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O Natal 2019 dela

Todos estão rindo.
Se divertindo no andar de baixo.
Conversando, bebendo, dançando.
E lá está ela!
No primeiro andar, encolhida sobre o sofá,
Com sono, com frio, triste.
Indignada.
Poxa! É natal! Época de alegria!
Não deveria ela estar feliz também?
Se lhe perguntassem diretamente,
Sua resposta seria “não”.
Pois ela sente saudades
De alguém que não voltará mais.
Pois a morte não permite fujões.

Já faz mais de um mês,
Mas seu coração ainda dói
Como se tivesse acabado de receber aquela mensagem.
Como se ainda ontem
Tivesse mandado a ele um boa noite debochado,
Como sempre mandava,
Chamando-o de “Desgraça”, ou de “Requeijo”.
Dois dos apelidos que lhe tinha dado.
Fora uma amizade que durara pouco mais de um ano,
Mas para ela,
Era como se existisse desde o início de suas vidas.

É. Lá está ela.
Encolhida sobre o sofá, com o celular na mão,
Lendo e relendo seu primeiro e último “Feliz Natal!”,
De uma época em que autonomeavam-se primos.
Fato que ainda lhe causa risadas e sorrisos.
Ele era muito brincalhão.

Não são muitos os que sabem de sua dor.
Também não são muitos aqueles para quem pode contar.
Ou para quem quer contar.
Ela sente que todos já perceberam seu humor,
Mas mesmo assim coloca um sorriso no rosto ao descer as escadas,
Pois não quer estragar o natal de quem deseja comemorá-lo.
Mas mesmo depois que o natal passar,
Lá estará ela!
Saindo do quarto com um sorriso no rosto
E um bom dia nos lábios.
Fingindo estar enganando a todos.
Fingindo estar bem.
Pois tudo o que ela não quer
É que se preocupem com ela,
Porque quando o fazem,
Ela sente como se estivesse sendo enganada.
Pois todos são legais com quem não está legal
E, de certa forma, isso soa falso.

A garota já deixara as lágrimas fluírem de verdade.
Mas apenas uma vez
E ela não permitiu que durassem.
Nas vezes seguintes o tempo fora ainda mais curto,
Ainda mais silencioso.
Algo a impede de chorar em público
Mesmo sozinha em seu quarto,
Não deve haver ninguém em casa,
Pra que ela se permita chorar.
E, como no início desta estrofe,
Apenas uma vez quebrara a própria regra.

Queria ter forças para fazê-lo novamente.
Queria comentar isso com Requeijo.


Desde aquele dia
Houveram e há muitas coisas
Que deseja comentar com ele, debochar com ele.
Apenas rir, já seria o suficiente.
Pois, no final das contas,
Era para ele que contava o que vinha em sua mente,
Ou qual era a coisa mais louca
Que tinha acontecido com naquele dia.
Todos os dias.

 “Então é Natal..”
“Essa não” – ela pragueja.
No momento em que ouve as primeiras notas
Da música de natal
As lágrimas ameaçam seus olhos;
A melodia parece triste aos seus ouvidos.
Sua vontade é de afundar no sofá.
De sumir até que essa música acabe.
Mas o dever fala mais alto.
E ela respira fundo,
Larga seu celular sobre o livro,
Ajeita a touca,
Confere o sorriso no espelho
E desce as escadas.
Então ela canta e dança,
Abraçada a sua mãe,
Que nada sabe sobre Requeijo,
Sorri para todos e para a câmera.
Finge se divertir.
Quando, na verdade,
Nós sabemos que o que ela deseja
É apenas se esconder e se permitir chorar
Até que se livre da dor
Ou até que durma.


Tudo o que ela quer é que a dor vá embora,
Mas ela sabe que não irá.
Pois mesmo que não tivesse motivo,
Ou que não soubesse defini-lo,
Ela estava lá para assombrá-la.
Cantarolando “Bom Dia” ao abrir de olhos da garota;
Dizer “Boa Tarde” assim que acabava o almoço,
Mal comido, pois o estômago vive embrulhado;
Murmurar um “Boa Noite” ao chegar às oito horas.
E sempre estará lá no dia seguinte.
Forçando-a a aprender a conviver com ela.
Lithera
Enviado por Lithera em 26/12/2019
Código do texto: T6827005
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Lithera
Cricíuma - Santa Catarina - Brasil, 17 anos
5 textos (73 leituras)
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Lithera