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NOS ECOS DE MINH’ALMA

Final do último ato
Fecharam-se então as cortinas
A que saudoso retorno mais uma vez no cenário
Onde estão todos?
Para onde foram?
Em que lugar se enfiaram os atores?... Os figurinos?
Onde está o diretor?... O contra-regra?
E a assídua plateia?
Cadê ela?
Já não ouço mais os seus aplausos
Já não escuto mais os vozerios daqueles apaixonados tietes
E uma insuportável surdez a que nunca noutro tempo senti
Eis que de mim se apodera

E assim, todos se retiraram
Sem pedir licença
Sem se despedir
Simplesmente... se foram!
Como num sonho a que chegou ao seu termo
Como uma vela que se apagou
Ao soprar do vento da aberta janela

E ali estava eu
Solitário naquele palco
Mergulhado na metafísica de meu vazio... de meu nada
A que me pus a interpretar, quem sabe, a minha maior peça
Nos ecos de minh'alma
O meu vital e mais duradouro monólogo

Que fiz eu aqui?
Quantos personagens eu vivi?
Quantos eu amei?
Quantos eu deixar escapar de meu místico cenário?
A que roubaram de mim o protagonista que eu queria tanto ser

Mas, verdade que eu não sei quem deveras fui
Talvez, um fantasma ou uma sombra de mim mesmo
Talvez uma incógnita de minha própria existência
Perdido nas neblinas de meus confusos pensamentos
Ou na torpe imaginação das paixões que invadiram minh'alma
Quais fumos da tabacaria a que se misturam aos sons dos bares
A que passam entre as horas das madrugadas

E destarte, vivi e morri um milhão de vezes
Reencarnei milhares personalidades
Na interpretação de um não sei quantas pessoas eu fui
E nos roteiros e scripts a que me deram
Ri aos quatro ventos o palhaço que nele eu vivi
Dei mil gargalhadas de meus improvisos
(até porque viver... é também improvisar)
E quantas vezes fui chamado a atenção pelo diretor
Por causa de meus erros... de minha manotas!

Mas também vivi e fui muitos heróis
A que levei bofetadas... e delas... revidei
A que fiz chorar de emoção os espectadores a que me assistiam
E chorei lágrimas de verdade as afrontas que sofri
A que a plateia em mim se encarnou
A impregná-la de adrenalina pela minha atuação
E quanto este fiel público viveu!... E sofreu!... E morreu!...
Todos eles comigo

Ah! Eis a mística da vida!
A que se mobiliza em seus roteiros
A que se alternam em seus múltiplos intérpretes
Entre audazes mocinhos... e entre pérfidos vilões
Ou outras vezes, sendo eu apenas um simples coadjuvante
Na trama da peça que se cria... e se recria... o tempo todo
Nas verdades e mentiras que se vestem em seus cenários
A que se vive e morre a cada guião... a cada papel

Para no final do derradeiro ato
Naquele imenso anfiteatro
Todos os atores se reunirem diante do público a que os assistia
E agradecer-lhe sua presença... e sua companhia
E dele receberem os aplausos e as glórias
(ah! como é prazeroso tal momento para o artista!)
Pela bela atuação que tiveram
E depois de fechadas as cortinas
Cada um se dirige ao seu devido camarim
A despir de suas roupas
Ou melhor dizendo, dos personagens que vestiram su’almas

E amanhã...
Bem como nos dias seguintes
As peças serão outras
Que bom!
Até porque seriam insustentável assistir a mesma produção
A mesma representação, o mesmo enrendo... todos os dias

A vida é uma produção que diariamente se renova
Porque assim deve ser


Paulo da Cruz
Enviado por Paulo da Cruz em 19/07/2017
Código do texto: T6058969
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulo da Cruz
Curvelo - Minas Gerais - Brasil
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Paulo da Cruz