de estar tão próximo a ela, me aqueciam o coração. Se eu já gostava dela quando estava distante, agora, perto como estávamos, sentia meu coração saltar para fora.

- Na verdade, gosto de um rapaz – disse, sorrindo -, e você, com certeza, o conhece bem!

Aquela informação acabou me deixando desanimado, e tive que fazer um esforço para que ela não percebesse minha decepção.

- Desculpe, eu não entendo? –sussurrei, com certo nervosismo – Posso saber quem é o felizardo?

Ela encarou-me por alguns momentos. Estávamos na escadinha do coreto, e ficamos ali em silêncio, por alguns momentos.

Ela olhou para mim bem séria. Não sorria mais. Estava realmente comovida e trêmula. Eu, um paquiderme que sou, não percebi o movimento que ela fez para que eu mesmo tomasse a iniciativa. Foi inútil, pois, como eu estava realmente muito nervoso, fiquei paralisado.

- Sabe, disse ela, com um semblante triste, e que me comoveu profundamente -, precisava lhe pedir perdão pela forma que lhe tratei durante todo esse tempo.

Fiz menção de lhe interromper, com intenção de lhe dizer que deixássemos aquele passado recente para trás, mas ela protestou com veemência, e assim continuou:

- Sei que errei, sempre lhe passando a ideia de que era desprezado, e de que eu não lhe notava. Fui muito má, e até mesmo perversa. Mas se soubesse a verdade, talvez pudesse me compreender, ou melhor, compreender o abismo que se formou em minha alma infeliz.

Ela me pegou pela mão e me conduziu até a fonte luminosa, onde começou sua tocante narrativa.

- Sabe, Mike, eu fui uma criança um pouco complexada. Era gordinha e feia e faladeira. Porém, nunca havia percebido estes defeitos, até aquele bailinho que você me tirou para dançar. Aceitei feliz, mesmo porque nunca imaginava ser tirada para dançar por alguém que eu tinha... digamos...uma grande admiração.

- Assim, quando você, com a mesma voz doce que me convidava para dançar, logo no momento de me levar para o meio da sala, me rejeitava, além de me ofender, chamando-se de gorda e feia e rindo de mim, para fazer graça para os seus companheiros, foi algo muito cruel.

Parou por alguns instantes, como para controlar a emoção com que fazia aquele discurso.

- Chorei a noite toda, tive até febre. Foi algo que me machucou muito.

Ela dirigiu aqueles grandes olhos tristes a mim. Eu estava totalmente atônito, me sentindo uma criatura digna de desprezo, além de muito envergonhado.

Percebendo que meu semblante havia decaído, ela continuou.

- Me perdoe, meu amigo, não quero lhe envergonhar, mas preciso que você conheça o maior segredo de minha vida, mesmo porque tem a ver com você.

Tentei um sorriso sem graça. Ela prosseguiu:

- Logo, como você deve saber, minha família se mudou para São Paulo, onde meu pai trabalhou por um tempo como advogado de uma empresa. Assim, com o tempo, acabei me esquecendo de você e do que ocorreu naquele dia.

- Nem mesmo quando papai disse que voltaríamos para a nossa antiga casa, achei que, de algum modo, aquele passado doloroso fosse retornar à minha memória, ou que pudesse reviver o...

Interrompeu a narrativa, ficando muda por alguns momentos, olhando para o chão.

- Reviver o que? – perguntei, temendo a resposta.

Ela me dirigiu um olhar terno, porém melancólico.

- Nunca notou nada diferente em mim, digo, quando éramos crianças?

Depois de refletir por alguns momentos, balancei a cabeça negativamente.

- Pois, saiba que eu era... apaixonada por você! Eis a razão de, por tanto tempo, ter lhe tentado ferir com zombaria e desprezo. Por isso preciso ouvir de sua boca que me perdoa, pois isso tem me deixado atormentada, principalmente depois daquele dia no ensaio da peça.

- Já lhe disse que perdoo, não precisa mais pedir algo que já lhe dei! Mesmo porque eu fui um idiota naquela época! E nem deveria me pedir perdão, pois você foi a vítima, e assim, eu e que imploro que me perdoe...

Estava me sentindo um crápula da pior espécie! Ela, no entanto, percebeu meu embaraço e pousou delicadamente a mão na minha, que estava pousada no meu joelho.

- Não quero que você pense que estou lhe acusando. Pelo contrário, estou tentando consertar essa coisa que tem me feito perder o sono.

De repente, como ficamos mudos, decidi criar coragem e falar. A coisa toda saiu entrecortada por causa da emoção.

- Sabe...eu ignorava totalmente tudo isso, o que faz com que me sinta muito mal, principalmente porque não posso mudar o passado. Mas preciso te confessar algo: Desde que você voltou pra cá eu sempre... tenho pensado em você! No baile eu ficava ensaiando para te tirar para dançar, e tudo parecia dar errado! Quando você dançou com o Roberval Murillo, eu acabei ficando...digamos...chateado...na verdade eu fiquei com ciúme...sei lá...

Ela o ouvia comovida, com o coração disparado.

- Se soubesse que gostava de mim naquela época! Digo, não agora, mas naquela época. Mesmo porque agora...

- Agora?

- Como você diz, você gosta de alguém que conheço.

E quando meu semblante se encheu de tristeza e vergonha, Laura apertou minha mão.

- Na verdade, Mike, não tenho qualquer sentimento de compaixão por você! Nem tampouco estou te acusando de ser a causa de minhas tristezas. Com certeza elas já passaram!

Laura fitou-me, fixando seus olhos nos meus.

- Disse que, desde aquele baile, passou a pensar em mim?

A pergunta de Laura me pegou de surpresa! Porém, não consegui esconder.

- Desde que te vi naquele baile, não consigo te tirar dos meus pensamentos.

Os olhos dela agora se iluminaram, e sorria!

- Desde criança eu te amo – disse ela, com emoção!

Ouvi aquela declaração, extasiado!

- Mas...então...e quanto ao rapaz que gosta?

- Achei que já estava mais que óbvio que você é esse rapaz!

A partir dessa declaração, parecia que a felicidade ia explodir meu peito. Assim, sem pensar, já imediatamente fiz o pedido:

- Quer ser minha namorada?

- Sim, eu quero!

Abracei Laura e a beijei. Um beijo rápido, na verdade, já que o parque era frequentado por toda gente da cidade, mas que foi como estar em um sonho.

Portanto, estava muito feliz. Tive que perguntar milhares de vezes se estávamos de fato namorando, ao que Laura repetia “sim, sim”, e eu, feliz, a abraçava, quase a desmontando.

- Tenha calma, senhor Marco Paolo – dizia, fingindo uma falsa zanga – se exagerar terei que colocá-lo em seu devido lugar.

- Não se preocupe, minha senhora – dizia eu, repetindo o gracejo –, terei o cuidado de tratá-la como uma peça de porcelana de minha própria mãe.

O namoro assim estava oficializado e sacramentado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

17

 

PROVOCAÇÃO E PANCADAS

 

Apesar do clima de romance entre Laura e Mike, nem tudo era um sonho de amor. Chimba chegou esbaforido da fábrica onde trabalhava. Trazia em seu semblante jovem um ar zangado, o que se notava pelas sobrancelhas grossas e avermelhadas, franzidas e pelos punhos serrados.

Os Lambretas estavam reunidos na lanchonete Navegantes, um dos pontos de encontro daquela turma, e de outros grupos de jovens.

Mike e Laura tomavam sorvete em uma das mesinhas, enquanto o restante do grupo jogava palitinho ou comia batatas fritas no balcão.

