ENQUANTO NÃO SOMOS "NÓS"

De ti, meu corpo se ausenta,

gota a gota,

vai-se o meu rosto

num quadro de cores gastas,

e com eles, minhas mãos,

que em beijo tocam-me a boca,

foram-se meus pés

em dois grãos de areia

sob meus passos.

Te foste inteiro.

E tudo se nos escapa.

Vai-se minha voz

que te canta ao ouvido todo o tempo

enquanto não somos nós.

Vão-se meus gestos

que devaneiam'em ondas

diante dos teus olhos sós.

E vai-se de ti meu olhar

que entrega, quando te fita,

o rio, a noite e a tua alma,

e esta saudade aflita.

Vou-me de ti no teu hálito,

e como o suor do teu corpo, me evaporo.

Vou-me de ti, acordado ou em sonho,

e por isso, tantas vezes choro.

E assim vejo-me ser apagada

de tua mais fiel lembrança,

mas assim, teimosa, apaixonada,

é que retorno à tua memória

como não nascida criança,

as que nunca se vão embora.

Volto a ti como se teu sangue fosse,

na tua boca, de volta, um gosto doce,

nas tuas entranhas que me pressentem,

e no gosto que volta e volta à tua boca,

e na negra noite, em paixão louca...

Volto a ti, conquanto me vá.

E voltamos a ser “nós”,

a cada gota.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 10/06/2005
Código do texto: T23720
Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.