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ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Lilian Maial


Essa fuligem caiu de mansinho.
Inodora, adentrou as narinas,
desceu aos pulmões, ganhou a corrente sanguínea.
Todos os órgãos chamuscados
e os olhos cinzentos.
Falta o ar, pesa o ar,
e se tenta esfregar as pálpebras.
Não sai, a fumaça densa não sai!
Quer ver o céu? Voar?
Fingir de bailarina?
Os pés têm chumbo,
têm cinzas.
As asas pesam.
Falta o ar.
Essa fuligem infiltrou pelos ouvidos,
calou a música e as tolas palavras verdes.
Deixou um zumbido, uma rajada,
uma cera espessa a escorrer pelo pescoço.
Mancha de chumbo o colo.
Não há mais rosa, não há mais cor.
Só o cinza plúmbeo domina a paisagem.
Essa fuligem chegou à boca
com gosto de medo.
O grafite das paredes enrijecendo as artérias.
O verbo se esconde no pálato.
A cinza mudez contamina as papilas
e a voz se faz rangido.
Essa fuligem assentou nos ossos,
congelou os dedos de tocar nos dedos,
fraturou os braços de abrigar abraços,
paralisou de cinza o caminhar.
Estático o contorno do amanhã cansado.
Cinza, como essa fuligem.

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Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 24/05/2019
Código do texto: T6655584
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Lílian Maial
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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