- Pessoal – disse Chimba, deixando transparecer em sua voz e em seu semblante, a gravidade do momento –, precisamos tratar de um assunto muito sério!

Matoso e Vaz, que se distraiam jogando palitinhos olharam para o rapaz, enquanto Mike Paolo, hipnotizado pela beleza de Laura não percebeu a chegada do amigo.

- Calma, cara – disse Bartolo, batendo no ombro do amigo –, parece que foi perseguido por um bando de leões...

- Quase isso, cara...quase isso...

- Como assim? – disse Matoso, se levantando e indo ao encontro dos dois.

Mike Paolo, percebendo que o assunto poderia ser realmente sério – sabia que, às vezes, Chimba era muito dramático, mas desta vez pareceu-lhe realmente justificável o tom irado do amigo –, pediu licença para Laura e se aproximou do grupo.

- Vocês não imaginam o que os “cavaleiros da noite” estão dizendo por aí!

- Então, desembucha logo – disse Matoso, já muito curioso.

- Sim – repetiu Bartolo –, desembucha de vez, Chimba!

- Simplesmente estão espalhando por aí que vão brigar no próximo baile do ATC.

- Não diga – disse Bartolo, rindo – e não é o que eles sempre fazem?

- É verdade – disse Mark, ajeitando o topete besuntado de brilhantina – não é à toa que são conhecidos por reis da pancadaria.

- Mas, acontece que agora somos nós, os Lambretas, o alvo desses caras – disse -, ouvi por um colega lá na fábrica, que tem um primo que tem um amigo que pertence aos Cavaleiros!

Chimba, que era o mais agitado dos rapazes, esmurrou o balcão, fazendo as garrafas tremerem, e o atraindo o olhar furioso do dono do Planetário. Bartolomeu Vaz se desculpou pelo destempero de Chimba, pegando-o pelo braço e o colocando para fora, onde contemporizou:

- Fica frio, cara! Não podemos entrar na desses bocós!

- Mas, isso é arregar...

- Não, isso é deixar com que acreditem que estão na boa! Se provocarem, vamos pro pau! Se formos tirar satisfação vão dizer que estamos provocando!

Chimba pensou, e acabou dando razão ao amigo.

Assim, ficou combinado que, até que não houvesse provocação dos Cavaleiros da Noite, os Lambretas não fariam nada precipitado. Assim, evitariam, por aqueles dias, andarem separados uns dos outros. Mike ficou furioso com a situação, pois queria ficar a sós com Laura, porém acabou concordando que, até que o boato sobre a rixa dos dois grupos não tivesse uma solução, tentaria não dar bobeira.

No entanto, a encrenca já estava bem encaminhada, assim não demorou para que a turma dos Cavaleiros da Noite chegasse em suas lambretas, cercando a lanchonete. O líder do grupo desceu, agitando uma corrente de forma ameaçadora. Mike se colocou na frente de Laura, que o segurava pelo braço, enquanto o restante dos Lambretas se preparava para a briga anunciada.

- Está se escondendo atrás de uma mulher, Mike? – provocou Juarez Pavão, o líder rival.

Mike, apesar de nervoso e querendo esmurrar a cara do provocador, acabou devolvendo a provocação.

- Não é preciso se esconder atrás de mulheres para acabar com sua raça – respondeu -, era só as colocar para brigar com você e suas mariquinhas adestradas.

Juarez arremessou a pesada corrente em uma mesinha, fazendo com que os Lambretas ficassem em estado de alerta. Mike, impassível, sorriu.

- Poxa, cara! Assim você me deixa assustado! Mas, se eu fosse você tomaria cuidado com a mobília! Ainda mais quando o dono do estabelecimento é um ex-boxeador!

Na confusão criada, só Mike havia percebido que o Seu Benê vinha por detrás do valentão e já lhe sentava um belo pontapé no traseiro, fazendo com que fosse arremessado ao chão.

Foi a deixa para a pancadaria começar. O português, dono do bar, cuidava sozinho de quatro integrantes dos Cavaleiros da Noite, que acabaram fugindo atabalhoadamente em suas lambretas, enquanto os Lambretas socavam algumas caras que tentavam, em vão, se sobressair na briga.

Acabaram arregando, depois de vários hematomas e roupas rasgadas. Apavorado, Juarez Pavão acabou fugindo.

Durante a confusão, Goretti e Rita puxaram Laura para o Banheiro, pois a moça esteve propensa a tentar separar os briguentos, já que temia por Mike.

Ao terminar a confusão, Mike pediu desculpas as garotas, mas deixou claro que não poderia deixar aquela afronta sem uma resposta.

Laura, que estava muito assustada, logo puxou o lencinho do bolso da blusa e começava a limpar um pequeno ferimento no rosto do moço, que se sentiu nas nuvens pelo cuidado da namorada.

- Calma, moça – gracejou Matosão, rindo -, vai acabar mimando esse bibelô!

- Nesse caso, gostei de ser mimado – disse Mike, devolvendo o gracejo -, tendo alguém como Laura para cuidar de mim valeria até a pena apanhar...

- Não seja bobo – interrompeu Laura, um pouco zangada-, não quero que meu namorado se transforme em um brucutu da vida!

Todos riram.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

18

 

PIERRE MEDEIROS

 

Dentre os estudantes do Padre Machado, um se destacava por sua desfaçatez e malandragem. Seu sobrenome em nada refletia os ideais familiares dos Medeiros, família tradicional e de muitas posses, porém dignos e sempre envolvidos com as causas sociais da paróquia.

Pierre Medeiros cresceu como um filho mimado, sempre tendo suas vontades satisfeitas pelos pais, que, só perceberam o erro que haviam cometido após o seguinte fato:

Em uma das avenidas principais de Andrada, alguns jovens começaram a organizar corridas de automóveis, os famosos “rachas”, sendo que a polícia da cidade só descobriu o evento após o ocorrido com o referido filho dos Medeiros.

Nesses eventos clandestinos, Pierre sempre relatava suas aventuras – muitas apenas inventadas ou, no mínimo, exageradas, para impressionar os jovens incautos.

Como nem todos acreditavam em suas mentiras, foi instado a provar que era bom piloto, participando de uma das corridas organizadas por eles.

Ferido em seu orgulho e percebendo que seria alvo de chacota de seu falatório inventivo, esperou que os pais dormissem e pegou escondido o Shelby Cobra do pai e o colocou na avenida.

Deslumbrado pelos elogios ao carrinho esportivo, colocou o automóvel na posição de partida e esperou o sinal.

Antes do lenço encostar no asfaltamento, Pierre acelerou o carro e saiu muito à frente de seu adversário.

Porém, nesse momento apareceram várias viaturas de polícia. Pierre, vendo que poderia ser pego e punido, tentou acelerar ainda mais a fim de fugir do flagrante, não observando o obstáculo colocado pelos policiais ao longo da pista.

Acabou entrando com o carro em um lago, quando, desesperadamente tentava desviar dos tambores ali posicionados.

Saiu ileso, porém acabou em maus lençóis, causando vários transtornos jurídicos e materiais ao pai, que teve que arcar com as consequências dos atos de Pierre, que foi punido com a retirado da lambreta, da polpuda mesada e teve de trabalhar meio período na empresa do pai, auxiliando na limpeza do piso da fábrica e dos banheiros.

Tais castigos, ao invés de amenizarem o desajuste do jovem, serviram como motivo para se vingar do mundo, atrapalhando a vida dos colegas de colégio.

