NÃO GRITE COMIGO!

Não fale alto comigo

que eu sou surda de um ouvido.

Gritar comigo é castigo

para o meu outro ouvido.

Se gritam comigo, não ouço, e digo:

é fato, sou surda aos gritos

e só consigo escutar

quando me falam com jeito,

e só entendo e respeito

o que me vem em voz baixa,

devagar,

não a toque de caixa:

tenho horror a parada militar.

Não grite comigo que eu berro.

Como sou surda, concluo,

e acho até que não erro-

que é surdo quem está a berrar.

Não grite comigo que eu corro,

penso que é emergência,

vou em busca de socorro

pra quem estiver a gritar.

Não grite comigo, que eu acho

que quando se fala mais baixo

é o coração a falar.

Não grite com voz de razão,

que pra mim isso é invasão.

Invade a minha surdez,

atropela a minha vez,

razão por razão tenho as minhas

e não compreendo as falas –

só sei ler nas entrelinhas –

se vem chumbo, leva bala.

Não grite comigo,

nem fale comigo na marra,

não tente me impor sua fala,

que vou ser surda por farra,

e vou bancar a criança,

que enquanto o outro se cansa,

tentando aos berros falar,

canta, como quem não o vê,

não o ouve e nem quer saber

o que o outro quer dizer.

Não grite comigo. Lamento.

E já vou logo dizendo:

é pura perda de tempo.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 15/04/2005
Código do texto: T11470
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