ANDARILHO E ARRUACEIRO

Mais de uma vez ao dia

percorro insistente a mesma trilha:

atravesso planícies vazias,

vales, abismos, cavernas sombrias.

Mais de uma vez ao dia

meu pensamento atravessa

mares revoltos, densas florestas,

onde o sol pouca vez penetra.

Mais de uma vez ao dia

meu olhar esquadrinha

cuidadoso, linha a linha,

passo a passo, sinuosa estrada,

leito de rio, montanha escarpada,

casa vazia, cidade abandonada.

Mais de uma vez ao dia

meu coração intranqüilo,

viajante constante, insistente,

segue seu curso em busca daquilo

que nem minha mente pressente.

Mais uma vez ao dia

ele percorre o caminho

já tão dele conhecido

sem saber que em seu ninho

mora o xis, o desconhecido.

Mais de uma vez ao dia

retorna ele ao seu leito,

e novamente insatisfeito,

antevê a próxima viagem,

prevê o roteiro, a paisagem,

que há de percorrer, persistente,

com uma certeza quase demente,

de que o inesperado, embora buscado,

há de chegar certo, em hora incerta,

e dar descanso derradeiro

a este insistente guerreiro,

buscador, andarilho arruaceiro,

cujo único desejo,

é encontrar o paradeiro

do espelho de si mesmo.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 07/05/2005
Código do texto: T15433
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