Assim agiu em relação à bela Laura Manoela, que tentou conquistar com sua lábia, como fazia com várias mocinhas desavisadas. Foi inútil, uma vez que a moça, criada de modo a não permitir qualquer tipo de assédio indesejável, já o rechaçou na primeira investida.

A atitude da moça, apesar da firmeza com a qual colocou Pierre em seu devido lugar, não demoveu do jovem a ideia de conquistá-la. Assim, tentava se aproximar de todas as maneiras, porém Laura não estava disposta a se abrir aos encantos do espertalhão.

Quando soube do namoro entre Laura e Mike, ficou com muita raiva, e prometeu que se vingaria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

19

 

ROSTINHO COLADO

 

Mike estava na frente do espelho penteando o topete e ajeitando o nó da gravata. Já não estava incomodado em usá-la, pois finalmente teria a oportunidade de dançar com sua garota! Laura também estava se aprontando para aquela grande noite, onde ficaria perto de seu príncipe.

- Hoje não poderemos ficar juntas no salão, Aninha!

- Por que, irmã?

- Porque vou dançar com o Mike Paolo!

- Com o nosso vizinho italianinho? Ué, mas você detestava esse rapaz...

- Ah, minha irmãzinha, tem coisas que você só vai compreender quando tiver a minha idade! Coisas do coração!

- Ah, que esquisito! Assim gostaria de pular direto para a fase adulta!

Laura ficou espantada que sua irmã de doze anos já possuísse um espírito de ironia, muito avançado para sua idade!

Beijou a irmã na bochecha e voltou a recomendar que não se chateasse quando Mike estivesse com ela, pois não poderia lhe dar atenção.

- Tudo bem, Laurinha, tentarei arrumar um príncipe encantado para mim!

Riram muito.

Assim, seguiram para o Baile.

A princípio Mike queria levar a namorada na Lambreta, mas Laura achou melhor não contar com isso, uma vez que o pai da moça sempre levava as filhas e as ia buscar no horário combinado. Confessou que ainda não estava preparada para contar aos pais sobre seu namoro.

Mesmo contrariado, Mike aceitou o fato, pois o importante era que agora tinha sua Laura, e pretendia dançar com a menina a noite toda!

Mike chegou ao Albuquerque pontualmente as sete, onde Chimba, Matosão e Bartolo já esperavam do lado de fora do saguão. Chimba, que estava sempre agitado, já foi distribuindo os ingressos e arrecadando o dinheiro para as bebidas – cuba libre, como sempre!

Já no salão, localizaram as mesas que ocupariam com as meninas. Mike não tirava os olhos da escadaria, esperando que, a qualquer momento, Laura entrasse por ali. Chimba, notando que o amigo estava ansioso pela chegada da garota, fez uma piada:

- Calma, meu velho! Hoje não vai ter o Roberval Murilo para lhe arrebatar a presa!

- Engraçadinho! – retrucou Mike, sem tirar os olhos da escadaria! Porém, não demorou para Laura surgir com a irmã ao lado.

Mike se apressou em encontrá-la e conduzi-las até as mesas.

Como ficou meio sem jeito em beijá-la por causa da irmã, apenas cumprimentou a moça sem lhe tocar. A irmã, notando que Mike ficou sem jeito, dirigiu um olhar zombeteiro para Laura, que queria dar um chute na canela do namorado por tal falta de atenção.

Enquanto estavam indo para as mesas, cochichou para Mike:

- Não sabia que era moda um rapaz não beijar sua namorada quando se encontram!

Mike, achando que realmente fez um papelão, acabou beijando a moça naquele mesmo instante.

O deslumbramento que estava sentindo, era realmente visível. Era todo atenção com a moça, estendendo a gentileza até mesmo à irmã, lhe oferecendo refresco e doces.

Laura também estava entusiasmada e feliz com seu agora namorado. Já não se lembrava das lágrimas e do sofrimento causado pelas incertezas daquele romance. Agora se sentia confiante, sendo que, também confiava no moço que amava desde a infância.

Sentados juntos, Mike procurava a mão de porcelana de Laura, que retribuía com um olhar terno e apaixonado.

Enquanto Chimba, Matoso e Bartolo puxavam as cadeiras para que suas garotas se sentassem à mesa, a orquestra começou a tocar uma música do conjunto The Platters, Smoke Gets In Your Eyes. Mike levantou-se e conduziu orgulhoso, seu par ao salão. Assim, de rosto colados, dançaram aquela música como se estivessem envoltos por uma nuvem. Para eles só existia a música e os dois, sendo impossível evitar o beijo apaixonado, sem se importarem com os dançarinos nos arredores do salão, até que Laura, despertando daquele estado de emoção arrebatadora, lembrou ao rapaz que não estavam sozinhos, e poderiam comentar.

- Não é que eu não tenha gostado – sussurrou Laura aos ouvidos de Mike -, mas não quero que caiamos na boca do povo.

- Ah, eu não me importo com a boca do povo, só com a sua!

- Engraçadinho!

Quando a música terminou, subiram até a varanda que cercava parte do prédio. Fazia calor, e havia um luar magnífico! Laura debruçou na mureta para apreciar aquela cena.

- Eu amo a lua e as estrelas! – dizia, deixando a luz do luar banhar seu lindo rosto – Não é inspirador?

Mike, que só conseguia olhar para Laura, concordou!

- Na verdade – disse ele -, quando estou com você, nem percebo essas coisas!

Laura riu

- Vou tomar isso como um elogio!

E beijou o rosto do namorado, mas ele logo procurou a boca de Laura.

- Vamos parar os beijos! Quero conversar também! Depois nos beijamos mais!

Mike deu de ombros, diante do protesto da moça, mas aceitou!

- Sabia que nunca dancei essa música com ninguém?

- Qual música?

- A que acabamos de dançar, seu bobo!

- Ah! Essa, do The Platters...

- Sim, Smoke gets in your eyes! A tradução é “fumaça em seus olhos”

- Mas, não dançou por quê?

- Tinha esperança de dançar com alguém muito especial para mim! Por isso, recusei todas as vezes que alguém vinha me tirar.

- Poxa, e acabou desperdiçando a música comigo! – gracejou Mike.

- Não deveria achar graça, pois você foi quem desperdiçou todas as músicas que poderíamos ter dançado, preferindo as suas amiguinhas...

Mike não a deixou terminar, a tomando nos braços e dando-lhe um beijo.

- Desta vez te perdoo, mas nunca mais faça isso!

Ambos riram!

Assim, esses momentos junto à Laura eram como um sonho para Mike. Tempos atrás ele havia saído daquele lugar triste e sem esperança de estar com sua amada Laura. Agora estava ali, sentindo seu perfume e a textura de seus cabelos, que deslizava por seus dedos, enquanto fixava o olhar naqueles olhos cor de âmbar.

De repente um pensamento ruim surgiu em sua mente: e se um dia ela terminasse o namoro? E se enjoasse dele e arrumasse um outro namorado?

Não passou desapercebido por Laura a transformação no semblante do rapaz.

- O que foi? – perguntou a menina, encarando-o.

- Não foi nada, apenas um pensamento triste – disse, enquanto tomava Laura nos braços, apertando-a contra o peito, mas ela o empurrou de leve, e continuou a encará-lo.

- Fale!

- Não!

- Se não disser vou ficar muito brava!

- Foi só um pensamento bobo, nem compensa falar sobre isso!

- Se esconder as coisas de mim, por menores que sejam, é sinal que não confia em mim, portanto...

- Claro que confio – disse ele, abaixando a cabeça -, mas acho que...

- Acha que?

- Estava pensando como minha vida seria triste se um dia perdesse você!

O olhar de Laura se iluminou, enquanto contemplava o rosto sério de Mike.

