Ponteiros

"Quem os relógios inventou? Decerto

Algum homem sombrio e friorento:

Numa noite de inverno, tristemente

Sentado na lareira ele cismava,

Ouvindo os ratos a roer na alcova

E o palpitar monótono do pulso."

(Álvarez de Azevedo)

Nos ponteiros desse relógio

em minha parede

vive tanta solidão.

No tic

ou no tac,

tanto faz.

Eles não se importam com a ordem,

com o dia da semana

com o mês

ou com a aflição.

Em meio ao silêncio,

esses pequenos ruídos

são como trovões.

São rugidos.

São gritos.

Quantos estão agora,

nesse mesmo instante

com a cabeça entre os joelhos,

tentando não ouvir esse som

enlouquecedor.

Esse tic

Tac

Tic

Tac

Tic

TAC

são como os passos próximos

e contínuos

de alguém que não chega nunca.

Os ponteiros

carregam a tristeza

que transborda dos corações.

Neles, tudo se vai.

Neles, não há espaço

para a piedade.

Mas, talvez

a clemência seja

justamente

o fato dos ponteiros

continuarem a girar,

carregando todo o peso

que não suportamos.

Talvez, piedade seja

o relógio

engolindo tudo.

O Bêbado
Enviado por O Bêbado em 15/05/2020
Código do texto: T6947983
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