A DOR DO PRAZER

“O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer.”

(Clarice Lispector)

A alegria que desconheço

dói-me tanto quando chega

que não sei muito se mereço.

Agarro-me àquela dor negra

que de tanto tempo que conheço

já se tornou companheira.

Ela corta, mas já há tanto

que vem convivendo comigo

que quando o prazer me espanta

tão novo, desconhecido,

recorro de novo à dor.

Por confundida que estou.

Por medo de errar o tiro.

A alegria que desconheço,

o prazer que me é novo,

por costume, por pudor,

por espanto ou o que for,

me levam de novo a ela:

me amarram ao que já vi,

me prendem ao que já fui,

não me deixam ver quem sou.

A dor do prazer que nasce

é tão intensa e tão linda,

é tão grande que finda

criando-me um impasse

entre a dor costumeira,

a qual nos acostumamos

e a dor da alegria

que por tudo e até por nada

tantas vezes recusamos.

A dor do prazer nascendo

tem que se aceitar aos poucos,

e deixar a vida ir crescendo

no nosso jogo de loucos.

E não há escolha:

é a dor do prazer que raia

e a vida que dele vem

ou se cobre com a mortalha

e vai-se morrendo. Amém

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 15/04/2005
Código do texto: T11460
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