- Não pense nisso! Estamos juntos aqui e agora, meu menino! O amanhã a Deus pertence, e acho que Ele não gostaria de esgotar um amor tão verdadeiro.

Aquelas palavras aqueceram o coração de Mike, que a beijou ternamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

20

 

TRAMA CONTRA MIKE PAOLO

 

Pierre Medeiros acabou sabendo da briga dos Cavaleiros da Noite contra os Lambretas, e viu nesse fato uma grande oportunidade de tirar partido do conflito.

Tinha muita raiva de Mike por causa de Laura, e queria muito atrapalhar o romance entre os dois jovens.

Assim, chamou Juarez Pavão – que estava com um belo corte no supercílio – para uma conversa.

- Sei da surra que vocês tomaram da turma do italianinho – disse, com uma expressão de ironia, que irritou o rapaz.

- Não pense que não posso lhe partir a cara agora mesmo...

- Acalme-se, cara – disse Pierre em tom conciliador -, guarde suas energias para o tal Mike Paolo e suas Lambretinhas amestradas!

Juarez o fitou com curiosidade.

- O que você quer, burguesinho?

Pierre Medeiros sorriu com sarcasmo! Era o cinismo em pessoa, e considerado um canalha até mesmo para tipos como Juarez Pavão.

- Acontece que eu posso ajudar a se vingar dos Lambretas, disse -, e, especialmente, do italianinho.

Juarez encarou-o com ar desconfiado.

- E, o que você ganha com isso?

- Ora, esse moleque se meteu em meu caminho e atrapalhou meus planos com a Laura Manoela – disse, com semblante raivoso -, e, assim sendo, quero me vingar do idiota!

Juarez riu!

- E acha que vamos servir de vingança por causa de sua dor de cotovelo? Pode esquecer!

Ia se virando para ir embora, mas Pierre lhe fez estacar com a seguinte frase:

- Posso pagar muito bem pelo serviço!

Juarez voltou, com um largo sorriso nos lábios machucados.

- Eu ouvi uma carteira de moedas tilintando?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

21

 

LIVROS, CADERNOS E COLAS QUE NÃO COLAM

 

Era época de exames nas escolas, e todo bom estudante ficava em casa, mergulhado nos livros para não ficar de segunda época. Assim, não pude ver Laura por uma semana, a não ser nos momentos em que aparecia na sacada após o jantar para me ver de longe e acenar.

Eu e Chimba ficamos estudando em casa, revisando uma lista interminável de expressões algébricas.

Vez ou outra, Chimba me chamava a atenção, me acusando estar no mundo da lua.

- Estou pensando na solução para o exercício 9 – retruquei -, apontando o indicador para a cabeça.

- E desde quando a matemática mudou o nome para Laura Manoela? – disse Chimba, rindo.

- Deixa disso, não estava pensando nela!

- Já é a décima vez que vejo você esticar o pescoço para ver se ela está na sacada – disse ele, imitando o gesto -, daqui a pouco vai acabar tendo torcicolo.

Na verdade, Chimba estava certo. Não estava conseguindo me concentrar nos estudos. Minha cabeça estava totalmente tomada pela bela moreninha de olhos de cor âmbar.

Laura acabou indo muito bem nas notas, enquanto meu desempenho, se não foi terrível, foi, no mínimo, mediano.

Naquela época tínhamos aulas de latim, que eu não fazia a mínima ideia para que me serviria o aprendizado de uma língua só faladas nas missas e cantos religiosos.

Assim, restou-me a vergonhosa estratégia da cola.

O professor, Padre Lélio, um sujeito baixinho e atarracado, quase desprovido de pescoço, já começava a colocar as orações na lousa, sendo que o objetivo dos alunos seria o da tradução.

Chimba, muito gozador, enquanto o padre escrevia na lousa, imitava os gestos do pobre homem, encolhendo o pescoço e fingindo estar escrevendo no ar.

Diante de algumas risadinhas, Padre Lélio se voltava para a classe, com o rosto zangado, enquanto Chimba disfarçava, e já voltava à imitação, e voltávamos a tentar segurar as risadas.

Terminando de passar as orações na lousa, deu ordem para que começássemos. E, para o meu desespero, o professor, ao invés de se sentar em sua escrivaninha, ficou em pé para fiscalizar os alunos e evitar a cola.

Vez ou outra, andava pelos corredores das carteiras, quando eu aproveitava para olhar a cola colocada estrategicamente debaixo do estojo.

Fazia calor na sala, e o homenzinho resolveu ligar o ventilador, justamente quando eu levantava o estojo para espiar, fazendo com que a cola voasse para o meio do corredor.

Desesperado pela possibilidade de ser descoberto, se aproveitando do momento em que ele virava de costas para mim, estiquei a perna e consegui chutar discretamente o papel para debaixo do armário.

Lá se havia ido a única garantia de conseguir tirar uma boa nota, e acabei me consolando pelo fato de que seria melhor uma nota mediana que ser pego, tomar um sermão do professor, do diretor, dos meus pais e talvez até de Laura.

 

 

 

 

 

 

 

 

22

 

FÉRIAS

 

Nunca a palavra “férias” teve uma conotação tão triste para mim e Laura. A família dela havia programado passar as férias no Recife, enquanto eu, que havia prometido ajudar papai no escritório, ficaria em Andrada.

Na despedida, diante das lágrimas de Laura, tive que conter as minhas, prometendo que a estaria esperando.

- Não se preocupe, procure se divertir!

- Impossível me divertir se você não estará ao meu lado!

Abracei-a com força, dizendo que logo estaríamos juntos.

Na verdade, eu estava arrasado, pois, exceto na semana de provas, nos víamos todos os dias, desde que começamos a namorar.

Assim, procurei me distrair com a pintura do escritório e com a organização do arquivo, tarefa que meu pai havia me encarregado.

Laura passaria 15 dias no Nordeste, e nesse tempo, me revezava entre as tarefas no escritório e o bate papo com os Lambretas na lanchonete Navegantes.

 

 

 

 

 

 

 

23

 

REENCONTRO

 

Laura, finalmente, retornava do Nordeste. Estava ansioso para tê-la novamente nos braços.

O reencontro se deu no ATC, clube que ambos frenquentávamos desde crianças.

Laura me esperava próximo à área de lazer, estava usando uma saia alaranjada e uma tiara branca nos cabelos.

Achei-a mais magra e com a pele mais morena.

Quando nos vimos, corremos um para o braço do outro, nos beijando.

Depois daquele primeiro contato, onde a saudade ia sendo amenizada, fomos sentar-nos em um dos banquinhos.

- Quase morri de saudades! – disse eu, enquanto acariciava seu rosto.

- Eu também, meu amor! Não via a hora de voltar! Pensava em ti o tempo todo! Nem comia direito!

- Não devia ficar sem comer, Laura! Poderia ficar doente! Você está um pouco magra!

- Acha que fiquei feia?

- Não, isso seria impossível! Você é linda de qualquer jeito! Mas não quero que você adoeça!

Laura sorriu e beijou a minha face.

Não se preocupe, vou recuperar meu peso normal agora – disse -, só espero não passar da medida.

- Ah, você gostaria de reviver seus tempos de taturana gorducha – gracejei eu.

Ela me empurrou levemente, fingindo se zangar, mas eu já lhe aconcheguei nos braços.

Ela me afastou, me encarando.

- Preciso te dizer uma coisa – disse -, é algo que já havíamos falado a respeito.

- Pode dizer.

- Falei para meus pais sobre o nosso namoro.

- E, o que eles acharam?

