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Elegia Noturna

Em procissão, o tropel das almas afligidas desloca
O silêncio na noite
Vozes abafadas se encontram e se diluem dentro
[da escuridão
Fazendo pairar no ambiente espécie de cantilena
[fúnebre

Que diziam aquelas vozes em coorte, contidas e
Ao mesmo tempo sedentas de libertação?
Mas somente as pedras nuas sob os pés descalços
É que bebiam de toda dor e sofrimento misturados
Ao amálgama de sangue e suor

No céu, a lua, grande hóstia consagrando
Momento de tamanha perplexidade e horror
(Cá não se tinha o esplendor dos céus da mouraria
e o luar embaçado se refletia sobre aquelas criaturas
que mais pareciam ter o breu da noite no lugar da tez)

O vento frio e seu açoite invisível
Traziam n’alma a saudade das brisas mornas da savana
E de todas as suas criaturas animais e vegetais

Seus destinos, porém,
Agora atracados em tristes plagas
Entoavam uma última súplica de comiseração:

Deus, em que infinito se escondestes que não vês
tão horrenda barbárie a nós infligida?

Mas todos os arcanjos dormiam
Enquanto a noite impunha seu silêncio de chumbo

A marcha dos aflitos seguia rumo incerto
Amarrados uns aos outros pelos grilhões da humana
[crueldade
Os olhos voltados para um céu onde reluziam
Frágeis esperanças sob o brilho fátuo
De centelhas estelares

Surpreendeu a noite as primeiras brumas da manhã
E o arrebol, ainda que tinto de sangue destes filhos
[d’África
Seria o prenúncio do novo tempo
E a esperança, antes tão débil criança
Agora teria a beleza e força eternas
Dos gigantes baobás

* * *
Glauber Ramos
Enviado por Glauber Ramos em 13/09/2009
Código do texto: T1808843


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Sobre o autor
Glauber Ramos
Gurupi - Tocantins - Brasil, 38 anos
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