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Delirium ginicológicus

Um estado febril me abate
O corpo dolorido, reclama
Passo os dias em meu catre
Presa em minha pobre cama.

É gripe, dizem os otimistas.
Tome um chá que logo passa.
Uma aspirina, talvez um uisqui.
Guaco, limão, mel e cachaça.

Talvez seja a menopausa...
Faço exames, reviro tudo.
“Não querida, não é essa a causa!”
Me diz o doutor voz de veludo.

Então é aids, estou morrendo?
Eu mato aquele desgraçado!
Deus me livre! Eu me arrependo!
Juro! Nunca mais cometo pecado.

E o médico ri, às gargalhadas
"Veja lá com quem estás saindo"
Fico vermelha, encabulada,
Pego a roupa e vou vestindo.

"Fique tranqüila. Deu negativo
E tire essa roupa de uma vez"
Doutor, não faça isso comigo...
Eu volto daqui a um mês.

Examina o termômetro: 36.
Puxo assunto: será que chove?
"Respire fundo e diga 33"
Doutor, pode ser sessenta e nove?

Nem ri da piada e apalpa meus seios.
Pensa que sou de ferro, o rapaz.
"Tem um carocinho, aqui no meio"
Só um? Procure bem, que tem mais.

Mas ele não dá bola pra minha fantasia
e metódico inicia o papanicolau.
Sádico, pega o bico de pato e enfia
aquele especulo frio no meu canal vaginal.

Com se eu fosse uma melancia
recolhe amostras do meu interior.
Pensa que sou um vegetal, fria...
É um insensível, esse doutor !

“Pronto. Pode se vestir, Dona Maria.
Está tudo bem, é só uma gripe.
Traga-me o resultado da mamografia
e trate de controlar seu apetite“

Filho da .... que alívio doutor!
Eu estava tão preocupada.
Pensava que fosse um tumor.
Já me sentia desenganada.

“Não brinque com coisas sérias.
Isso não é assunto pra poesia.
Tome um analgésico, tire férias
E cuidado com a hipocondria”.

Cabeça de mulher é coisa complicada
É um mecanismo barulhento, confuso
Tem que manter sempre lubrificadas
Todas as idéias, porcas e parafusos.

Marilda Confortin
Enviado por Marilda Confortin em 06/05/2007
Reeditado em 06/05/2007
Código do texto: T477081

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Sobre a autora
Marilda Confortin
Curitiba - Paraná - Brasil
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8 áudios (2976 audições)
3 e-livros (154 leituras)
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Marilda Confortin