Ela deu algumas palmadas sobre meu joelho.

- Vai ter que falar com o papai, para ele dar permissão.

Encarei-a, apreensivo.

- Você acha que ele vai me aprovar?

- Bem, ele provavelmente te fará várias perguntas, dará umas mil recomendações, mas no final acho que ele te aprovará.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

24

 

O CONSELHO DE MATOSÃO

 

Eu estava feliz da vida com a volta de Laura. Assim, enquanto montava um quebra cabeça na mesa da cozinha de casa, alguém bateu à porta.

Era Matosão, que estava com um semblante preocupado.

- Podemos bater um papo, cara?

- Claro, Matoso – respondi, indicando uma cadeira, na qual ele se sentou.

Ele fez uma pausa, onde parecia refletir.

- Você aceitaria o conselho de um velho amigo?

Olhei desconfiado.

- Que tipo de conselho?

- O de ficar atento ao Pierre Medeiros.

- E, por que deveria me preocupar com aquele fanfarrão?

Ele me encarou, arrastando a cadeira, de modo a ficar mais próximo de mim.

- Sabia que o Medeiros já deu em cima de Laura?

Ri muito daquela revelação.

- Laura já comentou, mas também já rejeitou o esperto logo de cara.

- Não duvido que ela, inteligente que é, já tenha enxergado o tipo de gente que ele é.

- Então, qual é o galho? Veio me dar um conselho de ficar de olho em um fracassado?

- Não subestime o inimigo, meu velho! Hoje, por exemplo, vi o malandro conversando com o Juarez Pavão. Eles estavam reunidos em barzinho em frente à prefeitura. Observei tudo da janela do gabinete do Pachecão.

- Sério?

- Sim! Pra mim ele está tramando algo. Inclusive vi que ele estava dando dinheiro ao Pavão e a uma moça loira.

- Acha que ele está pagando o Juarez Pavão para que ele promova uma briga entre o Lambretas e os Cavaleiros da Noite?

- Não sei, pode ser! De qualquer forma, vim te dar um toque, e vou falar com a turma para tomarem o máximo de cuidado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

25

 

A SEMENTE DA DISCÓRDIA

 

(narrado em 3ª pessoa)

 

Laura havia se matriculado em um curso de datilografia, no centro de Andrada.

Apesar de não ser muito longe da casa da namorada, Mike fazia questão de acompanhar a menina, a levando e buscando com a lambreta.

Porém, um imprevisto acabou surgindo, e Mike teve que acompanhar Julinha até o mercado.

Laura ia voltando para casa, quando, ao passar por dentro da Praça das Carmelitas, foi interceptada pela figura odiosa de Pierre Medeiros, que se colocou a sua frente, de modo a evitar que a moça passasse.

- Que bobeira é essa, Medeiros?

Ele sorriu com malícia.

- Se não é a namoradinha do italianinho bocó!

Laura fuzilou o moço com um olhar indignado.

- Melhor que ser um riquinho fracassado.

Pierre, em uma atitude provocadora, deu uma gargalhada.

- Acalme-se, meu bem, a raiva não cai bem em uma moça tão bela.

Laura já se preparava para chutar as partes baixas de Pierre, quando ele disse algo que alarmou a menina.

- Em breve apresentarei provas de que, enquanto você sofria pelo italianinho, ele se divertia com as beldades de Andrada!

Laura estacou. Ouvir aquilo, mesmo de uma entidade sem qualquer credibilidade como Pierre Medeiros, acabou mexendo com seu emocional.

Depois de alguns segundo, recuperou-se e disse, com indignação:

- Você é uma jararaca! Não acredito em uma palavra sequer que saia dessa sua boca imunda! Está despeitado por não ter conseguido me enganar com sua lábia de conquistadorzinho barato!

Encarou-a, empinando o narizinho.

- Você não vale o dedo mindinho do Mike!

Pierre Medeiros, apesar da raiva que estava sentindo ao ouvir essas palavras da boca daquela que ele desejava, refreou sua vontade de agredi-la com sua verborragia de baixo nível, limitando-se a sorrir com deboche.

- Espere e verá, princesa!

Deu as costas a Laura, e saiu gingando pela praça.

Ao entrar em casa, Laura atirou a bolsa que carregava com o material sobre a cama com raiva, chamando a atenção da mãe, que limpava a janela.

- O que é isso, menina? Que modos são esses?

- Perdão, mamãe, foi sem querer.

Passou o resto da tarde pensando sobre o que o Pierre havia dito sobre uma suposta traição de seu namorado.

 

 

 

 

 

26

 

DR. PEDROSA

 

Cheguei à casa de Laura as sete e meia da noite. Toquei a campainha e fiquei esperando, muito tenso, por sinal.

Logo Laura apareceu.

- Papai está na sala – disse, depois de me beijar -, não fique nervoso, ele não é bicho!

- Pra você é fácil falar – respondi, gracejando -, não é você quem vai pedir minha mão em namora pra minha mãe.

Laura me introduziu à sala, onde o pai estava sentado em uma poltrona, lendo jornal e fumando cachimbo.

Cumprimentei, tentando não deixar transparecer minha tremedeira.

O pai de Laura devolveu o cumprimento. Estava muito sério, o que me deixou um pouco preocupado.

- Papai – disse Laura, em um tom que me pareceu cerimonioso -, esse é o Marco, e quer falar com o senhor sobre um assunto importante.

Olhou pra mim e piscou.

O Dr. Pedrosa deu umas baforadas no cachimbo, depois dobrou o jornal, colocando-o na mesinha de centro.

Encarou-me com o semblante sério, franzindo a testa, como se estivesse um pouco zangado.

- Pois bem, meu jovem – disse em tom seco -, em que posso ajudar você? Gostaria de me dizer algo?

O leitor, por si só, pode imaginar o que senti nesta hora, ou seja, uma vontade imensa de não estar ali, ou que um buraco se abrisse aos meus pés, e me tragasse para sempre.

- Bem, Dr. Pedrosa – disse, tentando me controlar -, é sobre sua filha Laura.

- Sim, o que tem a Laura?

- Gostaria de sua permissão para namorar com ela.

Ele inclinou o corpo pra frente me encarando.

- Você formulou a frase de forma equivocada.

Se eu desejava que um buraco se abrisse sob meus pés, a sensação que tive ao ouvir aquelas palavras, era exatamente a de não sentir mais o chão.

Depois, diante de minha cara de espanto, disse:

- A maneira correta de formular a frase deve ser: “Gostaria de sua permissão para namorá-la.”

E começou a rir muito, me deixando atônito.

- Desculpe...eu...

- Está tudo certo, Sr. Marco – disse, ainda sob efeito das risadas -, você pode namorar minha filha Laura.

Depois me encarou, agora menos carrancudo.

- Logicamente, eu exijo muito respeito com a minha filhinha. Nada de encontros escondidos ou exageros.

- Pode ficar tranquilo – respondi, timidamente -, sempre respeitarei Laura.

Nisso, Laura apareceu na sala, trazendo uma bandeja de limonada.

- Agora podemos dizer que estamos namorando sério – disse eu, baixinho para não ouvirem.

Depois fomos até a varanda, onde nos sentamos em uma namoradeira.

- Posso te fazer uma pergunta?

- Claro – respondi.

- Promete ser sincero?

- Laura, você sabe que eu jamais mentiria para você!

- Nem me esconderia nada?

- Nem tenho o que esconder, meu bem!

Ela me cravou seu grandes olhos âmbar em mim.

- Você teria coragem de me trair?

- Trair você?! Ora, Laura, que pergunta! Lógico que não!

