NADA A DECLARAR

Hoje, ao acordar,

pregou-me um susto o espelho.

Uma mulher muito feia,

olhos inchados,

nariz vermelho,

do outro lado a me olhar...

Achei que ainda era cedo,

que ainda dormia, sonhava...

Que medo!

Ela ainda lá estava.

Olho de novo e nada.

Continuava a danada

do outro lado, atrevida,

com uma cara debochada

a me dizer:

És tu, mesma cara amiga!

Vês? Sou eu o resultado

das tuas noites mal-dormidas,

do teu amor mal-amado,

do teu tempo gasto a pensar

o que mais se pode fazer

para fazer-se amar...

Vês? Sou o que conseguiste

nas vezes em que fugiste

ao recanto particular,

o teu mundinho de sonhos.

Produziste um ser medonho,

e agora, eis aí,

o que és,

está aqui.

Nada tenho a declarar.

Nada tens a reclamar.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 30/04/2005
Código do texto: T13876
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