DEGREDO

Falo demais, eu sei.

Falo mesmo, sem parar

até de coisas que não sei.

Falo sério, falo à toa,

falo claro, falo exato,

falo poucas e boas,

com deboche e pouco tato.

Falo o que sinto

(e o que não sinto também).

Falo , mas não consinto

minh’alma a falar também.

Palavras e mais palavras.

Boas ou más, bonitas e feias,

minhas, tuas, alheias...

Falo. Falo muito mesmo.

falo de tudo, a esmo.

Minha boca não se cala,

nada a detém e ela fala

de tudo que a deixo dizer.

Mas, eu, esta outra cá dentro

não deixo nem dez por cento

de mim mesma aparecer.

Os meus medos, meus segredos

vivem eterno degredo,

no qual teimam em crescer.

Nada sabe de mim

quem me escuta.

Nada sabem desta luta

entre a que está fora e não escuta

o que a de dentro quer falar.

Só sabe de mim quem me olha,

bem dentro dos olhos

e insiste ,

no olhar teimoso resiste

ao meu desvio de olhar.

Percebe-me a alma ,

e no instante mesmo,

quase tira-me a calma

quem me desvenda o olhar.

Se me olha assim,

com um olhar tão direto,

tira-me o chão e o teto

com que me busco ocultar.

Por que me ocultas, pergunta,

aquela que mora dentro,

para que este tormento

de não me quereres mostrar?

Responde a de fora, teimosa,

que esconde a de dentro ,

bem no fundo

por que é um risco nesse mundo

quem ama e se deixa amar

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 24/05/2005
Código do texto: T19361
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