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FACE PERVERTIDA DO AMOR

Não por acaso, Maria sempre foi a que suportou o relacionamento durante os quinze anos de um casamento tumultuoso e sempre ofensivo para si mesma, mas com uma fé inabalável em Deus e com sua forma de ser, sempre pensando no outro, ultrapassava as muitas barreiras que surgiam.

José, ao contrário de sua esposa Maria, era muito rude e, acima de tudo, não admitia que sua mulher ficasse sempre buscando agradar a todos. Gostaria que sua esposa vivesse única e exclusivamente para ele. Outro aspecto que o intrigava demais era a bondade de Maria, ademais, era muito bela. Bela se tornava ainda mais, aos olhos dos outros, considerando que era uma criatura que nasceu para servir. Engraçado como as pessoas se tornam mais lindas quando fazem caridade, grifo nosso!

Passam-se mais dois anos e, a pedido do Padre da Capela Nossa Senhora das Graças, localizada no Centro da Cidade, José resolve deixar sua esposa a freqüentar o Asilo Lar Cristo Rei, para que pudesse realizar alguns curativos nos internos daquela louvável instituição. Louvável, haja vista, por ser o local destinado às sucatas do sofrimento da humanidade.

José a partir de então, passa mais tempo junto aos amigos no bar bebendo e jogando sinuca, chegando em casa todos os dias, muito tarde. Estava preso entre a dúvida de ter deixado sua esposa em tão cruel empenho e o  medo de ser ingrato, haja vista que sua própria mãe, quando em vida, era muito amiga do padre. Os amigos de José, se assim podemos definir amizade, começaram a sugestioná-lo de que sua esposa, quase todos os dias, logo que ele saía pela manhã para o trabalho, ela, em seguida também saía e, o que é pior, entrava na casa do Pedro, a última casa da Rua onde moram.

José ao saber disso, tornou-se ainda mais neurótico. Não teve coragem de perguntar a veracidade à Maria sobre os pesados comentários, ao contrário, refugiou-se na bebida. Até que um dia resolveu: comprou um revólver e, abruptamente, decidiu que iria tirar a limpo. Estaria Maria lhe traindo? Era a pergunta que se fazia constantemente em sua mente. Pensou em todos os detalhes. Alimentava todos os encantos dos pervertidos pensamentos sobre a traição. Então estava explicado, Maria era bonita demais para ele, por isso ela o traía. Pensava ele.

Maria continuava sua labuta diária. Nem por sonho imaginava que teciam sobre si, comentários de possível traição. Trabalhava e era sempre muito elogiada pelo Padre, durante a homilia nas missas. O que deixava ainda mais atônito seu marido, que também participava das missas dominicais.

Um dia, após uma missa linda que foi rezada em intenção à alma da mãe de José, ele quase se abriu à Maria sobre os comentários.  Mas, naquele instante, o Padre chegou perto dos dois e os cumprimentaram e ainda disse à Maria:
- Pedro lhe mandou um abraço. Maria mais que depressa respondeu:
- Muito obrigada! Mudando rapidamente o norte da conversa.
Então pensou José, aí tem coisa! Estaria o Padre, com certeza, encobrindo a traição de sua esposa. Que Padre é esse meu Deus! E a neurose foi ao máximo nesse dia...

No dia seguinte, segunda-feira, José sai para o trabalho e, sorrateiramente, fica na tocaia com a arma na cintura, esse seria o dia de pegar Maria em flagrante. Passam exatamente 30 (trinta) minutos, como diziam seus amigos, Maria sai de casa e o que é pior, rumo à casa de Pedro. Estaria confirmada a traição, pensou ele, Maria entra na casa de Pedro.

Como se não houvesse mais nada na Rua, José desce em direção à casa de Pedro. Ao se aproximar da porta daquele local onde estaria ocorrendo a possível traição, para e ouve a voz de um homem dizendo: ai que bom! Como é agradável! Faz mais devagar! José, por conseguinte, acreditou-se não haver mais dúvidas! Maria seria surpreendida no momento exato! Mas antes, preparou o revólver e, como se sua perna pesasse mil quilos empurrou a porta, já dando dois tiros. Um acertou o peito de Maria, o outro a cabeça de Pedro.

Mas a cena em si, não era deveras de traição. Flagrou-se um senhor com suas pernas cheias de feridas provavelmente decorrentes de lepra e ao seu lado, uma bacia com medicamentos, em que Maria se encontrava agachada.

Maria ainda respirava, quando José chegou próximo a ela e pediu perdão, mas já era tarde, apenas ouviu-se de Maria as últimas palavras: Eu te amo! Como se fosse a mais terrível de todas as vinganças, pensou José, como teria sido tão mesquinho aquele tempo todo em que esteve com sua Maria. Não resistiu, virou a arma para sua cabeça e, num lapso de tempo, puxou o gatilho.

Fiquemos com o pensamento de que sempre é importante dar oportunidade às pessoas de se justificarem. O que pode ser aos olhos de outrem uma situação, às vezes, não o é na realidade.





Clovis RF
Enviado por Clovis RF em 24/09/2007
Código do texto: T666524
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Sobre o autor
Clovis RF
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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