DURMA-SE COM UM BARULHO DESTES...

Quem é que pode?

Responda-me, quem, meu Deus,

dormir com um barulho deste,

um zum zum entremeado,

de murmúrios, assovios e brados

de tudo o que já perdeste,

quando, desastre, deixaste –

consciente, bem o sabes,

cair o vaso mais amado,

de todos o mais cuidado,

rolar pelo chão e quebrar.

Como podes agora

e além de ti,

quem mais esperas,

que vá dar doce às feras

que estão a te devorar.

Com que covardia tão grande

E em que buraco a buscaste,

Para estar, como quem ande,

neste mundo a desfilar.

A quem pensas enganar?

Com vãs palavras proclamas

Aquilo que teu coração,

este insubordinado,

grita, de longe, coitado ,

que nada tem com teu falar.

Pede desculpas, o pobre,

por tua soberba ignorância,

pela tão falsa elegância

com que te pões a falar...

Agora, diga-me se pode

se há quem possa agüentar,

tamanha verborragia,

de tua boca, que um dia,

falava do que sentia

e hoje sente , sem falar.

Por que insistes na fala?

Por que teimas na tua lógica,

que nada explica, e não cala

um momento

para quem tem juízo falar?

Ora! Valha-me Deus!

Se precisar de versos teus

sem dúvida vou te chamar.

Mas , por favor ,

Silencia tua voz um instante,

fica muda e ouve apenas

o que, no maior dos silêncios

teu coração quer falar.

Não há lógica no sentir,

Nenhuma garantia a dar .

Nada esperes de prático,

deixa-te estar extático

para aprenderes a amar.

Permite que o silêncio

seja teu mestre, teu guia,

nada diz, nem respira,

guarda toda energia,

olha, observa, admira

o tempo que andaste à toa,

vagando da popa à proa,

sem nada, nunca encontrar.

Rompe contigo de vez,

cala as palavras e entra,

pelo silêncio adentro

como quem adentra um templo

na busca de se encontrar

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 04/06/2005
Código do texto: T22056
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