Paisagem de concreto

Entre espigões existe um quadro verde,

Um estalo da flor se abrindo,

Uma manhã acordando o mundo

Num badalar dos sinos de Notre-dame.

Entre blocos, argamassas respiramos:

Um sábado, um domingo acontecendo,

Um céu escondido entre nuvens,

Um verão na boca do homem que corrói

O seio da língua.

A cidade em vertical se concretiza

No palco armado dos visitantes estrangeiros,

Ávidos em suas buscas.

Cidade seca, desejo úmido.

Desejo feminino, felino.

As ruas são ângulos dispersos.

De sentimentos concretos,

De seres estáticos,

Da fome do novo que explode pelo avesso.

Cidade, concreto de movimentos selvagens,

Seu pulsante relógio no meio da praça

Marca a hora dos viadutos atropelados.

Expremidos pela massa humana:

Das panes nos aeroportos,

Do desencontro do tempo,

Dos enganos dos homens.

Os caos urbanos enferrujam a memória,

Embassam o marfim dos dentes,

Despertam a madrugada e desbotam a sorte.

O tempo desgovernam os relógios e congela-os.

Encontram-se entre os atritos do solo

E os apressados transeuntes,

Corpos que se atritam na compulsão do sexo

Enquanto mascam um cliclete adormecido.