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Hoje faço-me silêncio.
Excepcionalmente hoje
que me estanquem nos lábios
as correntes das palavras
que não digo nem escuto.
Sequer o mar longínquo
me segreda murmúrios
de terno aconchego.
Tudo está calado, como se o vazio
contivesse o soído na noite.
O sol brilha, no entanto
e disfere profusamente
correntes de oiro descoberto,
mas de tão banal e gratuito
passa desapercebido...
Os homens decidiram
envenenar os rios de mercúrio
revirando nas mãos combalidas
as vísceras da terra descarnada
buscando o brilho na poeira
com que revestem a vaidade alheia,
a levantar a cabeça e aspirar fundo
o aroma das florestas refulgindo

... Portanto remeto-me ao silêncio
e busco que correntes de lágrimas
me desenxovalhem o rosto.


Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 28/12/2004
Reeditado em 17/12/2006
Código do texto: T989
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Maria Petronilho
Almada - Setúbal - Portugal, 68 anos
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