- Nunca me esconderia nada? Por mais comprometedor que fosse?

- Minha vida é um livro aberto – respondi.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

27

 

BAILE DE VERÃO

 

O baile de verão sempre acontecia no período das férias de Janeiro, e era um grande evento, onde várias autoridades e toda gente importante comparecia.

O Pachecão, prefeito da cidade, sempre discursava durante a abertura do baile, o que tomava quase meia hora de falatório inútil e auto-exaltação.

Pela primeira vez, pude ir com Laura, no carro do Dr. Pedrosa.

Chegamos ao baile de mãos dadas, e a acompanhei à mesa reservada à família.

Pedi licença à Laura, para cumprimentar os amigos.

- Vou junto – disse, se levantando -, a não quer que queira um momento a sós com eles.

- Nada disso – disse eu, tomando-a pela mão -, você virá comigo!

O sentimento de me sentir querido e parte da vida de Laura era indescritível. Me sentia orgulhoso de poder passar por outros jovens de mãos dadas com ela.

Na mesa, do lado oposto ao que a família de Laura costumava ficar, estavam sentados Chimba, Matosão, Afrânio, Bart, Gorete, Lourdes e Célia.

- Salve, ilustre italianinho! – disse Matosão, se levantando para cumprimentar os recém chegados, gesto que foi seguido por todos.

- Venha, Mike, vamos juntar as mesas – sugeriu Chimba, já pegando a mesa vazia ao lado para encostar às outras.

Ficamos por ali, trocando idéias, rindo e falando mal do Pachecão, que estava já se dirigindo ao microfone.

Fez sinal para que Matosão se aproximasse dele, o que fez com que nosso amigo sussurrasse um palavrão impronunciável.

Matoso chegou próximo ao prefeito, que lhe cochichou algo ao ouvido, e logo saiu, retornando com uma garrafa de água mineral e um copo.

Voltou soltando fumaça pelas ventas, como se diz das pessoas que estão com muita raiva. Praguejou e deu um murro na mesa.

- Acalme-se, cara – disse Chimba -, são os pequenos infortúnios de trabalhar para um aloprado.

Todos riram.

- Só faltava essa – disse -, servir de empregadinho fora do período de serviço.

Começaram a tocar Estúpido Cupido. Convidei Laura para dançar.

- Não sei dançar rock muito bem – protestou Laura, mas eu não aceitei aquela desculpa.

- Não tente fugir – disse, puxando-a pela mão -, eu te ensino.

- Não me responsabilizo – disse, sorrindo.

Laura, uma moça muito esperta, acabou me surpreendendo.

- Como pode dançar assim se nunca a vi dançar rock nos bailes que participamos?

Laura riu

- Treinei com Aninha em casa – disse -, pois sabia que um dia alguém poderia me tirar para dançar o rock and roll.

Depois disso, subimos todos à varanda do salão, para tomar um ar fresco. Lembrei à Laura que já fazia um ano que ela havia se incomodado com uma brincadeira das amigas, e se referido a mim como um "morto".

- Um morto que estava muito vivo em meu coração - disse, gracejando.

 

 

28

 

A MOÇA LOIRA

 

Conversávamos animadamente, eu sentado na mureta da varanda do ATC e Laura em pé, acariciando as mesmas gardênias que estavam plantadas em uma floreira sobre a mesma mureta. Comentávamos sobre aquela fatídica noite, onde ela realizava o mesmo gesto com as flores.

Repentinamente surgiu na varanda uma moça, loira e com os cabelos levemente desgrenhados, e com os olhos marejados, como quem estivesse passando por algo grave.

Ficamos chocados com a presença daquela estranha figura ali.

- Marco!

Fiquei espantado ao ouvir meu nome na boca daquela criatura. Laura também parecia confusa diante daquele fato.

- Me conhece? – perguntei, tentando entender do que se tratava.

- Ora, então era tudo verdade!

Olhei para Laura, que também estava atônita.

- Era tudo verdade que mentiu pra mim, dizendo que não tinha namorada!

Fiquei totalmente desconcertado, reagindo como alguém que está sendo vítima de um equívoco ou armação.

- Não lhe conheço, moça! De onde tirou essa ideia maluca?

- Ora, senhor! Não tente se fazer de desentendido, fingindo que os beijos apaixonados não existiram, e que as carícias não aconteceram! E o pedido de namoro sentados na escadinha do coreto, também vai negar?

Laura, que até aquele momento segurava minha mão, a soltou bruscamente.

- Laura, não acredite nessa história! Nunca vi essa moça na vida.

- Era de se esperar que você não assumisse sua culpa! Não passa de um Dom Juan barato!

Após falar essas palavras, saiu dali aos prantos, me deixando totalmente desorientado.

Me voltei para Laura, que parecia olhar para o vazio.

- Laura, não conheço essa moça, eu juro! Nunca vi essa criatura na vida!

Ela encarou-me. Seus olhos começavam a se encher de lágrimas.

Não disse uma palavra, apenas sair dali às pressas, descendo a escadaria que dava acesso salão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

29

 

ESCANDALO

 

Ao chegar à mesa onde estavam seus pais, Laura, ignorando meus apelos para que não acreditasse, pediu para que os pais que a levassem de volta pra casa. Ali já começava a chorar muito.

O Dr. Pedrosa, furioso, se dirigiu a mim, de forma brusca:

- O que fez com ela?

Emudeci! Não estava em condições de dizer uma palavra. Apenas observava Laura, não acreditando que aquilo estava acontecendo.

Fiquei ali parado, enquanto via minha amada Laura sendo amparada pela mãe, enquanto chorava muito.

Foi quando observei as pessoas das mesas, que o olhavam curiosos sobre o que teria se passado.

Logo Matosão, Chimba, Bart e Afrânio, notando o movimento estranho, e vendo que eu era o centro daquele burburinho, se aproximaram para tirar-me dali.

Já lá fora, Matosão questionava.

- O que aconteceu, Mike? Por que Laura saiu daquele jeito?

Totalmente destruído por tudo aquilo, disse de forma resumida o que havia acontecido no terraço.

- Deve ter sido armação do Pierre Medeiros, aquela cobra – disse Matosão, chutando a guia com a botina de bico fino -, mas eu havia te alertado, Mike!

Mas uma coisa ele sabia, que havia perdido Laura.

 

 

30

 

QUANDO UMA ESPADA ATRAVESSA O CORAÇÃO

 

Laura chegou ao quarto e se atirou à cama aos prantos. Ana Maria ia acudir à irmã, mas Dona Célia impediu.

- Deixe-a chorar, ela precisa desabafar.

Ficou ali por muito tempo, até que adormeceu.

Acordou no meio da madrugada, ainda atordoada pelos acontecimentos daquela fatídica noite.

Demorou alguns segundo para que aquela triste realidade lhe assaltasse novamente.

As lágrimas voltaram a surgir nos seus grandes e belos olhos. O pensamento de que aquele ente tão amado pudesse se rebaixar daquela forma, lhe atravessava a alma como uma espada.

Aquela era uma situação nova para Laura. Queria de todo coração crer que Mike fosse a inocente vítima de uma maldosa armação, porém a imagem da moça, acusando o rapaz como se ele fosse o algoz que causara a ferida tão pungente naquele coração desenganado, afastou qualquer possibilidade de engano.

Assim, no tribunal do coração de Laura, Mike fora miseravelmente condenado, e a sentença deveria ser a separação e a vergonha de haver enganado as duas mulheres que alegou amar.

