FERIDA SECA TAMBÉM SANGRA

Escondida em algum ponto

muito escuro do meu peito

uma ferida quase seca

ainda produz efeito.

Sangra ao mais leve toque

de lembrança descuidada

das dores que provoquei,

das tristezas que lavrei,

da palavra mal falada.

Sangra, primeiro em gotas.

Abre-se e, às golfadas,

jorra livre das rolhas,

e, assim, descontrolada,

segue molhando as folhas

das páginas mal viradas,

das letras não apagadas,

sem me dar nenhuma escolha.

Dói a ferida seca

como se recente fosse.

Dói e sangra e grita e corta

como feita por foice.

Foi-se o corte,

e também com ele a foice

mas a marca ainda tem porte,

e sabe a sangue, agridoce,

mas ao final, é mais forte

o gosto amargo, salgado,

da pele rasgada à faca,

da dor a outro causada

por falta de outra escolha,

pela ausência indesejada

do amor que morrera.

Mais nada.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 07/05/2005
Código do texto: T15438
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