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PAI

Era março, era Peixes, era Netuno, era Zeus,
era escrita a escrever em versos a vida, era eu...
Eras um viajante em terra estranha à procura de um rosto,
eras arado, enxada, café, panos quentes, navalha, agosto...
Era um menino, dentuço, moreno, sensível, bonito, real,
a esculpir nas cavernas do agora hieróglifos, sensorial...
Eras o vento da Calábria vindo, mouro, felino, alado,
olhos grandes, romano, temente, enigmático Oswaldo...
Era o olho que vê pela fresta o que sim e o não presta,
rascunhando sonhos, lobos tecendo na imensa floresta...
Eras a pátria sangrenta, a igreja, o mistério,
a buscar alimentos para os mais famintos
em portas de cemitérios...
Era a incessante flecha a cruzar oceanos e mares,
a trazer para a terra o instante de estar, o estares...
Eras o Ajoelhado a saber e dizer da virtude e pecado,
a rezar pelos mortos ainda vivos num átimo de serem por Deus perdoados,salvados...
Era a esfera em Saturno a traçar mapa-mentes, mil trilhas,
consciente em sentidos, colher e viver outras tantas mil vidas...
Eras jorro, sementes, prolífico sêmen, nauta da carne,
espargindo, dolente, vidas-tronco, ser, ente, eras ave...
Era a guerra entre mundos, o céu e a terra, deles oriundo,
recolhendo miçangas, diamantes, fel, sendo o Eu Profundo...
Eras um Deus incógnito, salvando, sendo, geleiras da alma,
negando a imagem, levando em viagem a fúria e a calma...
Era o espaço aberto, o Deus incorreto, as cores e os sons,
espargindo teares, criando altares para a carne e os dons...
Eras totem ausente, imagem pungente, vã, esmaecida,
labirinto, charada, a saber tudo e nada, Babel esquecida...
Era o talo, era o caule, era a árvore viva, era o fruto,
a espalhar, a fundar, a crescer, a entornar o seu sumo...
Eras o último enigma, rei em xeque fatal, bispo e peão,
em vertical pose, a flutuar sua face, relógio-coração...
Era o nômade célere, retornando, breve, a pedra que cai,
pela última fala, guerreiros na sala em nome do Pai...
Eras o pórtico, poço, tão velho, tão moço, calado, a ida,
que levou, foi levado, chegou ao sagrado, instante, partida.
Era do novêlo a ponta, da corda a cerda, do fio o pavio,
nas noites, relâmpagos, abraça-me, pai, sinto ainda o frio.

Preto Moreno
23/02/2006


















 

Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 23/02/2006
Código do texto: T115431


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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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