OBSTINADA (ou DE COMO RECONSTRUIR SONHOS)

Desenhara em dias de sonho -

pois sonhadora é o que era -

um lago calmo e sereno,

e uma casa bonita,

toda coberta de hera.

No desenho, uma brisa.

Mansa, que é como se quer

a brisa que em barcos desliza

os sonhos de uma mulher.

A brisa, de repente,

rebelou-se.

Não mais suave, nem mansa.

Nem doce.

Vento forte, furacão,

saiu derrubando a casa,

sem mesmo poupar-lhe o portão.

Vento teimoso, revoltado,

e até um tanto abusado,

tinha por diversão

desfazer-lhe o lindo penteado.

A sonhadora, entretanto,

tinha seu lado malvado:

teimosa e insubordinada,

rompeu-se em desacatos,

armou pipas, pára-quedas.

Aprendeu a voar sobre os ventos,

e escapando das pedras,

desobedeceu-lhe as ordens,

e criou outros inventos.

O vento, inconformado,

por certo que não gostou.

Fez-se gigante e, tornado,

levantou ondas no mar,

criou maremotos vários

que a viessem afogar.

Em vão:

quem aprende a voar,

é pra lá de obstinada.

Também aprende a nadar

e faz castelos no chão.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 04/05/2005
Código do texto: T14730
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