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ESTOU TRISTE

Estou triste como um dedo em riste
sem ter para quem apontar:
Nunca fui e nunca serei a última lei,
mesmo que venha do Alcorão,
mesmo que que venha do caramanchão
onde descansam aqueles que que editam,
aqueles que estavam na última ceia,
como o homem pode condenar a sereia
que apareceu em sua piscina?

Amai o próximo, o longe, o quase aqui,
amai o estar, o fruir, o pão, o caqui,
amai viver de suas sardas, de suas mansardas,
de ser o senhor do castelo,
de receber o cutelo,
de ser o antigo Kafka,
de receber a faca e, como cão, não fugir...

Escrevo este poema tão triste como pássaro sem alpiste,
como olhar a rua e saber que não viestes, fugistes
do amor que olha, que cuida, não me declare bombas,
estendo meus meus braços, pequenas ondas
de alivio e de sonhar oculto,
te espio sobre o muro e ainda fazes o café mais puro...

Queria te dizer o que pra mim é o amor...
Queria te mostrar a cor de um coração aflito,
fazer música com pequenos gritos,
te receber em casa como se fosse a última morada,
descansar da selvageria desses últimos dias que se acabam...

Mas a minha tristeza é como sobremesa para antigas alegrias,
de repente salta, contente, um par de lábios,
astrolábios diferentes e sutis, olhar o céu
de alegria azul e dele nunca mais do mel fugir...

Queria te tocar com minha pele de versos,
te mostrar o submerso dessa velha palafita,
gastar meus últimos fonemas léxicos
e destruir a antiga forma desta vida...

Sobreposto e generoso e fiel e sutil,
largar as enchentes para quem nada busca,
ser convidado para acender o pavio
da palavra cabalística e um tanto quanto etrusca...

Com a sinfonia do espaço ainda a traçar seus arcos,
estar presente na fila da frente é solar a melodia
que rege corações e singra em velhos barcos,
estar triste é só ser enxurrada nos largos
corações que pescam o amor de todo dia...

Preto Moreno
11/03/2006









Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 11/03/2006
Código do texto: T121823


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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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