As evidências, se não eram ainda prova cabal da traição do namorado, eram suficientes para que Laura tirasse suas próprias conclusões: Ou aquela moça estava totalmente fora de seu juízo normal, ou realmente havia falado a verdade. Porém, também havia a oportunidade, ou seja, Mike havia ficado livre de Laura por quinze dias. Além do local inusitado, quando, teria o rapaz escolhido o coreto, lugar significativo para Laura, por ser o altar da consagração de um amor que já transbordava em seu seio, e que era vergonhosamente profanado pelo Casanova, como uma forma de perversão doentia, quando havia escolhido aquele local para a prática da traição.

Dessa forma, não havia dúvida: Não queria mais o contato daquele ser tão abjeto, que abusou tão violentamente daquele coração, oferecido de forma tão singela, para ser destruído de forma tão covarde.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

31

 

APENAS BONS AMIGOS

 

Pierre Medeiros havia assistido em um canto escondido a toda cena do escândalo do baile. Agora podia tentar uma aproximação estratégica de Laura.

Laura, a princípio, refutou-o como uma mosca. Depois, como o rapaz insistia, e diante do que lhe fizera Mike, que não gostava do ricaço, resolveu permitir uma aproximação, deixando claro que, se não tentasse passar de certos limites, poderia pensar na possibilidade de uma amizade.

Assim, como alguém que tem plena consciência de que Pierre não era alguém que pudesse confiar cegamente, viu ali uma oportunidade de se vingar de Mike.

Tal tática, apesar de arriscada, pois podia potencializar a rixa existente entre os dois rapazes, que visivelmente se detestavam, poderia ser uma forma de punição ao ex-namorado.

Laura, então, mantinha Pierre Medeiros sob um rígido controle.

Certa tarde, enquanto estavam na varanda da casa de Laura, Pierre tentou beijá-la. Laura reagiu como uma víbora reagiria quando molestada. Pierre, assim teve que recuar, esperando outra oportunidade para uma investida.

Quanto a Mike, que havia notado a aproximação de Pierre e Laura, ficou, a princípio angustiado. Depois a angustia acabou se transformando em raiva, pois sabia que a ex-namorada havia se aproximado de Pierre com o firme propósito de humilhá-lo.

Mike tinha consciência de sua inocência, e considerou que tudo aquilo tinha sido tramado por Pierre, mas não tinha como provar para Laura.

Uma vez, no baile, Pierre, que estava acompanhado de Laura, esbarrou de propósito em Mike, que lhe pegou pela gola do paletó.

Laura, furiosa, foi defender o agora amigo, dirigindo a Mike em um tom ríspido.

- Não ouse encostar um dedo nele, seu...

Mike, num assomo de raiva, empurrou Pierre para longe.

- Complete a frase, moça – disse, encarando-a – seria covarde ou traidor? Escolha a palavra, e me satisfaça a curiosidade!

- Ia dizer bobão, mas isso você nuca foi. Aliás, é muito esperto até!

Virou as costas, saindo rapidamente, seguida por Pierre, que lançou a Mike um sorriso de sarcasmo.

Os Lambretas se aproximaram ao perceberem a confusão.

- O que aconteceu, Mike? – Perguntou Chimba, já querendo quebrar o nariz de Pierre.

- O imbecil esbarrou em mim de propósito para me provocar na frente da Laura – respondeu Mike, já muito irritado com a atitude de sua ex-namorada e de seu agora rival.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

32

 

A VOLTA DE JOSÉ AMÉRICO

 

Havia na turma um rapaz chamado José Américo, que também fazia parte dos Lambretas, e acabava de voltar de São Paulo.

Passava das sete da noite, e todos estavam na Lanchonete Navegantes, quando Américo encostou a Wendy, sua lambreta, na calçada.

Ao avistarem o rapaz, foram ao seu encontro, recepcionando-o com apertos de mão, tapinhas na cabeça e nas costas.

- O que veio fazer por aqui, enjoou dos brotinhos paulistanos? – perguntou Afrânio, enquanto ainda recebia os cumprimentos.

- Ah, disse ele, não enjoei, e ainda vim para conquistar alguns brotos andradenses.

Todos riram.

Américo se voltou a Mike:

- Soube que está namorando a filha do velho Pedrosa, é verdade?

- Não mais – disse Chimba -, e graças ao Pierre Medeiros.

- Sério?

- Tudo indica que sim – respondeu Mike, com ar sério.

O rosto de Américo avermelhou de raiva.

- Acreditam que o calhorda também roubou minha namorada?

- Não diga!

- Sim, mas outro dia conto pra vocês – respondeu -, agora quero saber quais as novidades por aqui.

 

33

 

ATRIZ

 

Os Lambretas conversavam sentados em uma mureta que dividia um terreno baldio da Lanchonete, quando, de longe, Américo avistou uma moça loira, que entrava na lanchonete c.

- Ora, ora!

Mike olhou para a lanchonete, mas não viu a moça, que já havia entrado.

- Quem era?

- Uma velha conhecida minha! Vou buscá-la para apresentar para vocês!

Correu até a lanchonete, e logo voltou de braços dados com a moça.

- Esta é a Marina – apresentou Américo – uma atriz de teatro de São Paulo.

Mike havia ficado em uma posição onde a sombra de uma amoreira impedia que a luz externa da rua lhe atingisse de cheio.

Reconheceu ali a moça que, no baile, havia feito todo aquele escândalo, que culminou no termino de seu namoro.

- Devo te parabenizar – disse Mike, saindo de onde estava e se posicionando na frente da garota -, merecia um Oscar pela cena do Baile!

Surpresa e desconcertada, fez um movimento para fugir, mas Américo a pegou pelo braço.

- O que aconteceu aqui?

- Por favor, deixe me ir – implorou a moça, já quase chorando.

- Não enquanto não explicar algumas coisinhas – respondeu Mike, com a voz firme.

 

34

 

O PRÓXIMO BAILE É SEMPRE O MELHOR

(Mike narra)

 

Havia naquele sábado um baile de debutantes.

Chimba seria o par de Goretti, sua namorada, e Afrânio o par daquela que, anos mais tarde, tornou-se sua esposa, uma bela moreninha chamada Lourdes.

Laura estava em uma das mesas com os pais e a irmã.

Ignorou-me, ou, pelo menos fingia fazê-lo, o que era mais lógico.

Após os discursos e homenagens, as debutantes já eram orientadas a se posicionarem em frente ao palco, junto com seus pares.

Nesse momento, entrou Pierre, vestido de um smoking azul, muito cafona, por sinal, e se dirigiu à mesa onde Laura estava.

Tive vontade de chutar o traseiro daquele pedante.

Porém, minha atenção ia além de Laura e Pierre. Em uma das mesas estava, uma moça, de longos cabelos negros. Lia o cardápio, de modo a ocultar a face.

Enquanto a Valsa começava, e os pares iam rodopiando pelo salão, Laura subia para a varanda, acompanhada por Pierre.

Disfarçadamente, me esgueirei pelo salão, até o acesso oposto, onde pude me aproximar sem ser notado.

Laura estava linda!

Posicionei-me atrás de um pilar, onde um vaso de uma folhagem impedia a visão de quem estava do lado oposto.

Pierre pegou na mão de Laura, mas ela retirou-a, dizendo que ainda não estava preparada para um envolvimento.

- Ainda gosta do italianinho traidor, não é?

Ao ouvir isso, Laura se voltou a Pierre como uma víbora.

- Se for pra ficar falando dele, vamos voltar ao salão.

- Acalme-se, boneca – disse, rindo -, sou um sujeito de muita paciência!

- Não duvido – disse Laura, friamente.

