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Passacaglia

Depois do estrago da noite anterior,
Do retorno ao caos pela fome,
E pelo efeito do filtro do pesadelo,
Alice retorna ao seu quarto.
Movendo apenas seus olhos amarelos,
E depositada na cama como uma pedra.
O quarto tem cheiro de lavanda.
Nauseante e enjoativa lavanda.
Onde está o cheiro familiar,
De éter e flores mortas?
Alice quis chorar novamente.
Mas como não comanda mais seu corpo,
Contentou-se em relembrar, contida,
O adágio de Samuel Barber.
Imóvel, inerte e inútil sobre a cama,
Ela testa os limites da poesia.
Como a não cinética poderia,
Produzir um poema não descritivo,
Se nada se move ao seu redor?
Ela tem a coluna vertebral estilhaçada,
Mantida no lugar com pregos e arames.
Seus seios já não são mais desejáveis.
Suas côxas são o suporte da anorexia.
Qualquer carinho ou afetividade,
Poderia partir seu corpo ao meio.
Ela tem agulhas enfiadas no pulso.
Uma drena o sangue para um pote.
Outra mantém seu corpo vivo,
Para que seu cérebro não morra.

O quadro pintado à sua frente,
É doloroso, revoltante e sádico.
Mas vejo suas mãos se contorcendo.
Vejo no fundo do seu coração,
Numa parte que você tenta esconder do mundo,
Um prazer, um gosto pela dor.
Vejo em você, Marianne,
a vontade de entender o mal.
E você fica aí parada,
assistindo ao estado vegetativo,
de um corpo que já era para estar morto.

No corpo de Alice, então,
Surgem cogumelos.
Por entre seus dentes, raízes de plantas,
Que se alimentam de seu sangue.
A pele é o campo para larvas e lagartas.
E sozinha no quarto, ela vira um jardim.

E vejo você cerrar os dentes.
Querendo ver até onde vai a perversão.
O que eu ainda posso fazer com esse corpo.
Vejo seu desejo, Marianne,
De contemplar as diversas faces da morte,
As diversas secções em tendões,
Músculos atrofiados sobre uma cama,
Parafusos e engrenagens,
Fazendo funcionar um coração mecânico.
Vejo em você o pânico e o prazer,
Ambos em proximidade promíscua.
Antes de tudo há a curiosidade:
Quantas agulhas pode suportar
Um corpo estático, sem vontade.
Você queria poder, também,
Castigar num corpo adormecido,
Todos os seus pecados, sua maldade.
Você é tão sem compaixão quanto os outros.
Você gosta do escândalo, do estrago.
Mas não quer sujar suas mãos aí.
O inferno não são os outros.
Encontramos, enfim, o limite da poesia.
Ele está à beira da tortura.
É poder eliminar a ética e
Amare como cães noturnos,
Ou se abster dele como que anestesiado.
Poder enfiar alfinetes na junta dos dedos,
E incensar deuses temperamentais.
O limite da poesia está no assassinato.
Está no efeito colateral de tranquilizantes.
Mas sendo eu o portador do mal,
Pode com sua hipocrisia burguesa,
Ter um prazer secreto saciado,
E depois querer me enforcar à vista de todos,
Em nome do bom e do decente.

Alguns curam em nome da culpa.
Outros apodrecem para que dalí,
Surjam dois caminhos:
Virar uma massa de carne deteriorada,
Ou nascer para uma luz, que hoje,
É apenas uma convenção estética.
Não há garantia de nada.
Apenas aquele sorriso desconfiado,
Pendurado no canto da boca.
Você irá confiar???
EDUARDO PAIXÃO
Enviado por EDUARDO PAIXÃO em 05/06/2006
Código do texto: T169740

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Sobre o autor
EDUARDO PAIXÃO
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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EDUARDO PAIXÃO