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oração entre os homens

quando a prostituta passar, ó Senhor,
que eu não desvie os meus olhos.

que a cor não seja para mim um detalhe, nem dos olhos nem da pele.
que todos tenham feições iguais e corações maiores
para mim, ó Senhor.

que tenham a mesma medida que eu tenho,
em todos os tamanhos que eu tenho.

que quando eu achar absurdo ou ridículo ou estranho ou espúrio o que
                                                                                  [eu vejo,
que eu saiba que o vejo, que são só os meus olhos,
— que estúpidos meus olhos que inventam barreiras para olhar.
eles olham de canto e desconfiados,
estúpidos!

que um dia os meus olhos possam ver com amor, — quando a
                                                          [prostituta passar
ou qualquer um, ó Senhor!

que um dia a gente pense com o pensamento da gente,
libertos. que um dia a gente tente com o tento
da gente, que a gente seja espertos.

que um dia a gente seja verdadeiros, desde o nascimento. sinceros.

mas que antes disso a gente aprenda.
que a gente entenda o termo “gente” no silêncio da gente.
(que antes de sermos cristãos entendamos jesus: plebeu de nazaré,
filósofo e poeta, cantor de

inteligência e coração,

e que jamais deixara nenhum pelo outro: inteligência e coração.
como são tolos os homens, meu jesus do céu!)

como são tolos os homens: na ervilha do próprio ego concentrados
[(introspectivamente) — magoando-se-lhes todo o arredor; como se
                                                   [fosse o seu mundo inteiro um
centro perfeito de orgulho e arrogância!

mas fora disso não são nada.
fora disso são idênticos a todos, uns para os outros,
e a tudo,

uma coisa do mundo a mais.
e se a mais, ainda não somam; disléxicos e retraídos:

os homens não vão a lugar nenhum!


quando a prostituta passar, ó Senhor,
olhemos para fora de nós, não mascaremos
nossas vistas.

que noss’alma compreenda que isso é só matéria estulta, forma no
                         [vento, teu corpo, teu credo, teu reto e o meu,
que emanam do coração por dentro e passam a existir neste tempo,
                                                                           [que passa,
(este espaço, que voa);

que se torne mais leve, portanto, o teu corpo, o meu corpo,
para não afundar;

(quando o amor me visitar. quando o amor me visitar. quando o amor
                                                                            [me visitar.)

que eu esteja todo inteiro por dentro,
por fora, por certo — quando o fim da minha vida me achar.
que não me restem dúvidas da minha integridade;
que o meu choro seja de culpa,
de cancro,
de calvas grisalhas intrépidas emoções,

mas que eu não esteja morto antes de estar. que eu possa chorar.

que eu não durma sem que me sinta (absolutamente)
esgotado de tudo. todo inteiro,
quando o meu tempo
acabar. quando o silêncio da minh’alma a mim me tomar.

e então — adeus!


mas que eu esteja atento,
reverencialmente atento, leve, longe e fugaz,
sem qualquer dissabor;

quando a não-profecia cumprir-se,
quando o resto
me sobrar.
quando eu, minha avó, minha mãe, meu amor...

— quando a prostituta passar,
ó Senhor!


do livro "telúreo canto": http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4068568 (e-book) ou http://andreboniatti.wix.com/dialogopoetico#!livros/c14e3 (versão impressa)
andré boniatti
Enviado por andré boniatti em 23/11/2012
Reeditado em 16/01/2013
Código do texto: T4001217
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
andré boniatti
Corbélia - Paraná - Brasil
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