O DIA EM QUE O MUNDO DESPERTOU

I

mandei derrubar os muros do dia escuro;

todo amanhã tem cara de progresso!

Como eu queria ver as velhas espinhas-de-peixe

reproduzindo-se qual papa-capins no telhado das casas,

mas os assombrosos condores gigantes, redondos,

trazem a sombra do mundo aos lares.

mandei cortar os sussurros da linha cruzada;

todo começo da fala tem um dito lógico!

Como eu queria sentir as almas do outro mundo

falarem pela boca de outra boca, médiunica, em transe,

mas a reprodução em massa das linhas telefônicas

isolam o homem do sentimento da voz.

II

Ah, como eu queria abrir os olhos do mundo

para que ele acordasse no presente

e, de preferencia, no dia do aniversário.

Pois este infeliz e inseparável companheiro

está tão cansado de ser chamado: — “Antigo!”

Preconceitos e homens não se renovam.

Solitário, na minha cidade,

toda sua escuridão cresce como a noite,

e, de lambuja, sinto-me gasto por viver

mesmo sabendo que a idade chega

para matar o mofo e a tez pálida.

Agora,

guardei todas as cortinas;

preciso ver o sol!...