- Veja bem, querida – disse, enquanto tentava acender o isqueiro, que não funcionou -, você será minha, e isso já é questão decidida.

- É mesmo? E quem decidiu isso, você sozinho ou foi combinado com sua babá?

Tive que conter o riso para não me denunciar.

Não demorou para que surgisse a moça de cabelos negros, que estendia o isqueiro até Pierre, que agradeceu sem olhar pra ela.

- Agradecido!

- Na verdade, é seu isqueiro, não o reconhece?

Ao ver Marina, a qual havia retirado a peruca, Pierre recuou assustado.

- Não quer seu isqueiro de volta, querido?

Laura, que até o momento não estava entendendo nada, acabou reconhecendo a moça.

- Você de novo – disse, indignada -, vai denunciar outras traições de Mike?

- Acalme-se, meu bem – respondeu ela, fixando os olhos em Pierre, que calou-se – acho que temos muitas coisas para explicar e, como você disse, para denunciar aqui!

Pierre, ao ver que poderia se complicar, tratou logo de falar.

- Não acredite em nada do que ela falar, Laura! Ela é uma atriz.

- Ora, obrigado por me reconhecer como atriz, meu lindão! Aliás, o meu último trabalho foi excelente! Lembra? Ah, claro que lembra!

Laura observava aquela cena sem entender, enquanto Pierre avançava para tentar tapar a boca de Marina.

Nesse momento, surgi para defendê-la.

- Não a toque, canalha!

Nesse momento, Matoso e Américo surgiram, segurando Pierre.

Laura me olhou indignada.

Marina começou a falar. Falou sobre o fato de ser atriz iniciante, ser prima de Juarez Pavão, sobre ter sido contratada para encenar uma moça traída em troca de um contato com um empresário famoso e de alguns trocados, e de como estaria arrependida por ter causado a separação do casal de namorados por causa de um canalha.

Nesse momento, Pierre conseguiu se soltar dos rapazes e tentou pular a mureta que dava acesso à escadaria. Pulei em cima dele, o agarrando.

Foi quando perdi o equilíbrio e cai, rolando na escadaria, batendo a cabeça em uma das colunas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

35

 

RECONCILIAÇÃO

 

Ouvia uma gritaria, bem distante, e um som de passos, e de palavras soltas ao ar.

- Temos algum médico aqui?

- Ele está com um corte feio na cabeça.

- Mike, meu amor, me perdoa!

Aos poucos, a escuridão foi se dissipando. Percebi que estava com a cabeça apoiada no colo de alguém. Era Laura, que soluçava, enquanto apertava minha mão.

- Acalme-se, ele está voltando.

A primeira coisa que vi ao abrir os olhos foi o rosto de Laura. Oh, como é linda a minha Laura!

Apareceu o médico, que se apressou em me examinar.

- Não preciso de médico – protestei -, esse anjo de olhos cor de âmbar já me basta.

Laura levou minha mão aos lábios, a beijando com carinho.

- Isso dói? – perguntou o doutor, enquanto movimentava minha cabeça cuidadosamente.

- Não – respondi -, estou só com um pouco de dor de cabeça e com tontura.

- Vamos levar você ao hospital, para fazermos alguns exames.

- Não precisa, doutor – protestei -, estou bem!

- Não senhor – interveio Laura -, quero meu namorado totalmente recuperado.

Depois se dirigiu ao médico.

- Ele irá, doutor!

Laura só largou minha mão quando me colocaram na ambulância. Me deu um beijo e prometeu que iria me ver.

Não cheguei a ficar internado, pois os exames estavam todos em ordem.

- Dessa vez não quebrou a cabeça – disse meu pai, quando foi me buscar -, mas me avise para comprar um capacete reforçado na próxima vez que for se meter em uma briga.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

36

 

LAURA, EU TE AMO!

 

Desnecessário dizer o que ocorreu após minha saída do hospital. Laura foi me visitar em casa, nos beijamos por quase dez minutos, só paramos por que minha irmã Julia apareceu com dois copos de limonada e um sorriso no rosto.

- Os pais de Laurinha estão aí na sala – disse, rindo – a coisa não vai ser boa se eles virem vocês grudados assim.

Laura ficou vermelha, enquanto eu a abraçava e a cobria de beijos no rosto.

- Lembra, Laurinha, quando ele vivia com aquelas brincadeiras bestas e te incomodando?

- Claro que me lembro – disse Laura, rindo -, mas quem diria que esse marmanjo ainda chupava o dedo.

- Mentira! – Protestei, - eu roia as unhas.

- Mentira?! – respondeu Julinha – vou te mostrar o paninho que ele cheirava, Laurinha! A mamãe fez questão de guardá-lo!

Caíram na gargalhada, enquanto eu dava de ombros.

- E eu tenho culpa se aquela criança chata e feia fosse se tornar essa lindeza?

- Ela não era feia! – protestou Julinha, ameaçando me jogar uma almofada na cabeça.

- Na verdade, nunca foi! – disse eu, beijando Laura no rosto -, acho que já gostava dela desde aquela época!

- Gostava tanto que me atirou um sapo morto – gracejou Laura, me empurrando.

- Mas agora eu estou me redimindo! – disse, beijando a mão de Laura.

Julinha nos deixou.

Olhei para Laura naquele momento. A janela do quarto estava aberta, e um raio de sol banhava seus belos olhos.

- Sabe, Laura – disse eu, sério agora -, fiquei profundamente triste quando te perdi daquela maneira.

- Também fiquei, meu amor – disse ela, levando minha mão aos lábios.

- Eu sei, mas fiquei com medo de te perder para o Pierre...

- Jamais! – disse Laura, em um tom que não deixava dúvida

- Então, por que se aproximou dele?

- Na verdade, Mike, foi ele quem se aproximou de mim. No começo eu tentei enxotá-lo, mas depois, eu estava tão entristecida que acabei aceitando a amizade dele.

- Nunca se beijaram?

Laura ficou surpresa com a pergunta.

- Acha que eu teria coragem de beijar alguém só por beijar?

Fiquei olhando para ela, esperando que terminasse de falar.

Ela aproximou o rosto do meu e me deu um beijo.

- Olha pra minha boca, Mike – disse, sorrindo -, esteja certo de que, nunca permiti que nenhuma outra boca, além da sua, tomasse posse dela.

- Oh, Laura, eu te amo!

Disse com os olhos cheios de lágrimas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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EPÍLOGO

 

Terminei minha história ontem à noite. Laura passou o dia de hoje lendo. Eu, enquanto fazia meu trabalho habitual, ficava olhando as reações de minha querida esposa. Às vezes, sorria, às vezes ficava séria, às vezes seus olhos cor de âmbar ficavam marejados, e às vezes ficava olhando para o teto, com aquela mesma expressão da noite do baile, quando contemplava a lua e as estrelas.

Ao terminar a leitura, se aproximou de mim e se sentou na poltrona em frente à minha escrivaninha.

- Ficou muito bom, meu amor!

- Foi um trabalho de equipe, meu bem! Sem você, não seria possível escrever nem meia dúzia de linhas.

- Sim, é verdade! E não podemos esquecer de Chimba, de Goretti, de Matoso, de Rita, de Afrânio, de Lourdes.

- Nem do Américo e de Marina! Sem eles não sei se o final da história teria um final feliz.

- É verdade!

Laura levantou da poltrona e veio se aconchegar em meu colo.

- Pode me falar aquela última frase da história?

- Ah, não me lembro, terei que reler – disse eu, rindo.

Laura me deu um beliscão.

- Lembrei! Laura, eu te amo!

E esta história terminou com um beijo de dez minutos, e o resto não contarei!